Finanças: instrumento ou ditadura?

No mundo global com que, de acordo com recomendações superiores, temos de nos conformar, a Economia deixou de ser uma ciência social ao serviço das pessoas e passou a ver as pessoas como carne para canhão em nome de conceitos económicos ao serviço do capitalismo selvagem representado por multinacionais e grandes banqueiros. Os governos, submetidos a ditames vários, usam os recursos dos respectivos países para ajudar ao sustento dos poderosos, preferindo entregar dinheiro a bancos e diabolizando os mais fracos, encarados sempre como empecilhos. A Economia, portanto, é apenas um instrumento ao serviço das Finanças (ou da Finança).

Não é possível defender a extinção da Economia, porque está no cerne de qualquer sociedade mesmo que primitiva, mas ignorar em absoluto o contributo dos especialistas ou as especificidades de tantas áreas é criminoso.

Na semana passada, houve reuniões entre técnicos do Ministério das Finanças “com presidentes dos conselhos de administração de alguns hospitais do Porto para discutir questões ligadas à oncologia pediátrica naquelas unidades de saúde.” Segundo parece, não esteve presente nenhum representante do Ministério da Saúde, facto que mereceu alguns comentários do bastonário da Ordem dos Médicos. É um mau sinal dos tempos. Mais um. [Read more…]

Os médicos que matam a esperança

Laura Santos

filme-hijackingCom Capitão Phillips, pensava que iria ter apenas uma “tarde de cinema” para espairecer, com o meu muito apreciado Tom Hanks. Enganei-me.
Como muitos saberão, o filme baseia-se pelo menos no facto real de ter havido pirataria ao largo da Somália. Resumidamente: o navio de carga é assaltado pelos piratas e o nosso capitão Tom Hanks é feito refém.
Os militares americanos acabam por matar os piratas e salvar o capitão, mas ele, depois de uma fase de grande autocontrolo, já se encontra muito abalado, em estado de choque. A bordo do navio militar, uma enfermeira faz-lhe algumas perguntas para ver como reage. No final, repete-lhe, enquanto o deita numa cama: “You’re safe, now, captain, you’re safe!”. Ao ouvir estas palavras, as lágrimas começaram a correr-me pelo rosto. De repente, vi à minha frente a sala de espera do IPO, os rostos de tristeza com que lá me deparei, o rol de ameaças de morte precoce que os médicos me dirigiram, as biopsias que tive de fazer, as tentativas de concretizar o tratamento paliativo que me ofereciam, enquanto esperaria a morte, a necessidade de me aposentar da Universidade por “incapacidade”, as dores fortes que tenho tido por causa da mastectomia funda a que fui submetida, toda esta necessidade de manter o medo sob controlo, num país em que nem sequer tenho a possibilidade de uma morte assistida legal se tudo correr pelo pior. E, de repente, só quis que alguém me deitasse também numa cama para descansar e me dissesse: “You’re safe, now, Laura, you’re safe!”. [Read more…]