Tampões femininos, em Versalhes, só no sítio “certo”

joana de vasconcelos

A recente proibição da presença da peça “A Noiva” (representando um lustre feito com tampões higiénicos) na exposição de Joana de Vasconcelos em Versalhes -com o fantástico argumento de não ser “adequada” ao local – é um acto censório que tem muito de preconceituoso e nada de artístico.

Como lembrou a própria artista, “A Noiva” foi uma das peças que lhe abriu as portas para a sua circulação internacional.

Acresce que Joana Vasconcelos foi convidada por ser autora de uma obra conhecida, na qual a peça agora censurada se inclui com grande visibilidade, e que nenhuma objecção foi levantada aquando do convite.

Esta actual tendência para a censura artística é preocupante e invade uma das poucas esferas onde a liberdade de expressão, criação e exposição eram ainda defendidas e estimuladas.

A leitura de Joana de Vasconcelos sobre o assunto é explícita mas podia (devia) colocar mais profundamente o dedo na ferida e vincar o aspecto político/castrador da decisão:

Chegou a entrar em stress para escolher as peças?

-Não. É pena que não me tenham deixado levar A Noiva , porque foi a primeira peça em que tínhamos pensado desde sempre.

E porque não deixaram?

-Porque foi censurada.

Por serem tampões?

-Custa-me muito que hoje, num discurso que obviamente está ligado à mulher e à sua independência, à liberdade de expressão das mulheres, ainda tenha de se ocultar o tampão, se sinta que há locais onde isso não é correto. Significa que ainda há coisas para fazer, há muito trabalho, pelos vistos o tampão ainda é um objeto vetado na sociedade.

Quando, nestas circunstâncias e por razões tão comezinhas e  injustificadas, um artista é censurado, esse artista representa todos os artistas e todos (gostem ou não do trabalho do visado) devem levantar a sua voz, a começar pela vítima.

Por isso me parece demasiado suave e inócuo o vocabulário utilizado por Joana de Vasconcelos. Não é “pena”. É grave, é intolerável, é inadmissível, é castrador. No mínimo.

Comments


  1. Basta de ‘arte provocatória’!


  2. Diz você, ou fala em nome dos artistas que entendam fazê-la? Além disso, este texto não é sobre arte provocatória ou não provocatória. É sobre um artista ser convidado (há uma diferença entre ser convidado e “auto-convidar-se”) pela sua obra já conhecida e depois ser censurado.

  3. Tito Lívio Santos Mota says:

    Antero Leite : BASTA DE GENTE ESTÚPIDA E DE CENSORES !!!! (são a mesma coisa)

  4. Tito Lívio Santos Mota says:

    O sorriso da Monalisa é das coisas mais provocadoras que jamais foi feito em arte !

    • xico says:

      O sorriso da monalisa só é provocador na medida em que não existe nenhum. É igual ao de quase todas as mulheres que daVinci pintou.

  5. xico says:

    Quanto a artista aceitou a censura, o que podemos nós dizer ou fazer? Suponho que a artista não precisa, para a sobrevivência, desta exposição. A recusa em participar nela talvez lhe desse muito maior visibilidade. Mas como agora na França republicana parece que há uma 1ª dama zangada com a ex que foi noiva, talvez o título da peça ofendesse.


  6. Por acaso o caro Tito não está a comparar o sorriso da Monalisa com tampões, pois não? É que um é arte, os outros são puro exibicionismo!

    • xico says:

      Isabel
      Não sei se há mal em comparar o sorriso com os tampões, e também não sei distinguir tao facilmente arte de exibicionismo. Mas se convidaram a artista, convidaram a sua obra. Censurar esta obra com o argumento utilizado está ao nível dos que se chocaram e escandalizaram com o “Le déjeuner sur l’herbe” de Manet, só porque o nu representava uma prostituta contemporânea enquanto se representasse uma deusa ou outra figura mitológica, não tinha mal. Ou o escândalo de ver mulheres a fumar em palco, quando da estreia da “Carmen”, quando as mulheres fumavam em privado.


      • Sim, é pertinente a sua apreciação perante este contexto específico. Mas a minha questão prende-se mais com a arte em si do que propriamente com a censura. O que quero dizer é que entre o sorriso da Monalisa e o arranjo “estético” de uns milhares de tampões existe uma diferença abismal: precisamente a diferença que vai da arte ao exibicionismo dela destituído. Quando olho para o “Le déjeuner sur l’herbe” vejo arte, vejo provocação, mas sobretudo vejo inteligência e espaço, margem para pensar. Quando olho, porém, para o arranjo de tampões vejo apenas exibicionismo, um desejo algo pueril, e nada bem sucedido, de chocar, e isso é tudo!

  7. Luís Teixeira Neves says:

    Os lustres (verdadeiros) não iam gostar. Ia estalar o verniz e, depois, tudo quanto por lá é vidro (ou quebradiço)… E não podia ser porque por lá tudo é património, não é verdade…

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      Isabel G.
      Estes reacionarismos à moda daquela gente que ia escarrar nos quadros impressionistas e, anos depois, dizia que “esses sim é que são arte” quando olhavam para a pintura abstrata, francamente… nem sei que lhe diga.
      Ficar triste? Não, se não quer evoluir sozinha e prefere esperar o momento em que estas coisas entrem nos apartamentos do “Restelo” para condizer com o design italiano dos anos 50 do qual também diziam que era “exibicionismo”, problema seu.

      Como dizia o Picaso a alguém que pensava da sua maneira : A arte é como o Chinês, só há uma solução, tem que se aprender.


      • Bem, caro Tito, já aprendi hoje uma coisa importante: evoluir é gostar de tampões!

        E aprendi outra coisa: há pessoas que sofrem de tal inflexibilidade e mecanicismo que a opinião dos outros para elas é sempre disparate! A quem passa assim pela vida deve doer essa rigidez!


      • Já agora, só uma notazinha: a arte não se aprende, é inata; o que se aprende é a técnica!

        • Tito Lívio Santos Mota says:

          e o mundo está cheio de gente inchado de certezas que o deixarão de ser quando outros inchados de certezas começarem a achar que o que as certezas de outros é que estão erradas.
          De preferência entre móveis Queen Ann e menino “da lágrima” na parede, ou da IKEA copiados do disign de há 40 anos, com quadros abstratos imitados do movimento “Cobra” dos anos 50 a fazerem de conta que são “último grito”

          arte inata, de nata, sem nata, ou meio galão?
          O pastel-de-nata virou empreendorismo, por esse mesmo motivo.

          Cansei !


          • Calma, olhe a pressão arterial! 😉

          • Tito Lívio Santos Mota says:

            não seja parva, se faz o favor.
            Eu bem me parecia que nem sequer merecia uma resposta coerente e dirigida a pessoa racional.

            perdi o meu tempo, minha Senhora.

            Há muita gente como a Senhora, infelizmente. A começar pelo nosso governo.

            passe bem!

  8. Tito Lívio Santos Mota says:

    ps: se acha que só a técnica é que se aprende…
    dispensaria comentários.
    Mas, enfim, como é meu mester estas coisas : os artistas talvez apenas tenham que aprender técnicas. Só que a imensa maioria das pessoas não são artistas. E a Isabel G, pelos vistos não é.
    Talvez pense que o seja. Mas, pelo que diz, deduz-se que só tem técnica.
    Ora, técnica também eu aprendi. E, é a tal coisa, não sou artista.

    Mas gosto do que os artistas fazem, e por isso tento aprender. E, aprender não é só ler alfarrábios ou certezas de velhas barbas.
    Aprender é evoluir e acompanhar o seu tempo.
    é esta última a tarefa mais difícil.

    Digamos que é como envelhecer.
    Se ficarmos agarrados às nossas certezas e ao que aprendemos uma vez por todas, isto é, cada vez mais enterrados no conforto calaceiro do preconceito. Vamos ficando velhos.
    Se continuarmos com espírito aberto, vontade de aprender, apenas avançamos na idade.

    Mas há tão poucos que fazem assim… porque a preguiça mais comum, não é a física, mas a mental.
    E há tanta gente que já nasce velha…


    • Caro Tito, afinal está a dar-me razão quanto à arte e à técnica (olhe que eu jamais disse que era artista! Longe de mim tal ideia acerca da minha pessoa!).

      E quanto ao resto que escreveu, concordo, mas acho que se aplica mais a si do que a mim. Eu tenho opiniões, muitas, que felizmente não são rígidas e mudam consoante o meu percurso de vida; e é isso que me faz evoluir. Certezas, tenho muito, muito poucas! Ah, e tenho gostos e antipatias, aliás como todo e qualquer ser humano; por isso estou perfeitamente à vontade para lhe dizer, a si e a quem quer que seja, que detesto Picasso e adoro Dalí e Magritte!


  9. Peço imensa desculpa pela brincadeira de há pouco. Pensei que fosse entender que era apenas uma forma de lhe mostrar que não estava avispada com a nossa troca de palavras (até pus a carinha a piscar o olho e tudo!). Vejo que não entendeu e peço sinceramente desculpa. Isto das conversas virtuais têm o grave problema de não deixar transparecer estados de espírito.

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      eu é que peço desculpa.

      ando um pouco de mau humor e depois não escrevo de maneira correta.

      Abraço

      E vá ver a escultura. Vai gostar. Todos gostam !


  10. Antero Leite diz:
    Os que avançam na idade não aceitam cortes radicais mas sim evolução na Arte. Ora o que está a acontecer é um querer ser ‘modernista’ desprezando o legado por completo. É esta a provocação. Na Música, por exemplo, os grandes construtores (e destaco Beethoven) começaram por se deixar influenciar pelos seus antecessores (Haydn, no caso do Mestre de Bonn). Strawinsky já depois de ter composto a ‘Sagração da Primavera’ (1913) regressou ao Pergolesi na ‘Pulcinella'(1919) e a Haendel no ‘OEdipux Rex'(1927). Stockhausen, o da música serial, prestou homenagem a Beethoven no ‘Opus'(1970). Porque é que certos artistas da Pintura e Escultura de hoje na ânsia de de ‘um lugar ao sol’ não querem plasmar nas suas obras algo do que receberam dos seus antecessores? Até onde iremos?

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      e quem lhe diz que esta artista não fez isso mesmo?
      pelo que leio, não viu a escultura. !
      Durante anos acusaram Picaso de não saber desenhar. Picaso estudou em Barcelona numa academia clássica. Desenhava “clássicamente” como ninguém.
      As bases são feitas para ser ultrapassadas.
      Se não tornam-se copistas.


  11. E ainda se admiram que existam guerras!!! Tanta coisa por causa de uns quantos cilindros de material absorvente… Realmente quando as necessidades básicas são satisfeitas sem qualquer esforço, temos TEMPO para tudo… E não se apoquentem nem fiquem já alterados… Pois eu sou um destes! 😉


  12. Termino com uma citação de Picasso:
    «Braque disse-me uma vez: «No fundo sempre amastes a beleza clássica ». É verdade. Ainda hoje isso é verdade. Nem todos os anos é inventada uma nova espécie de beleza.» (in Walter, Ingo-‘Picasso. Ed. Taschen/Público, 2003, pp.86

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      pois, precisamente, a dita escultura é dum classicismo evidente.

      O que só prova que poucos se deram ao trabalho de ver a escultura.
      (esteve meses em Lisboa e noutros pontos do país)

      Mais outra que vai para o clube dos Manuel de Oliveira e outros Saramago : o dos artistas portugueses que agradam a todos menos aos…portugueses.

      A RTP, a final tem razão ao enviar para o Mundo inteiro “Praça da Alegria”, “O preço certo”, telenovelas da TVI e “Portugal no Coração” em horário nobre e “Câmara Clara” à 1h da manhã.
      será um retrato fiel de Portugal, a nossa RTP?
      Temo que sim…


  13. Esta “polémica” sobre o arranjo de tampões fez-me recordar duas situações em que se chamou arte à extrema estupidez e abominável crueldade de dois seres (des)humanos:

    http://expresso.sapo.pt/uma-estranha-forma-de-arte=f149040

    http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/MundoInsolito/Interior.aspx?content_id=2269883


    • Isabel,
      Não queria intervir numa discussão que não é “minha” (a minha posição sobre o assunto está expressa no post e o meu entendimento sobre arte não cabe aqui, numa caixa de comentários ou expresso apenas em palavras – estamos a falar de artes visuais, logo outro vocabulário, outra gramática, outra forma de expressão em que o cerne é exclusivamente visual. Caso contrário estaríamos a falar de literatura, ou de poesia, ou de cinema, ou de teatro, ou de outras artes subsidiárias do poder da palavra) mas está a misturar alhos com bugalhos. É “lícito”, digamos, mas não me parece sério.


      • Sim, sim, com certeza. Acho que não trasmiti o que pretendia. Da mesma maneira que a si o preocupa a “tendência para a censura artística” a mim o que me preocupa são as dimensões que a criação da arte (para mim, neste caso, pseudo-arte) pode tomar.

        E de qualquer modo, caro Pedro, um animal escanzelado e morto de fome e um gato que se transformou em bolsa são manifestações bem visuais!


        • “as dimensões que a criação da arte (para mim, neste caso, pseudo-arte) pode tomar”
          Essa, Isabel, é uma discussão muito antiga com a qual Van Gogh, Monet, enfim os habituais picassos e dalis que toda a gente cita, Kandinsky, Malevich, Duchamp, Rothko, Turner, Warhol; Bacon e toda uma galeria de gente que ocuparia muito espaço citar, além de muitos que a história esqueceu ou dos que hoje, como Banksy, se afirmam, tiveram que se confrontar. Uma das coisas que neste caminho se aprendeu é que a validação de algo enquanto objecto artístico nunca foi consensual, especialmente no que toca à arte que (cumpre a sua função, apetecia-me dizer, mas essa, a função -e que função- ou a ausência de função, é uma discussão tão antiga como a primeira) “re-perspectiva”, inova e sofre um processo de “democratização” no seu próprio tempo.
          Talvez não tenha sido claro, nem simples, mas esse é um dos perigos destas discussões.


          • Mais uma vez, sim, estou de acordo, e sim, foi bastante claro. De facto, discutir sobre arte é como discutir sobre o sexo dos anjos; o melhor, ou pelo menos o mais sensato, é nem sequer discuti-la. Para mim a arte é e sempre será uma questão unicamente pessoal. Dito de uma maneira muito pouco erudita, muito terra-a-terra, a arte só é arte quando desperta a beleza no íntimo de quem a vê!

    • Tito Lívio Santos Mota says:

      a comparação da Isabel é tão descabida (para não dizer outra coisa), que dispensa resposta.

      Também dispensam resposta as pretensiosas afirmações sobre o que é arte ou não é, e, sobre tudo sobre qualificações do tipo “pseudo arte”.
      Mas, sendo Portugal um país de Doutores, porque não sermos todos investidos do direito e até da missão de discernir de diplomas sobre o que é arte e não arte?
      Enfim. Cansei de vez.


  14. De facto são os diplomas que outorgam sensatez e conhecimento aos seus titulares! Só o diplomado é gente, é inteligente e sabedor; os não diplomados são debilóides, imbecis e ignorantes e nem sequer têm direito a pensar e a ter uma opinião! Donde se conclui que, se os doutores dizem que tampão é arte, os outros só têm é que concordar e pronto! E se os doutores forem burros, não tem importância nenhuma porque essa hipótese é uma impossibilidade e pronto!

  15. Fernanda Freire-Pintora Portuguesa says:

    Por favor…vá-lá!…Deixem entrar a noiva!…Afastem-se meus Senhores!…Vá!… Então?… Oh Tito e Companhia…Claro que estamos todos consigo!…


  16. Assim vai a nossa ‘crise’!

    ´’Segundo informação publicada pelo jornal Expresso (edição do dia 28 de Julho de 2012), a exposição de Joana Vasconcelos no Palácio de Versalhes não teve qualquer “qualquer encargo financeiro para o atelier da artista, informação veiculada ao Expresso pela direção de Versalhes e confirmada por Joana Vasconcelos”. “A organização da mostra, montagem, transportes, segurança, seguros e comunicação foram integralmente custeados por dinheiros públicos e mecenas privados”, num total de 2,5 milhões de euros.
    Só para pagar o jantar de gala, o catálogo, a comunicação e a publicidade, o Turismo de Portugal (tutelado pelo Ministério de Economia) gastou 150 mil euros, aos quais acrescem despesas de outras acções de divulgação. Também a TAP ajudou a viabilizar a mostra, através do acordo trianual que tem com a artista e que lhe disponibiliza uma série de viagens. Já o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a autarquia de Lisboa desdobraram-se em contactos de promoção da artista que resultaram em apoios da EDP (verba superior a 400 mil euros), da Fundação Gulbenkian (100 mil) e do Espírito Santo Financial Group (com mais de 300 mil euros).
    À artista plástica, cabem algumas contrapartidas – como a cedência de imagens da sua obra para comunicação empresarial e para promoção do País ou até cedência de peças da exposição –, troca ‘menor’ considerando o valor do custo da exposição’.

  17. Fernanda Freire says:

    Distintos, foi com todo o prazer que li Vossos Comentários. A Artista, Joana Vasconcelos tem todas as boas circunstâncias criadas para poder fazer sucesso. Todos sabemos que é melhor um Artista ser criticado do que ser ignorado! Abraço Fraterno a todos Vós. Fernanda Freire

  18. Maquiavel says:

    Faça com rolhas de cortiça que é muito mais agradável e amigo do ambiente!
    E na terra de muita vinhaça, näo ofende!

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.