Se houvesse ministro da Educação …

Santana Castilho

  • Em 25 de Agosto passado, muitos professores do quadro foram colocados a centenas de quilómetros da residência. A 6 de Setembro, outros menos graduados profissionalmente ficaram com os lugares dos primeiros. Seguiram-se acções em tribunal, declarações e manobras políticas e pronunciaram-se os importantes: Presidente da República, primeiro-ministro e provedor de Justiça. Foram sensibilizados todos os grupos parlamentares e fizeram-se eficazes manifestações de rua. Quase quatro meses volvidos, os ludibriados são apenas candidatos ao novo ludíbrio de um ilegítimo e inútil concurso extraordinário. Houvesse ministro da Educação e isto nunca teria acontecido.
  • Os professores do ensino artístico especializado foram sempre objecto de tratamento segregador em sede de contratação e carreiras. Em vez de lhes aplicar a legislação que regula o exercício profissional dos outros professores, a tutela considera-os como técnicos especializados.

Lendo o actual projecto de decreto-lei para regular a contratação dos professores do ensino artístico, parecem claras duas intenções: institucionalizar a desigualdade entre estes docentes e os das outras áreas e conferir aos directores das respectivas escolas um poder discricionário e não sindicável para decidirem quem contratam. Trata-se de retomar, em permanência, uma espécie de bolsa de contratação de escola, que legitime a falta de habilitação exigível para se ser professor. Houvesse ministro da Educação e não seria assim. [Read more…]

Os bullies avençados

Santana Castilho*

Mesmo para quem está habituado ao confronto de opiniões que as decisões políticas mais polémicas suscitam, causa perplexidade verificar a quantidade de pronúncias na comunicação social, escrita ou falada, ora expondo ignorância inaceitável, ora evidenciando intuitos manipulatórios censuráveis, que a questão da tentativa de apagar uma década ao tempo de serviço dos professores suscitou. Conheço os preconceitos e as agendas destes bullies avençados. Mas, confesso, espantou-me ver tantos e tão irmanados na mentira e no ódio a uma classe, a quem devem parte do que são e do que serão os seus filhos e netos. Não é corporativa a razão que dita estas linhas. É a seriedade, é a justiça e é a certeza sobre o quanto toda a comunidade precisa dos seus professores.

Dois clichés são recorrentes no discurso dos bullies: a progressão dos professores é automática, em função do tempo de serviço; não há possibilidade financeira para o que reclamam.

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Diálogo imaginário com Rodrigo Moita de Deus

Rodrigo Moita de Deus, tal como David Dinis, José Manuel Fernandes e Catarina Carvalho, puxou dos seus galões de “especialista” em Educação e, entre televisão e blogue, veio explicar tudo a todos. Como é habitual no mundo da comunicação social, não dominar um assunto é o primeiro passo para emitir opiniões sobre esse mesmo assunto. Rodrigo Moita de Deus preenche os requisitos.

Assim, resolvi simular um diálogo com o simpático ignorante, resumindo as declarações do programa O Último apaga a luz e aproveitando um texto do 31 da Armada.

 

 

Rodrigo: O PCP soltou Mário Nogueira da jaula em que estava fechado e disse “Ataca, Mário!”

Eu: Ó Rodrigo, tanto chá que o menino bebeu e vai tratar assim um adversário político? É feio, não é? Lá no fundo, o menino sabe que sim. É claro que o menino, para além de deselegante, quer deixar claro que pensa que isto é tudo uma questão partidária e que os professores, no fundo, são uns joguetes nas mãos dos comunas.

Rodrigo: A greve de professores prejudicou milhares de alunos.

Eu: Duas greves de um dia incomodam, com certeza, e o menino sabe que é um exagero falar em prejuízo, mas sempre gostaria que explicasse como é que se faz uma greve sem incomodar ou mesmo prejudicar. Talvez os professores devessem fazer greves só a partir da meia-noite.

Rodrigo: Pois, mas os professores são uma corporação que domina o sistema de ensino.

Eu: Ui, ó menino! A quantidade de gente que já disse isso! Há uns anos, uns amigos seus escreveram um livro e disseram o mesmo, tentando propagar o mito urbano de que os professores, ou os sindicatos dos professores, mandam no ministério da Educação. Deve ser por isso que os professores, tal como muitos outros, tiveram carreiras congeladas e salários cortados. Deve ser graças a esse poder que os muitos avisos acerca de questões curriculares e administrativas são completamente desprezados, como, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma ou a criação de mega-agrupamentos ou a municipalização (deveria dizer-se caciquização) das escolas. [Read more…]

O que diz uma criança sobre o número de alunos por turma!

A reportagem sobre o Dia Universal dos Direitos da Criança, no Público de hoje, lê-se com agrado, também (ou especialmente) quando os adultos, professores incluídos, são criticados.

De qualquer modo, cá por coisas, vale a pena ler e reler a opinião de um aluno do Primeiro Ciclo (Escola Primária) acerca do número de alunos por turma:

Há professores nas escolas que têm muitos alunos e não conseguem tomar bem conta de todos. Então podia-se dar um máximo de alunos a cada sala, 18 ou 20, para ser mais fácil. A minha professora tem 23 alunos. Assim não consegue dar tantas matérias. Perde muito tempo a atender a todos. A sala do lado tem 18 [alunos] e já estão um pouco mais avançados do que nós. Às vezes conseguimos acompanhá-los, mas estamos sempre um bocadinho mais atrás.

Imagine-se o atrevimento! O atrevimento, claro, de todos os “especialistas” que desvalorizam a questão do número de alunos por turma! Ainda há dias, com a leviandade dos ignorantes e com a raiva dos patrões que odeiam salários e outros privilégios, Rodrigo Moita de Deus julgava explicar que em Portugal há um professor para cada onze alunos, como se essas contas dissessem alguma coisa sobre o número de alunos por turma. De qualquer modo, para Rodrigo tudo estará bem, desde que se roube tempo e salários aos professores, porque é assim que o mundo deve ser, mesmo que isso possa ser lesivo também dos direitos da criança.

Catarina Carvalho, ainda mais uma “especialista” em Educação

Nos últimos tempos, os “especialistas” em Educação têm andado especialmente activos, preocupados com os alunos e tudo e revoltados com os professores.

Durante anos, não se preocuparam com a criação de mega-agrupamentos, com o aumento do número de alunos por turma, com as constantes alterações legislativas e curriculares, com a falta de professores nas escolas, com a ausência de políticas sociais, com o empobrecimento da formação contínua dos professores, com a terrível falta de funcionários não-docentes, com o empobrecimento da formação inicial de professores graças ao sistema de Bolonha, com o empobrecimento dos estágios pedagógicos, a perda de qualidade das cantinas semiprivatizadas, enfim, com uma série infindável de problemas e medidas que tornam cada vez mais difícil que as escolas possam compensar, o máximo possível, os problemas de crianças causados por factores sociais e/ou familiares.

O que tem levado os “especialistas” a sair das tocas em que vivem, dispostos a morder tudo o que cheire a professor? A possibilidade de haver um reposicionamento dos professores nos escalões onde deveriam estar, se a progressão não tivesse sido congelada durante quase dez anos. Em suma, os “especialistas” estão furiosos com a recuperação de direitos laborais, o que se compreende, porque é um conceito contrário à religião que praticam. [Read more…]

O cronómetro dos professores

Imaginai um maratonista a cumprir o seu dever, que é correr. A dada altura, alguém decide, talvez por falta de tempo (que é uma coisa que se gasta muito), desligar o cronómetro no momento em que o maratonista completa 10 quilómetros, voltando a ligá-lo quanto o atleta passa o vigésimo quilómetro. Acrescente-se que o maratonista chega à meta. Pergunto: tendo em conta que o cronómetro esteve desligado, o tempo deixou de existir ou a distância não foi percorrida?

Se uma situação destas ocorresse, seria natural que o corredor se revoltasse, porque cumpriu o seu dever, ficando sem saber quanto tempo efectivamente gastou. Por outro lado, não podendo a culpa ser-lhe imputada, poderia exigir que o tempo marcado no cronómetro fosse oficializado, o que lhe conferiria o recorde mundial da modalidade.

Os professores que, durante os últimos dez anos, cumpriram os seus deveres (haverá comentadores a garantir que eram uma minoria ou que muitos são esquerdalhos que merecem a forca) tiveram direito a carreiras congeladas e a cortes salariais. Entretanto, relembre-se, continuaram a correr, que é o seu dever. Inteiramente justo seria que o dinheiro desviado (assim mesmo: desviado) e o tempo de serviço fossem inteiramente repostos. Contudo, não se pede inteira justiça: pede-se, apenas, que se reponha o tempo de serviço, o que faria com que os professores fossem colocados no escalão em que deveriam estar, tendo em conta que – isso mesmo! – não deixaram de correr durante dez anos. Neste interim, as televisões aproveitam para mentir.

António Costa alega que o impacto orçamental seria incomportável. Apesar de tudo, tem a aparente honestidade de usar isso mesmo como argumento principal, ao contrário de outros, que alegavam a ausência de falsas avaliações para justificar a extinção das progressões. Ainda assim, nós sabemos que os dinheiros de Estado continuam a salvar bancos e a pagar parcerias público-privadas. No fundo, são diferentes formas de enganar os mesmos. É o centrão a empobrecer a Educação há, pelo menos, 12 anos.

É natural que os professores fiquem como o maratonista: sem fôlego.

Um mente, o outro foge e os serviços ajudam

[Santana Castilho*]

Na Assembleia da República, a 2 do corrente mês, António Costa disse que para a progressão na carreira dos professores conta simplesmente o tempo e que o mérito não é considerado. Por ignorância ou má-fé, António Costa mentiu. E para comprovar o que escrevo, qualquer cidadão pode ler o decreto-regulamentar 26/2012 e verificar quão deplorável foi o topete do primeiro-ministro. Com efeito, a avaliação do desempenho dos professores, a que todos estão sujeitos, mede a sua competência científico-pedagógica, a sua actividade na escola e na comunidade e o seu percurso em termos de formação contínua (25 horas de formação mínima por cada dois anos de carreira); envolve vários órgãos de gestão interna e elementos externos; termina com uma classificação de 1 a 10, posteriormente transformada numa menção qualitativa; uma menção qualitativa de “insuficiente” implica a não contagem do respectivo tempo de serviço para a progressão na carreira. O que António Costa fez, em termos práticos e mentindo, reitero, foi classificar com “insuficiente” os milhares de professores a quem subtraiu quase 10 anos de trabalho. [Read more…]