Autor convidado – Ana Cristina Leonardo

A gente ri-se porque houve o 25 de Abril


Ana Cristina Leonardo
Foto de Victor Valente
25abril_victor_valente

Em minha casa foi tudo preso pelo menos uma vez. A qualidade das estadias na cadeia variou muito, com o meu pai a bater o recorde de mais ou menos três anos entre os Fortes de Caxias e Peniche — o de Peniche, consideravelmente mais húmido —, mas a história que quero contar diz respeito à minha mãe.

A minha mãe foi levada para a sede da PIDE, local onde se ergue agora um condomínio de luxo com vista para um marco de suplícios, no dia em que o Oliveira bateu asas e voou, apesar de na altura a Coca-Cola estar proibida na metrópole e ninguém ainda ter inventado o Red Bull. Trabalhava então numa editora anti-regime, a “Seara Nova”, que a ânsia pelo poder (absoluto) do PCP haveria de levar à falência no pós-25 de Abril. Oficialmente, ninguém sabia que o ditador já tinha ido para os anjinhos. Mas a malta não era parva e também tinha informadores.

Alguém chegou à “Seara…” com a notícia fresquinha, testemunhada com estes que a terra há-de comer pela equipa que tratava Salazar desde que este falhara a cadeira. Transposto o cepticismo, que o homem parecia eterno, bateram-se palmas e gritou-se Hurra! Hurra! (esta parte do Hurra! Hurra! sou eu agora a inventar).

A minha mãe dirigiu-se ao telefone e telefonou ao meu pai (que já não era hóspede em Peniche): “Bento, prepara uma garrafa de champanhe, hoje temos que comemorar!” No meio da excitação, uma colega, quase tropeçando nos fios, arranca-lhe o bocal do ouvido e acrescenta: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras. À noite há festa!”

O meu pai correu à Baixa a comprar uma gravata vermelha mas arraial não houve. Passado pouco mais de meia-hora, a “Seara…” era invadida por agentes da polícia política que solicitam — sem grandes faz favor ou por obséquio — que as moinantes os acompanhem à sede. Os nomes coincidiam rigorosamente com as vozes sob escuta, e acabam as duas nas instalações da PIDE ao Chiado. Verdade seja dita que lhes serviram jantar.

Sempre desconfiada, a minha mãe recusou educadamente o repasto “não fosse aquilo ter para lá alguma droga!” A amiga, alentejana folgazona que hoje seria catalogada de obesa, comeu e apenas não repetiu porque não quis abusar de tamanha hospitalidade. 

Trejurou a minha mãe um evento sentimental para justificar o champanhe. A amiga disse que sofria de amnésia e que não se lembrava sequer da última vez que tinha ido ao cinema. Entretanto, dá entrada em cena o sempre impecável subdirector Sacchetti que se dirigiu à minha progenitora com a costumada eloquência: “A senhora não tem vergonha! Ainda agora saiu de cá o marido e nem isso lhe serve de lição!”

Lições de moral à parte, quem lhes passou depois a carta de alforria foi ele, não sem antes invocar repetidamente o sagrado nome do falecido, “esse grande homem de quem já sentimos saudades!”

À porta da António Maria Cardoso esperava-as o meu pai, um pequeno saco na mão. Dentro não havia champanhe. Convencido que a madrugada seria longa para a mulher, juntara à pressa algumas mudas de roupa e julgo que uma escova de dentes. Usava a gravata vermelha, o que a consorte considerou decerto um repto desnecessário. Depois a amiga disse que nem se comera assim tão mal e foram todos comemorar na mesma, talvez para o Galeto que na altura fechava tarde.

Isto agora contado tem graça mas na altura imagino.

Comments

  1. JgMenos says:

    “A Guerra” – Raul Solnado – 1967

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