Da importância político-religiosa do cu

vai-tomar-cu Luís Manuel Cunha

Advertência – o texto que se segue não é propriamente um texto edificante. Menos ainda escrito em português suave, pelo que mereceria talvez uma bolinha vermelha no canto superior direito da página. Depois, não me venham dizer os leitores que não foram avisados. Vamos lá então.

Francisco José Viegas, ex-secretário de Estado da Cultura deste Governo de fedelhos amaricados que governa Portugal, escreveu que, no exacto momento em que um fiscal mais zeloso lhe perguntasse, enquanto consumidor final, pela facturinha do café acabado de tomar, dir-lhe-ia simplesmente: “Vai tomar no cu”. Como era suposto acontecer, logo se insurgiram contra ele as costumeiras almas púdicas. E até o inócuo catedrático da verborreia lusíada, Marcelo Rebelo de Sousa, decretou, com aquele ar manhoso de tudólogo sonso, que Viegas acabaria apenas por tornar-se conhecido mercê desta reacção tornada pública. Esqueceram-se todos, como muito perspicazmente refere Ricardo Araújo Pereira, que o cu em que Viegas manda tomar não passa de um cu simbólico, “uma metonímia de vários outros cus” bastante mais poderosos, numa espécie de “hierarquia de cus” até chegar ao “cu-mor, responsável último pela ideia da fiscalização das facturas.”

Só que “isto” de “tomar no cu” (permitam-me repudiar o brasileirismo do acordo ortográfico, pois prefiro bem mais o nosso famoso “vai levar no cu”, sobretudo na sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai levar no olho do cu”) apresenta outras variantes semânticas, muito mais próximas do seu sentido denotativo original e sem qualquer acepção metonímica ou eufemística. É só estar atento àquilo que recentemente veio a lume como uma espécie de pecado (venial ou mortal?) da Igreja Católica ou, melhor dizendo, de alguns dos seus membros mais insignes. Segundo o jornal italiano La Repubblica, o Papa Bento terá resignado por influência, entre outras coisas (traições, lutas de poder, desvio de dinheiros…), de um lóbi gay dentro da hierarquia da Igreja e da revelação de relações homossexuais com menores e seminaristas. Pelos vistos, e a interpretação nem sequer é minha, o Papa (e perdoar-me-ão a variante linguística, essa sim, minha) já não sentia forças suficientes para aturar tanto paneleiro. Ora, a hierarquia católica lusitana não poderia ficar de fora desta luxúria maricas. E foi assim que a revista Visão fez sair uma peça jornalística onde se refere que o Bispo D. Carlos Azevedo, figura em ascensão na Igreja portuguesa, terá alegadamente tentado assediar um sacerdote, na altura seminarista! D. Januário Torgal, bispo das Forças Armadas, afirmou publicamente que há muito se sussurrava nos corredores católicos acerca da homossexualidade do bispo, opinião assertivamente corroborada na SIC pelo padre Carreira das Neves. Afinal, o bispo em causa tinha razão quando, em 2004, proclamou que “a vontade liberta” afirmando então: “Os santos são os únicos seres humanos que fazem o que querem. Os pecadores não fazem o que querem porque são arrastados pelas pulsões…” Pois é. O problema do bispo estava nas pulsões!… Ora, se ser “rabeta” não é pecado punido eclesiasticamente, já o será o assédio sexual. Luxúria, diria. Maricas, mas luxúria. Afinal, o que é que esta gente faz à castidade que tanto apregoa?

Millôr Fernandes, escritor brasileiro há pouco tempo falecido, num texto sobre o sentido libertador do palavrão, interrogava-se: Já imaginaram o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, ultrapassado o limite do suportável, se dirige ao canalha do seu interlocutor e solta: “Chega! Vai levar no olho do cu”! Pois é. Por favor, meus amigos, não banalizem a mensagem libertadora de “Grândola, vila morena”. Não vulgarizem mais o génio de Zeca Afonso, aquele que se escondeu na simplicidade de ser homem, na coragem dos que não se deixaram tombar vencidos “nem jazer em fossos de noite abafada”. O Zeca está nos antípodas desta gentalha rasteira, cretinizada, mentalmente retardada. Nada tem a ver com este grupelho de palhaços ricos, de imbecis pretensamente génios ou de garotelhos a roçar a idiotia. O Zeca Afonso não faz parte desta espécie sub-humana onde se movem relvas, gaspares, portas ou coelhos. Não. E ainda que movidos por um sentimento autêntico de sufoco e de revolta, não voltem a gritar a esta gentalha que “o povo é quem mais ordena”. Não vale a pena. Mandem-nos simplesmente apanhar no olho do cu. Muitos deles hão-de gostar. Garantidamente.
in Jornal de Barcelos de 27 de Fevereiro de 2013.

Comments


  1. O Zeca Afonso de certeza se cá estivesse não ia gostar do seu comentário. Tão sem gosto que nem consegui ler tudo.DESISTI!


  2. Cinco estrelas!

  3. eduardo soares says:

    UM texto com muito sentido e certeiro!!! É assim mesmo, nota vinte.

  4. Isabel Maria Negrão says:

    Excelente! Partilhei no Facebook… espero que não se importe 🙂
    Que saudades suas, Professor!
    Isabel Negrão

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