O Sacro e Pontifical Soares Falou Outra Vez

O monolítico burguês Mário Soares, o grande empedernido de todas as gulas, a grande caricatura da caricatura do socialismo, grande desgraça e pai de muitas, voltou a falar. Falara já ontem. E amanhã falará com o peso e a importância de um peido solene. [Pacheco Pereira, falhado e tortuoso político em quem ninguém votaria, é outro que de vez em quando também emite raivosamente]. Mas Soares tem mais peçonha. Décadas e décadas de boa vida só agora ameaçadas determinam que emita sinais de fumo e odores a corno queimado.

A sua tristeza e irresponsabilidade pronunciativas não poderiam ser maiores. Daí o passar para as palavras todo o anquilosamento moral acumulado nas carnes laicas. É como se agora nos quisesse descolonizar outra vez. Parasitariamente, para ele o dinheiro da Troyka aparece sempre. Por isso berra com a delicadeza, o sentido de Estado e a ponderação com que descolonizou África. Para que lhe fazem perguntas, meu Deus?! O inquieto e túrbido Soares está somente atormentado consigo mesmo nos proventos ameaçados e com a Fundação sujeita a um corte de 30% por parte do Governo Passos.

Mário, Vossa Antiguidade não consegue sofismá-lo. Vossa Autoridade aparece agora tão castigadoramente a pronunciar-se sobre o Governo Passos como se o Passado não pesasse. Como é que Vossa Sujidade só aparece agora como soberaníssimo desdenhador de uma governação? Como é que Vossa Pontifical Vestustade só anatemiza a Troyka e o Passos, com frases cortantes só dedicáveis a canalhas, a ditadores e a assassinos?!

A nossa obtusidade deve ser incomensurável para não perceber os rótulos que todos os dias comummente e burguesmente Vossa Anquilosada Senilidade apõe a este Governo afinal herdeiro de um outro, esse, sim, repleto de ladrões, de glutões, de incompetentes e comissionistas, como aliás foi e é Vossa Inefabilidade Furtiva. Mexe-se num privilégio de Vossa Endestésica Senhoria e logo sente por dentro mais fúria que a dos gatos por fora, quando lhes amarram campainhas ao rabo. Vossa Voracidade não tem uma palavrinha para qualificar os roubos e as devastações perpetrados pelos recentes anos socratistas-socialistas?!

Vá para casa ler todo o Barthes e todo o Foucault [Foucauld em soariês] em dez minutos. Durma a soneca. Para castigo de Vossa Sonolência, filhos, afilhados e patrocinados quelónios, fica interdito aos jornalistas espetarem nas Vossas Ventas mais um microfone que seja.

Comments

  1. Nuno Valério says:

    Caro escriba da revolta mais revoltada,

    Começo pelo fim: atenção, quem destila tamanho ódio e revolta, com tanta erudição, não pode descer ao cano de esgoto, perdão, de drenagem de águas residuais, e escrever “Foucauld” – haja decoro nessa arte que é teclar. Causa-me lamento verificar que continua a fervilhar um ódio e uma raiva e uma frustração funesta pelo passado, versão PS e acólitos, porque, sem retirar uma grama às toneladas de responsabilidades, algumas delas macabras e assassinas para o “bem público”, volto a aconselhá-lo, se tal me é permitido, que se concentre no futuro, porque como disse T.S.Elliot, o passado e o presente fazem parte do futuro. Qual o benefício para o debate público de constantes barragens de fogo de artilharia pesada para com as figuras gradas do PS? A herança é inegável, é sim senhor, não há que padecer de miopias intelectuais, mas também não nos podemos acometer a planícies ideológicas, é sempre mais do mesmo. Repare bem nestas sua palavras: “…a este Governo afinal herdeiro de um outro, esse, sim, repleto de ladrões, de glutões, de incompetentes e comissionistas…”. Qualquer interpretação radica na mais inaceitável desculpabilização da actual prática governativa: este, sim, este governo não possui no seu exército ultra-neo-liberal, ladrões, glutões, incompetentes e comissionistas, não , nada disso, vieram direitinhos do convento. Miguel Torga: “Na frente ocidental nada de novo, o povo continua a resistir. Sem ninguém que lhe valha, geme e trabalha até cair”. Leia ou releia com dedicada atenção, entrecruze essa leitura com o passado Sábado à tarde neste jardim à beira mar plantado, e caríssimo escriba, REFLICTA e comece a libertar-se das amarras com que o seu ódio prende inexoravelmente as suas diatribes. Sentir-se-á, seguramente, com maior leveza para participar no debate com o seu sabre apontado ao futuro imediato.
    Com os meus melhores cumprimentos.

    • palavrossavrvs says:

      Caríssimo Nuno, o seu comentário é justo e está brilhante. Acredite que nestas coisas sou franco atirador e se tendo a poupar um lado em detrimento doutro não poupo o primeiro todo o tempo.

      Sincero admirador e leitor ávido dos seus comentários,

      Joaquim Carlos da Rocha Santos
      [joshua]

      Um Abraço


    • Não me parece que por se chamar ladrão a um, o tal do passado recente, esteja a chamar-se honesto ao presente (governo)…
      E permita-se também fazer uso da «palavra» para informar que por distracção chamou ao grama «menina», e ele não gosta…

      • Nuno Valério says:

        Caro José Cândido, a candura das suas palavras enternece, mas obriga-lhe a ler a frase em questão no devido contexto, contexto esse que por sua vez se enquadra num percurso de crítica violenta a todos os governos que assinaram PS, sem que haja o estabelecimento de pontes para os governos ditos de “direita”, até porque o actual, na minha modéstia opinião, nem sequer esse catálogo merece, e o catálogo a que eu estou tentado a colocar ficará para os tempos, que espero breves, das exéquias destes senhores que foram “eleitos” na ressaca do abrir de portas à “troika”, com a complacência – pasme-se! – da, dita, extrema-esquerda.Quanto ao uso do termo “grama”, peço-lhe que acredite piamente na linearidade do seu significado.
        Com os meus melhores cumprimentos,
        Nuno Valério

    • Fernando Mendes Silva says:

      Ao Sr. Nuno Valério, eu informava que “grama” é masculino, daí dizer-se “UM grama” e não “UMA grama”. Disse.

      • Nuno Valério says:

        “Disse” e disse muito bem, logo eu tenho a dizer que lhe agradeço a nota de correcção.


        • E disse-o de uma forma mais clara do que eu!… 🙂 Eu tinha dito que «por distracção chamou ao grama «menina», e ele não gosta…», mas pronto, estamos todos perdoados e sintonizados (acho).

          • Nuno Valério says:

            Caro José Cândido, subscrevo por completo o último trecho da sua mais recente resposta, pois eu tenho a mais profunda certeza de que estamos em perfeita sintonia. Por outro lado, eu gosto sempre de ser corrigido, porque tenho a garantia de que sei um pouco mais do que previamente, e grama a grama vai ganhando “peso” a nossa espessura intelectual – digamos assim, se me permitem…
            Com os meus melhores cumprimentos

  2. Amadeu says:

    Em linguagem de banda desenhada, que bem poderia ser abreviada pelo: *x#$§*+?*x, eis o Palavroso em polvorosa, no seu melhor.
    Perdão. Quase melhor. Melhor mesmo será quando o Sócrates voltar a falar.

    Ao coelhinho Passos e ao ratinho Portas o dinossauro menino diz: Acção. Coragem. Coração sensível e capaz de ouvir. Defende o Camilo Lourenço.

    A quem ataca o coelhinho o menino diz: Capucho, jacula, Helena Roseta, zarolha, Marinho Pinto e Januário, arrotam, Gomes Ferreira, fareja, Manuel Alegre, espessa.

    Quando acorda mal disposto, nem o coelhinho escapa: quixote caricatura, coirão, cobarde, fodilhão.

    A sua solução : Referendo por um Rei ( A SÉRIO !! )
    Mas que grande bôbo da corte este palavroso

  3. palavrossavrvs says:

    Meu caro Amadeu, nós não entramos com o pé direito numa amizade feliz na pluralidade, coisa que adiante se foi reciprocamente corrigindo, se não erro, mas devo dizer-lhe o quanto estimo o seu zelo por ler-me e o estimo a si, apesar de pensar diverso de mim.

    Há pessoas e percursos de que não gostamos. Disso está a minha escrita cheia. Não, não sou coerente. Nem dado a fidelidades em sacrifício das moções e emoções das minhas tripas. Fomos todos traídos. É preciso dar caça, pela paródia e pela sátira, a quantos engordaram à custa do nosso coiro.

    Queria viver num País rico. E isso seria possível. Se esta República fosse briosa e exemplar, protegesse o Povo e o fizesse prosperar, se execrasse os seus arrogados donos, como patriarca de todas as parasitações, aliás corruptos e videirinhos antes de qualquer outra coisa, eu seria republicano.

    Sou Monárquico convicto porque o actual Regime não nos faz toda a justiça que merecemos. Subscrevo todos os bons argumentos monárquicos em Portugal, porque será talvez a última e paradoxal instância para uma regeneração moral e política do País.

    Homens como Soares são uma vergonha. Sempre. Todos os dias.

    A si, que autorizo a fazer fichas, citações e levantamentos textuais, críticas e crivos, do que vou escrevendo, deixo aqui um abraço público porque com o tempo aprendi a valorá-lo e a dar-lhe razão quando me aponta o lado tendencioso. É onde coloco o travesseiro.

    Um Abraço, portanto, Amadeu.

    Joaquim Carlos da Rocha Santos [joshua]

    • Amadeu says:

      Caro Joaquim,

      O Nuno Valério soube melhor que eu traduzir a frustração de ver a sua erudição e arte desperdiçadas em lutas quixotescas com moinhos de vento socialistas e republicanos.

      Em relação à forma, a prosa do Joaquim faz-me lembrar uma outra dos tempos idos de 1974/75 quando um dito MRPP clamava contra um “ministro sem pasta e sem vergonha, do partido social fascista do social imperialista Barreirinhas Cunhal”. O que eu me ria com o desvelo dos adjetivos dos comunicados do dito movimento, tendo mesmo feito coleção das tiradas mais famosas.
      A procura de adjetivos com que qualificar os adversários políticos tem de ser frontal e sem papas na língua, mas ponderada, pelo menos em quantidade, senão facilmente se cai em sketches para gatos mais ou menos fedorentos.
      Por outro lado, temos que estar preparados que sejam utilizados contra nós os mesmos ou idênticos adjetivos com que mimamos os nossos adversários.

      Em relação ao conteúdo, partilho da maior parte das críticas que lhe leio, mas sinceramente não sei, nem quero, discutir soluções monárquicas. O tempo não volta para trás. Os regeneradores morais cheiram-me a inquisidores. Não aceito teorias de elites esclarecidas ou herdadas a governarem este país. São muito perigosas. Ainda não me esqueci.

      Um abraço sincero
      Amadeu ( é mesmo o meu nome)

  4. Cabotino says:

    Rex,
    Não me leves a mal o que eu vou dizer, mas tu assustas-me. Esse teu ódio apenas aos socialistas mete medo, muito medo. Sabes por quê? Porque me lembras o Anders Breivik. Se esse teu ódio fosse dirigido a todos os corruptos, até compreendia, mas não. É unidireccional. Tenham medo, muito medo. Estou a falar a sério. Não se riam que estes psicopatas começam por escrever estas coisas e depois…
    Repito, estou a falar muito a sério: procura aconselhamento psicológico o mais rápido possível, por favor. Não mates mais jovens neste país que eles já estão a sofrer e muito.
    Felizmente só temos as Berlengas e não são lá muito práticas para convenções de Verão…

    • palavrossavrvs says:

      Homem, nem pensar. No meu coração só encontro afecto por quem pense diferente de mim e esteja à mão. O exercício das Palavras é outra coisa: um acto de provocação e de agitação, de alerta, desassossego e denúncia. Tenho um amigo, talvez o mais fanático socialista do mundo, militante do partido há décadas e tudo. Discutimos muito, mas não há pessoa de quem mais goste e a amizade é recíproca. Não há o que nos desuna do afecto, do prazer de conversar pelas horas das horas. Adoro pessoas. Agora, desempregado, sinto uma falta terrível de afagar com um sorriso e uma palavra amorosa e empática todas as pessoas, mas mesmos todas as pessoas, com quem me relacionava dia-a-dia. Ser para os outros, senti-los, captar-lhes a alma, as dores, os sofrimentos secretas, a aventura de sobreviver e suportar tanto fardo injusto, tantos prazeres também. Para mim não há maior tesouro que gente feliz, unida, calorosa.

      Amo gente.
      Adoro pessoas, cada qual pelo que é, seja quem for, mesmo ao Mário Soares, dir-lhe-ia olhos nos olhos que a sua aristocratite ideológica, a ganância e a vaidade lhe subiram à cabeça e o cegam de um modo tão laico e exclusivista como anti-democrático, mas puxar-lhe-ia o nariz por brincadeira e brincaria com as suas bochechas em contexto familiar como se lhe fosse neto, não disputo que seja um bom avozinho.

      Isto sou eu. Sempre fui assim. Depois [acho que] sou mordaz e atrevido-out-of-the-box no verbo ou na verve. É a minha natureza, como dizia o escorpião à rã.

      Não inventes, ó amigo Cabotino.

      • Cabotino says:

        Gostei da resposta, muita classe e elegância. Sinceramente surpreendeste-me e baixo a cabeça em sinal de respeito.
        Só posso desejar muita sorte e que a situação profissional actual seja muito passageira.

        PS. não te esqueças de atacar a máfia cavaquista e sus muchachos, caraças!


  5. Valha-nos S. Mário Soares para te tirar do teu cantinho. A ver se os dois falam mais vezes.

  6. jorge fliscorno says:

    A propósito, é de ler Pedro Correia:
    A importância de ter memória
    http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4785682.html

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