Das madrinhas

Houve tempos em que um comércio – e mesmo indústria – de proximidade nos permitia o acesso a bens através de um consumo personalizado, uma escolha pessoal. Podíamos apalpar – honi soit…-, cheirar – idem…-, provar – então?…- tudo. Roupa, fruta, livros, discos, alimentos vários, tudo nos passava pelos sentidos e pelo sentido. E não era preciso ir muito longe. Era logo ali na loja. Cada um adquiria o que queria e podia. E o que comprava era seu e pago ao vivo por cada um – ou fiado, que também era coisa personalizada. O mesmo se passava com as madrinhas: cada um tinha a sua. Claro que, como todos sabemos, as madrinhas podem ser de baptismo, de casamento – religioso ou civil, tendo neste caso o nome menos poético de testemunhas – de crisma, de guerra e tudo o mais. Há, até, para cada um de nós, uma fada madrinha. 

Mas agora estamos no tempo das grandes superfícies, do granel, das compras à distância. Das marcas brancas, do streaming. Da partilha digital, da rede, da nuvem. 

Ora, é neste contexto que o presidente Marcelo resolveu proporcionar a todos os portugueses uma madrinha partilhada. Com a qual tenhamos uma relação ainda mais distante do que a que temos com a Amazon. E em regime de monopólio, diriam maldosamente os comunistas. Portanto, afilhados de Maria (Cavaco), rejubilai! [Read more…]

Quem tem Joana Vasconcelos não precisa de photoshop

Inauguração da exposição de Joana Vasconcelos, no Palácio da Ajuda, ontem.

(Fonte: Presidência da República)

O Aníbal, a Maria, o Pedro e a Laura

Luís Manuel Cunha

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Há descobertas verdadeiramente surpreendentes. Há dias, li no Público uma reportagem sobre a formação ministrada na Escola Superior de Polícia. Nela se dizia que aos instruendos, futuros oficiais, era obrigatória a leitura de Eça de Queirós (As Farpas) para que, através dele, tivessem uma noção do que é o Portugal de hoje. Fiquei, confesso, estupefacto. Mas compreendo bem a decisão dos responsáveis da Escola. Dizia Eça que o país vivia numa “pobreza geral”. Esta pobreza geral, continua o escritor, produz um aviltamento na dignidade que leva a que todos vivam na dependência. E, desta forma, nunca temos a atitude da nossa consciência, mas sim a atitude do nosso interesse. Ora, o indivíduo assim rebaixado, “tendo perdido a altivez da dignidade e da opinião, habitua-se a dobrar-se (…). Dobra-se sempre. Propõe injustiças e aceita-as” e, por isso, “julga o favor, a protecção, a corrupção, funções naturais e aceitáveis.” Era assim Portugal em 1871. Ontem como hoje. O país cretinizou-se. Tornou-se raquítico, medíocre, inculto, boçal. Basta atentar nas mensagens de Natal de Cavaco Silva e de Passos Coelho. [Read more…]

Um rabo yankee e um gelado lusitano

Hoje é um daqueles dias em que cintilantemente brilha o madamismo presidencial. Prevendo-se a reeleição do portentoso e willendorfense rabo da Senhora Dona Michelle Obama – segundo a nossa gauche caviar, a mulher mais elegante do mundo ! -, resta-nos olhar para paragens mais próximas. Não é que a página da “presidência da República Portuguesa” já apresenta um crest dedicado à perpetuação da memória da Senhora de Cavaco Silva? Pois é, aqui temos um belo exemplar da heráldica republicana, mas nem com toda a boa vontade deste mundo e arredores, se poderá dizer ser capaz de remotamente ofuscar aquele outro que a representante da Monarquia ostenta.

Vendo as coisas como elas são, o pouco imaginativo designer limitou-se a seguir o exemplo dos gelados Olá! Tudo “nos conformes”, claro…

Para o Natal, queria Cavaco com a boca cheia de bolo-rei

O Natal enternece-me tanto quanto me irrita.

Mesmo já não sendo católico, não deixo de ser cristão em muita coisa e viverei sempre marcado pelo presépio, pela imagem do menino ameaçado por um Herodes que faz parte da minha particular galeria de vilões, na eterna história edificante em que os fracos acabam por derrotar os mais fortes.

Mesmo quando era católico, já me irritava o Natal enquanto pequeno intervalo em que as pessoas se permitiam o exercício da bondade, depois de terem dado o pior que tinham e antes de o retomarem, já purificadas por uma esmola maior e saciadas de bolo-rei. O Natal é, afinal, um Carnaval em que nos disfarçamos de boas pessoas.

A minha embirração particular com Cavaco Silva não se limita ao facto de ser um homem de direita, dado que nunca foi suficiente nem necessário para que outra pessoa me suscitasse tal sentimento tão humano e tão pouco natalício.

Este ano, com o cabotinismo que caracteriza o casal Silva, o Presidente e sua esposa, voltam a incomodar-me com a mensagem de boas festas, terminando com “E um ano de 2012 tão bom quanto possível”, especialmente irónico quando é dito por alguém que ficará na história por ter desconfiado de escutas e por ter preocupações com vírgulas no Estatuto dos Açores, enquanto apoiava o empobrecimento dos portugueses.

O vídeo que se segue – um clássico – ilustra o único momento em que a figura presidencial foi eloquente. [Read more…]

“Cavas” em grande

É um fartote! Uma viagem até aos colorados e sai-nos uma comitiva destas. Leiam os comentários dos leitores do i, valem mesmo a pena. Realmente, ou melhor dizendo, “presidencialmente”, os famosos sacrífícios são para alguns. Ainda me lembro da chegada de Carlos e Camila a Lisboa. Chovia a cântaros e o casal britânico empunhava os respectivos guarda-chuvas, enquanto os nossos “mandarins” Aníbal e Maria, tinham serviçais que faziam o excelso frete de os proteger da enxurrada. Enfim, coisas da pequeno-burguesa república ainda portuguesa.

Caramba, se pelo menos nesta Cimeira, o homem ousasse dizer um “porque no te callas?!” Impossível, até porque estar calado é o seu “viver habitualmente”, como dantes se usava dizer.

“Falconando” à hora

Na última e quase escabrosa viagem aos Açores, observámos o sempre reservado Prof. Cavaco Silva cair às “mãos de César na vilória às moscas”, mas nem por isso deixando de posar diante diante do Falcon que lhe serviu de taxi. Vendo as coisas como elas são, a ora dos “sacrifícios e coragem para todos”, pouco ou nada tem a ver com Belém. Como se não existisse uma SATA ou uma TAP que transporte as excelências para aquela (ainda) parcela do território nacional, optam sempre por um brinquedo que custa milhares contos à hora? E para os “saltos” inter-ilhas, claro que não  se dispõem a fazê-lo a bordo de um reles  helicóptero da Força Aérea. Típico de gente chique e mal habituada.

Há uns bons anos, a Rainha Isabel II mandou definitivamente atracar o iate Britannia, numa necessária contenção de gastos e adequação aos “novos tempos difíceis para todos”. Nem sequer também valerá a pena perdermos muito com a “forreta” Rainha Sofia, obcecada viajante em low-cost. Por cá, nada se aprendeu ou esqueceu, pois ainda há uns meses e apesar da outra desastrosa visita a Praga – Falcon, limusinas e depois, um C-130 para a “pessoal menor” -, continua-se na mesma.

Quem quer repúblicas que as pague, até dá vontade de dizer, não? Mas atenção, há cada vez menos gente que está “para esse número”.