Uma memória do meu 25 de Abril*

papoila

Tinha 6 anos e estava uma manhã primaveril fantástica em toda a aldeia, com um céu azul salpicado de uns farrapos brancos. Eram 10 da manhã quando o meu pai e eu estávamos a sair de casa para sulfatarmos uma vinha. O nosso vizinho de frente, que não falava connosco fazia anos, surpreendentemente dirigiu-nos a palavra:

– Então ó vizinho, está a haver uma revolução, sabia?

O meu pai, homem da terra e mais preocupado com a abundância de água para as searas do que com golpes de estado, não respondeu. Continuámos o passo apressado mas eu estava curioso:

– Ó pai, o que é que aconteceu?
– Chiu, cala-te. Isso não interessa nada.

A forma receosa como ele me respondera calou-me realmente e só anos depois é que soube o que era uma revolução.

* Uma memória, que é a única que tenho

Comments


  1. Tinha 10 anos, estava na sala de aula de um colégio na cidade onde habito, quando ouvimos gritos de uma multidão que passava na rua, o director apressou-se a trancar a porta de acesso à escola para proteger os alunos.
    Digamos que os “pássaros” fugiram da “gaiola” só que até à data ainda não entenderam muito bem para que servem as “asas”.
    40 anos é muito tempo para continuarmos a suportar “jogos” inconsequentes.

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