O Extravagante Boris Johnson

[J. A. Pimenta de França]*

Desconcertante, brilhante, despenteado, amoral

 

Conheço o Boris Johnson pessoalmente, fomos colegas de trabalho no início dos anos 90 quando estive colocado durante três anos na delegação da Lusa em Bruxelas. Ele era o correspondente do Daily Telegraph na capital belga.

Por dever de ofício encontrávamo-nos todos os dias em serviço, incluindo nas muitas viagens ao estrangeiro que os jornalistas encarregados de cobrir a UE e a NATO em Bruxelas são obrigados a fazer para acompanhar os trabalhos das instituições.

É um tipo muito inteligente, culto, simpático, embora arrogante (acho que é uma característica da “British upper class” a que pertence), com um notável sentido de humor, extremamente ambicioso mas, simultaneamente, extremamente desonesto.

Não era exactamente um jornalista, mas sim um político a fazer política através do jornalismo. Mente sem remorsos, torce a verdade de forma que ela se enquadre no que lhe der jeito no momento. Inventava notícias com a maior das facilidades, sempre para pôr em causa as instituições europeias.

Nas suas notícias e crónicas no Daily Telegraph, Boris Johnson apresentava uma narrativa sobre a União Europeia na qual as medidas de Bruxelas só tinham duas leituras: umas eram exigências tresloucadas de burocratas excessivamente bem pagos e desligados da realidade obcecados com a normalização de tudo, desde o tamanho das bananas às placas de matrícula dos automóveis, desligados da realidade; as outras, que não se enquadravam nesta primeira descrição, eram medidas sinistras destinadas a tornar a União Europeia num super-estado policial anulando todas as especificidades nacionais. [Read more…]

Notas sobre o Brexit

 

 

  • Algumas almas pretendem apresentar o referendo como uma vitória dos eurocépticos contra a União Europeia. É verdade. Mas não é toda a verdade.

 

  • Esta campanha foi baseada na discussão sobre a imigração. Tornou-se um voto contra a entrada supostamente desenfreada de imigrantes vindos da União Europeia (o caso mais notório, polacos e búlgaros). Provas? Quem está à frente da campanha foi Nigel Farage e Boris Jonhson. A palavra chave da campanha foi Imigração.

 

  • Isto não quer dizer que todas as pessoas que votaram Leave são racistas ou xenófobas. Isso é uma visão redutora e simplista. Muitas votaram porque têm de facto preocupações legítimas sobre o futuro da União Europeia. E os votos, todos eles, seja porque razão forem, têm legitimidade e devem ser aceites. É a democracia.

 

  • Contudo, é inegável que muitas outras pessoas votaram em nome daquilo em que em Inglaterra se chama “the little Englander mentality”.  Mais do que isso, a campanha foi conduzida de acordo com essa mentalidade. Isto quer dizer o quê exactamente?

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Um exercício em História comparativa

Pessoas no Panteão em França:

– Voltaire
– Rousseau (cidadão de Geneva a ser enterrado no Panteão francês mas está bem).
– Jean Lannes
– Victor Hugo
– Zola
– Jean Monet
– Condorcet
– Abbé Grégoire
– Louis Braille
– Pierre Curie
– Marie Curie
– Alexandre Dumas

Pessoas em Westminster Abbey:
– Isaac Newton
– William Wilberforce
– Clement Attlee
– Beatrice Webb
– Charles Darwin
– John Herschel
– Angela Burdett-Coutts
– Samuel Jonhson
– Charles Dickens
– Geoffrey Chaucer

Pessoas no Panteão em Portugal:
– Óscar Carmona
– Sidónio Pais
– Humberto Delgado
– Guerra Junqueiro
– Almeida Garrett
– Sophia de Mello Breyner Andresen
– Manuel de Arriaga
– Teófilo de Braga
– João de Deus
– Aquilino Ribeiro
– Amália
– E agora Eusébio.

Propaganda assim e propaganda assado

30A_MIGRANT WORKERS TABLEMuito mais é o que os une que aquilo que os separa, transcrevendo a canção de Rui Veloso/Carlos Tê, é o que se poderia dizer da propaganda deste e do anterior governo. Separa-os a forma, une-os o objectivo.

A forma socrática consistia no registo grandiloquente dos momentos históricos, em paralelo com o incentivo ao ódio a um grupo profissional, os professores. No actual governo, a forma traduz-se na mensagem depressiva da não alternativa, estratégia redutora de qualquer oposição,  aliada ao ataque a toda a função pública. O comum objectivo resume-se à propaganda, a arte da manipulação da informação com o objectivo de influenciar uma audiência, independentemente da realidade.

O último exemplo da propaganda passista é a tese do desemprego estar a baixar em Portugal, recorrendo aos dados publicados pelo Eurostat, o qual usa os dados disponibilizados pelo INE.

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Boas Notícias, Más Notícias

Não tinha reparado que sendo hoje o primeiro dia do Ano seria totalmente impróprio dar más noticias , até porque a litania das queixas que aqui se ouvem  só difere das daí em grau e certamente não na natureza . Portanto vamos às boas  que são no entanto  poucas ,  mas nestes tempos as pessoas agarram-se a qualquer coisa , o que é preciso é fortalecer o animo . Não é por acaso que o slogan da 2ª Guerra  “Keep calm and carry on “ ganhou novamente uma inusitada popularidade.

Como boa noticia não me refiro obviamente às previsões da Goldman Sachs que dão a Grã-Bretanha a ultrapassar a Alemanha, o Japão e a França em riqueza criada. Nesta época festiva é normal que some people have a few too many, e por isso há que tomar estas noticias with a pinch of salt (and a couple of Alka-Seltzers ) .

Refiro-me sim  ao facto de que a Justiça Britânica estar em vias de se tornar uma das maiores exportações do RU. Pode estar perto o dia em que este país deixe de depender inteiramente da City e isto porque   muitos oligarcas russos  e não só   vão escolhendo  os nossos até aqui sorumbáticos tribunais para dirimir os seus pleitos de biliões . Só a acção que opõe Roman Abramovitch  (o dono do Chelsea ) a Boris Berezovsky vale seis , e com o fim ainda longe já rendeu  110 milhões de Libras aos cofres públicos .  Está agendada outra, esta contra Oleg Deripaska, o magnate do alumínio , que vale quase três biliões . Mas em breve a High Court em Londres será o palco da luta ( jurídica entenda-se ) entre Lev Leviev , o “rei” dos diamantes e Arkady Gaydamak que já foi dono do Portsmouth Football Club ;  mas desta não digo o valor para não vos fazer a cabeça andar ainda mais à roda .

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O Príncipe, O Grande Jogo e a Wikileaks

É conhecido como O Grande Jogo a disputa pelo domínio da Ásia Central, que opôs os impérios russo e britânico durante o século XIX e inicio do século XX. Durante esse período toda a Ásia Central foi considerada um tabuleiro de xadrez onde os dois impérios fizeram as suas jogadas. Muita da acção centrou-se no Afeganistão que constituía a base perfeita para uma invasão da Índia (sob domínio britânico) ou do Turquemenistão (sob domínio russo). Em 1898 o vice-rei da Índia, Lord George Nathaniel Curzon, declarava:

Turquemenistão, Afeganistão, Transcaspia, Pérsia – para muitos estes nomes transmitem apenas uma sensação de extremo afastamento. Para mim, confesso, eles são peças de um tabuleiro de xadrez sobre o qual está sendo jogado um jogo pelo domínio do mundo.

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Profumo -um escândalo de há meio século – (Memória descritiva)

Na Primavera de 1963, explodiu uma bomba na pátria da respeitabilidade e das virtudes aparentes que a prolongada época vitoriana tatuou a fogo na idiossincrasia britânica. Um drama político levou à desonra pública de John Profumo, secretário de Estado da Guerra, à demissão de Harold Macmillan, primeiro-ministro, e ao suicídio do Dr. Stephen Ward, um osteopata da moda que apresentou Christine Keeler ao ministro – aquilo a que Fernão Lopes chamava um “alcoveta”. Hoje usamos a designação de proxeneta. As palavras mudam, a natureza humana não. Vou contar a história em traços muito largos. [Read more…]

Centenário da República: o Ultimato

Um dos acontecimentos que mais contribuiu para o desgaste e descrédito da instituição monárquica foi a questão do Ultimato que, em 11 de Janeiro de 1890, faz hoje 120 anos, o governo britânico (que designava o documento por «Memorando») entregou ao governo português exigindo a retirada das forças militares existentes no território compreendido entre as colónias de Moçambique e Angola, a maior parte nos actuais Zimbabué e Zâmbia), a pretexto de um incidente ocorrido entre portugueses e Macololos. A zona era reclamada por Portugal, que a havia incluído no famoso Mapa Cor-de-Rosa (que vemos acima), editado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1881, reivindicando, a partir da Conferência de Berlim de 1884/5, uma faixa de território que ia de Angola a Moçambique. Vejamos o mapa em versão simplificada.


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