Per saecula saeculorum

A pergunta apanhou-me de surpresa:

Sabes de alguém que queira vender um jazigo?

Nascida numa família de campas rasas, um jazigo soou-me sempre a luxo das elites,  vagamente oitocentista, um garante per saecula saeculorum de que não haveria misturas inapropriadas no além tangível das ossadas.

Entendo que se possa buscar conforto na ideia de manter unidos os membros de uma família, enfrentar a morte acompanhado por quem se amou em vida, mas é precisa uma grande dose de pensamento mágico para que esse conforto seja real. E, claro, há o horror à decomposição na terra, mas são assuntos em que se pensa às quatro da manhã, depois de um pesadelo, e se esquece pela alvorada.

Portanto, eu não sabia de jazigos à venda nem estava interessada em sabê-lo, mas a minha amiga estava e não foi preciso muita insistência para que eu acabasse a fazer-lhe companhia num encontro com um vendedor. O meu papel era fazer perguntas inteligentes, tarefa em que manifestamente falhei, e avaliar se o negócio valia a pena, competência para a qual nunca manifestei grande talento, mas é sempre comovedor ver como os amigos acreditam em nós. [Read more…]

O homem que nunca existiu

©Marian

Um amigo recebeu, por motivos pessoais que não vou contar, uma pequena parte da biblioteca de um ilustre bibliófilo. “Pequena” tendo em conta o tamanho total, mas, ainda assim, pouco mais de uma centena de livros. Cheguei a conhecer o bibliófilo, ainda que só de vista. Era um professor aposentado, conhecido pelo humor cáustico, pelo apetite voraz e por jamais sair à rua sem um livro na mão. Troquei com ele pouco mais do que uma saudação fugaz, nos restaurantes do bairro, adiando sempre o dia em que me decidisse a meter conversa. Tanto adiei esse dia que o deixei fugir.

Ajudei o meu amigo a organizar a biblioteca e recebi, em troca, alguns exemplares (não vale a pena esconder o meu oportunismo). Entre as páginas dos livros foram aparecendo consultas de mesa de todos os restaurantes da zona, recortes de jornal sobre os mais diversos temas, algum número de telefone rabiscado, apontamentos nas margens, guardanapos com definições de palavras, escritas com uma letra vagarosa e muito desenhada, postais de viagem. Com tudo isto, foi-se definindo o retrato desse homem que mal conhecíamos, como se pudéssemos recriá-lo a partir destes escassos vestígios da sua passagem pelo mundo.

No final, com os livros ordenados e o montinho de papéis pescados entre as páginas pousados sobre a mesa, achei piada à ideia de que o meu amigo e eu tínhamos feito a operação “Carne Picada” ao contrário. Eu explico. [Read more…]

Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna. [Read more…]

A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXIX – Península Ibérica 2483 d.C.

ronaldo jornal da Madeira

“Em 2485 vamos celebrar os 500 anos do nascimento de Cristiano Ronaldo e por esse motivo, os responsáveis das cidades do Funchal, Lisboa, Manchester, Madrid, Turim e Miami aqui reunidos, decidiram criar a ACRM (Associação das Cidades Ronaldianas no Mundo) que terão como responsabilidade criar o programa das festividades em todo o ano de 2485 ficando a sede desta associação aqui, na cidade de Madrid” – anunciou em conferência de imprensa a governadora da província de Madrid.

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Crónicas do Rochedo XXVIII – Justiça Perdida

Quando uma sociedade deixa de acreditar na justiça é o princípio do fim.

As decisões do juiz Neto de Moura e dos seus pares – sim, como bem lembrou o Professor Aguiar Conraria no último programa “Governo Sombra” da TVI 24 as decisões deste juiz não foram tomadas apenas por ele – são uma machadada na credibilidade da justiça em Portugal. A ameaça de processar todos aqueles que o criticam e a posição tomada pela Associação de Juízes é a cereja no topo do bolo.

Tempos perigosos estes…

 

Chinelos

À hora a que chegam os primeiros funcionários das lojas, e a rua desperta com o cacarejar metálico das grades corridas com a resignação brusca das segundas-feiras, o homem ainda dorme um sono profundo. A sua cama é ampla, ocupa quase metade de um passeio largo, e, pese a precariedade da instalação, está bem cuidada. Cartões grossos no fundo, dois cobertores finos por cima, um cobertor mais grosso e um edredão amarelo no topo.

O homem dorme, o rosto voltado para a rua, para quem passa. A seu lado, há um balde com duas garrafas de água e uns chinelos de quarto, muito finos, quase de papel, daqueles que os hospitais e hotéis por vezes oferecem. Os chinelos são de um branco impecável. E é a presença dos chinelos ao lado da cama, no chão, tal como a cama, que nos fazem sentir embaraçados por estar ali, como se tivéssemos entrado inadvertidamente em casa do vizinho – uma porta mal fechada, pensávamos estar no segundo e afinal estávamos no terceiro andar, uma distracção, enfim, e agora estamos aqui, frente à cama deste desconhecido que dorme de gorro na cabeça, alheio à nossa invasão. [Read more…]

Tradução e gratidão

Foi depois de ter enfiado – com alguma fúria e frustração, diga-se – aquele insuportável livro num raro buraco de uma das estantes grávidas de livros cá de casa que, vendo na prateleira imediatamente superior e ao nível dos olhos o título a letras de ouro de “As Minas de Salomão”, de Henry Rider Haggard, na brilhante tradução de Eça de Queirós, me ocorreu de novo aquele sentimento de gratidão que tantas vezes me ocorre ao ler um livro traduzido por alguém cujo talento literário se mostra ao nível do autor original – não quero ter o maldoso atrevimento de me interrogar se, por vezes, não o ultrapassa.

Podia aqui fazer uma lista de tradutores- escritores e tradutores -académicos a quem estou profundamente agradecido mas, dada a feliz extensão de uma tal lista e a possibilidade de, por esquecimento ou ignorância, pecar por omissão, não o farei. Mas passam-me pela memória nomes, obras, descobertas, verdadeiros prodígios de tradução e recriação literária e/ou científica. Tanto mais que, não o ignoro, o trabalho de tradução é pessimamente pago e só o amor à arte motiva os melhores a fazê-lo. As gerações mais novas talvez achem esta gratidão excessiva, mas bem sabem os mais antigos como fizeram, por necessidade, os seus estudos sem ler uma linha na nossa língua. [Read more…]

Famosa lenda em versão vegan pós-moderna

Pelos campos do Sítio da Nazaré ia D. Fuas Roupinho em esforçada perseguição a um veado que, lesto, lhe escapava como se se divertisse com o esforço do cavaleiro. Este porfiava e atiçava o cavalo que, espumando e resfolgando, corria a toda a brida, cortando os ventos fortes do lugar. No seu entusiasmo, não reparou o fidalgo que presa e caçador se aproximavam perigosamente da falésia do Sítio. E foi quando, subitamente, o abismo se lhes deparou como uma fatal sentença. Foi nesse momento que se abriu um clarão nos céus.

Assustado, o corço estacou de pronto, cortando o solo com os cascos até parar mesmo à beira da falésia, à qual prestes virou as costas. O mesmo fez o cavalo, fazendo brilhar faíscas ao fincar as ferraduras no solo rochoso. Também o rocinante se salvou. Só D. Fuas, coitado, não teve sorte. A brutal paragem da sua montada fê-lo sair em voo sobre as orelhas do cavalo e despenhar-se na falésia. Durante a sua breve queda ainda gritou “valha-me a Senhooooora…”. Mas a Senhora não valeu e o infeliz alcaide de Porto de Mós foi estatelar-se nas rochas da praia. [Read more…]

Uma preguiça transcendental

Convocaram-me para ir convencer o Professor Castelo a cumprir o plano. Como habitualmente, a sua posição era irredutível. Tentei explicar-lhes que nunca tinha existido uma verdadeira amizade entre nós, apenas um fascínio juvenil da minha parte, que ele retribuiu com uma cortesia excessiva e não isenta de vaidade. E muitos anos haviam passado sem que voltássemos a ver-nos. Responderam-me que isso pouco importava porque já não restava ninguém que lhe fosse mais próximo.

Resignei-me, então, a voltar ao casarão fracamente iluminado e mal aquecido, onde numerosas vezes tropeçara em pilhas de livros e onde sucessivos gatos, que nunca cheguei a distinguir uns dos outros, bufavam à minha passagem como se chamassem “invasora!”. Mas não encontrei nada disso. A casa estava vazia, à excepção de meia dúzia de móveis essenciais, e de uns quantos caixotes que estavam a ser levados para um camião parado à porta.

É o vigésimo quinto camião que enchemos – esclareceu-me o jovem que me recebeu, de rosto meio escondido atrás de um dossier de capa negra, e que se apresentou como “o inventariador”. – Está praticamente tudo. Só falta o homem. Ou melhor, o cérebro. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXVII – E a puta da liberdade de opinião?

Captura de ecrã 2018-10-05, às 23.00.17

O director da RTP, Paulo Dentinho (pensava eu que ele já não era director da RTP) escreveu um post no facebook sobre o caso do Cristiano Ronaldo e a americana Kathryn Mayorga.

Os representantes do jogador, a Gestifute, responderam à letra. Estão no seu direito. Como Paulo Dentinho está no seu direito. Cada uma das partes é responsável pelas respectivas afirmações. É a chamada liberdade de expressão. Uma liberdade absoluta e que responsabiliza cada um. Certo?

Não. Parece que não. Já se pede a cabeça do director da RTP. Num caso (e no outro) nas redes sociais já se fez o julgamento e já se lavrou a sentença. Liberdade de expressão? Livre opinião? Isso é que era bom. Como diz o camarada Arnaldo de Matos, isto é tudo um putedo…

 

Vida animal

Os documentários sobre a vida dos animais sempre me pareceram abomináveis. Seja qual for a espécie retratada, os guiões tendem a ser iguais. Começam por apelar à nossa benevolência: aqui vemos uma jovem gazela, terna, vulnerável, feliz, a dar os seus desajeitados primeiros passos, a bebericar água no lago, a aprender os rudimentos da vida na luminosa savana. Corre, brinca graciosamente com as outras gazelas, fixa por vezes a câmara como se soubesse que a observamos e quisesse piscar-nos o olho. Atingido o ponto em que a nossa simpatia pela gazela não pode ser maior, o tom monótono do locutor altera-se:

“Mas, na savana, há sempre perigos à espreita! Ali perto, uma experiente leoa espreguiça-se e prepara-se para caçar.” [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXVI – Quando o Porto não é de abrigo

Tal como a esmagadora maioria das pessoas dotadas de senso comum, também não consigo perceber mais ESTA decisão do Tribunal de Relação do Porto.

E o grande problema é que não é um caso isolado. Basta lembrar os dois casos mais badalados: um de violência doméstica e outro de violação. Comum a todos estas decisões: o Tribunal de Relação do Porto.

Só tenho uma palavra para tudo isto: MEDO!

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Sagres (Regressa)

CAPÍTULO 66
César

Um Anjo aproximou-se de mim e disse:
-Oh, desgraçado e insensato jovem! Oh, terrível condição a tua! Atenta na masmorra ardente que estás a preparar para ti, por toda a eternidade, e onde irá levar o caminho que prossegues.
Ao que respondi:
-Talvez tu queiras mostrar-me o que a eternidade me reserva, e juntos contemplaremos o meu destino para vermos qual será o mais desejável, o meu ou o teu.
William Blake, A União do Céu e do Inferno

-A tatuagem, para o homem arcaico, era um gesto ritual que assentava num princípio de sacralidade do corpo enquanto extensão e fala, Verbo, do Universo e dos Deuses. O corpo-templo era marcado por sinais iniciáticos, emblemas que o inscreviam num Cosmos significativo, cuja Ordem advinha de um significado, de uma pluralidade de significados coerentes.

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O Ponto. Técnica Mista sobre tela. 120cmx80cm. BS.

 

CAPÍTULO 6
Morrer

O “argot” permanece a linguagem de uma minoria de indivíduos vivendo à margem das leis estabelecidas, das convenções, dos hábitos, do protocolo, aos quais se aplica o epíteto de vadios (”voyous”), ou seja , de videntes (“voyants”) e, mais expressivo ainda, de Filhos ou Descendentes do sol. A arte gótica é, com efeito, a art got ou cot (Xo), a arte da Luz ou do Espírito.
Fulcanelli, O Mistério das Catedrais

 

Às três horas e nove minutos da madrugada do dia vinte e três de Setembro do ano de dois mil e dez, Basilides entrou em coma profundo. O coração ainda batia, como um punho que se abre e fecha lentamente, e o Cordão de Prata estava aparentemente intacto. Mas a Alma de Basilides ordenara já o início da grande viagem que adiara durante mais de cinquenta anos.

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Desenho do autor

 

CAPÍTULO 5
Basilides Villanova: o nosso planeta

Ora, a alma – diz o nosso autor – está apenas parcialmente encarcerada no corpo, tal como Deus está apenas parcialmente confinado no corpo do mundo.
Carl Gustav Jung, Psicologia e Alquimia

 

-Porque trouxeste o Mocenigo?

-Foi ele que pediu para vir. Insistiu que queria falar com o Avô.

-Porque quiseste ver o Avô, Mocenigo?

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Desenho do autor

 

CAPÍTULO 15
Clarice

– A sua mulher lê muitos filósofos?
– Enormemente! – exclamei.
António Victorino D’Almeida, coca-cola Killer

 

Lisboa, dois de Novembro de mil setecentos e cinquenta e cinco

Querida Clarice,
espero que esta te encontre de saúde.

Houve um grande terramoto aqui em Lisboa. Uma desgraça muito grande.
A Tia está bem.
Amanhã partimos para o Freixo. Escrevo-te de lá.

Beijos,
Conde Vidraça

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Rollerball pen e Tinta da China | Desenho do autor

 

CAPÍTULO 8
A Loja Malkuth

Diz-se também que estes dois planetas [Saturno e Júpiter] são os mais importantes para o destino do mundo, e em particular para o destino dos judeus.
Carl Gustav Jung, AION

 

Simon de Monfort era o nome simbólico de Simões Aboab, um judeu sefardita cuja família se radicara na cidade do Porto no início do século XV. Aboab era respeitado e temido na sua comunidade, não só devido à pistola que trazia sempre no tornozelo, mas principalmente porque se sabia que era membro destacado de uma das mais poderosas e antigas sociedades secretas portuguesas, a Loja Malkuth, pertencente a uma Obediência selvagem formada por agentes duplos dos dois principais movimentos maçónicos existentes em Portugal.

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CAPÍTULO IV
Chove

Um dia, o xeque Khircani, que descansava sobre o próprio trono de Deus, sentiu uma grande vontade de comer uma beringela.
Farid Ud-Din Attar, A Conferência dos Pássaros

 

Do lado esquerdo do quarto, por baixo de uma grande janela, estava o leito da morte de Basilides Villanova, um homem cujas rugas do rosto, se pudessem unir-se numa só linha, chegariam para dar uma volta inteira ao mundo e traçar três vezes o labirinto de Chartres. Basilides era um velho tranquilo mas marcado por uma vida muito longa que o deixara exausto.

– Chumbei, Krebs – dizia, sorrindo ao seu filho, estendido no leito da morte. – A possibilidade de conhecer com a razão termina quando chegamos a vislumbrar o que somos. E como somos apenas espelhos do mundo, resta-nos a consolação da viagem pela espiral divina, o velho caduceu de Hermes, por esse jardim que se estende pelos céus em círculos de raio crescente e que nunca terminam. Se não ganhamos altura e amplitude, se não mudamos em nós a escala da Visão, chumbamos, Krebs. Mergulhamos na noite do Deus sob o peso do chumbo, que é o peso do mundo de Sísifo, da repetição circular e do tédio. Do labirinto. No fundo, é como se nos matássemos, meu filho. Somos condenados pelo Eterno e pelos fantasmas de Blake a viver como árvores pela infinitude dos tempos.

Krebs tremeu por dentro ao ouvir as palavras do pai. Achava-as injustas, até cruéis, ditas de si mesmo por um homem que toda a vida lutara pela justiça e pela harmonia do mundo. Mas naquele momento não tinha força nem ciência para ripostar. Não tinha sequer os setenta e dois anos que permitam ao seu pai uma tal soberania e tanta impiedade sobre o seu próprio mistério.

– Mas nem tudo está perdido, meu filho – prosseguiu o velho Basilides, acendendo um cigarro. – O Alquimista sabe que não se chega ao Ouro sem conhecer o chumbo e que a vida é o laboratório secreto onde a grande transmutação lentamente se opera. Lentamente. Muito lentamente. Mas deixemos agora isso. Que farás quanto à proposta que te fiz, meu filho?

Krebs apertou involuntariamente a frágil mão de Mocenigo, que se mantinha aparentemente distraído e silencioso, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

– Chover, meu pai! Eu quero chover!

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CAPÍTULO II
O Jardim

Sobre as origens de Josef Knecht não se sabe nada.
Herman Hesse, O Jogo das Contas de Vidro

 

DEUS, clemente e misericordioso, cujo Nome é Santo, não me deixa mentir. No dia vinte e dois de Setembro de mil seiscentos e dezasseis, à mesma hora em que na cidade de Estrasburgo se conhecia a primeira edição das Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz, uma brisa morna e um canto de Poupa abriram o céu do Jichang Yuan, o belo jardim de Wuxi, onde há mais de quatro mil e quinhentos anos o Imperador Amarelo plantou uma árvore infinita.

Dizia-se que quem comesse o seu fruto não conheceria a morte.

Mocenigo Alba vagueou durante alguns minutos entre os lagos de nenúfares, enquanto esperava por um homem que desconhecia e com o qual marcara este encontro havia mais de cento e oitenta anos.

Há um silêncio em Porto d’Olho

Porto d’Olho

Não é um Silêncio igual ao que se faz quando de repente toda a gente pára de falar ou quando um inesperado corte de energia faz calar a televisão e a máquina de lavar roupa.

Não é um silêncio comum, ou mesmo humano, aquele que verdadeiramente nunca se verifica, pois há sempre um ruído mecânico presente, em surdina, sempre um carro que passa ao longe, uma voz da casa ao lado, uma porta que range.

O Silêncio que se vê do alto do Outeiro da Varela, em Porto d’Olho, é o do coração a bater.

É aquele Silêncio que Deus faz quando os olhos emudecem em face da maravilha, quando fica leve o que é pesado e ao alcance da mão o que desde sempre viveu para lá do infinito.

É um Silêncio incomum e paradoxal que traz todas as vozes dentro.
Que pronuncia todas as palavras como se fossem uma, não soprando, contudo, a mais humilde sílaba.
Não é possível, na verdade, descrever um Silêncio destes, assim como se não pode dizer o Pleroma, ou o Nirvana, ou o Céu.

É um Silêncio que desaparece quando se diz, mas que, uma vez ouvido, jamais desaparece.

 

 

*Publicado originalmente no jornal Ecos de Basto.

 

História miudinha


Ele estava doente. Não se alarmou. De imediato, pôs em acção os melhores recursos terapêuticos. Fez-se tratar pelos melhores biomagnetistas, evocou a energia universal com a prática intensiva de reiki, tomou cápsulas de extracto de barbatana de tubarão, rabos de lagartixa liofilizados e pó de bigodes de tigre de Bengala que é, como se sabe, o mais eficaz. Tudo em doses homeopáticas, claro. Queimou incenso. E tencionava, até, tomar cogumelo do tempo para rejuvenescer não fora o caso de, entretanto, ter morrido. E foi então que, pela primeira vez, foi ao médico. Sujeitar-se à respectiva autópsia.

[imagem: Animation Over Frozen Frame – Dr. Seuss]

Make it right, Joe

Joe Right, professor numa próspera, embora pequena, cidade do Sul dos EUA, dirigiu-se à sua escola onde iniciaria mais um feliz dia de trabalho. Estava uma manhã quente, pelo que Joe estacionou o seu carro – um híbrido, claro, era preciso dar o exemplo – junto à pastelaria que havia ali, frente à entrada da escola. Saiu do carro, resistiu a acender um cigarro – estavam por lá alunos e alunas e o exemplo,não é…- e entrou. Pediu uma Coca Cola – diet, claro, o exemplo…- que acompanhou com umas bolacha sem glutém, sem açúcar, sem lactose – o exemplo…-, cujo gosto, suspeitava Joe, não seria muito melhor que o do cartão em que vinham embaladas.
Dirigiu-se à sua sala de aula. Os alunos e alunas – nunca esquecer de enumerar os dois géneros, pelo menos, lembrou, de si para si, Joe – enchiam a sala. Joe gostava deles e da sua profissão. Ultimamente sentia, porém, algum embaraço. Tinha-se preparado para abordar algumas obras literárias de que gostava, mas parece que, agora, não seriam admitidas por conterem elementos politicamente incorrectos. [Read more…]

Sigilo absoluto

A senhora dos Messies barrou-me o caminho, rua abaixo, obrigou-me a parar, a tirar os óculos de sol, a dar a última sacudidela ao sono, e a ouvir-lhe a suspeita:

-Esta chave… Devem ter andado a roubar…

Na sua mão reluzia uma chave que ela encontrara no chão enquanto passeava os Messies. Esperava em silêncio que eu lhe completasse a história, mas eu fui sempre lenta para enredos policiais, ainda que tanto os aprecie.

-Eles têm andado a roubar… e deixaram cair esta chave… Os ladrões daqui do bairro, sabe?

Estávamos frente à porta de um edifício em ruínas, com um cadeado na porta carunchosa e já sem pingo de tinta, e um cartaz da imobiliária a ponto de cair. Os Messies, resignados, sentaram-se no chão. [Read more…]

Rosebud

G.K. Chesterton (Lafayette Ltd)

Foram precisos muitos dias, semanas, meses para que a pessoa que eu era aos 6 anos visse, enfim, ser-lhe dada razão. 

Aos 6 anos, com efeito, iniciei uma colecção de bicos de lápis de cor, aqueles que se partiam por serem empurradocom demasiada força contra o papel, e que eu era incapaz de deitar fora pois pareciam-me objectos de evidente valor. Forrei de algodão a velha caixa de um relógio e aí fui dispondo os bicos, certa de que o contraste entre os azuis, verdes, vermelhose o branco do algodão constituíam uma peça de invulgar beleza e que seriam a decoração perfeita para o Natal que se aproximava. Quando chegou, porém, o momento de apresentar o meu projecto decorativo aos adultos, estes não foram da mesma opinião e a minha colecção de bicos de lápis foi considerada, ainda que por outras palavras, uma estupidez 

Claro está que não fiquei nada convencida do acerto dessa decisão. Reconhecia que os bicos de lápis não eram tão bonitos quanto o lápis-mãe (ou lápis-pai?) de onde tinham saído, que talvez parecessem insignificantes no mar de algodão em que eu os lançara, mas havia uma verdade naquela colecção  que me parecia notória e uma ética em não desprezar o que fora capaz de colorir que era para mim inquestionável. Porque valeria mais um candelabro, uma coroa natalícia, uma jarra, do que os meus bicos de lápis? Infelizmente, a maioria detentora do poder estava contra mim, situação, aliás, que sumariza muitas infâncias, e os bicos acabaram no lixo.   [Read more…]

Zeus

Às vezes encontrava-o no restaurante, ele vendia a «Cais» e quase ninguém a comprava, mas o pior nem era isso, era o ar de nojo com que lhe diziam que não, não fosse a sua presença ao lado da mesa contaminar a batata assada e a costela mendinha, diziam-lhe que não com um gesto enfastiado da mão mas não olhavam para ele, e ele agradecia e afastava-se devagar, com aquele corpo lento e cerimonioso, mas havia uma tensão nos seus lábios, rápida, logo afastada, que denunciava uma violência que ele tinha de conter a cada instante, uma luta nunca vencida.

Depois deixou de ter a «Cais», não sei que aconteceu, porque apareceu com uma revista gratuita, uma publicação dos lojistas de uma rua qualquer, e eu disse que não precisava da revista, que o ajudava na mesma, mas foi um gesto indigno, o meu, e arrependi-me logo porque ele insistiu em dar-me a revista. Aceitei-a, ele agradeceu de novo com aquela vénia solene que eu já lhe conhecia, mas desta vez demorou mais tempo a erguer a cabeça, vi-o sonolento, pesado, ferido e percebi que o grande deus caído em desgraça estava cansado da sua penitência. [Read more…]

Lobo

[Rita Matos Gomes]

Tinha 17 anos a primeira vez que encontrou um.

De início, nem sabia que aquele era um osso de lobo, foi seu pai quem depois lhe disse.

Lembrava-se bem desse dia. Tinha levado o rebanho para um sítio diferente, por detrás do outeiro grande, porque o Estio ia muito seco e o pasto rareava.

Depois de subir a ladeira, foi quando viu o fojo do lobo. Sentou-se na sua borda a descansar enquanto os seus olhos vagueavam pelo local. Não conseguiu evitar um arrepio, na imaginação da cena que tantas vezes aí se teria repetido. [Read more…]

Horas do diabo

Ninguém diria, aqui, recostados ao sol como esse gato gordo que quase morreu de tantas sardaniscas que comia, mas agora passa os dias a dormir encostado ao muro. Ninguém diria que era daqui que saltavam para a linha, homens e mulheres, velhos e novos, gente daqui do bairro e doutras paragens, porque havia quem viesse de propósito para matar-se aqui. Desde que puseram este gradeamento alto, os suicidas desistiram da ideia ou buscaram outros lugares.

À mesa, sou a única forasteira. Os homens não dizem nada,  fala a Maria, a mais velha.

– Nunca mais me esquece o dia em que vi muita gente debruçada no muro, fui espreitar e vi uma mulher caída, com a cabeça a deitar tanto sangue… Andei meses a pensar nisso, nem dormia em condições. Eu devia ter uns 14 anos e aquilo impressionou-me tanto…

O comboio está a passar debaixo dos nossos pés, estremece-nos.

A Maria puxa o xaile para os ombros. É o comboio que a arrepia. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXV – E é isto que o PSD tem para apresentar?

rio e santana

Depois do resultado do PSD no Porto e em Lisboa, Pedro Passos Coelho apresentou a demissão e foram marcadas eleições directas para escolher um novo líder. Na lógica própria destas coisas, Rui Rio apresentou-se como candidato. Cumpre a lógica da coisa. Foram vários anos em que uma parte do PSD espreitou através do nevoeiro a ver se vinha Rio, qual D. Sebastião, para resgatar a virtude e os bons costumes. Finalmente, o homem enfrenta os seus medos e avança.

Perante esta candidatura, seria normal que a outra parte do PSD fosse a jogo com um candidato. Ou mais do que um. Seria lógico o avançar de Montenegro cobrindo a ala passista. Seria lógico o avançar de Rangel, cobrindo a parte mais “centro-direita/direita” do PSD, assim como a elite “intelectual”. Seria lógico o avanço de Marco António Costa como expoente máximo do aparelho (ler: distritais, principais concelhias e os grandes caciques locais). Seria lógico avançar alguém diferente no papel de renovação do partido (e aqui renovação não significa, necessariamente e apenas, uma questão de idade/geração, mas ideias e projecto). Tudo isto seria lógico. Não fosse o PSD um partido onde, muitas vezes, a lógica é uma batata. Tal como o seu irmão gémeo, o PS.

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Crónicas do Rochedo XIV – Uma direita musculada numa Espanha dividida

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O referendo da Catalunha veio provar que em Espanha ainda existe uma direita “musculada”, profundamente saudosista dos tempos de Franco. Uma direita que está desejosa de dar uns sopapos, de tirar a poeira ao revólver guardado na escrivaninha e disposta a empurrar Rajoy para o colo da ala dura do PP. “Empurrar” é simpatia minha, pois não me parece que D. Rajoy se sinta muito incomodado com a possibilidade.

Esta direita cohabita com uma esquerda ainda mais folclórica que o nosso Bloco. Um misto de saudosistas da cortina de ferro, anarquistas de cubata na mão (mas de Havana 7, que Bacardi é coisa de meninos) e deslumbrados do anticapitalismo internacional. No fundo, estão bem uns para os outros.

E depois temos a confusão: temos os independentistas da Catalunha, os independentistas da Galiza, os Independentistas do País Basco, os Independentistas da Andaluzia, os Independentistas das Baleares (sim, das Baleares que não são catalães e gostam tanto destes como dos de Madrid). Depois temos as Asturias, Castela, Leão e Estremadura sem esquecer as Canárias. Com excepção dos primeiros, os restantes até nem se importam de ficar juntos. Uma enorme salgalhada. E ainda me deve faltar aqui um ou outro movimento independentista mais discreto. Já para não falar nos casos de Ceuta e Melilla…

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