O Aníbal, a Maria, o Pedro e a Laura

Luís Manuel Cunha

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Há descobertas verdadeiramente surpreendentes. Há dias, li no Público uma reportagem sobre a formação ministrada na Escola Superior de Polícia. Nela se dizia que aos instruendos, futuros oficiais, era obrigatória a leitura de Eça de Queirós (As Farpas) para que, através dele, tivessem uma noção do que é o Portugal de hoje. Fiquei, confesso, estupefacto. Mas compreendo bem a decisão dos responsáveis da Escola. Dizia Eça que o país vivia numa “pobreza geral”. Esta pobreza geral, continua o escritor, produz um aviltamento na dignidade que leva a que todos vivam na dependência. E, desta forma, nunca temos a atitude da nossa consciência, mas sim a atitude do nosso interesse. Ora, o indivíduo assim rebaixado, “tendo perdido a altivez da dignidade e da opinião, habitua-se a dobrar-se (…). Dobra-se sempre. Propõe injustiças e aceita-as” e, por isso, “julga o favor, a protecção, a corrupção, funções naturais e aceitáveis.” Era assim Portugal em 1871. Ontem como hoje. O país cretinizou-se. Tornou-se raquítico, medíocre, inculto, boçal. Basta atentar nas mensagens de Natal de Cavaco Silva e de Passos Coelho.

A mensagem de Natal de Cavaco é um monumento à parolice mais bacoca. Frente à árvore de Natal, os Cavacos – a Maria e o Aníbal. E diz o Aníbal: “O Natal é um momento especial para todos. Ninguém fica indiferente ao Natal”. A frase regista-se pelo que tem de estupidamente inócuo. Mas, como é conhecida a sua fixação por vacas, desejaria talvez ter acrescentado, conforme refere Ricardo Araújo Pereira: “Eu gosto muito do Natal, porque ele dá-nos o leite, a carne e a pele para fazer sapatos”. Enquanto isto, Maria vai concordando, abanando a cabeça. Depois, inverteram-se os papéis. A Maria diz umas coisas melosas sobre a família e sobre aqueles que sofrem. O Aníbal abana com a cabeça. Finalmente, partilham os votos: ela deseja um bom Natal e ele um ano de 2013 “tão bom quanto possível”. Tudo isto se passa no ambiente familiar de Belém, um espaço carregado de simbolismo. Confesso que nunca como neste momento fez tão pouco sentido, para mim, que o Papa tenha afastado de vez do presépio a vaca e o burro.

Por outro lado, a mensagem do grande líder, para além de um português que faria as delícias da palmatória da D.ª Albertina, a minha professora primária, é um exemplo da sportinguização do país. Admite o grande líder não ser este “o Natal que merecíamos”; afirma depois que “há que renunciar de vez, por todos (sic) ao pessimismo que marcou a nossa história recente”, para concluir, aliviado, que “os dias mais felizes e prósperos estão à nossa frente.” Todos os portugueses que o ouviram se tornaram solidariamente verdes e o Sporting transformou-se, num instante, no clube mais triste de Portugal. Como se isto não fora pouco, veio depois em nome do ‘Pedro’ e da ‘Laura’ tratar-me no facebook por ‘amigo’. Como se eu alguma vez quisesse ser amigo de um pulha mentiroso e que, ainda por cima, não sabe estruturar uma frase em português minimamente escorreito! Um aldrabão que, despudoradamente, afirma que “ninguém que esteve presente nos piores momentos da crise será deixado para trás nos anos de oportunidade que temos pela frente”. Como se não estivessem irremediavelmente para trás os pensionistas, os reformados ou os desempregados de meia idade. Como será possível ser ‘amigo’ de uma “besta” assim?! Ou de um trambolho chamado ‘Laura’?! Não. Os meus amigos são outros. E são os melhores do mundo. Sempre. E ainda sou eu quem os escolhe. E assim há-de continuar a ser.

Conta-se que quando Moisés desceu da montanha depois de receber os mandamentos de Deus, encarou o povo que o esperava e disse-lhes: “A boa notícia é que os mandamentos são só dez; a má notícia é que a proibição do adultério é um deles.” A boa notícia, agora, é que 2012, que era o ano mais negro de todo o mandato, chegou ao fim. A má notícia é que o calvário prosseguirá ao longo de 2013.

E pronto. Ele aí está. 2013. E o leitor, ao consultar o seu twitter ou o seu facebook lá verá, como refere Miguel Sousa Tavares, que “a Laura e o Pedro vão garantir que 2013, perdão, 2014, ou melhor, 2015, vai ser um ano de retoma, depois do sucesso do processo de ajustamento. E o Aníbal vai recordar que já tinha avisado que, a seguir a 2012, vinha 2013”. E o leitor dirá então de si para si: “Estou fodido”. Pode crer. É que está mesmo. Irremediavelmente fodido. E o que mais custa é sê-lo por gente como esta.

P.S.: Artur Batista da Silva é um burlão. Pôs jornalistas e políticos a babarem-se com a sua retórica analítica. Pergunta-se: que diferença existe entre este burlão mediático e outros encartados comentadores como Marcelo Rebelo de Sousa ou Marques Mendes? Nenhuma. O que não deixa de ser perturbador.

in Jornal de Barcelos de 03 de Janeiro de 2013.

Comments

  1. JotaB says:

    “Não não… O coelhinho veio com o pai natal e o palhaço no comboio ao circo”

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