Concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”

Nos próximos dias 15 de Fevereiro no Teatro São Luiz em Lisboa e 16 de Fevereiro no Teatro Pax Julia em Beja, estreia o concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”, baseado na vida e obra poética de Al Mutamid Ibn Abbad, no seu percurso dramático entre Beja, onde nasceu, Silves, onde se afirmou como o grande expoente da poesia da sua época, Sevilha, onde foi Rei da Taifa Abádida do Al Andalus, e Aghmat, nos arredores de Marraquexe, onde morreu no cativeiro. Um concerto com a direcção artística do arquitecto, realizador e produtor Carlos Gomes, com a direcção musical de Filipe Raposo, compositor e pianista, e que reúne outros músicos de Portugal, Espanha e Marrocos, como Janita Salomé, Eduardo Paniagua, Cezar Carazo, El Arabí Serghini, Jamal Ben Allal e Quiné Teles.

O projecto conta com o apoio da Direcção Geral das Artes e, para além do concerto, existe a intenção de gravar um CD e realizar um filme documentário durante o ano de 2014.

Link da página facebook https://www.facebook.com/almutamidreipoetadoalandalus

Link da iniciativa de crowdfunding do projecto http://ppl.com.pt/pt/prj/almutamidreipoetadoalandalus

“A noite lavava as sombras

Das suas pálpebras com a aurora.

Ligeira corria a brisa.

E bebemos! Um vinho velho cor de rubi,

Denso de aroma e de corpo suave”

Poema escrito por Al-Mu’tamid

No ano de 1031 cai o Califado de Córdoba e o Al-Andalus divide-se em reinos independentes, que ficaram conhecidos pelo nome de Reinos de Taifas (do Árabe Muluk At-Tawaif, ou reinos fraccionados). O poder centralizado do Califado Omíada, cada vez mais dependente de uma máquina administrativa pesada e geradora de pesados impostos, aliado aos desejos de autonomia das inúmeras etnias que povoavam o Andalus, estão na origem deste fraccionamento do poder político.

No Sul do território hoje ocupado por Portugal, o Gharb Al-Andalus, ou Ocidente do Al-Andalus, constituem-se quatro reinos de taifas _ um grande reino na zona mais a Norte com capital em Batalyaws (Badajoz), um reino correspondendo à região do Baixo Alentejo com capital em Mârtula (Mértola) e dois reinos no actual Algarve, concretamente os reinos de Xilb (Silves) e Xantamarya Ibn Harun (Faro).

É neste período que floresce uma cultura Hispano-Árabe, sobretudo ao nível da poesia, resultado de uma identidade local criada pela fusão de elementos étnicos árabes, berberes, judeus, hispano-romanos e hispano-godos. No caso específico do Sul de Portugal essa poesia é hoje referida como Poesia Luso-Árabe e são inúmeros os autores que deixaram obra escrita. Dois desses autores ficariam conhecidos como os mais representativos desta cultura _ Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar.

“Minh’alma quer-te com paixão

Ainda que haja nisso uma tortura

E alegre vai na ânsia da procura.

Que estranho ser difícil nossa ligação

Se os desejos d’ambos concordaram!

Que quereria mais meu coração,

Ao desejoso te buscar em vão,

Se meus olhos te viram e amaram?

Allah bem sabe que não há razão

De vir aqui senão para te ver.

Que o vigia não nos possa achar

Se o nosso reencontro acontecer

P’ra os teus lábios doces eu provar.

Folgarei no jardim da tua face,

Beberei desses olhos o langor,

E mesmo que um terno ramo imitasse

O teu talhe grácil, sedutor,

Valerias mais que o imitador.

Não te ocultes, oh jardim secreto:

Quero colher meu fruto predilecto!”

Poema escrito por Ibn ‘Amar

O período em que viveram, apesar de constituir a época mais fecunda da produção artística do Al-Gharb, ou o Ocidente, sobretudo da poesia, correspondeu ao início da decomposição política do Al-Andalus, da dissolução do Estado e transgrediu valores do próprio Islão. Nas cortes da época, a lassidão dos costumes, o abuso do vinho, a imoderação sexual e os impostos ilícitos que sobrecarregavam os mais humildes, contribuíram grandemente para a desunião do poder muçulmano e abriram inevitavelmente caminho à vitória cristã.

“Ao passar junto da vide

Ela arrebatou-me o manto,

E logo lhe perguntei:

Porque me detestas tanto?

Ao que ela me respondeu:

Porque é que passas, ó rei,

Sem me dares a saudação?

Não basta beberes-me o sangue

Que te aquece o coração?”

Poema escrito por Al-Mu’tamid

Al-Mu’tamid Ibn ‘Abbad, que ficou conhecido como o “Rei-Poeta”, nasceu no ano de 1040 em Beja onde passou a sua infância. Era filho de ‘Abbad Al-Mu’tadid, rei da taifa de Sevilha e homem extremamente autoritário e ambicioso que, conquistando os vários reinos seus vizinhos, acaba por criar o mais poderoso reino de taifa do Al-Andalus, o chamado Reino Abádida, que se estendia desde o Sul de Portugal até ao estreito de Gibraltar.

A conquista de Silves é aquela que maiores dificuldades lhe causou, já que só é conquistada após mais de 10 anos de guerra. Al-Mu’tamid participa com o pai nas várias campanhas contra Silves, ficando no seu governo a partir do ano de 1053.

A vida de Al-Mu’tamid ficaria ligada à do seu grande amigo e poeta Abu Bakr Ibn ‘Amar “Al-Andalusi”, natural de Estômbar, com quem mantém uma relação apaixonada e possessiva, num ambiente de corte marcado pela luxúria e prazer, e por escândalos que acabam por fazer com que Al-Mu’tamid seja chamado pelo seu pai a Sevilha e Ibn ‘Amar desterrado para Saragoça.

“Que Alá mantenha a minha turbação

Pois trouxe à minha alcova aquela formosura.

Se de mim a aproximou uma aflição

Quero esta enfermidade com ternura.

Eu sofria, ela veio: são minhas dores contentamento.

Fica ó doença! Já que és bênção.

Allah eu te suplico: mantém meu sofrimento!”

Poema escrito por Al-Mu’tamid

Apesar de manterem essa ligação tão forte, os dois amigos pouco têm em comum, a não ser o génio poético _ Al-Mu’tamid, com a sua origem nobre, mais se preocupava com o prazer e a poesia, Ibn ‘Amar, de origem humilde, era extremamente ambicioso e calculista, atributos que mais tarde seriam determinantes para o trágico desfecho da sua relação. “Tão calculista e aventureiro quanto dotado de talento”, como refere Adalberto Alves.

Após a morte do seu pai, no ano de 1063, Al-Mu’tamid torna-se rei de Sevilha e chama de volta Ibn ‘Amar, nomeando-o governador de Silves. Mas o coração do Rei-Poeta fica naquela cidade, como atesta a “Evocação de Silves” que escreve a Ibn ‘Amar a partir de Sevilha:

“Saúda, por mim, Abu Bakr,

os queridos lugares de Silves

e diz-me se deles a saudade

é tão grande quanto a minha.

Saúda o Palácio das Varandas,

da parte de quem nunca o esqueceu,

morada de leões e de gazelas

salas e sombras onde eu

doce refúgio encontrava

entre ancas opulentas

e tão estreitas cinturas.

Moças níveas e morenas

atravessavam-me a alma

como brancas espadas

como lanças escuras.

Ai quantas noites fiquei,

lá no remanso do rio,

preso nos jogos do amor

com a da pulseira curva,

igual aos meandros da água,

enquanto o tempo passava…

ela me servia vinho:

o vinho do seu olhar,

às vezes o do seu copo,

e outras vezes o da boca.

Tangia-me o alaúde

e eis que eu estremecia

como se estivesse ouvindo

tendões de colos cortados.

Mas se retirava as vestes

grácil detalhe mostrando,

era ramo de salgueiro

que me abria o seu botão

para ostentar a flor.”

Pouco tempo depois Al-Mu’tamid chama Ibn ‘Amar a Sevilha para ser seu primeiro-ministro. Vive-se então um período de fragilidade do poder dos reinos de taifas perante o crescente avanço dos cristãos, taifas que sobrevivem em grande parte através da diplomacia e do pagamento de tributos. Conta-se inclusivamente que, quando Afonso VI de Leão ameaça as fronteiras do Reino Abádida, Ibn ‘Amar joga com ele uma partida de xadrez para resolver a contenda sem recurso às armas. Ibn ‘Amar ganha a partida e Afonso VI retira-se para Norte.

“O teu aroma tomou-me conta do olfacto

E o teu rosto lindo preencheu meus olhos:

És minha mesmo depois de me deixares

E só por isso me chamam poderoso.”

Poema escrito por Al-Mu’tamid

O relacionamento entre Al-Mu’tamid e Ibn ‘Amar torna-se cada vez mais difícil, possessivo e inclusivamente ofensivo, chegando ao ponto de Ibn ‘Amar compor poemas em que ridicularizava ‘Itimad, a bela mulher do Rei-Poeta, conhecida na corte de Sevilha como Saídat-al-Kubra, a grande senhora, odiada por muitos dos seus juristas e religiosos, prontos a traírem e difamarem  seu nome e o do seu soberano.

“’Itimad, terá sempre, entre todas as mulheres amadas por Al-Mu’tamid, um lugar muito especial e acompanhá-lo-á em todos os transes da sua atribulada existência”.

“Invisível a meus olhos,

Trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito paixão

E lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me

E eu, o indomável, que submisso vou ficando!

Meu desejo é estar contigo sempre

Oxalá se realize tal desejo!

Assegura-me que o juramento que nos une

Nunca a distância o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

E aqui fica escrito no poema: Itimad.”

Poema escrito por Al-Mu’tamid a ‘Itimad

Ibn ‘Amar trai por várias vezes Al-Mu’tamid, que em nome do passado sempre lhe perdoa, mas no final acaba por mandar prendê-lo e, num acesso de raiva, mata-o a golpes de machado na sua cela.

“Perdoa e ganhará o amor

Um outro realce, outra beleza.

É que se punires será o rancor

A tomar mais evidência e mais clareza.

(…)

Perdoa! O que partilhámos me redime.

Nos espaços perfumados de Allah

Apaga os vestígios do meu crime!

Venha da clemência o teu soprar

E tudo enfim desaparecerá.

(…)

Que, se eu morrer, fique contigo

Uma réstia de consolação.

Morrerei mas levarei comigo

A violência toda da minha afeição.”

Poema escrito na prisão por Ibn ‘Amar a Al Mu’tamid

O final do reinado do Rei-Poeta fica marcado pelas ameaças cristãs ao seu reino, que o levam a pedir apoio ao novo soberano de Marrocos, Yussuf Ibn Tachfin, chefe Almorávida e fundador da Cidade de Marraquexe.

A entrada dos Almorávidas na Península é impiedosa, unificando o território sob o seu poder, assassinando todos os reis de taifas, à excepção de Al-Mu’tamid, que é desterrado com a sua mulher ‘Itimad para Aghmat, nos arredores de Marraquexe, onde terminam os seus dias num miserável cativeiro.

“Grilheta, não sabes que já sou teu?

Porque és dura e sem piedade?

Se esse ferro deste sangue já bebeu

E a minha própria carne já mordeu

Não me roas os ossos por maldade.”

Poema escrito por Al-Mu’tamid em Aghmat

Bibliografia

ALVES, Adalberto . “Al-Mu’tamid” . Câmara Municipal de Beja, Beja 1985

ALVES, Adalberto . “O Meu Coração é Árabe . Assírio & Alvim, Lisboa 1987

ALVES, Adalberto . “Al-Mu’tamid Poeta do Destino” .  Assírio & Alvim, Lisboa 1996

ALVES, Adalberto e HADJADJI, Hamdane . “Ibn ‘Ammar Al-Andalusi” . Assírio & Alvim, Lisboa 2000

Comments

  1. sinaizdefumo says:

    Soube desse famoso alentejano por via duma canção de Amina Alaoui. Parabéns pla iniciativa e plo excelente post com fantásticos poemas. Noto muntas rimas, mérito do tradutor?

    • Frederico Mendes Paula says:

      O tradutor é o Dr. Adalberto Alves. Os poemas foram retirados das obras dele referenciadas na bibliografia. Sem querer dar uma opinião sobre a tradução desse Mestre, atrevo-me a dizer que não é fácil traduzir do Árabe para o Português, e que, muito provavelmente, para além da tradução pura e simples existe um trabalho de adaptação/interpretação, que pode originar as tais rimas. Cumprimentos

  2. Excelente! Obrigada pelos links, vou já ver a página do Facebook 😉

    Tenho dois livros de Adalberto Alves. São os dois maravilhosos, mas um deles, “Em busca da Lisboa Árabe”, edição dos CTT, comoveu-me especialmente. Depois de o ler, ficamos sem qualquer dúvida de que o fado tem origem árabe.

  3. Maria Silva says:

    Sobre o Mito do Português em Marrocos, contaram-me :Escapou ao Autor o caso do Major Vidal (finais do séc. XVII) que, nos finais dos anos ’70, tinha (não sei se ainda tem) uma rua em Casablanca, perpendicular à avenida principal, Mohammedia.
    Este Major Vidal foi um aventureiro que, após a Restauração, decidiu ir para Marrocos, recuperar as praças portuguesas.
    Reuniu cerca de 700 aventureiros de toda a parte – e zarpou, desembarcando próximo do que é hoje Casablanca.
    Foi derrotado, como é bem de ver, mas o feito perpetuou-se no imaginário marroquino que, ainda então, o consideravam um herói nacional.
    Uma última coisa: os marroquinos, em geral, odeiam os espanhóis, mas consideram os portugueses seus parentes próximos – e os vizinhos mais estimados.

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