A propósito do funcionamento do SNS em tempos de Pandemia – o desabafo de um médico

O texto seguinte foi publicado pelo utilizador /u/aleph_heideger do Reddit, reproduzo sem qualquer alteração. Sendo o Reddit uma rede social uma certa dose de pensamento crítico é necessária. Podem consultar o post original e os respectivos comentários aqui.

Meus amigos. Caso tenham paciência para algo diferente do texto diário sobre reconversão para TI ou o anúncio da próxima bolha imobiliária.

Tenho lido e ouvido, aqui e ali, uma série de críticas ao SNS e à DGS sobre a forma como está a ser gerida esta crise sanitária. Da DGS não vou falar porque não apenas têm a sua própria agenda mas também porque as decisões que são obrigados a tomar, parecendo certas ou erradas, são apenas isso: opções. E porque eu não conheço a realidade deles (mas sei que não se vivem dias felizes por aqueles lados).

Vou sim falar na resposta do SNS. Como tem sido a vida dos profissionais no terreno, algo que se calhar muito boa gente desconhece.

A principal crítica dos utentes neste momento, em particular nos Centros de Saúde / USF’s / UCSP’s prende-se com a dificuldade no acesso ao atendimento. E são críticas fundadas. Algumas unidades sei que encerraram por falta de pessoal – ou meios. Mas estas serão poucas. Nas restantes… Comecemos pelo funcionamento de um qualquer Centro de Saúde pré-COVID: salas de espera cheias de utentes. Os médicos e enfermeiros possuíam um agendamento cujo único propósito era não ser cumprido (e nos hospitais era a mesma coisa): dias que começavam com a agenda cheia – 25 consultas por exemplo (cada consulta a demorar 20 minutos em média) não raramente terminavam com 40 consultas efectuadas. Os tais doentes que, embora não agendados apareciam na unidade para resolver qualquer coisa “urgente” e que não saíam de lá enquanto não falassem com alguém. E a malta lá ia cedendo. Despachavam-se coisas aqui e ali e encaixava-se mais este ou aquele até porque a agenda já estava cheia para o mês e o almoço pode ser feito em 10 minutos. Neste momento contudo, e por via das medidas de afastamento pessoal implementadas, as salas de espera viram a sua capacidade reduzida para números anteriormente impensáveis. Se a sala de espera estiver “cheia”, não entra mais ninguém. Faz sentido; é para proteção dos utentes e dos próprios profissionais. Mas os utentes nem sempre ou raramente percebem a lógica. Por outro lado, e aqui sim está a diferença, neste momento cumprimos a agenda. Se eu tenho 10 vagas sei que vou ver 10 doentes. E mais nenhum. Porque a sala tem de ser limpa entre cada utente e por vezes o próprio profissional tem de trocar material. E isso demora algum tempo. Acabaram-se os aglomerados de utentes à porta do consultório só para “dar uma palavrinha” entre duas consultas. Acabou também em muitos sítios a procura activa do doente: era a unidade a convocar o doente. Neste momento muito poucos são convocados até porque se vive um pouco na lógica do “também não tenho onde os pôr”.

Por outro lado abriu-se uma nova porta de acesso: a “famigerada” teleconsulta. Pessoalmente sou adepto. Poupo tempo e recursos. Há imensas coisas que se podem resolver pelo telefone. Eu não preciso de ver um utente só para lhe dizer um resultado de exames ou para lhe propor algum curso de acção. Eu preciso de ver o doente se precisar de o observar, se precisar de “espetar-lhe um dedo na barriga para ver se dói”. Se tudo o que eu preciso é de falar com ele, provavelmente muitos desses casos podem ser feitos à distância com vantagens para ambos. Eu sei, não funciona com todos os doentes e eu continuo a marcar presencialmente doentes apenas para falar. Mas esta modalidade esbarra num outro problema: os serviços não estão preparadas para isto. Imaginem um Centro de Saúde com 12000 utentes inscritos – quantos destes é que num determinado dia vão tentar ligar? Algumas centenas. E quantos secretários terá cada uma destas unidades a atender os telefones? Um ou dois – e isso se os próprios telefones não estiverem avariados e assumindo que a única tarefa do secretariado se resume a atender telefones – não é. Conheço mais do que um caso em que um secretário clínico passou a entrar às 7h para ter 1h/dia para resolver expediente. E quantas linhas telefónicas terá a unidade? Demasiadas – o que faz com que, embora todos os telefones possam estar ocupados a linha continue a dar sinal de disponível. Agora imaginem isto num hospital que serve uma população de algumas centenas de milhar de pessoas… Quanto aos profissionais: ou não temos telefone de serviço ou se temos, não permite fazer chamadas porque o saldo = 0€. Usamos os telefones pessoais, com nº oculto – que muita gente não atende porque sabe que do lado de lá deve estar alguém a tentar vender colchões – ou adquirimos um cartão próprio para esta actividade, às nossas custas.

Adicionalmente temos o email: fantástica invenção: tenho enviado documentos para os utentes por esta via, tenho recebido exames e outros documentos por esta via. Sei de casos em que o uso da teleconsulta e email solucionou em 2 ou 3 dias situações que, na pré-pandemia, teriam demorado semanas a terem resolução. Mas temos o reverso da medalha: enviar um email é fácil e temos sido inundados (principalmente os médicos de família) com pedidos “absurdos”. Qualquer coisa serve para enviar um email ao médico e se a resposta não surge em 5 minutos lá vai mais um email a pedir para ler e responder ao primeiro (o meu recorde são 5 em dois dias – num fim de semana).

Também no âmbito da teleconsulta foi criada a possibilidade dos médicos e enfermeiros poderem realizar todas aquelas actividades não presenciais no conforto do lar, através do uso de uma VPN: quando me prometeram isto fiquei contente: imaginei-me logo a actualizar processos pendendes no carro enquanto esperava pelos filhos na escola. Mas não… São poucas as VPN’s; em vez de ser uma solução cloud com máquinas virtuais na maior parte dos sítios VPN=acesso remoto a um computador físico na unidade (significando que esse computador deixa de poder ser utilizado localmente ou que a VPN apenas pode ser usada quando o computador está livre) e estranhamente, quando me ligo através da MEO há um qualquer problema com a ligação que faz com que a maior parte das vezes não consiga aceder ao servidor remoto. Obviamente que o apoio informático não me sabe resolver o problema.

Tudo isto gasta tempo… tenho a maioria dos meus dias divididos nas duas coisas: 6 a 7 horas/dia para consulta presencial (cheia claro) e 1 a 2 horas/dia para email e telefone – não chega.

A acrescentar a isto o pessoal dos centros de saúde ainda tem o seguimento dos doentes COVID. Como é que isto funciona? Cada utente considerado suspeito ou em que se confirme a infecção é colocado (nem sempre) numa base de dados nacional à qual os Médicos de Família e hospitalares (e a Saúde Pública) têm acesso sendo os doentes filtrados por ACES. O princípio será cada médico contactar telefonicamente os utentes da sua própria unidade e orientar convenientemente todos os casos, suspeitos ou confirmados. Gasta tempo, tempo esse que tem de ser retirado das tarefas normais de consulta. Quando é que isto corre mal? Utentes que não têm o número de telefone actualizado – são imensos; utentes que não atendem o telefone – seja porque não conhecem o número de telefone, seja porque o médico liga com número privado ou então apenas porque estavam na casa de banho. Ao fim de semana… mantém-se esta necessidade de contacto. E perguntam: mas então o médico tem de trabalhar 7/dias por semana? Ter, ter, não. Mas há trabalho todos os dias e portanto, tem – muitas unidades escalam as pessoas – 1 ou 2 por fim de semana, outras apenas com 1 ou 2 médicos/enfermeiros estão a trabalhar quase ininterruptamente desde Abril. Outras unidades pura e simplesmente não fazem este trabalho ao fim de semana, até porque parece que não está a ser pago: inicialmente foi prometido que seria mas tanto quanto é do meu conhecimento – nada oficial portanto – deixaram de pagar as horas extra para esta tarefa em Junho ou Julho – e telefonar a 30 doentes ainda demora o seu tempo.

Finalmente, o excesso de mortalidade ocorrida nestes tempos… Eu tenho a minha opinião e as minhas observações. Aquilo que eu vejo é que em vez de dizer que houve excesso de mortalidade deveríamos estar a falar principalmente em antecipação de mortalidade. Entre nós médicos, que emitimos as certidões, já tivemos muitas conversas sobre o assunto. Quem é que tem morrido? Imensos idosos, cheios de doenças e maleitas afins. E antecipação porquê? Porque antes, qualquer idoso acamado que desse um “Ai” era imediatamente corrido para o Serviço de Urgência mais próximo e, estivesse muito mal ou não, o pessoal garantia que o idoso continuasse vivo por mais algum tempo e voltasse à sua rotina habitual de fingir que era uma couve – não levem a mal a comparação, são situações muito complicadas para os cuidadores e para o próprio doente e o termo não é aqui usado com desrespeito. Neste momento, vemos muitos destes idosos a morrer em casa porque a família não os leva ao hospital. E honestamente, se calhar não estão muito errados. Eu sempre fui apologista da morte em casa, preparada e acompanhada pela família. Fazemos demasiada medicina no fim de vida – e não de fim de vida – sem grandes benefícios… uma questão antiga esta de saber até que ponto é ético e correcto manter um dependente, acamado e sem qualquer tipo de vida de relação – o típico velhinho emagrecido, escariado, com tubos enfiados em tudo o que é buraco – vivo à força.

São livres de perguntar ou comentar: tão cedo não respondo porque preciso de dormir.

Só vos peço uma coisa: tenham cuidado. Não se metam em festas de Universidade; se tiverem de ir a um baptizado façam apenas isso e recordem que o baptizado é a parte em que o padre coloca água na cabeça da criança e não a parte seguinte em que está toda a gente sentada a comer e a conviver. Aquilo que a Graça Freitas recentemente disse tem muita razão de ser: “bolhas familiares”. Criem a vossa própria bolha e limitem ao máximo os contactos com elementos de fora. Porque o verdadeiro problema não são os jovens infectados. O verdadeiro problema é o facto destes jovens irem ocupar e desviar recursos, seja na urgência seja no contacto telefónico, de onde eles são mais necessários. Estes dias já tive atrasos na observação de doentes idosos devido ao número de pessoas mais novas que se calhar nem sequer deveriam ter ido a uma urgência em primeiro lugar. O SNS continua a esticar mas já mostra alguns rasgões aqui e ali.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Então, está-me a dizer que as 63 “recomendações” para o aumento de eficiência não resultaram nem em melhores serviços, nem em serviços mais eficientes? Estou pasmado. A seguir vão-me dizer que criar um monte de papelada para justificar tudo ao governo e a Bruxelas é um desperdício de recursos!

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