Uma utopia a menos, esta é a realidade

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Portugal conquistou hoje, no campo, o direito a proclamar que é a oitava selecção da Europa em sub 21. Subiu à primeira divisão europeia e teve o melhor jogador do campeonato, de seu nome David Franco, que jogou lesionado toda a prova, mandou as dores para trás das costas – ou para o raio que as parta – e agora, sim, vai fazer o tratamento necessário. Em oportunidade próxima, referir-me-ei a ele, mas hoje, perdoa-me, David, a heroína é a equipa, toda, atletas, técnicos de campo, gabinete médico, torcedores, o pessoal de apoio, os dirigentes.

Nós, os que trabalhámos no gabinete de comunicação, apenas mostrámos ao mundo aquilo de que sois capazes, com todas as reticências que possam colocar, com todas as reservas que vos oponham. Porque a equipa soube ser coesa, demonstrou um incrível espírito de sacrifício e lutou até final com uma galhardia só possível quando, efectivamente, estão todos polarizados num alvo comum: a vitória.

O melhor elogio que vos pode ser dado, disse-o ao vosso seleccionador o treinador da Irlanda, a selecção campeã: tive que repensar a táctica, jogar pela primeira vez com quatro defesas, não pressionar da forma que normalmente a Irlanda faz, porque eu tinha pânico do vosso contra-ataque. Ouvir isso do treinador campeão deve encher-vos de orgulho.

lincesE, se ainda há quem não saiba, vocês pagam para jogar. E dormem numa camarata do estádio. E comem refeições acordadas que andam pelos quatro euros. Só as vossas famílias e os que adoram a modalidade vos acarinham. Não dão entrevistas que esgotam jornais porque os jornais nem sabem que vocês existem, que alguns de vocês até jogam na Alemanha ou na Espanha, e, lá fora, ao verem-vos jogar, nunca acreditariam que as condições em que praticam a modalidade são aquelas em que, realmente, vocês crescem. É por isso que temos de ser nós, os loucos, a tentar dar-vos visibilidade, porque vocês conquistaram esse direito.

Mas já chega de encómios. Vocês, por exemplo, às vezes, fervem sem motivo, perdem-se dos carretos, apanham cartões perfeitamente escusados, parecem noutra realidade que não o sintético onde estão a defrontar adversários quase sempre em posições de ranking mundial de vinte ou mais lugares acima do nosso. Mas isso acontece porque, de repente, a modalidade é tão grande que vocês até ficam a olhar; porque, sem querer, vocês se questionam se está mesmo a acontecer, golear a Ucrânia, empatar com a Irlanda, ganhar à Escócia e à Itália. É tudo tão novo, não é?! Pois então, tornem isso normal!

Sempre tive uma particular admiração pelo Mário Almeida, toda a família do hóquei sabe disso. A história comum ao serviço da modalidade tem dessas coisas, são décadas. Também toda a gente sabe que o Bruno Santos foi e é um dos jogadores por quem tenho enorme admiração. Exultei quando o Bernardo Fernandes foi treinar para a Holanda (logo a Holanda!), assisto à sua ascensão naquele país, mas não conhecia o seu trabalho in loco. Ontem, se dúvidas tinha, quando ouvi ele dizer-vos, depois da descompressão do jogo com a Escócia, que: ainda não perdemos neste campeonato, mas mantenham a concentração porque ainda não ganhámos nada, senti-me em casa. A vossa equipa técnica é a mais preciosa ajuda que podem ter no vosso caminho de praticantes, todos tão jovens, todos com uma margem de progressão do tamanho da vossa doação e da vossa ambição.

Pois é, perdi-me nas palavras.

Há que terminar, mas ainda não se foi a adrenalina destes dias, ainda estou extasiado, e já tenho idade para ter juízo.

Por isso, em jeito de conclusão, é assim: ninguém acreditava que este feito fosse possível. Mas souberam meter-vos na cabeça que pode haver limites à acção, mas nunca haverá barreiras ao pensamento, nem balizas para os sonhos. Então, golearam a Ucrânia (primeiro passo), depois veio a Rússia, a todo-poderosa, e vocês não perderam (segundo passo). Houve quem tremesse – e temesse – pelo jogo seguinte, mas deram-vos um roteiro que podia resultar e vocês acreditaram: também não perderam com a Irlanda, vinte lugares acima no ranking mundial. Quando acordaram disso tudo, estavam nos quatro primeiros, na poule donde saem os vencedores. Que fixe, pensaram. E agora? Agora é vencer a Escócia. Difícil, mas se tinham empatado com a Irlanda…

linces3Vieram os escoceses e foram de vela. Houve alguma sorte? Não há campeões sem sorte, e ela ajuda os audazes. Bem, restava a Itália. Aquela Itália que, num ápice, pode surpreender, os italianos não são de fiar. E vocês caíram na água que o céu fez cair para vos abençoar, levantaram-se, lutaram e, no final, qual foi o resultado? 2-1 a vosso favor, mais uma vez a acabar, que é quando dói mais, porque a via-sacra do sofrimento durou sessenta e alguns minutos. Mas ganharam, não ganharam? Mesmo com um árbitro escocês, com interesse em que vocês perdessem, e que virou as costas “ao pau” dos italianos que vos fez doer algumas vezes. Não havia necessidade, o desenrolar do jogo era suficiente.

Aí, caíram na real: Uau! Subimos de divisão! E riram, e saltaram,  e esqueceram tudo o resto. Vocês eram os heróis da batalha, operação “pizza” cumprida.

Depois foi esperar para ver. Porque não há campeões sem sorte, a sorte sorriu também a dois minutos do fim para a Irlanda, no seu confronto final com os escoceses. Foi pena, pois foi, noutros momentos os vossos adversários pensaram o mesmo. Mas ser campeão europeu, ainda que da divisão B, é que era uma história de encantar. Mas as histórias de encantar não aparecem logo: há as primeiras histórias, as de sofrer para crescer, apanhar golos atrás de golos, como vamos dar um dia a volta a isto, mas deram. A este nível já não são goleados, já se batem olhos nos olhos com muitos adversários que há alguns anos eram papões, e vamos lá ver o que a história ainda nos reserva. Haja caparro para sofrer e sofrer, treinar e treinar, e os frutos vão aparecer.

Oiçam lá, acham que merecem mais?! Nem tanto… Hoje perdi-me por aí, já passarei das mil palavras, ainda sob o efeito da adrenalina, mas, que raio, estamos pela primeira vez, na variante de campo, na primeira divisão. É muito à frente!

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  1. Lindo texto de consolo para os meninos valentes

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