Crónicas do Rochedo 47: Era uma vez um CDS…

…..de quem a clique não gosta nadinha.

O Francisco Rodrigues dos Santos não agrada às comentadeiras de direita e centro direita em Portugal. Aliás, nunca foi o “Francisco”, foi sempre “o Chicão” e isso diz bem do desgosto das viúvas e viúvos do portismo (internamente) e do respeitinho pela “voz do dono” (externamente). Para piorar, afastou tudo quanto era herdeiro do portismo da direcção e das listas do CDS. É pecado mortal e está a pagar bem pago na forma como é destratado semanalmente.

Com o à vontade de quem não o conhece de lado nenhum e nem tão pouco votará nas próximas legislativas, não consigo perceber esta sanha contra o actual líder do CDS. Sobretudo porque não vejo discutir as ideias mas sim a pessoa. Maior espanto quando esses ataques, pessoais, invariavelmente são acompanhados por pequenos elogios ao seu principal opositor interno, o eurodeputado Nuno Melo. Será que desconhecem, politicamente, este? Será que nunca repararam que entregar o CDS a Melo é colocar o partido à direita do Chega? Quem os ouvia no passado e os ouve hoje fica espantado. Enfim.

O problema é que o CDS, desde o célebre congresso de Braga (1998), foi tomado por um grupo que passou, rapidamente, de facção a poder e de minoritário a maioritário liderado por Paulo Portas. Ao longo dos anos, essa liderança foi alimentando as diferentes cliques. Ora, depois de um susto quando Ribeiro e Castro, surpreendentemente, ganhou o congresso (coisa que o portismo se encarregou de assegurar que fosse sol de pouca dura) o CDS continuou como um partido unipessoal onde Paulo Portas punha e dispunha livremente. Até que o criador concluiu que a criatura já não servia os seus interesses e partiu para parte incerta ou, dito de outra forma, transformou-se em “consultor” e foi ganhar dinheiro a sério. Os seus apaniguados foram ficando com os despojos e de derrota em derrota perderam o partido para a actual liderança. Na primeira vitória de Francisco Rodrigues dos Santos a coisa passou incólume, minimamente, pois estavam os desamparados do portismo convencidos que seria uma segunda edição do fenómeno Ribeiro e Castro. Não foi. Azar. Lá se foram os lugares, lá se foi o palco. Só que isto é gente que não sabe estar e toca a infernizar a vida do novo líder. O que vão conseguir? Em princípio uma mão cheia de nada. O CDS vai passar um mau bocado, provavelmente terá um mau resultado e se a coisa descambar em desastre conseguiram cumprir o desejo do criador, do chefe: “sem mim, a desgraça”. É pena.

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Ode à Paz

Os passos cravam no soalho um tórrido sonoro grave, que inebria o corpo, deixando a pele áspera e fria. As memórias, guardadas numa velha peúga, como quem guarda a primeira poupança, comem-lhe as costuras, desgastam-lhe o tecido, desfazem-na, a pouco e pouco, como notas amontoadas, amarrotadas e velhas, como que ultrapassadas pelo tempo, como quem corta a meta. O fim, enfim.
 
No antro da saudade resguardam-se as memórias, escondidas na sombra, espreitam pela ténue linha de luz que entra pela soturnidade de um quarto fechado. As mãos afagam-lhes a face, como quem as passa pelo rosto de uma criança acabada de nascer. Pelo campo de mártires que, como soldados prostrados se rendem, vagueiam as almas que outrora se manifestavam ardentes de paz, urgentes de amor, sufocadas pela ânsia de nascer de novo. E são tiros, amores, são balas. São balas, amores, são bombas. É napalm cravado nas unhas, é pólvora que polvilha os dentes, é guerra que corrói a mente, que mata a fome dos que matam a gente.
 
E nada resta. E nada basta. E um só tiro não chega.
As lágrimas correm como corre o rio, os gritos imperam no silêncio da multidão, dos transeuntes que carregam o peso do corpo, que o arrastam para uma falésia prometida, para um fim sem chão. Sem tecto. Crianças correm, tentando dar cor ao quadro cinzento da morte. Olhares que se cruzam mas que não se dizem. Que não se deixam sentir, que não se deixam mostrar. Olhares que gritam, vidrados, irados de ódio. Mãos que não se atam, pés que não se libertam, vozes que não se ouvem, corpos que não se tocam. Vidas que não se vivem.

Mortes que vêm sem dizer, mortes de vidas por viver.
 
As odes cantam a urgência da paz, a vivência do caos, o vazio de uma casa abandonada. Odes cantam a grandeza do Homem, a mendicidade dos que não se deixam mendigar. Abaixo o Homem! Abaixo esta desumanidade tão humana, aniquilada pelos que matam de sede. Atrozes os choros das mães que dão a morte às portas da vida. Guitarras tomam de assalto Bagdad, flores explodem na Palestina, a Lua invadiu a Síria, o Sol brilhou no Iémen. Amor espalha-se pelo mundo e o tráfico de paz bateu recordes históricos. Foi o jornal da uma. E eu desligaria a TV, sorrindo como um miúdo.

A arte de não apalpar cus

Gosto de mãos, gosto de humor, gosto de ternura, de meiguice, de gestos bonitos, de elegância, mas um bom cu é maravilhoso. Penso que também não conseguiria resistir a um cu razoável. Mesmo alguns cus maus passam a ser quase razoáveis em certos dias. Resistir à vontade de apalpar cus é um esforço, como acontece com todas as aprendizagens.

Ando na vida para apalpar os cus de que gosto, mas não posso ou, no mínimo, não devo, pelo menos sem autorização de quem fala em nome do cu.

Sempre que vejo passar um cu que gostaria de apalpar, tenho de fazer um esforço imenso, não para controlar as mãos, não somos animais, mas os olhos. O pior de tudo é não poder ficar a olhar, porque há cus que merecem tempo, porque tempo pode ser dinheiro, mas também é imaginação. Imagino as minhas mãos e o cu observado, mas, como disse, nem sempre há tempo.

Olhar para um cu significa descobrir aqueles segundos em que sei que ninguém está a ver que estamos a olhar, o que inclui, antes de mais, a pessoa a quem pertence. Não há nada pior do que uma pessoa ser apanhada pelo objecto observado em flagrante delito de observação. No fundo, quem tem cu, tem medo e eu não tenho menos cu do que as outras pessoas. [Read more…]

O Al-Amin

Vou falar-vos do Al-Amin.

O Al-Amin tem trinta e três anos, tem um filho, tem esposa, tem casa. O Al-Amin tem um mini-mercado em São Domingos de Benfica. O Al-Amin sorri muito, cumprimenta sempre, de vez em quando desabafa e mostra empatia por quem passa pela sua lojinha – pequena e apertada, mas arrumada e asseada.

O Al-Amin, tendo esposa e um filho, está sem a esposa e o filho. Tem-nos, certamente, sempre na memória e no sentimento. Pode vê-los, sempre que quer, na tela do seu telemóvel ou computador, a nove mil quilómetros de distância. Da tela do Al-Amin saem saudades que se alojam directamente na tela da sua família, no Bangladesh. E será, certamente, pelas saudades que, sabe, nunca são eternas, que se mantém em Portugal. O Al-Amin abre a sua loja todos os dias, de Segunda a Domingo e aos feriados também, das 8:00 às 23:00. Não tem folgas. É patrão e empregado ao mesmo tempo. Paga com todas as suas obrigações. Quase 60% do que factura ao fim do mês, envia para o Bangladesh. “Para a minha esposa e para o meu filho ir à escola”, contou-me um dia. [Read more…]

A senhora e o cavador

 

Era uma vez uma senhora que geria uma propriedade agrícola. Certo dia, um dos dois cavadores morreu e, para poupar dinheiro, a senhora decidiu que era melhor não contratar mais ninguém. O outro cavador ainda se queixou, mas lá foi fazendo o trabalho dele e o do falecido.

A senhora, um dia, sempre preocupada em poupar dinheiro, resolveu que a enxada do cavador era muito cara e substituiu-a por um modelo mais em conta. O cavador ainda disse que isto assim ia ser difícil, menina, se ao menos arranjasse mais um cavador, qualquer dia a terra não ia render. [Read more…]

MOAMBA

  • Tens-te transformado numa coisa muito ruim! – disparou o homem enquanto comia uma garfada de bacalhau.
  • É o que tu dizes. Outras pessoas dizem o contrário. – respondeu a mulher mordiscando um palito de batata frita.

  • Quem? – quis ele saber.

O diálogo prosseguiu neste tom que a excessiva proximidade das mesas me impedia de não ouvir, apesar do ruído de fundo do restaurante cheio.

Refugiei-me na moamba e nas memórias de sabores que, no meu caso, recuam até à infância e a outras geografias.

Enquanto o homem se lamentava em voz alta e a mulher, em silêncio, se arrependia pela milionésima vez de se ter casado com aquela besta, eu sentia alguma nostalgia porque, se quase tudo é reproduzível, isso não acontece com o travo do óleo de dendém caseiro dessa infância longínqua, aquele que marca pela eternidade fora o verdadeiro gosto de uma boa moamba de galinha.

Bom dia?

Inspirado num texto da página https://www.facebook.com/Livrodponto

 

Era um professor que não cumprimentava colegas, porque, no fundo, detestava professores. Imagine-se o que será detestar professores e conviver com professores todos os dias da semana. Como se isso não bastasse, era casado com uma professora e meio professor por parte da mãe, mais um quarto do lado do avô materno. Como acontece com todos os professores, antes de ser professor, já tinha lidado com dezenas de professores, entre escola primária (era do tempo em que se chamava escola primária ao primeiro ciclo, imagine-se a antiguidade, a senectude) e a faculdade. Entre a casa e as escolas, nunca teria passado um dia sem se relacionar com, pelo menos, um professor.

O professor F. (vamos chamar-lhe assim, para manter o anonimato) vivia, por isso, em estado de sítio por se sentir sitiado, cercado de professores que nunca levantariam o cerco. Um dos dias mais felizes da sua vida consistira naquele em que passara a escrever sumários numa plataforma digital – nunca mais o viram na sala dos professores.

Um leitor aparentemente mais inteligente poderia perguntar por que razão um homem que tanto odiava professores não escolhia outra profissão. Aviso, desde já, o leitor de que a minha responsabilidade de narrador não faz de mim um ser omnisciente. Por outro lado, a vida está cheia de incongruências e o ser humano raramente é racional. Finalmente, se o leitor não gostar da história, escolha outra e meta-se na sua vida, que uma coisa é ler, outra é coscuvilhar. [Read more…]

O mijo e o leite

No frio beirão de uma aldeia já quase espanhola, em tempos que ainda cá estão, o rapaz, o mais novo de nove irmãos, estava sentado na cozinha, olhando para a mãe, que lavava a louça do jantar. A casa alimentava marido, filhos, trabalhadores, uma pequena multidão no tempo em que os animais falavam e as máquinas de lavar louça nem sequer eram ficção científica, porque ali ainda não tinham inventado a ficção científica.

O cheiro dos animais, do suor e do fumo misturava-se com o próprio odor do frio. O rapaz, irrequieto, irreverente, vivia revoltado com os óbices do mundo, com a falta de lógica de um universo que parecia inventar obstáculos à simplicidade que deveria ser a vida. Um dia, talvez incomodado com a necessidade de ordenhar vacas, perguntou em voz alta por que raio não haveríamos de beber o mijo em vez do leite.

Nessa, como em muitas outras ocasiões, diante da constante contestação do filho, o pai, já cinquentenário e absoluto respeitador da Criação, abria a boca de assombro e de preocupação, chegando a pôr a cabeça entre as mãos e perguntando “O que há-de ser deste rapaz?”, antevendo um futuro negro a quem dizia palavras como heresias.

Ver a mãe a lavar tanta louça ferveu dentro do rapaz como uma queimadura, uma revolta proporcional à compaixão que lhe nascia de ver a mãe sobrecarregada. De repente, entre a facilidade do mijo e a dificuldade do leite, encontrou mais uma solução: “Os pratos deviam deitar-se fora todos os dias e havia outros novos. Acabava de se comer e atirava-se com o prato assim!” E imediatamente juntou a palavra ao arremesso, pondo um prato a voar pela janela, enquanto abria a porta a um novo mundo.

Uma velha tia, visita habitual da casa, vinha a subir as escadas e foi atingida pelo prato que nunca tinha chegado a sair do mundo em que se bebe o leite das vacas.

Cego e surdo

Intercidades. Devidamente munido de alguns livros, estou pronto para a viagem, preparado para entrar noutros mundos e protegido contra o tédio, dispensado, portanto, de conversar com desconhecidos. Ao meu lado, senta-se um homem. Baixa a mesinha mínima presa ao lugar da frente e poisa sobre ela um livro de capa vermelha, folhas mais largas do que altas. Apesar do formato estranho, adivinho um irmão leitor. Abre o livro: várias páginas de uma partitura musical. As mãos, poisadas nas coxas, começam a percorrer um teclado imaginário e o pé vai pisando um pedal do mesmo piano. Imaginário, digo eu, claro, porque, no mundo deste homem sentado ao meu lado, sou cego e surdo. Saiu antes de mim e deixou-me aqui o piano.

Crónicas do Rochedo 46: A Pantera Cor de Rosa nunca me enganou….

A infantilização dos adultos não é coisa nova. Recordo como se fosse hoje quando, nos idos de 90 do século passado, fui a uma reunião na Associação de Estudantes de Engenharia do Porto (FEUP) e o bar da dita estava cheia como um ovo com os marmanjos, futuros engenheiros, em silêncio a ver o “Dragon Ball Z” na televisão. Os mesmos marmanjos que na noite anterior estavam no Ribeirinha e no Academia a emborcar vodkas limão como se não houvesse amanhã entremeadas com umas ganzas e, alguns, a aspirar umas coisas pelas narinas. Nunca percebi o fascínio meio infantil pelo Dragon qualquer coisa Z…

Isto a propósito de hoje, em pleno “telediário” da RTVE24, o canal de notícias 24 da televisão pública espanhola, estar em destaque, como uma das cinco principais notícias a desenvolver no dito, o novo episódio do Super Homem (Marvel) em que o dito se assume como bissexual. Sim, no principal “telejornal” isto é notícia. O Super Homem é bissexual ou, como se diz no meu Porto, “dá para os dois lados”. Eu quando era miúdo sempre desconfiei que o Tio Patinhas era gay não assumido, que a Pantera Cor de Rosa era lésbica e que o Sapo Cocas sofria de violência doméstica. Era tudo deixado à imaginação de cada um. Agora não. É tudo explícito e politicamente correcto. Para o bem das criancinhas. Das criancinhas adultas. Pois as verdadeiras estão-se a cagar para isso.

Valha-nos Deus que isto está infestado de chalupas. O mundo está mesmo a ficar perigoso…

Um homem fecha os olhos à morte

A natureza dos laços que nos prendem aos outros pode ser estranha. Eu tive, durante anos, uma relação com uma família que mal conhecia, mas a quem me prendia uma circunstância invulgar: tinha sido o meu pai a assistir à morte súbita do pai deles e a fechar os olhos do cadáver. Foi uma cena que assombrou a minha infância e que eu imaginei e reeimaginei vezes sem conta. Um homem que o meu pai conhecia de vista, porque morava próximo, caminha frente a ele. É de manhã cedo, há pouca gente nas ruas. O homem cai, um corpo desamparado no chão. O meu pai corre para ele. O homem não tem pulso nem respira. O meu pai chama alguém (que estava à janela?) e pede-lhe que ligue para o então 115. Pouco depois – quanto tempo? – reconhece que nada mais pode fazer e desliza a mão, imagino que a direita, suavemente pelo rosto do homem, para fechar-lhe os olhos.

A família do morto passou a tratar o meu pai com alguma deferência, o que muito me espantou porque, afinal, ele não tinha conseguido evitar-lhe a morte súbita. Fechar os olhos parecia-me tão pouco. É verdade que tinha acompanhado o homem nesses minutos finais, mas já o tinha encontrado morto, pelo que tampouco teria sido um verdadeiro conforto. É provável que o homem já estivesse morto quando o corpo embateu no chão. [Read more…]

Crónicas do Rochedo 45: Aqui está o efeito Ayuso

No passado dia 17 de Abril escrevi uma crónica com o título “A carteira é quem mais ordena ou o efeito Ayuso“. A crónica mereceu uma audiência surpreendente e eu, enquanto seu autor, levei porrada de criar bicho na respectiva caixa de comentários. E porquê? Porque escrevi que Isabel Diaz Ayuso iria esmagar a concorrência e ter um resultado histórico.

Um anónimo com nome de apóstolo comentou que eu não era sério na análise. Um outro acabou por ir em “Paz”. Nem voltei a falar no tema. Eu sabia que bastava esperar por hoje. Afinal… Ayuso conseguiu ter ainda mais votos do que aqueles previstos em Abril. A fazer fé em todas as sondagens à boca das urnas publicadas às 19h de hoje, Ayuso sozinha vai ter mais deputados que toda a esquerda junta e terá mais de 43% dos votos (numa das mais participadas eleições de Madrid). O segundo partido mais votado é o PSOE com 18%. Em terceiro o Más Madrid com 16%, em quarto o VOX com 9,2%, em quinto o Podemos com 7,9% e por último o Ciudadanos com 3%. Se isto não é esmagar… Ayuso foi buscar votos ao Ciudadanos (depois de quase desapareceram na Catalunha, repetem o feito em Madrid) e ao PSOE. As razões já estão explicadas no meu outro post (link acima).

A minha opinião sobre Isabel Diaz Ayuso não é a melhor (como referi há muito num dos PodAventar) mas não reconhecer que é corajosa e arrojada seria pouco sério da minha parte. O problema é que o efeito Ayuso não se fica por Madrid. Nalgumas comunidades autonómicas existem movimentos que querem a mesma gestão da crise pandémica que Ayuso seguiu. O que está a tornar complicada a vida para o PSOE em comunidades como as Baleares, por exemplo. Quem ficou, também, com a vida mais complicada é o actual presidente do PP. Ayuso vale mais votos que ele. Já Pablo Iglésias cometeu um erro tremendo. Estava confiante que Madrid o receberia de braços abertos e conseguiria evitar uma vitória de Ayuso e da direita em Madrid. Pode regressar ao seu “chalet” de 700 mil euros num dos bairros mais exclusivos de Madrid e, quem sabe, escrever as suas memórias políticas enquanto olha para os seus vizinhos, eleitores de Ayuso e do VoX. O “Pablo Podemita”, como lhe chamam por aqui, representou o pior da esquerda caviar em todo o seu esplendor.

Crónicas do Rochedo 44: A carteira é quem mais ordena ou o efeito Ayuso

Nas próximas eleições autonómicas de Madrid, a candidata do PP e actual presidente da Comunidade Autonómica de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, prepara-se para esmagar eleitoralmente a concorrência e ter o dobro dos votos obtidos nas anteriores. Nas anteriores o PSOE tinha ganho, mas a coligação pós eleitoral PP/Ciudadanos e o silêncio do VOX foram suficientes para governar. Os espanhóis chamam-lhe “o efeito Ayuso”. E porquê?

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Crónicas do Rochedo 43 – Ainda discutem um novo Aeroporto???

Nos últimos dias foram publicadas duas notícias que são todo um programa para o que nos espera nos próximos tempos. A primeira foi no Observador, uma entrevista ao Presidente do Grupo Jerónimo Martins onde ele explica que estamos a caminhar para uma crise grave, muito grave. Profunda, nas suas palavras. “Relativamente ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) “que está proposto, para mim ainda não está totalmente claro como é que vai funcionar, nem em que áreas”, prosseguiu, salientando que aquilo que tem sido transmitido pela comunicação social portuguesa sobre o tema não o deixa “minimamente confortável”, fim de citação.

A outra foi num dos jornais de economia de Espanha, o Expansión. Onde é explicado que este verão é a última oportunidade para salvar a economia espanhola se e só se o governo espanhol consiga elaborar um plano de regresso a uma normalidade económica. Caso contrário, o abismo. Algo que se aplica a Portugal – a Grécia, a Turquia e o Chipre já se adiantaram e ficaram com a fatia de leão das reservas de verão que se vendem no primeiro trimestre do ano. Ora, perante tudo isto, qual a mensagem que passam os nossos governantes?

Estão a discutir o novo Aeroporto de Lisboa. Ainda e sempre. Ora agora é no Montijo, ora depois é em Alcochete e por fim será onde as negociatas do eterno e sempre em pé bloco central deseje. A sério que estão a discutir esta merda? No meio de uma crise económica sem precedentes continuam com a treta do novo aeroporto? Olhem, aproveitem o elefante branco de Beja, metam um comboio rápido e vão ver que não será muito diferente, em termos de distância/tempo do caso de Beauvais (Paris) ou Memmingen (Munique), entre outros exemplos nas grandes cidades da Europa.

A sério que os nossos (ir)responsáveis políticos consideram, hoje, que a construção de um novo aeroporto é algo útil para a nossa economia? É o novo aeroporto que vai salvar o turismo (em Lisboa, no Algarve, no Porto, nas ilhas?), que vai salvar da falência as centenas de milhar de empresas que estão, na realidade, falidas? Que vi criar postos de trabalho em número suficiente para regressarmos aos valores pré pandemia? É esta a visão de futuro do governo de Costa?

Crónica do Rochedo 42 – Grécia: O Elefante na Sala

O gigante do mercado de viagens de turismo, TUI, através do seu presidente Marek Andryszak, lançou um comunicado a informar quais as tendências nas actuais reservas do mercado alemão para a temporada de férias de verão deste ano.

Pela primeira vez, as ilhas gregas atingem o primeiro lugar como destino escolhido pelos alemães (principal mercado para o turismo da Europa). Aliás, Grécia e Turquia são quem mais sobe. Já Portugal e Espanha quem mais desce. No Top 15 das reservas já contratadas pelos alemães, o Algarve aparece num assustador 15º lugar e Espanha vê a eterna número 1 das escolhas dos alemães, Maiorca, descer para segundo lugar, ultrapassada pela grega Creta. Algo inimaginável nos anos anteriores à pandemia. E a Riviera turca à frente das Canárias. Aliás, nos cinco primeiros lugares, a Grécia coloca três destinos e a Turquia um – só a espanhola Maiorca , em segundo lugar, se intromete nesta guerra. Antes da pandemia, a guerra pelo top 5 era dividida entre as espanholas Canárias e Maiorca com a Turquia a tentar espreitar. Como chegou aqui a Grécia em tão curto espaço de tempo? Pelo preço? Não. Com campanhas de marketing? Não.

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Crónicas do Rochedo – 41: O Debate na TVI24 (Política e Redes Sociais)

Ontem, a convite da TVI24, participei num debate em que me foi pedido para falar sobre a presença dos partidos políticos nas redes sociais (o efeito das redes sociais na política). No debate participaram, igualmente, Paulo Pena (jornalista), Diogo Faro (Humorista) e Francisco Teixeira da Mota (advogado).

Ao decidir aceitar o convite da TVI24 iria quebrar um prolongado silêncio, uma vez que, desde a minha entrevista ao Miguel Carvalho (Visão, 2013), tenho recusado este tipo de convites. Obviamente, sabia que ao participar no debate iria despertar dois grupos, velhos conhecidos meus: as virgens ofendidas e os amnésicos. Ora, eu vivo e trabalho em Espanha há mais de cinco anos. Não trabalho, nem directa nem indirectamente, com qualquer partido ou empresa portuguesa, o que, a meu ver, me permite o distanciamento necessário para abordar a matéria para a qual fui convidado. O Paulo Pena foi convidado porque, reconhecidamente, é um dos jornalistas portugueses que mais tempo e atenção dedica ao fenómeno. O advogado Francisco Teixeira da Mota foi convidado porque é um dos especialistas na matéria. O Diogo Faro foi convidado, pelo que percebi, porque é activo nas redes sociais e está (ou esteve) envolvido numa polémica nas mesmas recentemente. Eu fui convidado porque, no entender da TVI24, conheço o meio no tocante à participação dos partidos nas redes sociais.  [Read more…]

Crónicas do Rochedo 40 – A Esquerda Trumpista

(Foto de Rodrigo Antunes, LUSA)

Os trabalhadores e os proprietários de estabelecimentos de restauração e similares (restaurantes, cafés, bares, etc) vieram para a rua protestar contra a situação que estão a viver desde março de 2020. Mais do que um protesto foi um acto de desespero.

Nalguns casos estão sem trabalhar desde março (bares e discotecas, por exemplo) continuando a ter de pagar impostos, rendas e outras despesas correntes. Noutros casos, estão a trabalhar com perdas superiores a 60%, 70%, 80% ou mais. A culpa é da pandemia? É. Mas não só. O Estado continua a assobiar para o lado. É fácil ordenar o encerramento. Difícil é ajudar quem foi obrigado a acatar a ordem de encerramento. Por muito inevitável que fosse. E foi. É. O que o Estado não explica ou não quer que se saiba é o facto deste sector, no seu conjunto, representar cerca de um milhão de trabalhadores e centenas de milhares de micro e pequenas empresas. Que foi deixado ao “Deus dará”. São essas pessoas abandonadas pelo Estado as mesmas que ouvem nas televisões um ministro da Economia falar numa injecção de milhões no dito sector e cujos putativos beneficiários não vislumbram um tusto de tal. São os mesmos que continuam a ouvir o Governo a falar de um comboio de alta velocidade, de milhares de milhões a injectar na TAP e dos pornográficos projectos PIN2030. São os mesmos portugueses que não podem abrir os seus negócios cumprindo um batalhão de regras e cujos trabalhadores não podem trabalhar, mas viram, nas televisões, multidões em Fátima, na Fórmula 1, na Feira do Livro ou na Festa do Avante.

Desta vez, não aguentaram mais e foram (mesmo assim poucos) para a rua protestar. No Porto, em Lisboa ou Aveiro, entre outras cidades. Ora, no Porto, a coisa azedou e assistimos a uma troca de empurrões e uma ou outra chapada. Acreditem, foi coisa pouca. Mas…Existe sempre um “mas”. Um conhecido cozinheiro (Chef é a palavra que agora se usa mas eu continuo a preferir a antiga) fomentado pelos media, muito querido da esquerda caviar e que até é oriundo da Sérvia, de seu nome Ljubomir, disse em voz alta o que muitos patrícios do sector dizem em surdina. Qual não é o meu espanto, a tropa de choque da esquerda nas redes sociais começou a gritar contra o homem. Os mesmos que antes o idolatravam na televisão, nos “roast” em que participou ou nas suas aparições no “Como é que o bicho mexe” estão agora muito indignados. Até o acusam de participar em manifestações manipuladas pela extrema-direita, pelos fascistas e, alguns, mais exaltados (quiçá fruto de algum grão na asa que isto de confinar é um problema), atiraram logo com o “se não estás bem vai para a tua terra”. O homem, à bruta, teceu umas palavras contra o Governo e a esquerda trumpista começou logo a ladrar. Daí partiram logo para a velha receita, retinta, de que esta malta da restauração foge aos impostos. A nandinha do Sócrates, liderando as viúvas do senhor, começou logo a cuspir ódio. A mesma que pagava os fins de semana em dinheiro e sem factura…Ora, existe aqui uma confusão qualquer. A malta da restauração e similares (admito que possam existir umas excepções) não colocou a sede das suas empresas na Holanda ou noutros paraísos fiscais, não participou na escandaleira do BES (pelo contrário, alguns ficaram foi a arder) nem se viram nas operações Lex ou na robalada que todos bem conhecem. Ao contrário de alguns(as) bem conhecidos(as) e apoiados pela nossa esquerda trumpista. Pior, no alto das suas tostas de caviar e das suas pochetes LV, não sabem o que é gerir uma empresa ou trabalhar horas e horas a servir às mesas. Não fazem ideia do inferno que é trabalhar numa cozinha ou atrás de um balcão de um bar ou discoteca. Sim, essa cachupada não faz a mínima ideia do que é a vida e confundem a mesma com a timeline do twitter ou os cinco mil caracteres sem espaços de um qualquer Diário de Notícias ou Público. Hoje, defendem o Costa como ontem o faziam, e de forma mais canina, com o Sócrates. Defendem, verdade seja dita, quem lhes dá de comer. E pegam pesado com quem se atreve a discordar. E se for um qualquer Ljubomir pior ainda, é logo mandar o homem para a sua terra.

O que este sector da nossa economia precisa é que mais “Ljubomires” levantem a voz e se necessário for, ofereçam umas valentes galhetas. É a única forma de serem ouvidos. Os tempos não estão para falinhas mansas. Na manifestação do Porto já tiveram uma pequena amostra do que pode estar a caminho. Uma pequena amostra. Pornografia é ter fome, é não conseguir dar de comer aos filhos. O desespero faz o resto. A extrema direita e os venturas da vida vão procurar capitalizar estas manifestações? Vão. E a extrema esquerda fará o mesmo. Já para não falar nos chalupas dos negacionistas. São os custos de contexto. Mas isso não retira a razão aos homens e mulheres deste sector que estão a passar por um tempo de desespero sem igual. Se a esquerda trumpista e a nossa classe política quer evitar o que se avizinha, então que ganhe juízo e faça o que tem de ser feito. Caso contrário, isto só lá vai à chapada. Da grossa.

 

Crónica do Rochedo 39 – Vai ficar tudo bem…

Recentemente, num daqueles momentos alucinados normais na nossa política, o Governo anunciou um plano (escondam a carteira) para investir 43 mil milhões até 2030 em infra-estruturas, o pomposamente chamado PNI 2030.

A apresentação foi em outubro de 2020. Eu pensei que teria sido em 2019 mas não, foi mesmo em 2020 e daí ser a coisa mais alucinada que vi nos últimos meses, o que não é fácil. Em outubro de 2020 já estávamos perante a 2º vaga da pandemia COVID-19. Em março de 2020 escrevi várias “Crónicas do Rochedo” aqui no Aventar sobre a desgraça que estava a caminho em vários sectores da nossa sociedade só por causa da queda com estrondo do turismo, fruto da pandemia. Em março.

Neste momento, os piores cenários estão a ser revistos. Para pior. E no que se dedica o governo (não só o Português, o de Espanha está no mesmo registo)? Em políticas de treta. Metade da verba (virtual…) vai ser aplicada em investimentos na ferrovia, transportes e mobilidade. Temos o desemprego a crescer de forma violenta. Temos sectores da economia em que se contam pelos dedos as empresas que se podem safar (hotelaria, restauração, turismo e similares), temos a pobreza numa escalada sem precedentes e querem apostar em infra-estruturas como o novo aeroporto do Montijo ou TGV Lisboa-Porto? Era cómico se não fosse trágico.

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Dono da noite

O Carlos diz-nos que há uma palavra em inglês parecida com beer para féretro. Está a delirar, pensamos nós. Larga isso. Deixa-te dessas coisas, não tens idade para essas aventuras. O Zé começa a procurar no telemóvel. E encontra: bier. Ou seja, cerveja em alemão, mas com o inconveniente da inicial minúscula. Afinal, por incrível que pareça, o Carlos tem razão. Frequentemente. Ainda bem. Gosto dele. Muito. Cheguei a casa e, perante o meu desafio, a Sofia lembrou-se logo do féretro. YES! A minha sorte é estar rodeado de gente inteligente. Por falar em inteligência, há muitos anos, avisei que “uma noite não é nada” era, com o soldado desconfiado dos GNR, a melhor canção portuguesa de sempre. “De quem é isso?”, perguntavam-me. Não me lembro. Era puto e filho único. Mas reproduzia a melodia na guitarra e cantava, armado em Né Ladeiras, Adelaide Ferreira ou Concha, expondo o meu excelente falsete. Sou amigo, aliás, muito amigo, do excelente pianista do sonho azul. De nada me serviu . A culpa é minha. Podia ter perguntado. Horas e horas de amizade e cumplicidade e não chegámos lá.  Hoje, ao falar com o Tripa sobre qualquer coisa relacionada com futebol (acho que os 1-5 ao Famalicão lhe fizeram azia), pimba, apareceu-me nos Marshall. Que maravilha.

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Com o Garrett ninguém se mete

Stefano Martignano, Padova_01 (https://bit.ly/2FB6X96)

Tenho estado tanto tempo à espera da tua voz
Para receitar-te campo e umas águas com gás
Conversas monolexicais deixam-nos sós
A ver insectos no banco de trás
—Johnny Garrett, Patient’s sunrise

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E lá vou eu a caminho do gabinete do meteorologista, no quinto esquerdo do edifício cinzento. Fica ali para as bandas do cemitério, perto das antigas casernas, ao pé do velódromo. Não preciso do weather man para saber do que lado sopra o vento, já dizia o Bob Dylan, mas no emprego pediram-me um atestado a comprovar a minha depressão sazonal crónica, por isso, neste preciso momento, um meteorologista dá-me imenso jeito e faz-me muita falta. Encontrei este, por acaso, nas páginas amarelas cá do sítio. Chego ao edifício cinzento. Não há vivalma nas redondezas. Apanho o elevador com mau aspecto, chego ao quinto esquerdo e dou de caras com uma magricela um bocado pespineta. “Diga”, rosna-me ela. “Tenho consulta com o técnico, o meteorologista, sff”. Ela franze o sobrolho e tira-me as medidas. “O senhor doutor está ocupado com um poema. Mas pode atendê-lo. É só um bocadinho”. A pespinetazeca de tamanho meia-dose dá dois macérrimos murrinhos na porta, abre-a, troca o olhar cúmplice da praxe visto em tantos filmes de domingo à tarde e dá a ordem: “pode entrar”, diz-me ela, com um sorriso forçado, naquela cara de Helga Geerhart das casernas ali ao lado do velódromo. O senhor doutor do quinto esquerdo do edifício cinzento põe os óculos na ponta do nariz e dá-me as boas-vindas. “Bem-vindo. Estou aqui a acabar o poema, já o atendo”. [Read more…]

Dignidade

«Aunty», Lee Byford-Daynes

 

As filhas da Dona Graça estavam certas de que a mãe já não tinha idade para dormir com o namorado. “Namorado”. Só o nome que ela lhe dava já lhes parecia ridículo. Uma mulher de 77 anos não tinha namorados. Vê-la de mão dada com ele pela rua era embaraçoso. Parecia-lhes uma manifestação de senilidade, sem dúvida, mas também de bizarria, porque havia algo de animalesco nesses apetites da mãe, e essa animalidade era um vexame para as filhas, ainda que ela parecesse incapaz de entendê-lo. A Mafalda até confessou que sentia a mesma vergonha que a fazia virar a cara quando, em criança, os cães copulavam à porta de casa e era preciso separá-los com um balde de água, mas a Joana achou a comparação excessiva.  [Read more…]

30 mil Tagores numa casa sem campainha

No café dos millennials, onde em cada mesa se encenam pequenos dramas em que só muda o filtro de Instagram, sento-me com uma revista literária espanhola, um número dedicado à loucura. Detenho-me numa história absurda, a de um apartamento em Ourense onde se esconde, não pela intenção de permanecer secreta, mas pelo desinteresse de todos, a colecção de livros de ou sobre o Nobel da Literatura Rabindranath Tagore mais valiosa do mundo. Por cima de uma loja de fertilizantes, adubos e rações, é o único espaço alugado numa galeria comercial em decadência. Grafitis nas paredes, heroinómanos a injectarem-se à porta, casais sem dinheiro para um quarto de hotel. [Read more…]

Episódios da memória

Regresso a Bruxelas no sábado, depois de quase um mês em Portugal a carregar com o pé direito no acelerador pesado da Passat. Na segunda, desço à garagem, para pôr o Golf a trabalhar. Está sem bateria. Não há problema, só tenho dentista na sexta. Entretanto, alguém há-de me desenrascar. Na quarta, desenrascam-me, com uns cabos. Agradeço ao mecânico e ao meu amigo, esmago a embraiagem, meto a primeira, carrego no acelerador leve do Golf e eis o habitual solavanco inicial, por causa do pé direito habituado ao acelerador da Passat. O solavanco é habitual, mas só inicial. Depois, felizmente, passa. Quando for ao dentista, não haverá solavancos. Cerca das 19h50, saio de casa e vou a pé ao sítio do costume ver o futebol. Aproveito o caminho para ir ouvindo música em modo aleatório, baralhado, desorganizado — calha-me o Going Home do Mark Knopfler, na versão do Alchemy, dos Dire Straits. Vejo o jogo enquanto janto e, depois de duas de letra, cerca das 22h20, regresso a casa. Lavo os dentes e vou dormir. Acordo às 6h18, com o órgão do Going Home de há oito horas e meia na cabeça. Antes de me levantar, alinhavo esta crónica. Levanto-me e escrevo-a. Antes de a publicar, bebo um café forte — vai ser um longo dia.

Fim.

Oito apartamentos e um sótão (9)

Sótão

 

Ando há muitos anos na construção civil, gosto de participar na construção de prédios, gosto de ver nascer apartamentos, imaginar que ali vão viver pessoas, comparar os espaços vazios com a decoração escolhida e confirmar que somos todos diferentes ou que somos previsíveis. Conheço os prédios melhor do que as pessoas que lá vivem, conheço cada canto dos apartamentos.

Este sótão, por exemplo. Ninguém vem aqui. É preciso saber que há uma escada escondida que é preciso puxar, fixar, subir sem apoios, realizar acrobacias que já não são para todos. Mesmo eu, que ainda não sou propriamente velho, sofri para chegar aqui.

Confesso que também tenho chaves que abrem as portas dos apartamentos. Muitas vezes, entro nas casas, quando não está ninguém. Também entro quando sei que as pessoas têm um sono mais profundo. Eu sei que seria o suficiente para ir preso, mas juro que nunca roubei nada, juro que nunca me aproveitei de ninguém. Talvez seja mais correcto dizer que não roubei nada que faça falta ou que seja material. Sim, tiro uma ou outra fotografia, anoto frases nuns cadernos velhos, colecciono sons que vou gravando, guardo pequenos vídeos.

Às vezes, faço consertos que não dêem muito nas vistas, que é uma maneira de pagar o espectáculo da vida alheia. Já lhe aconteceu a torradeira avariar de manhã e funcionar à tarde ou a chave entrar melhor numa fechadura que só estava a precisar de um bocadinho de óleo (ou de azeite, como me ensinou o meu avô, que era marceneiro)? Posso ter sido eu. Não tem nada que agradecer.

Não preciso de arrendar ou de comprar casa. Vou mudando de sótão. Um colchão, um fogareiro eléctrico, umas conservas e aqui está o porto de abrigo, a torre de vigia, a vida dos outros como minha.

Tenho esta mania desde pequeno: ver sem ser visto. Em casa, gostava de me esconder dos meus pais e compreendi que é tanto o que escondemos que só podemos ser verdadeiramente conhecidos por quem nos espiar. Há coisas que preferia não ter sabido e outras que me foram muito úteis.

Nessa altura, enquanto me escondia em casa, mostrava-me na rua: contava aos meus amigos as minhas façanhas de espionagem caseira. Quando me lembro dessas narrativas, apercebo-me, no entanto, de que não lhes contava verdadeiramente aquilo que via, preferindo romancear. Curioso: tinha acesso à verdade e preferia contar mentiras.

Depois de ter participado na construção deste prédio, instalei-me, então, aqui, neste sótão, como já disse. Quando o vírus se tomou conta do mundo, já eu estava confinado a maior parte do tempo. É certo que passei a ter o cuidado de me desinfectar e de usar máscara quando passeava pelo prédio, porque não queria contaminar ninguém.

O facto de toda a gente passar mais tempo em casa também fez com que redobrasse a minha invisibilidade, aumentasse o silêncio. Pude, então, ver ainda mais, conhecer melhor todos os vizinhos. Enchi os cadernos de vícios e de virtudes, fragmentos, pedaços, fatias de pessoas, juntei memórias e impressões, emocionei-me com gestos, senti vontade de intervir, mas isso está vedado a fantasmas ou a viajantes do tempo.

Não se passa impunemente por uma quarentena, mesmo aqueles que, como eu, já a praticavam. Senti-me outra vez criança e preciso de contar, de dar forma a estes apontamentos, de mostrar as pessoas de quem me escondi, as pessoas que se escondem.

São tantas as histórias que tenho pena de não ter contado: Beto Estrela, o artista pimba que obrigou a rua a ouvir o grande sucesso “Cor no cotovelo”; a mulher com fama de ninfomaníaca e tanta falta de proveito; o pintor impedido de ir ao estúdio que descarregou as tintas e as ideias na parede de casa e que continuou pelo interior do prédio; o homem que descobriu que era marido e pai, depois de estar adormecido tantos anos. Tudo nos obriga a esconder ou a revelar qualquer coisa.

Decidi escrever estas oito histórias. Se me perguntarem se são verdadeiras, não saberei responder-vos. O prédio existe, os apartamentos também, as pessoas de certeza.

Estou de saída. Há outra obra a começar. Meto tudo na mochila e sacudo o pó. Olho para as calças. Nunca se consegue sacudir o pó todo.

Oito apartamentos e um sótão (8)

Quarto esquerdo

 

Depois de passarmos a porta de entrada, estamos no hall. À esquerda, encostado à parede, um armário antigo, castanho-escuro, baixo, com uma peça de cerâmica tão moderna que parece fazer gala da sua inutilidade. À direita, um bengaleiro que parece uma árvore seca.

Avançando uns passos e virando à esquerda, entramos na sala. Não é muito grande, quadrada. A mesa e as seis cadeiras de palhinha estão em bom estado. Na parede em frente, um aparador antigo: dois potes pequenos e várias molduras com fotografias.

Vale a pena, vale sempre a pena, ver as fotografias, especialmente quando estamos à vontade, sem a presença dos retratados. Da esquerda para a direita, há uma ordem que vai de tempos mais recentes para o passado, das cores até ao preto-e-branco. Aqui, está uma fotografia muito recente de três senhores de idade. Um deles é aquele que podemos ver, nesta mesma sala, sentado no sofá, morto. Outra fotografia com os mesmos homens um pouco mais novos, numa esplanada, fazendo um brinde para a câmara, sorrindo à ignorância da morte, sem perder tempo a pensar se será a última vez que brindam, como se fizesse sentido uma pessoa estar sempre a sorrir e a pensar que poderá ser a última vez. A fotografia mais antiga é a de um homem de chapéu, a olhar para uma distância.

Se nos sentarmos no sofá, ficaremos, então, ao lado do morto. O senhor Aguiar está morto. Foi há pouco tempo, estávamos nós a entrar em casa e ele a morrer. A televisão está desligada e a mão do senhor Aguiar está perto do comando. Esta não foi, portanto, a última vez que viu televisão. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (7)

Quarto direito

 

O senhor Joaquim Figueiredo e a sua senhora, Maria como é evidente, já vivem no prédio há muitos anos, compraram o apartamento ainda na planta, como gostavam de lembrar, repetindo sempre as frases um do outro, para ocasional irritação de ambos, porque só o outro é que imita.

Tantos anos de convivência fizeram com que a senhora, mais faladora, contasse as histórias todas, incluindo aquelas em que não participara, como a passagem do marido pela Guerra Colonial. Maria descrevia, então, em pormenor, o cheiro a napalm, as balas tracejantes, as minas nas picadas e as idas às putas, porque a guerra é a guerra e um homem não é de ferro. O senhor Joaquim, nesta parte da narrativa, tinha sempre um sorriso entre o saudoso e o sádico, o que lhe valia invariavelmente um empurrão vagamente terno da mulher.

Estas histórias já estavam a ser contadas aos netos, ainda que a palavra “putas” passasse a “meninas”. A filha já tinha desistido de pedir aos pais que censurassem esta parte e tentava reprimir os pedidos insistentes dos netos para que a avó contasse as aventuras sexuais do avô, que, na realidade, eram mais sexuais do que aventuras.

O casamento já ia em mais de cinquenta anos, um contrato rigorosamente cumprido, um edifício antigo, com alguns remendos, mas sólido, como são os casamentos que não eram propriamente por amor, mas que acabavam numa convivência feita de alguma necessidade, de muitos deveres e um pouco de ternura muito disfarçada.

Certo dia, o senhor Joaquim sentiu-se fraco, parecia ter alguma temperatura, dificuldades em respirar, tudo muito parecido com os sintomas provocados pelo vírus. Com o agravamento, foi levado para o hospital, mostrando a fragilidade assustada dos velhos quando se despediu da mulher. Depois de algumas complicações, Joaquim Figueiredo morria, um número das estatísticas.

Maria ficou sozinha em casa, recusando o convite da filha, que já tinha um quarto para a mãe. “Ainda estou bem. Quando sair daqui, é para ir para um lar.” Aceitou que a filha passasse a deixar-lhe as compras à porta e divertia-se a dizer adeus aos netos, da varanda, quando vinham visitá-la aos fins-de-semana.

O tempo passou a correr ainda mais devagar. Sem o marido, deixava de ter refeições para cozinhar. Começou a investigar os caixotes e as gavetas de Joaquim, divertindo-se com álbuns de fotografias, viajando a um passado em que se faziam poses de estrela de cinema, o que a levava a elogiar-se a si própria: “Eras bem jeitosa, minha menina!”

Numa dessas incursões a um mundo de papéis amarelecidos, de facturas desnecessárias ou de fotografias a sépia, descobriu um molho de cartas embrulhadas por um atilho. Começou a lê-las e descobriu que o marido tivera um caso durante anos com uma mulher que tinha conhecido em Lisboa. O romance fora prolongado e tórrido, as cartas continham descrições e memórias picantes, momentos intensos, Maria não merecia sequer uma referência. Precisava de se vingar e resolveu ligar à filha:

  • Estou. Olha, descobri umas cartas que o teu pai me escreveu. Vou só ler-te algumas partes. Ora ouve.

Oito apartamentos e um sótão (6)

Terceiro esquerdo

 

Vou matá-lo, caralho, eu vou matá-lo, não vou ficar fechado aqui em casa com um filho da puta de um bêbado que ainda acha que me pode bater. Ou fujo, que se foda o vírus, ter um pai assim é que é um vírus e não há vacina para esta merda.

A minha mãe pirou-se desta merda, não quis saber, puta do caralho. Eu, se fosse a ela, também fugia, não sei porque é que não fujo, há tanta gente que devia fugir e fica e outros que deviam ficar e fogem. Anos desta merda!

Já na outra casa, o meu pai metia-se nos copos e gastava tanto dinheiro em vinho que tem uma cirrose. É tão bêbado que nem chega a saber que é bêbado. Pelo meio, batia em toda a gente, porque tinha mau vinho ou porque era mau e estava cheio de vinho, um gajo não chega a saber. A minha mãe ainda pegou numa faca, mas não conseguiu fazer o que tinha a fazer. Pôs-se a chorar, ainda foi pior, apanhou mais. A puta da cirrose é que não há maneira de o levar. O gajo é tão ruim que até pode apanhar quarenta vírus que não morre. Mato-o eu, filho da puta. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (5)

Terceiro direito

João e Maria já tinham tudo combinado para se divorciarem, quando o vírus os obrigou a adiar os planos, fechando-os dentro da mesma casa durante mais uns tempos. A família de Maria viu nisso um sinal de que Deus queria a reconciliação. A mãe de João, viúva recente, também louvara a quarentena, porque tinha uma verdadeira paixão pela nora, ao ponto de culpar o filho pelo divórcio – talvez tudo isto o fizesse pensar, talvez se perdoassem um ao outro, porque há muito quem pense que um divórcio resulta necessariamente de uma culpa.

Depois de um namoro apaixonado, o casamento fora um passo tão claro como um degrau. Subiram juntos. Ora, o casamento, como se sabe, é mortal, porque mata ou porque morre ou porque todos temos de morrer. Explicar o fim de um casamento pode ser tão simples como comentar um jogo de futebol depois de ter terminado. Nem sempre é assim, no entanto.

No caso de João e Maria, houve como que um desgaste de material, um bocado de estuque que caiu, um ligeiro problema de humidade no canto mais fundo do corredor, pequenos desencantos que vão alastrando até atingir os alicerces. Os especialistas e os autores de frases ou de livros de auto-ajuda diriam que tinha de ser assim, porque não estavam feitos um para o outro ou porque não souberam trabalhar a relação, criar o diálogo, manter a chama viva. Todas essas frases foram ditas por alguns amigos e, por momentos, chegaram a ser sentidas por ambos.

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Oito apartamentos e um sótão (4)

Segundo esquerdo

 

Azeredo Conceição sentira, desde jovem, o chamamento para o exercício de administrador de condomínio. Sempre estivera acima do comum dos condóminos, como se tivesse sido concebido sem mácula por um espírito santo do imobiliário para ser um senhor feudal ungido por Deus para comandar os vizinhos. Tudo o que se passava no prédio era da sua competência e a incompetência era tudo o que caracterizava os outros. Não havia nada que ficasse imune à sua opinião – era-lhe impossível não comentar o facto de alguém se esquecer de limpar os pés à entrada do prédio, batia à porta das outras casas para recomendar que recolhessem a roupa do estendal, criticava a permanência de um guarda-sol num lugar de garagem por constituir um atentado à decoração do imóvel e exigia que todos respeitassem o horário das suas sestas de fim-de-semana, desligando televisões e calando crianças. Para reforçar a sua importância, Azeredo não tinha mulher, tinha esposa, e a sua filha haveria de ser doutora, estatuto reservado a alguns médicos.

Quando o vírus inventou o confinamento, Azeredo viu aí claramente visto um sinal de que o mundo, ou seja, o condomínio, precisava da sua mão forte e urdiu um plano completo que iria comunicar brevemente ao condomínio, isto é, ao mundo. Passou a usar a palavra “pandemia” cerca de dez vezes por hora (um condómino mais atrevido fizera mesmo referência a isso – “Ó senhor Azeredo, consigo, a pandemia anda a dez à hora!”, numa piada que só era entendida por outros dois vizinhos, o que Azeredo entendia como um desrespeito à sua autoridade). No computador, com a ajuda da esposa e da futura doutora, concebeu planos, decretos e mapas, exigindo aos condóminos comportamentos morais irrepreensíveis, criando formulários para comunicações de saídas e entradas e marcando no chão os caminhos de ida e volta que permitiriam manter o distanciamento social. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (3)

Segundo direito

A meio de uma linha de programação, na secretária enorme, com três ecrãs também enormes, ao fim de uma noite ininterrupta de trabalho, José recebeu uma notificação com palavras fora de uso: quarentena, confinamento. A palavra a que estava mais habituado era ‘vírus’. Segundo as notícias, as pessoas deveriam evitar ao máximo sair de casa, o que, no seu caso, era uma segunda natureza. Quando, mais tarde, soube que, durante um fim-de-semana, não seria permitido viajar para fora do concelho, lembrou-se de que já não saía do concelho há mais de um ano. Levantou-se, tão perplexo quanto possível, e foi espreitar a varanda, para perceber que já não se recordava da última vez que lá tinha estado.

Teletrabalho era só trabalho, contratos assinados digitalmente, tarefas com prazo de entrega, muito raramente um telefonema. As refeições e as compras eram, há muito tempo, embrulhos e sacos entregues em casa, papéis e plásticos que se acumulavam na cozinha e no quarto, até ao dia em que decidia, quase sem razão, sair para despejar tudo no lixo, contrariado por não haver um serviço que tratasse desse assunto.

Sair de casa era um risco, porque podia cruzar-se com um vizinho e responder a um cumprimento. Tinha-se quase desabituado de cumprimentar pessoas: os seus conhecidos eram nomes na caixa de e-mail ou nicks nos jogos online. Quando descobrira que a sua vida encaixava no estereótipo do informático, sentiu-se ainda mais tranquilo. [Read more…]