Seja você o juiz

Quando no ano passado um representante da Unicef me bateu à porta fiquei com uma dúvida que persistiu até há dias, quando, involuntariamente, imagino, um meritíssimo juiz trouxe à luz as escuras práticas de alguns grupos que, eufemisticamente,  se apelidam de empresas.

Era manhã tardia quando a campainha tocou. “Tenho lá em baixo no carro um órfão para ficar consigo”, disse-me o interlocutor quando abri a porta. Ainda nem o tempo tinha sido suficiente para assimilar o que ele me estava a dizer e já um transbordante sorriso me esclarecia que era brincadeira. Na verdade, estava ali em representação da Unicef, que tinha um formulário para eu preencher onde deixaria imensos dados pessoais, incluindo o número de conta bancária, para, posteriormente, me enviarem um segundo formulário onde poderia autorizar uma transferência mensal, no valor que eu quisesse a partir dos cinco euros, para ajudar as crianças órfãs.

“Vá dar banho ao cão”, disse eu em palavras mais educadas. Mas ele antevia a resposta. “Este número de telefone é da sede da Unicef, pode ligar para lá para confirmar da veracidade da campanha que estamos a levar a cabo.” Fui buscar o telemóvel e liguei para as informações para saber em que nome estava registado. Pertencia a uma tal “Uni.cef”. Com ponto. Havendo semelhança, seria de confiança? Liguei para a Unicef, sem ponto, a perguntar se havia alguma campanha a correr e, para minha grande surpresa, dizem-me que não sabiam que campanhas estavam em curso. Usei o telemóvel então para procurar no sítio da Unicef que campanhas estavam em curso. Estava demorado e o cavalheiro à minha frente mostrava sinais de impaciência. “Ainda tenho que fazer este prédio e mais o da frente, com o meu colega”. “Bom”, disse-lhe, “pode deixar o formulário e volte daqui a vinte minutos, que chegará para terminar as confirmações”. Passado um ano ainda estou à espera.

Depois de ler as trapalhadas que descobri, graças ao meritíssimo juiz  cheio de preocupações com o bom nome de quem não faz por o merecer, tenho a certeza de ter sido abordado, há um ano, por um praticante de esquemas. Tinha charme, um bom fato por baixo de um colete da Unicef, mostrava convicção mas não deixava de ser um charlatão.

Em qualquer altura, mas ainda ainda para mais nestes momentos difíceis, iludir pessoas com anúncios de falsas esperanças será mais motivo para preocupação com esses que praticam estes actos do que para com os burlados?

Seja você mesmo o juiz deste caso. As testemunhas falaram no blog Precários Inflexíveis:

Olá a todos,
Este tipo de modelo empresarial e de técnicas de vendas nada tem de novo e tem vindoa ser usado nos últios 30 anos se não há mais tempo.
Trata-se de vendas em piramide em que o rendimento advéem não só de vendas directas, ams sobretudo de comissoões sobre vendas efectuadas por vendedores que se recruta.
Os producto vendidos podem ser viagens, semanas de férias, enciclopédias, cursos de línguas, caixas de plástico para guardar alimentos ou productos de beleza e diatéticos.
Empresas sérias apresentam a actividade como uma forma de rentabilizar tempos livres e complementar rendimentos. Outras entidades apresentam a actividade como uma actividade profissional anunciando vagas de emprego quando não pretendem celebrar contratos de trabalho, nem de prestacão de servicos mas sim eventualmente de representacão.
Pessoalmente sempre que andei à procura de emprego e para evitar surpresas desagradáveis antes de me deslocar a entrevistas perguntei sempre o nome e actividade da empresa, bem como qual o posto de trabalho e condicões oferecidas.

Olá.
Gostaria de deixar o meu testemunho. Eu também fui contactada para entrevista e fiquei a receber formação durante alguns dias, portanto acho que fiquei a conhecer um pouco a international marketing.
Sim, é um emprego de porta-a-porta, segunda a sábado, recibos verdes e à comissão.
Não tenho nada contra o trabalho porta-a-porta, o que tenho contra são os ANÚNCIOS PARA VÁRIOS CARGOS NA EMPRESA e depois vamos a ver e não é nada disso que nos oferecem. Isso para mim é fraude, ENGANAR, ou o que quisermos chamar. Pois se soubesse que era porta-a-porta não perderia o meu tempo pois é algo que não estou interessada.
Eu candidatei-me através do emprego sapo para administrativa e ligaram a dizer que já estava preenchida essa vaga e perguntaram se estava interessada em outra área, por exemplo relações públicas ou Apoio Cliente, etc. eu disse que sim, mas o que é que andar porta-a-porta a apresentar/vender uma campanha tem a haver com apoio a cliente? (Fiquei lá a trabalhar pois não tinha outro emprego e queria saber se me sairia bem ou não.)
Para mais, é-nos dito que quem lá trabalha vai subindo de cargo, passando a administrativos, recursos humanos, etc, por isso, não são contratadas pessoas de fora e, sendo assim, varios cargos que ofereciam não podiam ser preenchidos por pessoas de fora.
AGORA JÁ reparei que os anúncios falam em assistente de marketing, técnico de vendas, comercial etc, e descrevem melhor que tipo de trabalho é que é, que é face to face e, assim, os candidatos vêm à partida o que é que se estão a candidatar. MESMO ASSIM AINDA VEJO ANÚNCIOS COMO RELAÇÕES PÚBLICAS, ASSISTENTE APOIO CLIENTE,ATENDIMENTO AO CLIENTE ENÃO EXPLICAM BEM QUE TIPO DE FUNÇÃO É. ACHO ERRADO e acho que é uma forma de chamariz . Deviam ser claros e não enveredar por este caminho pois eu só gastei dinheiro em deslocações. Pois quem segue para uma entrevista com outro colaborador temos que andar atrás dele durante o dia e ir de metro, pois quem não tem passe tem que gastar do seu dinheiro em viagens e depois é que ficamos a saber de que tipo de trabalho se trata.

Dsclpm pelo longo discurso.
Cumprimentos,
Gorete F.

Boa noite, aconteceu o mesmo ao meu namorado esta semana. Eles continuam a recrutar pessoal e aparentemente a enganar pessoas. Continuam na Rua dos Fanqueiros. Seria interessante saber se existe alguma maneira, legal, para apanhá-los. Dizem-se passar por uma empresa que representa os seguintes “clientes”: Vodafone, Optimus, City Bank e Unibanco. O senhor que trata das entrevistas é “galego” e fala inglês dos EUA.
Da minha parte, vou pesquisar.
Obrigada pelos comentários.
Força e Confiança.

São apenas três exemplos de comentários copiados do site pastebin. A lista é bem maior.

Comments


  1. É SÓ TRAFULHICE.
    Nenhuma ONG está isenta de aparecer alguém a aproveitar o esquema.
    Aliás, muitas ONG e instituições de “utilidade pública” deixaram-se infiltrar de elementos que transformam a entidade num esquema em si mesmo.
    A minha política agora é não dar nada (nem informações!) a ninguém que me aparece à porta. Não comprar nada a quem me vem apresentar à porta. Não dar nada a pedintes, os verdadeiros pobres e necessitados muitas vezes estão demasiado envergonhados e desmoralizados para PEDIR, os que pedem regra geral são oportunistas.
    Dou ao banco alimentar, por vezes, géneros e não dinheiro, mas desconfio que os comerciantes coloquem de novo os artigos na prateleira…Ele há coisas…

    JP

  2. maria celeste ramos says:

    Também, creio já que este ano de 2012, me bateram à porta dois “funcionários” da UNICEF vestidos de casaco preto onde estava escrito UNICEF
    Até me meteram medo e fechei logo a porta e sei que a unicef não funciona de “porta em porta” (sei por acaso) já que no Natal havia cartões da Unicef – alguns que guardo como “recordação”
    Há dias bateram à porta bem vestidos de cinzento escuro, dois homens a pedir para “desgraçadinos” – eram de uma seita religiosa a perguntar depois se eu tinha “Bíblia”
    té bati com a porta tal o ar de corujas que tinham e odeio seitas – andaram muito tempo na rua – ao longo de meses – senhoras também e que, também, entraram no prédio e bateramà porta com aqule ar caridoso a perguntar se eu sabia quem era Jesus – foi difícil despegar – mas lá consegui
    odeio seitas e há cada vez mais
    Sim dar o quê a quem ?? nem pensar – só dou por dia um cigarro a um desgraçado mas com boa cara que é drogado e não pede mais do que o cigarro – já o conheço há bastante tempo e é delicado – o grupo de drogados que se juntavam numa esquina todos os dias, desapareceu da rua mas eu até falava bom dia e eram pacíficos, adoptaram um cãozinho perdido que tratavam bem – e um dia vi a “ana” estranha e falei com ela e admirada de eu o fazer tratei-a bem e “despejou-me a vida dela” – que desgraça era – e já tinha sido empregada da TV – desapareceram daqui

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