Reabrir as escolas: um mal desnecessário

Entre os entusiastas que passaram a acreditar que este momento de excepção até poderia passar a ser regra e os que defendiam que deveríamos ficar quietos sem fazer nada, a comunidade educativa foi conseguindo o possível, não sem problemas, nunca sem defeitos e com algumas virtudes. Problemas, defeitos e virtudes, todos aprofundados, curiosamente.

Neste momento, a proximidade social ainda acarreta demasiados riscos. Ainda assim, com muita prudência, será possível ir (re)pondo a economia a funcionar. Calculo que, na medida do possível, muitos profissionais irão manter o teletrabalho, minimizando riscos.

A reabertura das escolas só deveria acontecer se fosse absolutamente indispensável e há muitas razões para considerar que não é, mesmo nesta versão minimalista de limitar o acesso aos alunos com disciplina de exame. Por muitos cuidados que se tomem, o risco de propagação aumenta. Além disso, este regresso forçado resulta de um problema que continua por resolver: a subordinação do ensino básico e secundário à Universidade, devido a um sistema de acesso ao Ensino Superior que tarda em ser alterado.

O documento emanado do Ministério da Educação serve para demonstrar, mais uma vez, que se trata de uma instituição governada por pessoas fechadas em gabinetes que não sabem e não querem saber o que é a vida de uma escola, dando ordens que poderão ser difíceis ou impossíveis de cumprir. Seria o momento ideal para que encarregados de educação e/ou directores tomassem posições conjuntas, à semelhança do que já aconteceu com a Escola Secundária Camões.

Aqui ficam algumas leituras: [Read more…]

Obrigado aos Professores

Ninguém estava à espera de uma pandemia, mas ela chegou e tivemos de reagir. Os estudantes e os professores não são exceção. Por um lado, os professores tiveram de se adaptar a maneiras de ensinar que nunca tinham testado. Do outro, alunos tiveram de mudar radicalmente o modo de aprender. Em semanas, passaram de salas de aula para um ecrã. A situação já não é fácil para ninguém, mas ainda ficou mais difícil com as soluções arranjadas. Com o prosseguimento das aulas, ficaram alunos para trás. Tanto os que têm computador como aqueles que têm e não se sentem confortáveis a aprender assim. Sim, porque nenhum aluno (ou professor) aceitou, em qualquer altura, ter aulas por vídeo-chamada. Logo, qualquer aluno que tenha mais dificuldades em aulas deste género está prejudicado.

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Educação: proximidade à distância

[Rui Correia]

Tenho andado um bocadinho apreensivo com a utilização que vai sendo feita das videoconferências com alunos.

Estamos a atravessar um momento que representa uma grande oportunidade para colocar em prática aquilo que uns chamam Aprendizagem ou Pedagogia Diferenciada e outros chamam outras coisas, mas que significam a mesma preocupação:

a cada miúdo uma atenção especial. Particular. Única como ele.

Porque a aprendizagem remota pode aproximar-nos, muito humanamente, uns aos outros.

Há professores a dividir as suas turmas em grupos, multiplicando as videoconferências e a sua carga de trabalho, para poder dedicar mais tempo a cada aluno.

Aplaudo sonoramente essa dedicação e profissionalismo.

A ideia de replicar um modelo magistral, unidireccional, de ensino por videoconferência, ou seja, circunstâncias em que um fala e os outros escutam é, per se, uma prática pedagogicamente muito limitada e mortalmente aborrecida. Não deve ser repetida agora em vídeo.

A utilidade de uma aula não se mede por tudo quanto um professor faz, mas por tudo quanto os seus alunos produzem. [Read more…]

Telegrama aberto à comunidade educativa

Em primeiro lugar, e respeitando algum corporativismo, escrevo aos meus estimados colegas que estejam obcecados em inundar os alunos com trabalhos para casa. Nestes tempos extraordinários, os alunos e as famílias precisam, também, de paz, de alívio para a tensão. Manter os alunos activos faz sentido, mas é preciso não exagerar. As vossas intenções serão as melhores, mas é dessas intenções que o inferno se alimenta. É preciso lembrarmo-nos, ainda, de que há muitos alunos com poucas ou nenhumas condições de trabalho em casa, porque um computador é um luxo.

Há uma razoável quantidade de idiotas que afirma que os professores não trabalham. Um idiota nunca aprenderá por muito que se lhe explique. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha por causa de uma razoável quantidade de idiotas. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha, porque isso é idiota. Vale a pena trabalhar, o que implica, no contexto actual, uma série de decisões que podem ir no sentido de aliviar o trabalho dos alunos. [Read more…]

Deram um ministério ao Tiago

Tenho aversão ao egotismo, ao bairrismo, ao nacionalismo, ao clubismo, ao corporativismo e a outros –ismos que levam as pessoas a declarar que são superiores ou que pertencem a grupos e instituições superiores. Penso sempre que estes –istas estão a milímetros de defender que pertencem a uma raça superior, o que me faz lembrar campos de concentração e outras coisas prejudiciais à saúde.

Quando, finalmente, se tomou a decisão de permitir que não houvesse aulas, o alegado ministro da Educação apareceu, com voz grossa, a afirmar que ninguém estava de férias e que os funcionários docentes e não docentes iriam ter de continuar a apresentar-se nas escolas, sempre que fosse necessário.

Acontece que a maioria dos funcionários docentes e não docentes já anda nas escolas há muito mais tempo do que Tiago Brandão Rodrigues, o alegado ministro. Tiago, aliás, parece um daqueles meninos ricos a quem os pais compravam uma bola das mais caras e ficava convencido de que sabia jogar futebol. Deram-lhe um ministério e acredita que passou a perceber do assunto. [Read more…]

Há quem confunda interdisciplinaridade com a Feira de Beja

Não é o caso de António Carlos Cortez: Quem deve leccionar Português? Um contributo

Ainda o Prós e Contras sobre violência na escola

Republica-se aqui a resposta que o Rui Correia deu a um texto publicado na Visão: Testemunho de uma professora: o rei vai nu.

 [Rui Correia]

O professor do ano disse no prós e contras da rtp que nunca mandou nenhum aluno para a rua, em trinta anos de aulas. Ora, esse professor sou eu. E esse professor, quer se queira, quer não se queira, nunca mandou nenhum aluno para a rua. O alvoroço provocado em algumas pessoas, e a que esta revista deu espaço, por ter tido o topete de confessar publicamente um dado que para mim é “concreto e definido, como outra coisa qualquer” da minha vida profissional, gerou em mim uma atenção que não esperava. O programa era sobre violência na escola. E foi-o realmente, com dois colegas que haviam sido agredidos a expor-se publicamente, o que para mim, que os não conhecia, revelou uma amplitude de alma e nobreza de carácter que nem sei como enaltecer devidamente. Misturou-se em vários momentos , entretanto, alhos e bugalhos, indisciplina, faltas de educação, violência, enfim, o normal em situações onde se abordam temas com tanta capilaridade semântica como, de resto, havia sido abertamente expresso no princípio do programa.

Percebendo, com o decorrer das intervenções, que se estava a estabelecer uma espécie de percepção a preto e branco pela qual os professores são meros mártires nas mãos de garotelhos delinquentes e violentos que, todo o professor o sabe, se passeiam, imperturbáveis, por muitas escolas deste país, tornou-se-me poderoso o imperativo de nunca admitir ceder esse poder a esses mesmos fedelhos e contribuir dessa forma clássica para a irrisão da autoridade do professor, da escola, da cultura.

Acredito, como muitos outros professores que, no momento em que baixemos essa guarda, toda a indulgente autoridade da escola e da cultura se desvanecem. Docentes e não docentes não podem deixar-se cair na armadilha da prédica do desgraçado. E protestar a sua “dignidade” não passa por exorbitar realidades nem por esconder o óbvio, pelo simples facto de que a violência acontece. E isto nunca irá significar, arengue-se o que se quiser, uma qualquer reserva na afirmação da náusea que todos sentimos por qualquer acto violento dentro ou fora do espaço escolar e a total e inequívoca solidariedade por todos quantos dela amargam. [Read more…]

As mentiras da propaganda contra a retenção

Voltámos Às Contas De Merceeiro Do Antigamente

Directo a si, dr. António Costa!

[Santana Castilho]*

Na Educação, o ambiente é de profundo mal-estar e o programa do novo Governo não conseguiu atribuir-lhe qualquer réstia de esperança. Outrossim, acentua a onda de “planos”, “projectos” e “estratégias”, para picar os miolos aos professores. Antes de Maria de Lurdes Rodrigues, todos sabiam exactamente o que fazer. Os chefes eram menos e as escolas funcionavam. Depois cresceram os chefes. E consigo, dr. António Costa, cresceu a desorientação e o deslumbramento com as pedagogias sem sentido. E cresceram as siglas “eruditas” para denominar inúteis organismos, projectos, plataformas e planos. Veja estas, dr. António Costa (e não são todas), criadas pelas suas luminárias da modernidade: ACES, ACCRO, AERBP, AIRO, CAA, CAF, CD, CEB, CP, CPCJ, CRI, CT, DAC, DEE, DT, EE, EECE, EFA, ELT, EMAI, EO, ESAD, JNE, ME, PAA, PASEO, PE, PEI, PES, PHDA, PIT, PL2, RTP, SPO, UFC e ULS. Não lhe chegavam? Enxergue-se, dr. António Costa!

O dr. António Costa deu campo aberto ao narcisismo político dos seus prosélitos. Mas nunca promoveu um trabalho sério para apurar o que pensa a esmagadora maioria dos professores de sala de aula sobre um conjunto de temas-chave, que permitiriam reformar com solidez o sistema de ensino. Por isso, não me espanta que tenha perdido totalmente o pudor, proibindo as reprovações no Ensino Básico. Não me espanta, dr. António Costa, que a decisão política em Educação continue assente no desconhecimento da realidade e no oportunismo político das madraças da flexibilidade e da inclusão, criadas para pastorear incautos e transformar velharias falhadas em tendências pedagógicas novas. [Read more…]

Promoção a bons preços!!!

Tem 3.300 euros? Pode bater num professor! Aproveite já!

A hipocrisia e os “chumbos”

O problema mais importante em Educação é o de se saber se os alunos aprendem. É fundamental que o próprio aluno, antes de todos, saiba se aprendeu. Essa percepção alcança-se através da avaliação, que não é exactamente o mesmo que classificação. Um dos meios que está ao alcance da compreensão é a possibilidade de obrigar o aluno a repetir o ano, aquilo a que a tradição chamou “chumbo”.

Não é obrigatório que seja assim e é verdade que o dito “chumbo” não é garantia de que, no futuro, haja melhoria, embora, verdade seja dita, a diabolização absoluta e pública da reprovação por parte de gente com responsabilidades tem levado, em boa parte, a que muitos estudantes e encarregados de educação só consigam ver a retenção como um castigo inútil, quando poderia ser uma oportunidade de redenção, por assim dizer.

É possível, no entanto, abolir o “chumbo”, desde que sejam criadas condições para um verdadeiro acompanhamento dos alunos com mais dificuldades. [Read more…]

As refeições escolares e a autonomia

Há alguns anos, escrevi sobre o processo de desumanização das escolas que prossegue o seu curso. Entre outros aspectos, fazia referência à importância de que as refeições escolares fossem cozinhadas nos estabelecimentos de ensino.

Através de um texto do Paulo Guinote, cheguei a esta notícia: Escola transforma cantina no “melhor restaurante da região”. Todos os que tiveram a sorte de comer em cantinas escolares antes de serem entregues a empresas têm memórias da qualidade da comida, sendo que essa qualidade era indissociável da proximidade que criava uma impressão de algo caseiro.

Entretanto, a maioria PS/PSD/CDS vai fazendo o seu trabalho de entregar paulatinamente as escolas às autarquias, o que constitui uma negociata política para deixar o Ensino nas mãos dos muitos caciques que estão à frente das câmaras. O processo só ainda não está mais avançado, porque as câmaras querem mais dinheirinho.

O argumento usado para vender as escolas aos presidentes das câmaras assenta na ideia de que isso trará mais autonomia às escolas, o que é mentira. A palavra “autonomia” está, aliás, sempre na boca dos responsáveis políticos, mas a verdade é que nunca existiu. A municipalização será mais uma maneira de não dar autonomia às escolas, trazendo para o seu interior o compadrio e a politiquice.

Mesmo que o retrato das autarquias portuguesas pudesse ser mais simpático e mesmo que o Ministério da Educação funcionasse, a autonomia das escolas não deveria ser uma expressão vã. A qualidade da comida é mais um sinal.

A vida das escolas poderá melhorar a partir do momento em que isso seja uma causa importante para os cidadãos e não apenas uma preocupação dos funcionários docentes e não docentes.

Como nota final e desencantada, os textos da minha autoria para que remeto mais acima têm sete anos e a minha opinião é a mesma.

Onde estamos? Para onde vamos?

[Santana Castilho*]

Apesar da sombra de Sócrates, apesar do nepotismo que promoveu e consentiu, apesar dos incêndios e de Tancos, apesar da degradação dos serviços públicos, apesar do aumento da dívida pública, António Costa ganhou as eleições, marcadas pela mais alta taxa de abstenção da nossa democracia, que expressa um preocupante alheamento cívico e um preocupante abismo entre representantes e representados. Vale a pena, a este propósito, olhar para os números eleitorais (ainda que não definitivos, mas onde o erro será só por excesso), sob um outro ângulo: nos cadernos eleitorais estavam recenseados 10.810.662 cidadãos; não foram votar 4.918.851; 129.500 votos foram brancos e 88.500 nulos; dos 5.673.811 votos válidos, o PS registou a seu favor 36,65% (2.079.452). Mas foram apenas 19,23% dos portugueses que podiam votar que escolheram o PS e, por extensão, António Costa. Feito o mesmo exercício para os restantes partidos, os números são ainda mais expressivos, a pedir atenção demorada para o seu significado. [Read more…]

Escolas de Primeira e de Segunda

Um texto do Paulo Prudêncio.

Falta de professores ou a vida dos milionários

Esta chamada está na primeira página do Expresso de hoje e é suficiente para se perceber que deixar os mercados à solta serve para encarecer bens de primeira necessidade como a habitação, que a única política educativa do país consiste em poupar dinheiro à custa dos alunos e que os professores contratados vivem, na verdade, com salários tão miseráveis que não podem pagar alojamentos a preços ditados pelos mercados à solta (aproveitamos para lembrar que os professores não recebem subsídios de deslocação ou de alojamento, ao contrário dos deputados, por exemplo).

Com uma Assembleia da República submetida ao Partido alegadamente Socialista, estas situações irão continuar, porque o PSD, o CDS, o FMI e o que resta da União Europeia não querem saber. Os partidos de esquerda pouco fizeram durante quatro anos e estão dispensados por António Costa. De resto, a maioria dos cidadãos portugueses também não quer saber. Por outro lado, os sindicatos não se sentem lá muito bem.

A verdade sobre os salários e a carreira dos professores

O Paulo Guinote explica. Só não sabe quem não quiser saber: O salário dos professores: fact-checking

Uma espécie de balanço: vitórias do Ministério, derrotas da Educação

Agora que estamos a chegar ao fim de mais uma legislatura, fica aqui uma espécie de balanço da actividade desenvolvida pela actual equipa do Ministério da Educação. Vai em forma de lista, tudo muito simples e muito longe de esgotar o assunto.

O Ministério da Educação conseguiu

  • manter o congelamento salarial dos professores devido ao roubo dos anos de serviço;
  • reforçar a impossibilidade de progressão na carreira para a maioria dos professores, devido a uma falsa avaliação do desempenho;

  • não contribuir para a renovação da classe docente, preparando um futuro em que, tal como já aconteceu, o sistema será obrigado a recrutar pessoas sem formação para leccionar;

  • não reavivar a formação contínua, limitada a acções de doutrinamento, ao mesmo tempo que dificulta a actualização científica dos docentes, o que, de resto, é natural, porque o conhecimento científico é uma variável desprezada;

  • inundar as escolas de medidas novas espampanantes e vazias, cheias de nomes inatacáveis como flexibilidade e inclusão;

  • não resolver o problema da oferta de disciplinas de opções, ao manter a obrigatoriedade de inscrição de número mínimo de alunos para abrir disciplina, ajudando ao empobrecimento curricular;

  • fingir que resolveu o problema do número de alunos por turma, limitando-se a uma diminuição diminuta, o que vai contra o paleio da flexibilidade, da inclusão ou do ensino individualizado;

  • não aumentar o crédito de horas para apoios nas escolas, o que vai contra o paleio acima referido;

  • não modificar ou sequer pensar em modificar o sistema acesso ao Ensino Superior,  servindo, desse modo, os interesses dos colégios que preparam os alunos para entrar na Universidade, o que é diferente de preparar os alunos para a Universidade;

  • deixar tudo como estava no que se refere à presença – ou seja, carência –  de psicólogos nas escolas;

  • fingir que ia resolver o problema da falta de funcionários não-docentes nas escolas, mantendo tudo na mesma, graças ao anúncio de um concurso, que é diferente de um concurso;

Em síntese, o trabalho realizado por todos os que estão nas escolas só pode ser extraordinariamente meritório, tendo em conta que a tutela só serve para atrapalhar. Por outro lado, se nada há a esperar do Ministério, seria bom que a sociedade toda reflectisse sobre a verdadeira importância que dá à Educação, com realce para professores e sindicatos, que andam muitas vezes por maus caminhos ou por caminhos demasiado batidos. [Read more…]

No meio é que está a dificuldade

De um lado, estão os descendentes directos e indirectos de uma longa linhagem de gente demasiado preocupada com a sexualidade alheia, escandalizada com a natureza dos outros, desejosos de impor ideias e ideologias, limitados a uma imagem única de família, como se o amor fosse só um. Algumas instituições, como a Igreja Católica, estão deste lado, dispostas a aceitar, por exemplo, a homossexualidade, desde que fique quieta, calada e até heterossexualmente casada, se for necessário.

Durante milénios, todos os que a Natureza afastou de qualquer norma foram, na melhor das hipóteses, criticados. Além disso, havia e há outros costumes como torturar, matar ou curar. Alan Turing foi alvo de um tratamento há menos de um século.

Do outro lado, estão os descendentes dos oprimidos, ainda doridos daquilo que lhes foi ou está a ser feito, ainda revoltados pela violência de que foram alvo. Como acontece tantas vezes com as vítimas, a reacção acaba por ser exagerada. Enquanto os primeiros anseiam pelo silêncio, do lado destes há barulho e exibicionismo, há, por vezes, uma outra religião em que as procissões são substituídas por paradas do orgulho gay ou pela imposição do acto de sair do armário, como se alguém devesse ser obrigado a confessar as suas preferências sexuais, gastronómicas ou outras. [Read more…]

Para os professores, com estima

[Santana Castilho*]

Não vejam nostalgia (embora por vezes vá parecer). Vejam o galope (que a escrita não traduz) a que o meu cérebro põe o meu coração, quando pensa no ano penoso que se inicia para tantos professores.

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O ministro revisteiro

«A direita está tão à rasca que acabou por agarrar-se às casas de banho.» – Tiago Brandão Rodrigues

Motoristas e professores

[Santana Castilho]*
  1. Independentemente de todas as considerações colaterais possíveis, é politicamente desonesto não reconhecer a greve como um instrumento essencial para o equilíbrio de forças entre trabalho e capital. Assim foi no último século. Não sei se assim será no futuro, mas sei que não foi assim nesta legislatura. Não foi só agora que o Governo deixou de ser árbitro para ser parte, no que ao diálogo social se refere: recordo os atropelos que cometeu para anular a greve dos professores, a linguagem lamentável do primeiro-ministro quando se referiu aos enfermeiros e à sua greve, a legislação laboral que aprovou sem prévia negociação com os parceiros sociais ou a chantagem que exerceu para conseguir acordos de concertação, preordenados para favorecer os patrões.
    O papel de um Governo democrático não é impedir que o direito à greve seja exercido, sob pretexto de garantir (como também deve garantir) a satisfação de necessidades fundamentais dos cidadãos. Arbitrar esta dialética é difícil mas exigível a um Governo de esquerda. Mandar tocar a corneta é mais fácil, mas apanágio do autoritarismo estatal que comummente caracteriza a direita.
    Os motoristas que transportam matérias perigosas têm 630 euros de salário-base. Com as horas extraordinárias, este valor pode duplicar. Mas, para tal, sujeitam-se a um horário semanal que ronda as 60 horas, quase o dobro do horário da função pública. O trabalho destes motoristas é crítico na cadeia de valor das petrolíferas, de lucros altíssimos, e volta a ser crítico para o funcionamento de toda a economia. Se são mal pagos em termos absolutos, quando estabelecemos a proporção entre o valor do seu trabalho e a renda do negócio para que trabalham, são miseravelmente explorados. Apesar disto, ficaram isolados contra o resto do país. [Read more…]

A Educação e os contabilistóides

Segundo parece, em Touguinhó, no concelho de Vila do Conde, os oito alunos inscritos no primeiro ano do Primeiro Ciclo (primeira classe do Ensino Primário, para os menos informados) terão de se juntar aos alunos dos segundo e terceiro anos da mesma escola, o que fará com que, na mesma sala, haja três níveis diferentes.

Para que pudesse haver uma turma de primeiro ano, teria de haver um total de 19 alunos. Os pais estão compreensivelmente preocupados com a situação.

Desde 2005, graças à mentalidade contabilistóide que tomou conta do mundo, a Educação tem sido alvo de um conjunto de medidas que, através da política do facto consumado, serviram para dificultar a vida das escolas, sem que os cidadãos se preocupem verdadeiramente com o assunto. O cidadão, mais propriamente o portuguesinho, fica satisfeito se os professores forem pisados, até porque não passam de inúteis em greve permanente.

Ter na mesma sala de aula alunos de níveis diferentes só cabe na cabeça de gente que não considera a Educação uma área fundamental. Não deveria haver a possibilidade de haver sequer dois níveis, quanto mais três, como estará prestes a acontecer em Touguinhó, o que nem sequer deverá ser caso único. [Read more…]

As promessas e as realidades escondidas

[Santana Castilho*]

Ponto prévio: estamos melhor ou pior do que estávamos em 2015? Genericamente melhor. Mas seria admissível outro cenário, depois de um governo PS ter levado o país à falência e um governo PSD/CDS ter infligido aos cidadãos sacrifícios e perdas nunca vistas?

O meu ponto é que a avaliação certa é a que resulta, não da comparação do que tínhamos com o que temos, mas do que temos com o que poderíamos ter, se as opções tivessem sido outras.

O programa com que o PS se apresentará às eleições legislativas de 6 de Outubro tem 141 páginas e muitas promessas (56% de aumento do investimento público, menos impostos para a classe média, aumentos para os funcionários públicos em 2021, vales para óculos e tratamentos dentários, combate feroz à corrupção, reforma eleitoral e muitos comboios). Na impossibilidade material de analisar o caudal de promessas em detalhe, no espaço limitado desta crónica, cinjo-me a dois comentários, a saber:

  1. O programa glosa os êxitos da governação de Costa e alimenta-se em permanência da chama milagreira de Centeno. Mas importa moderar a euforia, porque há outros ângulos de visão. Por exemplo, Mário Centeno e a imprensa em geral festejaram recentemente os números revelados pelo Instituto Nacional de Estatística: um excedente orçamental de 0,4% no fim do 1º trimestre do ano em curso. O ministro das Finanças invocou então muitos indicadores de sucesso e atribuiu o êxito à dinâmica da economia e do mercado de trabalho. Só que a alegoria do copo meio cheio ou meio vazio convoca os mais atentos para a outra realidade: o celebrado saldo orçamental consolidado das diferentes administrações públicas (cerca de 318 milhões) foi obtido por via do aumento (em cerca de 356 milhões) das dívidas ao sector privado! Por exemplo, no martirizado Serviço Nacional de Saúde, a dívida aumentou no período em apreço cerca de 150 milhões, cifrando-se na bonita soma redonda de mais de 650 milhões.

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Qual é a entidade que mais prejudica a vida das escolas?

Continuo a defender que o Estado deve ter uma presença forte na área da Educação, de maneira a que se possa resistir a perversões que possam advir do capitalismo ou da religião.

Ainda assim, o peso do Estado não tem impedido que as escolas sejam vítimas de outras perversões. O facto de ter havido quarenta reformas nos últimos trinta anos só vem confirmar o que já escrevi há vários anos. Permita-se-me o pecado da autocitação:

Se o Ministério da Educação (MEC) tivesse algum poder sobre as salas de operações, qualquer cirurgião viveria em constante sobressalto, sem nunca ter a certeza se, no dia seguinte, sairia uma ordem de serviço que o obrigaria a operar com um talher de peixe ou se seria obrigado a substituir a anestesia por uma dose de bagaceira (em princípio, para o paciente).

As escolas são vítimas, em primeiro lugar, de uma pulsão de poupança, consequência da desvalorização da Educação. Entre tampões vários na carreira docente, que impedem a maioria de chegar ao topo de carreira, congelamentos e cortes salariais, para nos referirmos apenas aos professores, os últimos vinte anos corresponderam a um desinvestimento brutal na Educação.

Quanto ao resto, desde que não implique aumento de despesa, foram vários os poderes que puderam deixar as suas marcas na Educação, impondo alterações legislativas, curriculares, terminológicas e outras, num delírio que sobrecarrega escolas e profissionais da área.

A resposta ao título é, evidentemente, o Ministério da Educação, o que parece contradizer a minha fé no Estado, tendo como consolo utópico a frase de Churchill sobre a democracia como o pior sistema político à excepção de todos os outros. Por falar em utopias, pode ser que, um dia, os cidadãos se preocupem mais com Educação do que em invejar a nada invejável carreira dos professores e há sempre a possibilidade de que os professores comecem a lutar melhor. Nessa altura, os políticos terão de agradar ao povo, optando pela sensatez e pelo investimento consequentemente responsável. Nessa altura, o Ministério da Educação poderá deixar de ser o principal problema das escolas.

«Ensinam quando não estão em greve»

O título deste texto faz parte das palavras cruzadas do último Expresso. A resposta, segundo parece, é “professores”.

Entre muita opinião pública ou publicada, gratuita ou a pagar, há muita gente a criticar as greves dos professores, criando-se, até, a ideia de que a classe docente passa grande parte do tempo em greve, num cenário de caos, com alunos privados de aulas e professores de papo para o ar ou em manifestações acéfalas comandadas por sindicalistas, comunistas e outros monstros. [Read more…]

Teresa Damásio pode ser ministra da Educação

Graças ao Paulo Guinote tive o duvidoso prazer de assistir a um vídeo em que a ex-deputada Teresa Damásio explicou que os professores portugueses não têm direito a declararem-se cansados, porque, ao contrário de outros de países pobres, têm electricidade, água, dois telemóveis, dois carros (no agregado familiar) e passarão pelo menos um período de férias fora de Portugal. Segundo a mesma senhora, os professores portugueses têm também muita sorte porque Portugal tem fronteiras estáveis há 11 séculos (o que é estranho, tendo em conta que a conquista definitiva do Algarve só ocorreu em 1249, ou seja, há oito séculos).

Exprime-se, portanto, nas palavras desta iluminada, uma teoria geral do cansaço e/ou uma filosofia da reivindicação típica de qualquer caixa de comentários da blogosfera, das redes sociais e das tabernas físicas do país. Em que consistem essa teoria e essa filosofia? No seguinte: enquanto houver alguém que esteja pior do que nós, não temos direito a queixar-nos.

Tendo em conta os pormenores com a que a senhora nos cumula, podemos, aliás, todos, professores ou não, fazer um teste muito simples que nos permite, de uma penada, afugentar o cansaço. O leitor sente-se cansado? Verifique, por favor, se tem electricidade, água, dois telemóveis, dois automóveis e se as fronteiras do seu país são estáveis há alguns séculos. Se estes factores estão reunidos, o leitor pode estar descansado, que não pode estar cansado, desiludido ou insatisfeito. [Read more…]

Sinais acacianos

[Santana Castilho]*

O ardiloso João Costa tem motivos para contentamento. No fim do ano escolar, o absurdo faz o pleno dos sinais acacianos que nos chegam. Mais uma legislatura dedicada ao patético evangelho da flexibilidade e da inclusão e a destruição fica concluída. Faltam três meses para as eleições.

  1. Uma ministra e um ministro (Cultura e Educação), siameses pela irrelevância, apresentaram o Plano Nacional das Artes para os próximos 5 anos. O plano prevê a criação de “residências artísticas” (contratos que podem durar um ano, para pôr artistas a trabalhar nas escolas) e a criação do cargo (mais um) de coordenador cultural das mesmas. O comissário da coisa propõe-se “indisciplinar a escola”, “desarrumá-la”, “introduzir o lúdico e o jogo” e valorizar “a inutilidade que as artes podem trazer”. Chegou tarde nos propósitos. Está tudo feito. Não me espanta que o tenha dito com a bênção de irrelevantes. Preocupa-me que o resto não reaja a tamanha concentração de disparates.
  2. O último relatório da rede Eurydice não contabilizou as horas que Portugal dedica às Ciências Naturais e aos Estudos Sociais, porque a flexibilidade curricular deixou a Comissão Europeia sem modo de fazer contas. Recorde-se que o documento em análise evidencia o tempo de aulas que cada um dos 38 países observados dedica a quatro domínios de ensino: Matemática, Ciências Naturais, Estudos Sociais e Leitura e Escrita. Esta originalidade junta-se a outras, que impedem a continuidade das séries estatísticas que vinham a ser construídas desde o início do século. É o caso das provas de aferição, leviana e propositadamente aplicadas em anos que não são de fim de ciclo e a disciplinas diferentes, para impedir a comparação com resultados anteriores. É evidente que não é caminho recomendável. Mas é a luz que emana do DL 55/2018.
  3. O circunspecto Conselho Nacional de Educação deu-se conta da borrasca que se aproxima. Preocupado com a qualificação e a valorização dos professores, puxou pela cabeça e decidiu recomendar que deixe de ser exigido um exame de Matemática para ingresso nos cursos de formação de professores do 1.º ciclo. Com efeito, segundo a maioria dos sábios conselheiros, a obrigatoriedade do exame de Matemática tem “estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, que estão a ficar sem interessados. Assim, se estamos a resolver o problema do insucesso dos alunos exigindo menos e menos, até passarem todos, porque não fazer o mesmo com os futuros professores? Os alunos de Matemática não querem? Baixe-se a fasquia e aceitem-se os que sabem pedalar, que ensinar todos a andar de bicicleta até já é desígnio nacional.

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Educação: pão e circo

No campo da Educação, os poderes, políticos e outros, juntam à ignorância a sobranceria e o exibicionismo habilidoso de um marketing vazio, cheio de palavras melífluas que, em si mesmas, não podem, aparentemente, ser contestadas, de tão consensuais (alguém é contra a inclusão, por exemplo?).

Ao terminar o ano, perto do final de outro mandato desastroso, mais uma vez, não se mexeu na forma de acesso à Universidade (o que garante o lucros de alguns colégios), manteve-se a imposição de novas inutilidades (no caso desta equipa, as provas de aferição) e aprofundou-se o ataque aos professores (roubados em tempo e dinheiro).

O Paulo Guinote chama a atenção para duas cerejas em cima do bolo mal cozido: a criação do Plano Nacional das Artes e a proposta de retirar o exame de Matemática do acesso aos cursos para professores do Primeiro Ciclo. No primeiro caso, haverá pão para alguém; no que se refere ao segundo, é o habitual circo do Conselho Nacional de Educação.

Às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência

Santana Castilho*

 

As últimas notícias sobre o nosso sistema de ensino ilustram quão certeiro foi o pensamento de António Aleixo, poeta do povo: “Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando que a burrice é uma ciência”.

  1. João Costa veio, em artigo de 30 de Maio passado (Observador), defender-se das críticas às suas teorias sobre flexibilidade e inclusão. Abalroada pela demagogia que a domina, a prosa do secretário de Estado assentou num maniqueísmo primário e populista. Segundo ele, uns querem sucesso e inclusão para todos (ele e prosélitos), outros (os que lhe criticam os métodos), preferem reprovar os alunos. Escapou-lhe considerar que o que separa a turma dele (perita em baixar a fasquia dos pobres em vez de lhes conferir os meios para chegarem onde os ricos chegam) da turma dos outros é a recusa, por parte dos segundos, a certificar a ignorância. E que o grande combate a favor da inclusão começa fora da Escola, sob responsabilidade alheia aos professores, colada, outrossim, à pele dos políticos promotores da mediocridade. E continuará na Escola, quando substituirmos proclamações palavrosas, papéis e burocracia por meios, recursos e dignidade para quem ensina.
  2. Outro Costa, este António, fez-me recordar a eloquência de Américo Tomás (nos anos 60, disse o então Presidente da República numa inauguração: “É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive”). [Read more…]

A despropósito de professores e de outros injustiçados

Na Assembleia da República, uma estranha maioria, constituída por PS, CDS, PCP e PEV, aprovou “uma norma do Estatuto dos Magistrados Judiciais que permitirá aos juízes conselheiros um vencimento superior ao do primeiro-ministro.”

Aos professores foi recusada a reposição integral do tempo de serviço, em nome das boas contas. Não tenho informação suficiente para saber se a medida é justa ou não e não defendo a sua reversão em nome de uma inveja profissional, mas não posso deixar de notar que parece que há cidadãos que são juízes e outros que são enteados.

Lateralmente a esta questão, alguns deputados afirmaram que votaram a favor da medida porque lhes tinha sido imposta disciplina de voto, essa perversão da representatividade parlamentar. Os deputados que invocaram esta desculpa não passam de hipócritas, gentinha obediente ao partido.

A propósito ainda desta questão, sabe-se que Fernando Anastácio, deputado do PS que negociou este aumento, é casado com uma juíza. O dito deputado declarou que não vê esse facto como impedimento. De qualquer modo, imagino que deva ser agradável intervir num processo que possa contribuir para o aumento do orçamento familiar. [Read more…]