Más-línguas

José Cândido
Porto, 18-09-2012
– Tenho lá uns livros na estante que estão bons para ser trocados por uns bonitos, com cheiro a novo, onde assino?
– Olha, e eu estou farto de colocar letras que não servem para nada! Ainda bem que estamos de acordo…
– E sempre fazemos um sainete com os falantes próximos da nossa língua, até conheço um…mas isso agora não interessa!…
A ditadura encapotada de um governo já extinto, mas com estranhos reacendimentos no actual, ditaram que para escrevermos bem, teríamos que abdicar de um conjunto de letrinhas, acentos e demais acessórios, para que pudéssemos apresentar ao Mundo como uma grande comunidade falante e escrevente, com notáveis vantagens económicas para o país. Em vez de se editar um livro do Saramago em Português de Portugal e outros tantos nos portugueses diversos que se espalham pelo Mundo (e dos quais, por ignorância, só conheço o «brasileiro»), seria possível, com algum corte e costura, e por meio de uma manobra de reengenharia linguística (talvez mais gráfica), editar massivamente milhões de cópias do dito autor (ou de qualquer outro, entenda-se), e todos ficavam felizes.
Cega de tanta felicidade, a ditadura estabeleceu que não haveria espaços a qualquer contestação e obrigou logo logo as nossas criancinhas – o futuro do país – a tragar aquela coisa que tão bem dormia, e alguém quis acordar. Os dicionários, bafientos, que os pais das crianças tinham nas prateleiras e que serviram os seus pais, e quiçá os seus avós passavam a peça de museu. Portugal é um país moderno, cheio de autoestradas vazias, e demais infraestruturas sem manutenção ou aproveitamento, e como tal, necessitava também de renovar toda a frota de livros.
Se os pais de repente deixavam de poder ajudar os filhos era problema dos primeiros pois o funcionamento do mercado decerto iria gerar catadupas de cursos lusíados e novos, havendo mesmo quem pudesse, por ser brasileiro, obter automaticamente a comprovação da competência acordada por equivalência.
E pode dizer-se que, a exemplo de todas as ditaduras que conhecemos (por vivência própria e à distância da televisão e internet), esta funcionou bem até que caiu (outras houve em que o amo foi, dizem, «maltratado», mas no presente caso, como em tempos idos de 74, somente se verificou a permissão de um exílio de ouro). Instaurada de novo a democracia, pensou-se que algumas opções (não) estratégicas da ditadura cairiam de maduro, por não servirem o país – mas quiçá outros interesses mais particulares – como por exemplo a estratégia de transportes e mobilidade nacionais, oplano nacional de barragens, as rendas das Parcerias Público-Privadas, ainda as autoestradas (há espaço para mais???), o «acordo» ortográfico, e demais falácias introduzidas ou reforçadas pelo anterior regime, ligadas à saúde e educação e a demais assuntos que hoje, sabemo-lo, são difíceis de levar ao prelo, pela concorrência desleal do assalto anunciado aos nossos bolsos, responsável pelas manifestações ocorridas no último fim-de-semana.
Não obstante arriscar a não ser lido, trago aqui uma história que comprova que não parece haver no actual Governo Ministério – ou Secretaria de Estado – que não precise de um «acordo» de rescisão com os seus representantes. Aquele senhor da Educação, com ânsias de mudança mudou tanto que até os nomes das disciplinas, os critérios de classificação e demais miudezas decidiu mudar (marcação de território?), como se estas decisões ping-pong (agora é de 0-20, agora é de 1-5, agora é «Língua portuguesa», agora é «Português») acrescentassem algum valor à escola, e não desviasse os docentes e demais funcionários, da nobre missão de ensinar, para a missão de estudar decretos e portarias…
Chegado aqui, vejase o que aconteceu num agrupamento do Porto (só neste?) na selecção dos manuais e demais suportes da Língua Portuguesa, digo, do Português: adoptaram um manual com três anos que não foi «actualizado». Dito isto, os nossos filhos que andaram 2 anos a adaptar-se a uma discutível grafia, têm agora no 4 .º ano do ensino básico (ou será 1.º ciclo?) um manual de Português escrito «à antiga»! Podia ser motivo de regozijo perceber que quem decide afinal renega o acordo, mas como não é isso que está em causa, fica a pergunta em português vernáculo não «acordado»:
Quando acabará esta palhaçada?

Comments


  1. Mas que maravilha de texto – Já agora, creio que há um movimento (parado) contra o AO a não ser que seja movimento silenciso
    pergunta a minha estupidez o que aconteceria a um professor de português que se distraísse e ensinasse português-português – quantos jogos levaria de castigo ?? E não poderiam “esquecer-se” mesmo ?? Para bem do país e um sectror económico mesmo que limitado – ai esquecí-me dos Pingos Doces que vendem livros ao lado de batatas – Quanto à marcação de território que qualquer animal saudável faz, e para que outro não lhe invada o território, fá-lo, com toda a eficiência, e mesmo elegância, com o RABO – já está – mão se atrevam a entrar pois que não sairão
    Hà dias li um papelinho A4 com as perguntas do exame de português não sei de que ano do secundário – 1ª época – até creio que deixer de saber ler tal era o léxico novo da “gramática” e claro que chumbaria – o adjectivo verbal agora chama-se não sei quê e outras coisas chamam-se não sei quais e fiquei a saber que não sabia e entretanto achei que fechar e vender os estaleiros navais de Viana originou a perda de encomenda de conxtrução de 7 navios que estavam em carteira
    Também o governo que não anuncia tudo, esqueceu-se de dizer em que km já ía o TGV o que me deixa preocupada
    e sendo que agora ter-se-á de ir a Madrid de BTT ou naqueles aviões que andam por aí sempre a cair no chão – é low cost que se designam ?’ ai estes galicismos acrescidos
    E eu que guardo como aqui é aventado os meus dicionários do Torrinha pelo menos + o Jacob Bensabat que é eternamente inteligente e “ensinador” sem precisar de ter explicador – além de mini-dicionários para não andar a carregar (ter andado) mochila de toneladas de livros e fazer “endireitar” à força a minha coluna vertebral que com ou sem mochila recusa vergar-se
    E o que ´´e que o senhor desta imagem tem na boca ?? Uma palhinha para beber o quê ou é acidente fotográfico ??
    Ah já sei – tem de haver, entre outras, muitas explicações – é que esta semana o brasil exigiu que os portugueses (médicos creio) têm um problema de equivalência (será exame ??) se decidirem emigram para o lado de lá do mar – e não me digam que om dia na ONU os portuguses não poderão apresentar documentos que não estejam traduzidos em brasilês

    Até um prof de português se atrapalha – Veja-se este bocado de “juízo” que copiei do texto ===Chegado aqui, vejase o que aconteceu num agrupamento do Porto – já foi eliminado o ifen ?? eu não sei se veja-se é com ou sem ífen – baralho tudo

  2. Vítor says:

    Muito bem aventado!

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