Prever os efeitos do sismo

O texto que aqui se apresenta pretende dar a conhecer o estudo realizado para a cidade de Lagos denominado “Risco Sísmico no Centro Histórico de Lagos”, elaborado na sequência da assinatura de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lagos e o Instituto de Ciências da Terra e do Espaço, ao qual se associaram o Centro Europeu de Riscos Urbanos, o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa e a Universidade de Lisboa.

A primeira fase do estudo, coordenado pelo professor Luís Mendes Victor, já se encontra publicada.

Tendo em conta que à data da sua realização, enquanto arquitecto da Câmara Municipal de Lagos, exercia funções na Autarquia como responsável pelo centro histórico da cidade de Lagos, coube-me acompanhar a sua elaboração e promover por diversas vezes a sua divulgação, não só em Lagos, como no âmbito de encontros de carácter nacional e internacional.

Este texto tem por objectivo divulgar o estudo através de uma linguagem acessível para o comum do cidadão, numa perspectiva pedagógica e de sensibilização para o problema, transmitindo a visão de um arquitecto sobre o mesmo, não tendo portanto um carácter de publicação científica.

A elaboração do estudo de Risco Sísmico parte de cinco pressupostos fundamentais.

Um deles é que vivemos numa sociedade de risco e temos que aprender a viver com essa realidade. Ou seja, devemos ter a consciência que a qualquer momento poderá ocorrer um determinado acidente ou catástrofe.

O segundo é que a melhor forma de viver com determinado risco é conhecer os seus mecanismos e prováveis efeitos. Todos os riscos comportam um determinado grau de incerteza e conhecer os mecanismos do risco reduz esse grau de incerteza.

O terceiro pressuposto é que a ocorrência de acidentes pode prever-se em termos de probabilidade. Até há poucos anos era ideia comum que a ocorrência de sismos não se podia prever. Sendo certo que não pode prever-se com exactidão, em termos temporais e de intensidade, a verdade é que pode prever-se em termos de probabilidade.

Outro é que Lagos se situa numa zona com fraca actividade sísmica, mas onde podem ocorrer sismos de grande intensidade. Não é todos os dias que se sente um sismo em Lagos, mas a história mostra-nos que a cidade já foi atingida por sismos que a arrasaram completamente.

O último pressuposto é que conhecer os mecanismos de um sismo e prováveis efeitos que terá no centro histórico de Lagos possibilita a tomada de medidas que minimizem esses efeitos. Ou seja, permite a tomada de medidas que preparem a cidade e a sua população para esse evento e por isso se traduzam na diminuição das suas consequências.

O terramoto de 1755 é a grande referência histórica em termos de ocorrência de sismos em Lagos.

A sua enorme intensidade e a pouca distância existente entre Lagos e o seu epicentro foram determinantes. Não só pelo efeito das ondas sísmicas em si, que provocaram a queda de inúmeros edifícios, mas sobretudo pelo efeito do tsunami que lhe esteve associado, que arrastou para o mar pessoas, víveres e bens.

                                

As cicatrizes do terramoto estão patentes um pouco por toda a cidade e arredores.

O chamado forte da Meia Praia ainda hoje se encontra “traçado ao meio”, conforme relata uma descrição da época, após ter sido atingido pelo violento tsunami.

Em muitos dos edifícios construídos no pós-terramoto é visível a utilização de materiais provenientes de construções arrasadas, sobretudo ao nível de cantarias. Em muitos outros, que não colapsaram completamente, as marcas encontram-se ocultas por detrás de rebocos e outros revestimentos, como por exemplo na coexistência de vários sistemas construtivos em paredes estruturais.

Em escavações arqueológicas realizadas recentemente verificou-se inclusivamente que as cotas da zona mais baixa da cidade subiram cerca de meio metro por efeito dos entulhos provenientes dos edifícios colapsados.

As consequências do terramoto na cidade iriam ter reflexos no seu futuro imediato e estender-se à sua própria estrutura urbana.

Lagos é abandonada pelo governador e deixa de ser capital do Reino do Algarve. A própria população abandona a cidade, refugiando-se num bairro de barracas construído extramuros em torno da Ermida de Santo Amaro.

Lagos ficaria por reconstruir cerca de 100 anos.

O centro religioso e o centro administrativo seriam transferidos das suas localizações originais.

O Estudo de Risco Sísmico começou por inventariar todos os sismos de que há notícia na região de Lagos e atribuiu-lhes uma magnitude. É claro que esta atribuição de magnitude efectuou-se através de um processo de extrapolação de dados, tendo em conta que a escala de Richter só se estabeleceu no ano de 1935 e os registos oficiais de medições de magnitudes só se iniciaram em meados do século passado.

A metodologia foi assim baseada na compilação das descrições das várias épocas, as quais foram posteriormente relacionadas com os parâmetros da escala de Mercalli, escala essa que classifica a intensidade dos sismos pelos efeitos que tiveram no meio em que ocorreram.

As intensidades obtidas na escala de Mercalli foram então transformadas em magnitudes da escala de Richter, escala que determina o nível de energia libertada pelos sismos. Apenas a título de informação, e para que se tenha uma ideia das quantidades de energia que a escala de Richter considera, podemos fazer um paralelo com a explosão de TNT, referindo que o grau 0 corresponde à explosão de 1 quilograma de TNT e que por cada 2 graus esse valor é multiplicado por 1.000. Ou seja, o grau 2 corresponde à explosão de uma tonelada de TNT, o grau 4 de mil toneladas, o grau 6 de um milhão de toneladas, e assim sucessivamente.

Com base no registo das magnitudes elaborou-se um quadro de probabilidades de ocorrência de sismos na região de Lagos, estabelecendo-se as probabilidades de excedência das várias magnitudes de acordo com períodos de 50, 100 ou 200 anos, e qual o período de retorno estimado para cada uma das magnitudes.

Os registos das ocorrências foram também localizados em termos de epicentros, verificando-se que a grande maioria ocorreu no mar, o que deu de imediato indicações sobre a forte probabilidade de existência de tsunami associado a um possível sismo.

A geologia do território em que se implantada a cidade foi estudada, com especial relevo para o sistema de falhas, dando indicações não só sobre áreas de provável amplificação do sinal sísmico e de efeitos de liquefacção de solos, bem como de possíveis localizações de epicentros em terra, informação de grande relevância pelo risco acrescido que essas situações podem acarretar.

Realizaram-se sondagens com geo-radar para a execução de perfis transversais nos antigos leitos de ribeiras, determinando-se as características dos terrenos de aluviões, potenciais áreas de amplificação do sinal sísmico e de ocorrência de fenómenos de liquefacção.

Outra análise efectuada permitiu determinar as frequências de vibração dos solos face às ondas sísmicas, através de registos de ruído sísmico efectuados com um sismógrafo.

Verificou-se uma relação directa entre as frequências, a topografia e a constituição dos solos.

Utilizando o mesmo método, foram medidas as frequências dos edifícios por tipologias.

O cruzamento das frequências do solo com as do edificado é fundamental, já que quando ambas coincidem o risco de colapso do edifício é exponencialmente aumentado pelo facto de entrar em ressonância.

O parque edificado do centro histórico de Lagos foi caracterizado, num universo de 1.444 imóveis, agrupados por tipologias morfológicas e construtivas.

Foram analisados os sistemas construtivos, a sua configuração, altimetria, irregularidades, descontinuidades construtivas, estado de conservação e utilização.

É claro que a condição essencial para que um imóvel resista de forma satisfatória a um sismo é encontrar-se em bom estado de conservação.

A falta de manutenção dos imóveis, aliada à acção de sismos imperceptíveis para os humanos, mas que ocorrem diariamente, vai minando a sua capacidade de resistência estrutural, provocando fissuras, que se vão acentuando por efeito da acção de lavagem das águas das chuvas, degenerando em descolamentos de paredes, seu desaprumo e posterior colapso.

Muitos imóveis tradicionais são fragilizados por meio de intervenções incorrectas, como a abertura de montras em estabelecimentos comerciais ou demolição e redução da espessura de paredes resistentes nos pisos térreos.

As intervenções que aumentam o peso dos imóveis na sua zona superior, como o aumento de pisos ou a substituição das estruturas de madeira das coberturas por lajes de betão armado originam durante a ocorrência de sismos o fenómeno conhecido por “pêndulo invertido”, que como o nome indica, aumenta a amplitude dos seus movimentos laterais.

Outra situação que põe em risco os edifícios tradicionais é a construção de edifícios de betão armado “ombro a ombro”.

De facto, as estruturas de betão armado, mais resistentes e deformáveis, são responsáveis pelos danos causados nos edifícios tradicionais que lhes são adjacentes, através de um efeito de “martelagem”.

Deste estudo saiu uma recomendação no sentido de se deixar sempre um intervalo de 7 centímetros preenchido com um material deformável entre as empenas dos edifícios de betão armado e as empenas dos edifícios de construção tradicional adjacentes.

As intervenções de recuperação de imóveis tradicionais devem assim realizar-se através de soluções compatíveis com as suas características construtivas, preferencialmente com utilização das técnicas originais.

As demolições e remoção de materiais originais devem resumir-se ao estritamente necessário.

Por exemplo, ao nível dos rebocos, só devem ser picadas as zonas degradadas e evitar-se as técnicas que agridem o próprio suporte das paredes, como as “picagens até ao osso”, muito em voga nas décadas de 80 e 90.

A utilização de rebocos de cimento é muito prejudicial à saúde dos imóveis tradicionais, já que absorvem as humidades por capilaridade e retêm-nas entre o reboco e a parede, provocando o aparecimento de fungos e outro tipo de colonização vegetal, que afectam a saúde da própria parede e acabam por provocar o seu descolamento.

Da mesma forma, a introdução de estruturas de betão armado para “reforçar” edifícios tradicionais constitui uma solução que acaba por provocar danos irreparáveis nos imóveis.

Existem soluções que combinam a madeira e o metal que reforçam satisfatoriamente as características estruturais dos edifícios, preservando a sua integridade.

Refira-se que as construções tradicionais reagem geralmente de forma satisfatória às cargas verticais, mas reagem mal aos esforços de tracção, razão pela qual o seu reforço estrutural se baseia sobretudo em soluções de cintagem ou introdução de tirantes.

O Estudo de Risco Sísmico caracterizou a população residente, num total de cerca de 2.500 indivíduos.

Verificou-se que é uma população envelhecida e com um baixo grau de instrução, o que lhe retira grande capacidade de reacção a uma catástrofe como um sismo.

Foi simulado o efeito de um tsunami semelhante ao ocorrido em 1755 na cidade de Lagos.

Pela imagem é visível que grande parte da zona intramuralhas seria inundada.

O estudo retomou uma proposta para criação de um sistema de detecção de tsunamis colocado a Sudoeste do Cabo de S. Vicente, local onde se localizam grande parte dos epicentros de sismos gerados no mar.

Tendo em conta que um tsunami gerado no Banco Marquês de Pombal atingiria a cidade de Lagos em cerca de 15 minutos, a instalação deste sistema só fará sentido com a instalação do correspondente sistema de alerta em terra.

O estudo inclui a estimativa de danos em edifícios para as várias intensidades de sismos, por agregados ou quarteirões, referindo-se a edifícios com danos severos e edifícios colapsados.

Paralelamente foram mapeados os locais onde previsivelmente ocorrerão bloqueios da via pública por efeito de edifícios colapsados.

Este aspecto é fundamental para a determinação dos caminhos de evacuação no âmbito de um plano de emergência.

Foram também estimados os danos na população, em termos de desalojados e mortos, também para as várias intensidades de sismos e por agregados ou quarteirões.

É evidente que a estimativa dos danos na população depende em grande parte da hora do dia em que o sismo ocorre.

No caso de Lagos, cidade turística que triplica a sua população na época estival, os danos não só dependem da hora de ocorrência, mas também da época do ano.

Encontra-se em curso a segunda fase dos estudos, que integra o Plano de Emergência para o Centro Histórico, a implementação de Medidas Preventivas e Preparativas.

Partindo do princípio que a protecção civil somos todos nós, fica a pergunta “sabe o que fazer antes, durante e depois de ocorrer um sismo?”

BIBLIOGRAFIA

MENDES VICTOR, L.A., ed. (2006) – Risco Sísmico Centro Histórico de Lagos. Lisboa: Centro Europeu de Riscos Urbanos (EUR-OPA).

PAULA, RUI M., ed. (1992) – Lagos Evolução Urbana e Património. Lagos: Câmara Municipal de Lagos.

PEREIRA DE SOUSA, F.L., ed. (1919) – O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal e um Estudo Demográfico. Lisboa: Serviços Geológicos.

Ver mais artigos sobre este assunto em Sismos, discussão no Aventar.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Parabéns, Frederico! Magnífico ! Entra directamente na categoria de “Serviço Público Aventar”

  2. Margarida Ramos says:

    Gostei, agora só nos resta esperar!

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