Deus é mentiroso

Rodrigo Moita de Deus, na sua casa de fados, em Cascais, durante a interpretação de “Nasci para ser ignorante”.

 

Pode um mentiroso ser da família de Deus? Será uma questão teológica, mas, em Portugal, se nos referirmos a Rodrigo Moita de Deus é uma questão de (in)decência. Já não é a primeira vez que este parente do Senhor diz, na televisão pública, mentiras e alarvidades sobre os professores.

O comentador televisivo é, muitas vezes, um espécime da linhagem do tudólogo, que fala de tudo, mesmo, ou sobretudo, se não dominar o tema. Rodrigo Moita de Deus é, portanto, parente próximo de Nuno Crato ou de Carlos Guimarães Pinto.

Deixo uma ligação para o vídeo com a intervenção de Deus no Último a Sair e remato, mais abaixo, com um excerto de um texto copiado do facebook do S.T.O.P. (Sindicato de Todos os Professores), para aqueles que quiserem verdadeiramente informar-se.

Os que não quiserem informar-se, podem limitar-se a ver o vídeo com a palavra de Deus. Com gente desta na família, é natural que as pessoas se afastem da Igreja.

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Nuno falta de vergonha na cara Crato

 

Crato diz que há professores a mais e que “redução é inevitável”

Falta de professores é um “drama anunciado há muito tempo”, diz Nuno Crato

Há muito para repetir (porque já foi tudo dito) sobre o consulado de Nuno Crato. No que se refere às duas declarações patentes na imagem, impõe-se uma pergunta básica: qual é o número mínimo de anos que corresponde a “muito tempo”? Relembre-se que  foi, alegadamente, ministro da Educação entre 2011 e 2015.

Nuno Crato foi um digno sucessor de Maria de Lurdes Rodrigues, cumprindo com denodo a tarefa de demolir a Escola Pública, o que incluiu um ataque continuado aos professores.

Tal como Maria de Lurdes Rodrigues, também Nuno Crato, por ter a mesma quantidade de vergonha na cara, aparece regularmente a dar opiniões sobre Educação. Está no seu direito, porque, em democracia, os incompetentes e os desavergonhados também têm direito a exprimir opiniões.

Conversas Vadias 35

A trigésima quinta edição contou com a presença especial do Orlando Sousa, acompanhado pelos também aventadores António Fernando Nabais, António de Almeida, Francisco Miguel Valada, Carlos Araújo Alves, João Mendes, José Mário Teixeira e Fernando Moreira de Sá. Recorrendo à nossa vasta ignorância sobre agricultura, começámos por mostrar espanto face a estufas e túneis e a relação com o PAN e com Inês Sousa Real. Depois, voltámos a Rangel e a Rio, passámos pelo Chega, abordámos a possibilidade do novo confinamento e ainda tivemos tempo para falar da falta de professores nas escolas. Sugestões a fechar, mais abaixo. [Read more…]

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Conversas Vadias 35
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A propósito das crianças portuguesas que falam “brasileiro”

A também nossa Paula Sofia Luz publicou recentemente uma reportagem que deu algum brado e fez sair muitos patrioteiros de tocas mal frequentadas: “Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro'”. Desde portugueses enojados a brasileiros ressabiados, juntaram-se nos comentários do jornal e das redes sociais dezenas ou centenas de idiotas de ambos os lados do Atlântico, agarrados a estereótipos e a interpretações espúrias da História, ou melhor, de um conjunto de sentimentos e de preconceitos que alguns confundem com História.

O fenómeno da influência do português do Brasil na expressão dos jovens portugueses não é novo e pode (e deve) ser discutido, excluindo qualquer laivo de superioridade ou de inferioridade e incluindo linguistas e professores de Português, sendo que, neste último caso, há um afastamento indesejável entre ambos os grupos – polemizando já um pouco, e sendo eu suspeito, há alguns linguistas que imaginam os professores como meros receptáculos, mesmo quando o assunto é o ensino de uma norma linguística, por muito que este conceito contenha algo de demasiado artificial.

Assim, se é verdade que não faz sentido censurar (em qualquer dos sentidos da palavra) os conteúdos brasileiros, é importante pensar naquilo que se chama o “cultivo da língua”, expressão difusa que se pode prestar a usos elitistas desajustados e que poderá, muitas vezes, entrar em conflito com a natural circulação de palavras e de conceitos. [Read more…]

Bom dia?

Inspirado num texto da página https://www.facebook.com/Livrodponto

 

Era um professor que não cumprimentava colegas, porque, no fundo, detestava professores. Imagine-se o que será detestar professores e conviver com professores todos os dias da semana. Como se isso não bastasse, era casado com uma professora e meio professor por parte da mãe, mais um quarto do lado do avô materno. Como acontece com todos os professores, antes de ser professor, já tinha lidado com dezenas de professores, entre escola primária (era do tempo em que se chamava escola primária ao primeiro ciclo, imagine-se a antiguidade, a senectude) e a faculdade. Entre a casa e as escolas, nunca teria passado um dia sem se relacionar com, pelo menos, um professor.

O professor F. (vamos chamar-lhe assim, para manter o anonimato) vivia, por isso, em estado de sítio por se sentir sitiado, cercado de professores que nunca levantariam o cerco. Um dos dias mais felizes da sua vida consistira naquele em que passara a escrever sumários numa plataforma digital – nunca mais o viram na sala dos professores.

Um leitor aparentemente mais inteligente poderia perguntar por que razão um homem que tanto odiava professores não escolhia outra profissão. Aviso, desde já, o leitor de que a minha responsabilidade de narrador não faz de mim um ser omnisciente. Por outro lado, a vida está cheia de incongruências e o ser humano raramente é racional. Finalmente, se o leitor não gostar da história, escolha outra e meta-se na sua vida, que uma coisa é ler, outra é coscuvilhar. [Read more…]

Professores com vontade, procura-se

Atualmente, desde que nascemos (e pelo menos até atingirmos a maioridade) um terço da nossa vida é passado a dormir, e cerca de outro terço é passado numa sala de aulas ao longo da juventude. Lembro-me que o meu pai apelidava a fase escolar de algo como “o emprego dos jovens” – fazendo o paralelismo, da mesma forma que os pais vão para o trabalho, o trabalho dos mais novos seriam os estudos, onde analogamente o pagamento seriam as pautas pelo desempenho e esforço feitos durante os trimestres e mais tarde a entrada para a faculdade querida de quem assim o almeja.

Sabendo que uma grande parcela da nossa juventude é passada a aprender, causa-me uma enorme urticária a desvalorização geral que se faz sentir nesse que acredito pessoalmente ser dos empregos mais importantes que se pode ter – ser professor. É procupante a falta de renovação de quadros e falta de interesse da minha geração nessa profissão. O Nabais explica bem essa realidade neste texto e aqui também, vinde ler que o gajo escrevinha umas coisas pertinentes.

Os poucos amigos que conheço que enveredaram pela área, desabafam sobre as colocações feitas em locais absurdos bem longe de casa sem qualquer apoio, da quantidade de trabalho absurda, das quantidade de reuniões longas e desnecessárias, somando a isso o facto de terem de gerir a sua vida pessoal neste grande ato de malabarismo.

Em retrospetiva e num exercício de empatia, agora não me é surpreendente o relembrar de professores mais azedos que me marcaram pela negativa e em parte desculpar alguns ou muitos dos seus comportamentos. É graças a esses professores que alunos tal como eu criam anti-corpos a determinadas disciplinas (ou em casos mais severos, à própria escola e ensino em geral). Basta pensar no cansaço acumulado da idade, aliado a problemas do foro pessoal/familiar ou de saúde terem de ser articulados com a responsabilidade de leccionar entre 20 a 30 jovens com as hormonas ao rubro durante cerca de 6h semanais por turma (!) e por vezes de diferentes anos. Fora o trabalho fora de aulas. Para quem nunca tentou dar formação a um grupo de pelo menos 20 adolescentes dificilmente entenderá genuinamente a dificuldade que é captar a sua atenção e interesse durante um período de tempo mais extenso do que 5 minutos.

É precisamente através a esses anti-corpos que se criam em conjunto (e contrastando) com a paixão flamejante de outros professores que nos conseguem cativar, que ao longo desse terço da nossa vida juvenil chegamos aos dias de hoje, parte da personalidade e gostos influenciados. É um terço da nossa vida que estamos em fase de crescimento, onde aprendemos a gerir problemas familiares, com outros hobbies externos, com namoros, com desporto, com amigos, com bullying. adicionando um topping de pressão da eterna pergunta “então e o que é que queres ser quando fores grande?” em mescla com um cocktail de hormonas rebeldes e um (natural da idade) desnorteio da vida de uma forma geral.

Poderia desenvolver muito mais e dar todos os exemplos de casos práticos que me recordo e que evidenciam a receita da desgraça atual, mas ao final de 500 palavras creio ser o suficente para ser óbvio o consequente molde de uma grande parte da vida de todos os educandos, entenda-se, todos nós! Molda-se muito dos interesses pessoais, acrescenta-se conhecimento e disabores que levamos para o resto da vida.

Neste 5 de outubro onde se celebra além do dia da Implantação da República Portuguesa o dia do Professor, para quem ainda não teve filhos, para quem nunca surgiu a oportunidade de ensinar um grupo de jovens, para quem quer e para quem não quiser fica a sugestão de reflexão sobre aquele(a) professor(a) que tinha o pavio mais curto. Empatizar com os problemas que mais certamente nem imaginamos que ele(a) tinha e valorizar quem excerce, para motivar quem nem sequer pensa em excercer devido ao panorama atual. Para que se criem mais condições para a minha geração envergar pela área sem medo de quando o fizerem (à semelhança da memória daquele professor zanzinga que em algum momento já tivemos) ficarem rapidamente com um pavio igualmente curto.

O perigo da municipalização da Educação

Entregar a escola a este modelo de gestão autárquica? – texto do Paulo Prudêncio

Custo por aluno e os sonhos húmidos dos liberais

O Ministro da Educação comunicou ao país que, de acordo com cálculos do Ministério, o custo por aluno na escolas públicas teve um “brutal aumento”. Ainda acrescentou que isso se devia ao facto de haver mais funcionários e mais docentes (o que estará muito longe da verdade) e de ter havido descongelamento de carreiras, levando a que mais professores tenham chegado ao topo de carreira. Passados alguns dias, o Ministério ainda explicou que o custo por aluno foi alcançado graças a uma conta muito simples (simplista, diria eu): divide-se o orçamento do Ministério pelo número de alunos.

O mundo liberal português, imediatamente, veio logo gritar pelas virtudes do privado, onde o custo será inferior. Pelo meio, lá reapareceram os mitos do cheque-ensino e da liberdade de escolha (como se os colégios obcecados pelos rankings deixassem entrar qualquer aluno, independentemente da quantia). Noutros tempos, coube a Carlos Guimarães Pinto fazer figuras tristes. Desta vez, foi Rui Rocha (mais um da madrassa Insurgente) a disparatar.

Vamos, por momentos, imaginar que o aluno da escola pública fica mais caro que o de qualquer escola privada. Esse dado, só por si, não chega e permitir-nos-ia dizer disparates de natureza contrária ao dos liberais, como, por exemplo, que, por vezes, é preciso gastar mais dinheiro para que um produto tenha mais qualidade. Também poderíamos dizer que o barato sai caro (se nos lembrarmos de que alguns colégios preparam os alunos para exames, sem se preocuparem com a formação integral de cidadãos, a crítica até faz sentido).

Nada de novo ou de especialmente importante, mas as seitas, de vez em quando, fazem prova de vida e, normalmente, fazem-no insistindo em disparates.

Educação e SONAE ou a arte de desconversar

Com grande pompa, a SONAE passou a semana a desconversar sobre Educação.

Usando do sensacionalismo próprio dos maus autores, anunciou uma espécie de Toda a Verdade Sobre, a fazer lembrar, por exemplo, o recente desplante de José Gomes Ferreira, o autoproclamado melhor – ou mesmo único – historiador português.

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um, por assim dizer, estudo sobre o impacto do professor nas aprendizagens do aluno. E concluiu que os melhores professores têm um impacto mais positivo do que os maus, o que só está, efectivamente, ao alcance de mentes com quociente de inteligência estratosférico. Num vídeo, Manuel Carvalho, funcionário da SONAE, mostra-se entusiasmado com esta descoberta.

Basta ler a primeira página do estudo, para perceber que estamos diante de uma manifestação de preguiça, sendo que conseguem descobrir quem são os melhores professores com base no resultado de provas de aferição e de exames nacionais, ignorando (porque daria trabalho) um conjunto interminável de factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos (que, só por si, é uma expressão dúbia que os tudólogos pagos por fundações reduzem a classificações, neste caso, de provas externas). O Paulo Guinote publicou hoje uma crítica fundamentada ao estudo. [Read more…]

Pod do Dia – Tempo de serviço

Durante alguns anos, a idade não passa de um acidente que acontece aos outros. Durante alguns anos, aliás, não se tem idade.

 

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Pod do Dia - Tempo de serviço
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Pod do Dia – O ecmófobo e a vacina

No último fim-de-semana, fui um dos muitos professores vacinados contra o vírus da moda. Confesso que estava ansioso, não por causa das ínfimas probabilidades de sofrer uma trombose em consequência da vacina, mas por outra razão que não me fica bem confessar. Por não ficar bem, vou confessá-la.

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Pod do Dia - O ecmófobo e a vacina
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Aprendizagens irrecuperáveis

Sem prejuízo de melhores opiniões e de estudos especializados, gostaria que alguém me explicasse, como se eu nunca tivesse tido ou dado aulas, de que modo é que, havendo meios e vontade, um aluno ficará

brutalmente

violentamente

extraordinariamente

irremediavelmente

prejudicado nas aprendizagens, chegando-se ao ponto de os especialistas

(ou seja, toda a gente excepto os professores)

anteverem uma catástrofe cognitiva, um atraso talvez mesmo mental, a estupidificação de uma geração inteira, uma bomba atómica que arrasará para sempre o cérebro das crianças confinadas. [Read more…]

A tudologia dos economistas ou os pedagogos de sofá

Há anos que é isto: se o tema for Educação, toda a gente sabe tanto ou mais do que os professores. Em Educação, não há leigos. A haver, são, na prática, os professores. No futebol, temos os treinadores de bancada; na Educação, os pedagogos de sofá.

Entre este tipo de pedagogos, avultam os economistas, porque não há assunto que lhes escape, numa arrogância extraordinária que vai da esquerda à direita. Há uns anos, tive uma polémica com Carlos Guimarães Pinto, a propósito de um capítulo de um livro em que os autores explicavam ao mundo tudo o que sabiam sobre Educação. Nessa polémica, sobressaiu a ignorância atrevida de quem cultiva uma ciência social que se arroga o direito exclusivo de explicar tudo o que existe no mundo.

Recentemente, alguns, vindos da esquerda, desprezando a questão sanitária, descobriram a existência de assimetrias enormes na vida dos estudantes, que o ensino à distância iria fazer sobressair os efeitos que as desigualdades sociais têm sobre as aprendizagens – e a vida, senhores, a vida – dos alunos. As escolas deveriam ficar abertas, mesmo aumentando o risco de contaminação da sociedade, para resolver esse problema. Mais uma vez, a Escola é vista como um paliativo para um problema que os pedagogos de sofá descobriram quando apareceu o ensino à distância. Entretanto, os professores têm sido obrigados a lidar (que é diferente de resolver) com esses problemas, enquanto a tutela despeja nas escolas decisões que só atrapalham, como a manutenção de um número exagerado de alunos por turma ou o eterno adiamento acerca de decisões fundamentais sobre o acesso ao Ensino Superior, entre muita outra tralha. [Read more…]

Pod do Dia – Pai Nosso

Sobre encarregados de educação. Ulisses, Baco, Neptuno, Vénus, Júpiter e Deus, entre outros.

 

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Pod do Dia - Pai Nosso
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Pelo fim das vagas no acesso ao 5.º e 7.º escalão da Carreira Docente

Imaginem que um professor anuncia aos alunos, no início do ano, que só será possível dar vinte valores a dois deles e que, caso haja um terceiro, haverá um critério que obrigará a baixar uma das notas.

Já se sabe que as probabilidades de haver notas máximas é sempre mais baixa, mas não há avaliação justa sem que haja a possibilidade de dar a nota máxima a todos os alunos.

Há vários anos, o Ministério da Educação criou um simulacro de avaliação com o único objectivo de impedir que a maior parte dos professores chegasse ao topo de carreira, criando estrangulamentos na entrada para os quinto e sétimo escalões. Na prática, o Ministério faz aos professores aquilo que os professores nunca podem fazer aos alunos. Acrescente-se, ainda, que muitos dos professores que estão nesses escalões gastam mais em deslocações ou alojamento, ganhando menos, servindo o público e financiando o patrão. [Read more…]

Outros confinamentos

[Manuela Cerca]*

Tinha 15 anos.

Nos primeiros dias do mês de Agosto de 1975, o meu mundo desabava. Para trás ficavam dias sombrios. Para a frente só havia incerteza.

Ao entrar no Boeing 747 da TAP, com os meus irmãos, desfaziam-se todos os sonhos da infância e adolescência. Sozinhos, os meus pais, crédulos e ainda no exercício da sua actividade, ficariam por lá, até Outubro, enfrentávamos o desconhecido. Havia, é verdade, a certeza de que no destino estariam, pelo menos para nós, braços e colos que nos acolheriam e nos ofereceriam a tranquilidade de uma vida familiar. Mas muitos dos que connosco faziam a viagem não sabiam que destino os esperava. Não conheciam ninguém, muito menos a terra que os recebia.

Na dúzia de meses que antecedeu esta partida vivemos em guerra. Uma guerra civil que transformara, num ápice, a nossa zona de conforto em campo de batalha fratricida. As ruas onde brincávamos passaram a estar-nos vedadas, as escolas onde nos sentíamos em segurança muniram-se de “planos de contingência”, como agora se diz, e a qualquer momento as evacuações podiam acontecer. As viagens, naquela imensa Angola, tornaram-se perigosas e incertas. Desaconselhadas. Os postos de controle das várias organizações políticas( MPLA, UNITA, FNLA) consoante as zonas da sua influência, eram territórios aleatórios, de onde não sair, ou sair com vida, dependia em muito da sorte que nos cabia. O som das balas, rajadas ou morteiros, invadiam-nos os dias e principalmente as noites. O “inimigo” estava ao nosso lado, mas nem sempre o víamos. Os bens essenciais escasseavam, os assaltos pela calada da noite multiplicavam-se. [Read more…]

Notas sobre o recomeço das aulas

O governo falhou. O fechamento das escolas sempre foi uma possibilidade muito forte. A preparação deveria ter começado aquando do primeiro confinamento, mas o que interessa é adiar, empurrar com a barriga, prometer computadores esperando que não seja preciso entregá-los (o conselho de ministros reuniu na quinta-feira para aprovar a despesa para aquisição de computadores para alunos que começam as aulas hoje) . As salas de aula poderiam estar verdadeiramente preparadas para um sistema misto, com alguns alunos em casa e outros nas escolas, mas não estão.

 

 

Alguns iluminados descobriram que o fecho das escolas aprofunda as desigualdades sociais. Pois aprofunda. Como de costume, esses iluminados tentam explicar aos habituais ignorantes de tudo: os professores. Os professores sabem isso muito bem. Os professores até sabem que a condição sociocultural e/ou socioeconómica dos alunos tem um peso brutal no seu rendimento, havendo crianças que entram no Primeiro Ciclo com limitações vocabulares e, portanto, cognitivas, brutais. Os professores, por várias razões, conhecem a vida de muitos alunos que vivem privados de comida, de afecto e de acompanhamento. Os professores até sabem que as férias, para alguns alunos, são uma tortura. As escolas, na verdade, disfarçam como podem todas essas insuficiências, até porque estão transformadas em mecanismo de compensação das enormes insuficiências de uma polícia social para a juventude.

E enquanto os governos sobrecarregam as escolas, tiram-lhes condições, aumentando o número de alunos por turma, entre outras estratégias que servem apenas para baixar a despesa, mas não para ajudar os alunos.

 

 

O ensino à distância não serve para substituir o ensino presencial, por variadíssimas razões, sendo a mais importante a necessidade de contacto humano. Os professores, de uma maneira geral, no primeiro confinamento, conseguiram fazer o melhor possível, com erros, insuficiências e exageros, aprendendo, experimentando e arriscando. É preciso fazer algo muito evidente: confiar nos professores.

 

 

Convém não esquecer que os professores são os principais financiadores do próprio patrão. Para além dos impostos que pagam, é do próprio bolso que saem as despesas com transportes, alojamento e, até, formação. O material de trabalho dos professores também não é fornecido pelo patrão: da caneta ao computador, é tudo pago pelos trabalhadores. O que de bom se conseguiu fazer durante o primeiro confinamento assentou na propriedade pessoal dos professores, o que, de resto, é costume e, curiosamente, nunca fez parte das reivindicações sindicais. Se os professores não tivessem investido em material informático, o sistema de ensino à distância não existiria. Também por isso, a sociedade deve agradecer, como se agradece a um amigo que nos dá boleia porque tem carro, mas não tem obrigação de nos dar boleia.

 

 

É possível ensinar à distância, mesmo que não seja desejável, mesmo que não seja fácil e mesmo que uma circunstância indesejada não seja suficiente para criar um novo paradigma. O novo paradigma só fará sentido se resultar de uma reflexão. O futuro próximo, esperemos que sem pandemia, poderá incluir a possibilidade de apoiar alunos que, por alguma razão, seja impedido de frequentar as aulas presencialmente, entre outras possibilidades.

 

 

Aprender à distância também é possível e há quem tenha conseguido, graças a um esforço enorme de quem quer aprender e de quem quer que os alunos aprendam. Isso: esforço.

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

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Carta aberta ao Governo de um grupo de professores bloggers com pedido para que seja cumprido o estipulado no Plano de Ação para a Transição Digital, de modo a que os docentes tenham condições para trabalhar a partir de casa. 

 

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

Para ler este conteúdo de forma completa, é favor visitar o blogue Correntes.

 

Fechar as escolas

Fechar as escolas é péssimo. Não fechar ainda é pior.

Fechar as escolas?

Os professores

(esses madraços ignorantes, como ainda recentemente demonstrei)

sabem que não há nada melhor do que o ensino presencial. Apesar de serem professores

(e, portanto, pessoas que não percebem nada de escolas, de Educação, de alunos e que têm uma visão limitadíssima da sociedade, porque não fazem a mínima ideia dos problemas familiares, sociais e pessoais dos alunos, esses números em forma de pessoa, e porque só falam com professores),

sabem que o Ministério da Educação não aproveitou o Verão para preparar os vários cenários para o ensino – as salas de aula não estão preparadas, por exemplo, para se darem aulas à distância (nos muitos casos de alunos ou turmas em isolamento); o número de alunos por turma manteve-se igual, não permitindo o distanciamento mínimo aconselhado pela DGS; os computadores para os alunos chegaram tarde e más horas.

Os professores sabem

(mas quem são eles para saber seja o que for, não é?)

que o confinamento dos alunos aprofundará as desigualdades, como tive o atrevimento de afirmar, a propósito de um agradecimento dispensável. [Read more…]

Quem não quer ser milionário?

Segundo parece, não há candidatos suficientes para preencher as vagas dos cursos orientados para o Ensino. Por outro lado, há um grande número de professores no activo que se aproximam rapidamente da idade de reforma. Não deve faltar muito, portanto, para que as escolas voltem a ser inundadas por professores com habilitação suficiente, licenciados em Direito a leccionar História ou engenheiros a ensinar Matemática.

Pode haver quem considere que essa falta de formação inicial poderá afectar a qualidade da leccionação, mas a verdade é que faz sentido: num país em que toda a gente sabe mais de Educação do que os profissionais da área, por que carga de água é que um professor, o menos entendido na matéria, haveria de dar aulas?

A falta de candidatos ao Ensino, no entanto, espanta-me, porque os vários pedagogos de sofá que explicam Educação em todas as direcções sabem perfeitamente que os professores

  • não trabalham
  • recebem salários principescos

  • fazem greve, dia sim, dia não

Notai bem: se alguém não trabalha e é pago, já recebe demasiado. Além disso, não se pode falar bem em salário, já que quem é pago para não trabalhar recebe antes um subsídio. Como se isso não bastasse, os professores, que não trabalham, ainda estão sempre em greve, o que é extraordinário – muito provavelmente, reivindicam melhores condições para não trabalhar. [Read more…]

O confinamento e as escolas

Maurício Brito*
A ver se nos entendemos: o que deveria pesar mais do que qualquer outra coisa é o valor da vida humana. Não está em causa discutir o que é melhor para os alunos, para os pais ou para os professores pois é óbvio que o ensino presencial é insubstituível: para os alunos pelas mais variadas razões e em todos os planos, sejam eles pedagógicos ou sociais; para os pais por ser confortante por diversos motivos; e para os professores, porque sabem que o seu trabalho é incomparavelmente melhor se realizado presencialmente. Mas, volto a dizer, não deveria ser tudo isto a pesar mais numa decisão que, digam o que quiserem e sustentem-se nos estudos que encontrarem, não irá reduzir tão rapidamente o terrível quadro que assistimos neste momento. Irão circular cerca de, afinal, 2,5 milhões de portugueses nos próximos tempos apenas para chegar às escolas. Será necessário fazer um desenho a explicar que isto não faz sentido se o que se pretende é reduzir mais rapidamente uma propagação descontrolada, em que se desconhece a origem de 87% dos contágios e, consequentemente, evitar a perda de mais vidas? Já agora: há algum professor que considere efectivamente que a perda de 15 ou 30 dias de aulas presenciais vá provocar “danos irreversíveis” nas aprendizagens dos nossos alunos? A sério? Quantos alunos ou mesmo turmas inteiras já perderam esses dias de aulas (ou mais ainda) desde que o ano lectivo começou, devido a casos de contágios, quarentenas, outras doenças/lesões e coisas afins? Estes alunos todos estão “irremediavelmente” perdidos? Enfim.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Apesar de saber que assim que os “números” abaixarem e voltarem para “valores” mais aceitáveis, os mesmos que não cumpriram as promessas de providenciar meios a alunos, escolas e professores para o ensino à distância, virão cantar vitória, com os comprometidos de sempre da comunicação social a fazer eco do enorme feito. Independentemente das dezenas ou centenas de pessoas que vierem a falecer devido a uma desastrosa decisão.
*Professor

Quando um elogio é um insulto

João Miguel Tavares elogiou os professores. O Paulo Guinote já escreveu que dispensa certos elogios.

O combate às desigualdades sociais é muito complicado, especialmente quando as prioridades dos governos correspondem a outras áreas em que há fartura de desperdício de dinheiros públicos.

Essas desigualdades são especialmente revoltantes quando atingem crianças e jovens. São essas desigualdades que, se combatidas demasiado tarde, provocam atrasos culturais e mesmo cognitivos.

A Escola é, evidentemente, um das armas mais importantes desse combate. Por isso, retirar condições às escolas é criminoso – e os verdadeiros problemas continuam por resolver (número de alunos por turma, delírios curriculares, burocratização inútil do trabalho dos professores).

A dedicação de todos os que trabalham nas escolas é tão evidente e geral como frequentemente desvalorizada. E, na verdade, é nas escolas que muitos miúdos encontram pessoas que, fora da família, fazem alguma coisa por eles. As políticas sociais para a juventude assentam, então, em grande parte, na ausência do Estado e na presença da Escola. Acrescente-se que essa luta é feita, muitas vezes, para lá do que é imposto pela lei.

João Miguel Tavares e muitos outros opinadores chegam sempre a estes problemas com atraso ou acertam ao lado. Na maior parte dos casos, não querem saber. Como, de certo modo, já está instituído que as políticas sociais para a juventude se limita às escolas, o facto transformou-se em direito e passou a exigir-se às escolas que resolvam todos os problemas relacionados com a infância e com a juventude. [Read more…]

Oito apartamentos um sótão (2)

Primeiro esquerdo

E agora como vão ser as aulas e as avaliações e a vida dos miúdos e a nossa, tenho de impedir que o vírus os impeça de aprender, à distância e a distância, vou fazer tudo para continuar próxima deles, nunca precisaram tanto de mim, organizar arrumar pôr em dia usar a noite, amor descobri uma padaria que traz pão a casa pão com sementes, querido olha esta receita para fazer pão em casa que descobri num tutorial, comprar desinfectante e luvas e máscara, não me posso esquecer das conferências de imprensa sobre a pandemia, sexo talvez mais daqui a bocado também feito em casa, manter a ligação com a família ligar aos meus pais e aos nossos sobrinhos por zoom por skype, cheiras tão bem hoje, a criação de um blogue porque há tanto para escrever e tanta vaidade à espera de elogios, o livro adiado que é agora, as séries de televisão que parecem livros adiados, as aulas de dança da miúda com a professora aos saltos e aos gritos num quadrado do computador, tenho de aprender a criar e a editar vídeos aprender já tudo o que não sabia e ter direito a queixar-me de não ter tempo de ter ainda menos tempo, vou ter de me arranjar que isto não é razão para nos desleixarmos não posso aparecer aos alunos de qualquer maneira, quando a menina estiver a dormir, que vontade de descansar que sono que preguiça parece que ainda é pior, a culpa é minha que já me devia ter preparado para isto, a acção de formação sobre as novas tecnologias, as velhas tecnologias na elaboração do puré já nem me lembrava de que tinha um passevite, um programa de exercícios para emagrecer depois dos bolos que todos que vou fazer, [Read more…]

O envelhecimento da classe docente

 

Vídeo encontrado no ComRegras

Número de alunos por turma: o arco da governação contra a Educação

Num país governado por gente civilizada, uma turma teria, no máximo, vinte alunos, tal como defendia o secretário de Estado João Grancho, até chegar ao governo, o mesmo governo que aumentou o número de alunos por turma, o mesmo governo dos cortes em nome da troika, dos mercados e de uma dívida pública sempre mal explicada (ou por explicar), o governo liderado por um Passos Coelho que ganhou eleições afiançando que não faria cortes ou que não aumentaria impostos.

(Haverá gente incivilizada – até entre comentadores habituais cá de casa – que dirá que até estudou em turmas de 40 alunos e conseguiu aprender e arranjar um bom emprego. São os mesmos que se orgulham de ter apanhado porrada de cinto do pai violento para defender que uns safanões de vez em quando nem fazem mal. É a miséria dos que não querem o melhor para os outros apenas porque não tiveram o melhor.)

Os governos de Costa, no que se refere à Educação, limitaram-se a um folclore que não tocou no essencial das políticas passistas, nomeadamente no que se refere à manutenção do número de alunos por turma. Há pouco, procederam a uma diminuição cosmética. O verdadeiro objectivo de Costa, no seguimento dos seus irmãos siameses Sócrates e Passos, é cortar na Educação – manter turmas grandes é uma maneira de não contratar mais professores (no tempo de Passos, serviu para despedir professores). [Read more…]

Reabrir as escolas: um mal desnecessário

Entre os entusiastas que passaram a acreditar que este momento de excepção até poderia passar a ser regra e os que defendiam que deveríamos ficar quietos sem fazer nada, a comunidade educativa foi conseguindo o possível, não sem problemas, nunca sem defeitos e com algumas virtudes. Problemas, defeitos e virtudes, todos aprofundados, curiosamente.

Neste momento, a proximidade social ainda acarreta demasiados riscos. Ainda assim, com muita prudência, será possível ir (re)pondo a economia a funcionar. Calculo que, na medida do possível, muitos profissionais irão manter o teletrabalho, minimizando riscos.

A reabertura das escolas só deveria acontecer se fosse absolutamente indispensável e há muitas razões para considerar que não é, mesmo nesta versão minimalista de limitar o acesso aos alunos com disciplina de exame. Por muitos cuidados que se tomem, o risco de propagação aumenta. Além disso, este regresso forçado resulta de um problema que continua por resolver: a subordinação do ensino básico e secundário à Universidade, devido a um sistema de acesso ao Ensino Superior que tarda em ser alterado.

O documento emanado do Ministério da Educação serve para demonstrar, mais uma vez, que se trata de uma instituição governada por pessoas fechadas em gabinetes que não sabem e não querem saber o que é a vida de uma escola, dando ordens que poderão ser difíceis ou impossíveis de cumprir. Seria o momento ideal para que encarregados de educação e/ou directores tomassem posições conjuntas, à semelhança do que já aconteceu com a Escola Secundária Camões.

Aqui ficam algumas leituras: [Read more…]

Obrigado aos Professores

Ninguém estava à espera de uma pandemia, mas ela chegou e tivemos de reagir. Os estudantes e os professores não são exceção. Por um lado, os professores tiveram de se adaptar a maneiras de ensinar que nunca tinham testado. Do outro, alunos tiveram de mudar radicalmente o modo de aprender. Em semanas, passaram de salas de aula para um ecrã. A situação já não é fácil para ninguém, mas ainda ficou mais difícil com as soluções arranjadas. Com o prosseguimento das aulas, ficaram alunos para trás. Tanto os que têm computador como aqueles que têm e não se sentem confortáveis a aprender assim. Sim, porque nenhum aluno (ou professor) aceitou, em qualquer altura, ter aulas por vídeo-chamada. Logo, qualquer aluno que tenha mais dificuldades em aulas deste género está prejudicado.

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Educação: proximidade à distância

[Rui Correia]

Tenho andado um bocadinho apreensivo com a utilização que vai sendo feita das videoconferências com alunos.

Estamos a atravessar um momento que representa uma grande oportunidade para colocar em prática aquilo que uns chamam Aprendizagem ou Pedagogia Diferenciada e outros chamam outras coisas, mas que significam a mesma preocupação:

a cada miúdo uma atenção especial. Particular. Única como ele.

Porque a aprendizagem remota pode aproximar-nos, muito humanamente, uns aos outros.

Há professores a dividir as suas turmas em grupos, multiplicando as videoconferências e a sua carga de trabalho, para poder dedicar mais tempo a cada aluno.

Aplaudo sonoramente essa dedicação e profissionalismo.

A ideia de replicar um modelo magistral, unidireccional, de ensino por videoconferência, ou seja, circunstâncias em que um fala e os outros escutam é, per se, uma prática pedagogicamente muito limitada e mortalmente aborrecida. Não deve ser repetida agora em vídeo.

A utilidade de uma aula não se mede por tudo quanto um professor faz, mas por tudo quanto os seus alunos produzem. [Read more…]

Telegrama aberto à comunidade educativa

Em primeiro lugar, e respeitando algum corporativismo, escrevo aos meus estimados colegas que estejam obcecados em inundar os alunos com trabalhos para casa. Nestes tempos extraordinários, os alunos e as famílias precisam, também, de paz, de alívio para a tensão. Manter os alunos activos faz sentido, mas é preciso não exagerar. As vossas intenções serão as melhores, mas é dessas intenções que o inferno se alimenta. É preciso lembrarmo-nos, ainda, de que há muitos alunos com poucas ou nenhumas condições de trabalho em casa, porque um computador é um luxo.

Há uma razoável quantidade de idiotas que afirma que os professores não trabalham. Um idiota nunca aprenderá por muito que se lhe explique. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha por causa de uma razoável quantidade de idiotas. Não vale a pena querer mostrar que se trabalha, porque isso é idiota. Vale a pena trabalhar, o que implica, no contexto actual, uma série de decisões que podem ir no sentido de aliviar o trabalho dos alunos. [Read more…]