Paga o que deves, Passos Coelho!

moedasHá uns anos, o grupo de eternos rapazes de que eu fazia parte detinha, como qualquer grupo de eternos rapazes, um conjunto de frases constantemente repetidas conforme as circunstâncias. Como é típico dos eternos rapazes ou de qualquer grupo proprietário de private jokes, cada uma dessas frases era razão para sorrisos cúmplices (ou para gargalhadas desbragadas, se o consumo de álcool já fosse suficiente para que tudo tivesse imensa piada).

Uma das actividades favoritas desta minha irmandade era o extraordinário jogo da moedinha, essa modalidade amiga dos donos de cafés e propiciadora de humilhações rituais, coisa bastante saudável entre amigos. Tendo em conta que a derrota implicava o pagamento da despesa que estivesse em cima da mesa, havia um certa tendência para ligeiras desonestidades que, de tão evidentes, eram quase sempre descobertas ou reveladas. Era então que o pequeno criminoso proferia, com um contragosto cabotino, uma frase com tanto de ética como de gramática: “Se passasse, passasse…”

Nada disto, à distância de vários anos, me parece mal. Antes pelo contrário: a alienação momentânea e o alegre disparatar são tão necessários como o profissionalismo e competência, desde que sejam praticados em horários diferentes

Recentemente, dei por mim a pensar que o país é governado por um grupo de eternos rapazes, o que não seria grave se não se comportassem na governação como a comandita com que eu alinhava no jogo da moedinha. Na verdade, este mesmo governo anda, há três anos, a produzir diplomas inconstitucionais, pensando qualquer coisa como “Se passasse, passasse…”

Não é bonito um governo comportar-se como um bando de malandrecos etilizados. Felizmente, graças ao Tribunal Constitucional, o mesmo governo foi obrigado a repor uma pequena parte do que anda a roubar há três anos. No caso de muitos trabalhadores da Função Pública, como é o meu caso, hoje soube duplamente bem olhar para o saldo da conta bancária, com subsídio de férias incluído (recomendo, bastante a propósito, a leitura de um texto do Pedro Santos Guerreiro). É por isso que não consigo evitar a mesma reacção que tínhamos naqueles tempos despreocupados: no momento em que algum desgraçado perdia a final da moedinha, surgia um grito comum – “Paga o que deves!”

(Confesso que o grito incluía um vocativo como “filho da puta”, mas esse é um tratamento que reservávamos a amigos e pessoas por quem tivéssemos consideração, pelo que o seu uso não se justifica neste caso.)

Comments


  1. welcome back. Continuas em forma 🙂

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.