O Mito do Português em Marrocos

Ponte Afoullous

Ponte de Afoullous, Khemisset. foto Mustapha El Qadery

O tema da influência portuguesa em Marrocos ultrapassa em muito os simples testemunhos edificados, assumindo aspectos pouco esclarecidos, por vezes mesmo desconcertantes, mas sobretudo pouco estudados.

Existe uma conotação do português com o inexplicável, com diversos mitos que fazem parte do imaginário marroquino, por razões mais ou menos compreensíveis, às quais não serão alheios os factos de se encontrarem enraizados em comunidades rurais, com base em histórias com origem suficientemente remota para darem largas à imaginação popular, mas de memória suficientemente recente para que os mais idosos as transmitam de geração em geração.

Podemos dizer que o mito do português “L-Bartqiz”, com surpreendentes referências a habitantes portugueses de grutas nos confins do deserto ou nas montanhas mais inacessíveis, a autores de pinturas rupestres em tempos imemoriais, a pontes construídas em locais longínquos que os portugueses nunca ocuparam, a prisões de cativos portugueses e até a uma condessa sedutora com pés de camelo, é tão fascinante para o senso comum marroquino, como o mito das mouras encantadas, dos piratas ou dos tapetes voadores é para o senso comum português. [Read more…]

Concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”

Nos próximos dias 15 de Fevereiro no Teatro São Luiz em Lisboa e 16 de Fevereiro no Teatro Pax Julia em Beja, estreia o concerto “Al Mutamid, Rei Poeta do Al Andalus”, baseado na vida e obra poética de Al Mutamid Ibn Abbad, no seu percurso dramático entre Beja, onde nasceu, Silves, onde se afirmou como o grande expoente da poesia da sua época, Sevilha, onde foi Rei da Taifa Abádida do Al Andalus, e Aghmat, nos arredores de Marraquexe, onde morreu no cativeiro. Um concerto com a direcção artística do arquitecto, realizador e produtor Carlos Gomes, com a direcção musical de Filipe Raposo, compositor e pianista, e que reúne outros músicos de Portugal, Espanha e Marrocos, como Janita Salomé, Eduardo Paniagua, Cezar Carazo, El Arabí Serghini, Jamal Ben Allal e Quiné Teles.

O projecto conta com o apoio da Direcção Geral das Artes e, para além do concerto, existe a intenção de gravar um CD e realizar um filme documentário durante o ano de 2014.

Link da página facebook https://www.facebook.com/almutamidreipoetadoalandalus

Link da iniciativa de crowdfunding do projecto http://ppl.com.pt/pt/prj/almutamidreipoetadoalandalus [Read more…]

A Cidadela de Mazagão

Cisterna 1

A Cisterna Manuelina de Mazagão

“Os nossos lugares em África eram praças de guerra. As suas muralhas conservadas até hoje – na maioria dos casos – atestam a sua solidez. Os seus moradores podiam dormir sossegados. Para as erguer não se pouparam os bons materiais, alguns deles vindos de Portugal, como a pedra de cantaria, a madeira e a cal. Trabalharam nelas os melhores artífices da metrópole e dirigiram-nas os melhores debuxadores e mestres de pedraria do tempo, nacionais ou estrangeiros.” (LOPES, 1989, pág. 41)

Em meados do século XVI estava em marcha um plano de mudança na política portuguesa em relação às praças Norte Africanas. A sua insustentabilidade económica e militar, aliada à perda de valor estratégico que sofrem face ao novo contexto criado com as descobertas na América, Africa e Asia, tornam a sua manutenção nas mãos da coroa portuguesa inviável. Após a queda de Santa Cruz do Cabo Guer em 1541, inicia-se o abandono de algumas das praças, tendo no espaço de nove anos sido evacuadas Safim, Azamor, Arzila, Alcácer-Ceguer e o Castelo de Aguz. No entanto, para além de se manterem as posições estratégicas do estreito, Ceuta e Tânger, a coroa portuguesa decide manter uma presença no chamado Marrocos Amarelo, ordenando a construção de uma grande fortaleza concebida de acordo com os últimos conceitos da arquitectura militar europeia.

Mazagão, considerada a primeira fortaleza da era moderna, onde se puseram em prática as mais avançadas teorias desenvolvidas pelos arquitectos militares italianos do Renascimento, revelar-se-ia um bastião inexpugnável durante os quase 300 anos de permanência portuguesa no local. [Read more…]

Ceuta nos primórdios da ocupação portuguesa

Ceuta 2

Vista de Ceuta a partir da Serra da Ximeira

A conquista de Ceuta em 1415 marca o início da expansão portuguesa em África e tem fortes motivações económicas e de estratégia local. Ceuta era nos inícios do século XV a grande ameaça aos navios portugueses e à costa do Algarve. Ponto estratégico para o domínio da navegação no estreito de Gibraltar, com uma situação geográfica que a tornava facilmente defensável, base da guerra de rapina de corsários e de apoio ao Reino de Granada, Ceuta era principalmente um importante entreposto comercial, que escoava para a Europa as mercadorias que chegavam do Oriente através das caravanas e “o porto da navegação que se fazia entre os dois mares”. (LOPES, 1989, pág. 10)

Para a sua conquista, D. João I utiliza uma armada de 270 navios e cerca de 30.000 homens. O ataque é cuidadosamente planeado e mantido no máximo secretismo, sendo precedido pelo envio de espiões que estudam meticulosamente as suas defesas e determinam os seus pontos fracos. “No dizer do seu cronista, Azurara, seis anos antes já D. João I se ocupava dela; mas seguramente se sabe que se trabalhava para ela desde 1412” (LOPES, 1989, pág. 5). Mas após a conquista a população abandona a cidade, e o bloqueio imposto pelo sultão de Fez inviabiliza o cultivo dos terrenos circundantes e o desvio das rotas comerciais para outros portos provoca o seu declínio.

“Ceuta tornou-se pouco mais do que uma grande e vazia cidade-fortaleza varrida pelo vento, com uma dispendiosa guarnição portuguesa que tinha que ser abastecida continuamente através do mar”. (LOPES, 1989, obra citada) [Read more…]

A batalha de Tânger

Postal antigo do porto de Tânger

Desde que fora conquistada em 1415, Ceuta era um “sumidouro de dinheiro”. Com o bloqueio terrestre imposto pelos marroquinos e abandonada pela sua população, “Ceuta tornou-se pouco mais do que uma grande e vazia cidade-fortaleza varrida pelo vento, com uma dispendiosa guarnição portuguesa que tinha que ser abastecida continuamente através do mar”. (LOPES, 1989, obra citada)

Ao crescente número de vozes que defendiam o seu abandono por Portugal, o Infante D. Henrique, principal defensor da política expansionista portuguesa, contrapunha a ideia da conquista de outras praças no Norte de Marrocos, nomeadamente de Tânger, para criar um enclave de maiores dimensões e prosseguir a expansão além-mar.

A possibilidade de Castela tomar Tânger precipitou os acontecimentos. Mas contrariamente ao que se passara com Ceuta, o ataque a Tânger foi deficientemente planeado e foi descorado o necessário secretismo a uma operação dessa envergadura. Para além disso, não existia uma motivação geral pela expedição, a qual implicava a impopular cobrança de mais impostos no Reino para o seu financiamento e o recrutamento forçado de soldados. O próprio transporte do exército foi resolvido com recurso ao frete de embarcações de carga a Castela e Aragão, não dispondo o país de uma armada preparada para apoiar eficientemente as tropas na batalha. No final, armada que saiu de Portugal era constituída por apenas 8.000 homens, número muito reduzido, tendo em conta que se estimava inicialmente que seriam precisos cerca de 14.000 para a expedição.

A descrição que se segue narra os acontecimentos ocorridos desde a saída das forças portuguesas da praça de Ceuta no dia 27 de Agosto de 1437 até ao seu resgate na praia de Tânger no dia 19 de Outubro do mesmo ano. [Read more…]

O Moussem de Imilchil

O Lago Tislit. autor desconhecido

“Eu sei que este lago será a nossa morada para a eternidade.

Tu verás,
nós vamos viver na morte, já que fomos obrigados a morrer na vida… “

(FLOPSO, 2009, página electrónica citada)

No final de cada Verão tem lugar um acontecimento extraordinário no Planalto dos Lagos, no vale de Assif Melloul, no Alto Atlas marroquino, que reúne as populações da tribo dos Ait Hadiddou numa festa ou “moussem” conhecido como o “Moussem dos Noivados”. Organizado sob a égide de uma antiga lenda tribal, o festival tem uma grande relevância política, económica, social e religiosa para as populações locais.

Política, porque reforça os laços de amizade e de boa vizinhança entre os dois ramos da tribo Ait Hadiddou e entre esta e as várias tribos que consigo constituem a confederação Ait Yafelman. Económica, porque constitui um importante evento ligado à comercialização dos produtos agrícolas, de artesanato e de gado. Social, porque preserva a tradição dos casamentos em grupo, que asseguram a continuidade da linhagem tribal, permitem o casamento das muitas viúvas e divorciadas, asseguram a permanência na região dos elementos mais jovens da sociedade e evitam a consanguinidade num território em que as aldeias se encontram isoladas a maior parte do ano por motivo dos fortes nevões e difíceis acessos. Religiosa, porque dá continuidade à prática do Islão popular, adaptado ao modo de vida das populações berberes semi-nómadas, liberta dos fortes códigos sociais da sociedade Árabe tradicional. [Read more…]

Almançor

Mesquita de Cordoba 13

Interior da Grande Mesquita de Córdoba

No apogeu do Califado Omíada de Córdoba e extensão máxima do território muçulmano na Península Ibérica, governou o Al-Andalus o hajibe Abu Amir Muhammad Ibn Abdullah Ibn Abi Amir, de cognome Al-Mansur, “o vitorioso”, conhecido pelos cristãos pelo nome de Almançor.

Homem extremamente ambicioso, determinado e implacável, político hábil e grande estratega militar, foi senhor absoluto da corte de Córdoba, remetendo o Califa em exercício para um papel de mera figura decorativa. Levou a cabo 57 campanhas militares contra os reinos cristãos do Norte, durante as quais nunca conheceu a derrota, fixando a fronteira ao longo do vale do Douro. Dos seus feitos contam-se os ataques a Barcelona, Santiago de Compostela, León e Pamplona.

A audácia e coragem de Almançor granjearam-lhe um enorme prestígio entre os muçulmanos da sua época e um correspondente temor e ódio por parte dos cristãos, como ilustra uma passagem da Crónica Silense sobre a sua morte:

“Mas, no final, a divina Piedade se compadeceu de tanta ruína e permitiu erguer a cabeça dos cristãos, pois passados doze anos foi morto Almançor na grande cidade de Medinaceli, e o demónio que havia habitado em si foi para os infernos.” (Cronica Silense, in WIKIPEDIA, página electrónica citada) [Read more…]