Propaganda assim e propaganda assado

30A_MIGRANT WORKERS TABLEMuito mais é o que os une que aquilo que os separa, transcrevendo a canção de Rui Veloso/Carlos Tê, é o que se poderia dizer da propaganda deste e do anterior governo. Separa-os a forma, une-os o objectivo.

A forma socrática consistia no registo grandiloquente dos momentos históricos, em paralelo com o incentivo ao ódio a um grupo profissional, os professores. No actual governo, a forma traduz-se na mensagem depressiva da não alternativa, estratégia redutora de qualquer oposição,  aliada ao ataque a toda a função pública. O comum objectivo resume-se à propaganda, a arte da manipulação da informação com o objectivo de influenciar uma audiência, independentemente da realidade.

O último exemplo da propaganda passista é a tese do desemprego estar a baixar em Portugal, recorrendo aos dados publicados pelo Eurostat, o qual usa os dados disponibilizados pelo INE.

Nesta pescadinha de rabo na boca quanto a números, é frequente falar-se em manipulação de a favor dos governos, independentemente da cor política que esteja no poder, situação empolada pelas nomeações políticas para cargos de topo do INE, como é o caso da respectiva direcção. Mas a metodologia de cálculo dos números do desemprego é conhecida e até está uniformizada a nível europeu, assim possibilitando comparações (ver artigo de João Silvestre no Expresso e a página do Eurostat sobre este assunto).

O INE chega aos números do desemprego através de inquéritos junto de uma amostra aleatória e estratificada, o que permite, dentro de uma margem de erro, uma estimativa desta variável. A manipulação existe  só que a outro nível. A definição de desempregado muda com frequência (a última mudança foi em 2011), assim impossibilitando comparações directas e os números do desemprego não têm em conta aqueles que saíram do país (se não estão no país, é óbvio que não responderam ao inquérito de emprego).

Como se sabe, este governo começou cedo por apelar a que os portugueses abandonassem o país como forma de encontrarem emprego. Uma estratégia suicida, porque conduz à perda da capacidade produtiva, mas conveniente para embelezar as estatísticas. É neste contexto que se enquadra a tabela incluída neste artigo, a qual foi copiada da notícia do Daily Mail “Os refugiados do euro dirigem-se em grande número para a Grã-Bretanha: Dezenas de milhares fogem da Espanha, da Grécia e de Portugal“.

Titulando “Registos de trabalhadores estrangeiros na National Insurance vindos da Europa”, nesta tabela vemos que num ano, até Março de 2013, o número de inscritos na segurança social britânica aumentou 43%, para 24,550 inscritos. Neste período, 10,557 abandonaram o país para irem para a Grã-Bretanha. Quantos terão ido para a Alemanha, para a França e para a Suíça, por exemplo?

Imaginemos que estes portugueses não teriam ido para a Grã-Bretanha. Seriam, com elevada probabilidade, dez mil e quinhentos desempregados a mais só num ano. Usando os dados do Eurostat (a fonte do Público), atendendo ao número oficial de 878 mil desempregados, correspondendo a uma taxa de desemprego de 16.5%, teremos uma população activa de  5,321,212 pessoas. Tendo ficado em Portugal, estas pessoas teriam colocado o desemprego nos 16.7%, duas décimas a mais do que os números oficiais.

E se incluíssemos aqueles que emigraram para outros países? Na ausência de dados oficiais, só nos resta adivinhar que esta taxa seria ainda superior. Somando só aqueles que fugiram para a Grã-Bretanha durante um ano, logo a taxa de desemprego subiria duas décimas pelo que, incluindo os restantes habituais destinos de emigração, é bem possível que a taxa de desemprego ultrapassasse os 17%.

Para além destas especulações, há no entanto, um facto inegável. No espaço de um ano o desemprego aumentou meio ponto percentual. O desemprego não está a baixar mas sim a subir.

desemprego-europa-2013Desemprego ajustado sazonalmente (fonte: Eurostat; link: clicar na imagem)

desemprego-portugal-2011.2013Fonte: INE; Link: clicar na imagem

É esta a essência da propaganda, traduzindo-se em o governo querer fazer os portugueses acreditarem que estamos melhor porque um indicador melhorou. Mas constata-se que esta melhoria também (apenas?) se deve à emigração, facto bem patente pelos dados da segurança social britânica.

Entre propaganda assim e propaganda assado, venha o diabo e escolha.

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