Os médicos que matam a esperança

Laura Santos

filme-hijackingCom Capitão Phillips, pensava que iria ter apenas uma “tarde de cinema” para espairecer, com o meu muito apreciado Tom Hanks. Enganei-me.
Como muitos saberão, o filme baseia-se pelo menos no facto real de ter havido pirataria ao largo da Somália. Resumidamente: o navio de carga é assaltado pelos piratas e o nosso capitão Tom Hanks é feito refém.
Os militares americanos acabam por matar os piratas e salvar o capitão, mas ele, depois de uma fase de grande autocontrolo, já se encontra muito abalado, em estado de choque. A bordo do navio militar, uma enfermeira faz-lhe algumas perguntas para ver como reage. No final, repete-lhe, enquanto o deita numa cama: “You’re safe, now, captain, you’re safe!”. Ao ouvir estas palavras, as lágrimas começaram a correr-me pelo rosto. De repente, vi à minha frente a sala de espera do IPO, os rostos de tristeza com que lá me deparei, o rol de ameaças de morte precoce que os médicos me dirigiram, as biopsias que tive de fazer, as tentativas de concretizar o tratamento paliativo que me ofereciam, enquanto esperaria a morte, a necessidade de me aposentar da Universidade por “incapacidade”, as dores fortes que tenho tido por causa da mastectomia funda a que fui submetida, toda esta necessidade de manter o medo sob controlo, num país em que nem sequer tenho a possibilidade de uma morte assistida legal se tudo correr pelo pior. E, de repente, só quis que alguém me deitasse também numa cama para descansar e me dissesse: “You’re safe, now, Laura, you’re safe!”.Não sei por que artes mágicas aqueles médicos que me ameaçaram de morte precoce sabiam exactamente de que lado das estatísticas é que eu me encontrava. Quando desconfiavam de que eu pretendia “saber mais”, pareciam ter um gosto macabro em transmitir-me a sentença, como se dissessem: “Nem lhe passe pela cabeça que pode escapar! A não ser que morra atropelada ou de AVC fulminante, tem o destino marcado: morte precoce”. Aquando das idas ao IPO, passei a lembrar-me das “palavras em letreiro escuro escritas […] por cima de uma porta [a do Inferno]: ‘Deixai toda a esperança, vós que entrais’”. Cada ida ao IPO era seguida de um bom filme no Arrábida, num exercício delicado de “espanta-espíritos”.
Recordo-me do comentário sádico de uma médica não-oncologista: sabia de alguém em situação semelhante à minha que se “safara”, mas em que Nossa Senhora de Fátima estivera muito “metida”. A mensagem implícita era: “Como não me parece que tenhas grande devoção por Fátima, prepara-te, pois vais mesmo morrer”.
Em tempos, numa revista belga ligada a questões oncológicas, li um artigo em que se mostrava como as pessoas sujeitas a cancro podiam facilmente vivenciar uma situação de stress pós-traumático. Que médicos pensarão nisto? E, se pensam, como é que isso altera a sua relação com os doentes? E que conhecimento deste stress têm os responsáveis pelas instituições? Lembro-me do terror que representava para mim o início de um novo ano lectivo na Universidade. Precisava de um horário “aconchegado”, por causa das debilidades que ia apresentando, mas como obtê-lo, sobretudo quando do outro lado havia sobretudo indiferença ou má vontade?
Um psi, percebendo bem os meus desabafos amargos, deu-me a consolação possível. Há muitos anos, o pai, anátomo-patologista, verificara em lâmina o cancro perigoso de uma amiga da família. Porém, o cancro desaparecera depois, sem deixar rasto e sem tratamento. Aquele médico não estava a dizer que eu me iria “safar”, mas também não se atrevia a tirar-me a esperança – havia o que a medicina ainda não sabia explicar. Aos médicos que se arvoram em deuses e se permitem ditar, despudoradamente, sentenças de morte a pessoas de quem só conhecem uns tantos exames que decerto um dia serão considerados primitivos, a esses médicos talvez fosse recomendável que se deitassem no divã do psicanalista. Ao menos, a bem dos seus doentes.

Docente aposentada da Universidade do Minho (laura.laura@mail.telepac.pt)
in Público 05/02/2014

Comments


  1. Gostei de ler, enfim, uma verdade que poucos doentes se atrevem a dizer!

  2. Rui Moringa says:

    Aqui e ali, todos precisamos ou vamos precisar que alguém nos diga “You’re safe, now, you’re safe”, mesmo aqueles médicos que lhe reduziram e minguaram a esperança e outros que nos apontam virtudes que sabem que não nos pertencem ou sequer estamos nelas interessados. Na minha opinião baseada apenas na percepção e no senso comum os psicanalistas sofrem do mesmo mal e ampliam-no.
    Humildemente desejo que encontre a esperança necessária para viver. Todos nós somos finitos e imperfeitos, mesmo os poderosos da ciência e da virtude transcendental.
    Queira aceitar os meus cumprimentos fraternos.

  3. Rui Moringa says:

    Para todos, mas em especial para a Laura
    http://www.juanirigoyen.es/2013/12/los-visitantes_1632.html


  4. Este seu texto revoltou-me muito. Uma vergonha, essa maneira de os médicos lidarem consigo! Todos os médicos que tratam de doentes oncológicos deviam ter formação psicológica, aliás, devia ser oferecido a todos os pacientes acompanhamento psicológico de graça. Todos sabemos que o estado psicológico afeta muito o evoluir de uma doença física. Perante tais comentários (dos médicos), só me apetece dizer que essas pessoas nem merecem que lhe chamem médicos, pois são uns ignorantes, indignos de exercerem a sua profissão.

    Na Alemanha, onde vivo, as pessoas que têm cancro são muito mais acompanhadas, há uma maneira especial de lidar com elas, os médicos têm formação psicológica. Para lhe dar um exemplo: a mãe de uma amiga, também com cancro da mama, ainda estava no hospital, depois da operação e, já se sabendo que teria de fazer quimioterapia, os serviços do hospital logo trataram de lhe enviar uma profissional para a aconselhar e tratar da compra de uma peruca. Tratou de tudo, a paciente nem teve de sair da cama. Até se pode recusar a peruca, mas gestos destes contam muito, na situação de fragilidade em que os pacientes se encontram. Sentem que não estão sozinhos. Além disso, os pacientes, enquanto andam a fazer os tratamentos, são encaminhados para grupos de pessoas na mesma situação e, com o acompanhamento de um/a psi, têm oportunidade de desabafar, trocar experiências, enfim, sentir que não estão sozinhos.

    Infelizmente, no nosso país, há pessoas muito brutas!

    Desejo-lhe tudo de bom!

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