A minha dupla

Street art, Barrio del Oeste, Salamanca, artista desconhecido, foto minha.

“Street art” em Barrio del Oeste (Salamanca), artista desconhecido.

Há muito que sei que anda por aí uma mulher que é igual a mim. Já vários me haviam dado conta da sua passagem por distintos lugares nos quais tenho amigos ou conhecidos. Apesar disso, nunca nos cruzáramos.

A primeira notícia que tive da sua existência chegou há perto de 15 anos, numa festa de aniversário. Foi aí que uma amiga me apresentou um sujeito, amigo seu, que me tratou com uma frieza inexplicável. Só mais tarde, em novo encontro com essa amiga, ela me explicou que a reacção dele tinha uma justificação. É que eu era a sósia perfeita de uma antiga namorada e ele ficara perturbado com essa semelhança. Tão perfeita sósia que, pasme-se, até usávamos o mesmo perfume. Naturalmente, decidi nesse instante mudar de perfume. Por mim, a história acabaria ali. Mas nos anos seguintes os relatos multiplicaram-se. “Pensei mesmo que eras tu!”, “Parecem gémeas!”, “São iguaizinhas”.

Depois disto, fui obrigada a concluir que tenho uma dupla. [Read more…]

Memórias submersas

Rita Matos Gomes
©Grete Stern

©Grete Stern

chegou-me à pouco a lembrança, e tomou-me de assalto.
foi talvez pela hora, final de dia, mas chegou pelo cheiro.
era um momento só meu, e de paz total.
tinha todo um ritual preliminar.
primeiro, era o abrir da janela. os adultos insistiam, era primordial.
a seguir, tirava-se de dentro da gaveta do armarinho a caixa dos fósforos.
previamente tinha de vir um dos primos mais velhos, eles só quem detinha o poder e a altura necessária.
então, riscava-se o fósforo, e numa operação demorada tentava-se convencer o velho esquentador teimoso e senil que tinha que acender. muitos fósforos eram necessários .
eu gostava de ficar com esse papel, na ousadia de ficar raspando o pauzinho na caixa, até que ele explodisse numa alegria de chama.
depois, punha-se a tampa metálica e pesada no fundo da banheira de esmalte, com pés de animal em cima de esfera. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XII – Alguma coisa deve estar errada…

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De Valência (Espanha) à Maia são pouco mais de 900 quilómetros. No caso em apreço, de Valência a Chaves são cerca de 800 quilómetros. Sem utilizar qualquer alternativa às auto-estradas espanholas, o valor pago em portagens neste percurso até chaves são €12,30 (podendo ser zero evitando o túnel de Guadarrama nos arredores de Madrid). Por sua vez, de Chaves à Maia são cerca de 140 quilómetros e €11,25 de portagens (classe 1).

Em Espanha o gasóleo varia entre os €0,98 e €1,08. Aqui, a coisa anda entre os €1,27 nas auto-estradas e os €1,17 nos postos mais baratos. Uma botija de gás custa em Espanha, em média, metade do que custa em Portugal. Os produtos de supermercado, salvo raras excepções, são praticamente todos iguais ou ligeiramente inferiores. Bens de primeira necessidade como água, pão ou leite equiparam-se nos preços. Porém, os salários são bem diferentes: O salário médio bruto em Espanha anda nos €1.640 mensais para uma carga fiscal de 21,5%  (contra os €986 em Portugal e uma carga fiscal de 28,3%).

Como compreender estas diferenças? Alguma coisa deve estar errada…

Bichos-carpinteiros

©CR

©CR

Vou pouco a “eventos sociais”, pelo menos àqueles que têm muita visibilidade, presença da comunicação social e de figuras ditas públicas. Há tempos, porém, fui a um debate cujo tema me interessava e no qual participavam um ou dois nomes mais ou menos sonantes. A sala era ampla e como eu não sabia se teria tempo para assistir até ao fim, sentei-me numa das últimas filas, para poder escapulir-me sem dar demasiado nas vistas. Tinha chegado cedo e tocava-me esperar.

As pessoas sem importância nenhuma, como eu, sentavam-se onde escolhiam sentar-se, ou onde ainda encontravam sítio, e aguardavam com serenidade. Relíamos o programa do evento, conversávamos com quem estava ao lado, íamos espreitando o relógio. Começaram, então, a aparecer os aspirantes. É uma gente irrequieta e a inquietude começa-lhes logo na escolha da cadeira. Querem sentar-se à frente, perto da mesa dos oradores, mas também querem sentar-se num bom ângulo para as câmaras, se as houver, e não querem estar longe da porta por onde hão-de entrar ilustres. E pode ser difícil conseguir tudo isto numa cadeira só. [Read more…]

Crónica do Rochedo XI – A morte de Rita Barberá

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Há uns dias vi uma reportagem do canal televisivo espanhol Antena 3 sobre Rita Barberá. Nesse momento decidi que tinha de escrever sobre a reportagem em causa. A preguiça foi adiando a empreitada. Até que ontem, Rita Barberá foi encontrada morta num quarto de hotel em Madrid.  Sofreu um enfarte, segundo o que se pode ler nos jornais espanhóis.

Vamos por partes. Quem foi Rita Barberá? Foi a presidente da Câmara de Valência (Alcaldesa como se diz por aqui) durante 24 anos, pelo Partido Popular (PP) e grande obreira das vitórias do seu partido na “Comunidad Valenciana”. Adaptando à nossa realidade, foi um dinossauro político e daqueles bem grandes – a ela muito deve o PP de Aznar e ainda mais o de Rajoy, de quem era amiga pessoal. Enquanto autarca revolucionou Valência (para o bem ou para o mal dependendo das opiniões e dos alinhamentos partidários de cada um). Uma coisa é certa, existe um antes e um depois de Barberá em Valência. E só isso já é relevante. Até que…

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Ser Europeu

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Pertencer à União Europeia, estar na Europa, Ser Europeu, foi uma das grandes novidades que nos trouxe este Portugal moderno saído dos finais do século XX e entrado pelo novo milénio adentro cheio de acrescentos identitários e “mais-valias” civilizacionais, oferecidas pela diversidade da Europa e dos povos que a habitam. Foi assim que aquilo que ameaçava transformar-se numa jangada de pedra, à deriva pela solidão do mundo pós-imperial, se transformou numa energia intra-solidária, comprometida com valores ancestrais que partilhamos com os nossos “parceiros” do velho continente.
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Carta do Canadá – O Albertino

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Naquele tempo o Ti Xico Porto era o tesoureiro do Comando Geral da PSP, na Avenida António Augusto de Aguiar, e uma vez por semana eu ia almoçar com ele. Geralmente à sexta-feira e a seguir ao almoço íamos para Tomar gozar o fim-de-semana. Eram almoços reinadios, na messe, e tomávamos café um pouco acima, na mesma rua, mesmo em frente a um chalet arte nova, na esquina da Luís Bívar, se bem recordo, que exibia uma placa explicando que ali tinha vivido António José de Almeida, grande figura da 1ª República. Volta e meia aparecia o Albertino,   construtor civil feito a poder de baldes de cimento desde os 12 anos, porque o país era o que era e a vida é o que é. Gostava muito do Ti Xico e vinha quase sempre só para o ver  e se regalar no café com os amigos dele. Todos achavam piada ao Albertino e puxavam por ele, que era um meia leca magrote, esturricado, olhinhos matreiros de rato. E muito rico. Podre de rico. Abria a boca e dizia coisas espantosas. Inesquecíveis. Sentenciava, por exemplo, que os alquitetos mandam mais que os inginheiros.  Devia saber disso, porque era um gaioleiro desembaraçado que cirandava pela câmara e pelas ruas de Lisboa a impingir projectos, a fazer e vender casas. Tinha ideias claras. Os pretos, dizia, era para estarem em África e porrada neles que eram uma cambada de malandros. Uma ocasião, naquele café manhoso da Avenida Conde Valbom, que era o quartel-general dos empreiteiros, leu num jornal que a Inglaterra se propunha legalizar as uniões de homossexuais  e não esteve com modas: meteu-se num avião  para Londres,  onde o filho estudava, e obrigou-o a regressar a casa sob pena de o pôr fora de casa se não obedecesse.  Sobre mulheres, era definitivo: quando inquirido de qual discurso tinha gostado mais nas festas regionais, nem pestanejava ao declarar que “dos discursos o que eu gostei mais foi das pernas das gajas”, que ele observava palitando os dentes enquanto os oradores  palravam. [Read more…]

Crónicas do Rochedo X – Trump e Europa

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Escrevo este texto num computador americano. O meu telemóvel é americano. O meu carro é americano (e alguns dos meus carros de sonho são americanos). Compro música (sim, ainda sou dos que compra música) num site americano e muita da minha música é americana (a minha banda de música preferida não sendo americana tem um álbum, o seu melhor até hoje, feito e inspirado nos EUA). As minhas calças preferidas são de uma marca americana. Assim como as minhas botas. Um dos meus escritores preferidos é americano. E por aí fora. Os EUA fascinam-me. Desde miúdo.

É um país excepcional. Como todos os outros, a começar pelo nosso, com virtudes e defeitos. É o expoente máximo da liberdade e, até por isso, no seu seio podemos encontrar desde o mais retinto racista aos mais perigoso fanático religioso passando pelo mais básico dos básicos. Sendo um verdadeiro “país continente” nele se encontra de tudo. E em doses à imagem e semelhança do seu tamanho. O que o torna ainda mais fascinante.

Ora, os americanos decidiram, através do voto, escolher Donald Trump para seu Presidente. Se é verdade, a mais pura verdade, que ainda estou em choque com a escolha, também o é que não falta muito para me obrigarem a defender o homem. Quando ouço o Presidente francês comentar como o fez (tanto no tom como no conteúdo) o resultado das eleições americanas; quando ouço as últimas declarações de Junker fico pasmado com a lata.

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Crónica do Rochedo IX – De Maria Leal a Umberto Eco

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Um dos humoristas que mais aprecio é o Rui Unas. O seu último projecto chama-se “Maluco Beleza”. Sempre que posso passo pelo seu canal na net ou pelo facebook para assistir às entrevistas (gostei especialmente da entrevista ao Luís Franco Basto). Ontem, tropecei na da Maria Leal.

Obviamente, vi no facebook a sua famosa actuação no programa do Goucha e da Cristina. Como muitos outros, fui invadido pelo mais puro espanto, seguida da mais franca sessão de gargalhadas e terminando num genuíno sentimento de vergonha alheia. E por aqui me fiquei. Fui assistindo, já sem grande espanto e com a possível saudável distância ao histerismo das redes sobre o tema. Até ontem.

O ódio destilado sem qualquer freio por boa parte dos internautas que participavam em directo nas redes ao programa é inenarrável. Desde insultos, passando por desejos que a senhora morra e terminando em tentativas de enxovalho pelo facto da senhora dar calinadas de português ao mesmo tempo que esses mesmos escreviam num português de fugir. Porquê? A sério, porquê?

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O estranho caso do ambientador

Conta-me o A. que leva dias convencido de que foi ele a estragar a sonda Schiaparelli. É preciso que vos diga que o meu amigo A. é um neurótico que cede com frequência à paranóia, mas a quem efectivamente acontecem coisas invulgares.

Levava dias enfiado em casa a experimentar um brinquedo novo, uma coluna de som pequenina e discreta, com aspecto de perfume ambientador, à qual ele ditava ordens e que respondia apagando as luzes do corredor ou ligando a máquina de lavar roupa, conforme o que ele mandasse. A coluna, explicou-me ele, precisa de ser calibrada, coisa que só acontece falando muito com ela e deixando que ela se vá enganando, ligando agora a máquina do café em vez da secadora, fazendo tocar o alarme de casa em vez de ligar o rádio. Explicou-me tudo com paciência, como se também eu precisasse desse tempo para calibrar-me e ser capaz de perceber o que aí vinha. Perguntei-lhe se a coluna estava ligada. Estava. Tinha de estar. Quanto mais nos ouvisse melhor seria capaz de perceber as distintas modulações da voz humana. [Read more…]

Piratas

Não vai há muito que conheci um pirata. Entrou na tasca com um papagaio ao ombro, pediu uma sandes de panado ao balcão, foi sentar-se com ela na mesa ao pé da porta, e o papagaio saltou-lhe do ombro para a mesa e debicou o pão até à última migalha. Uma turista, que parecia ter entrado ali por engano mas foi ficando, pediu ao empregado, num português de dicionário de conversação, que fotografasse a cena porque ela tinha vergonha de aproximar-se. Passou-lhe para a mão um descomunal telefone cor-de-rosa e ele, muito castiço, fez de conta que não percebeu.

– Quer que fotografe quem?

Ela apontou para o papagaio.

– Ah, bom. É que o dono é feio como o caralho.

Ela não percebeu, quem estava achou por bem não traduzir, o pirata não se deu por aludido, e o papagaio espreguiçou uma pata de cada vez, limpou o bico às penas do peito, e voltou para a câmara o seu melhor perfil. [Read more…]

Morrinha

©Carla Olas

Quando começamos a subir o monte, aparecem os caçadores. Dois rapazes, com coletes militares. Sobem para uma pedra para que os vejamos, de espingarda ao ombro, estátuas desengonçadas a posar para os forasteiros. Costumam andar aos pares, acompanhados por três ou quatro cães, fazem ruído e assustam os bichos, mas raramente lhes acertam. Passam o domingo no monte, “andam entretidos”, como dizem as mães, com as espingardas de segunda mão e os camuflados. Seguem-nos com os olhos, sem disfarçar, quando passamos, e levantam bem alto o cano da espingarda para que os admiremos. Poderia um impulso infantil levá-los a apontar a arma na nossa direcção e disparar, só para ver se nos acertam, só para ver como caímos. As coisas que nos passam pela cabeça. (Uma vez, um homem de quem todos gostavam, o santo da vizinhança, de bochechas redondas e sorriso beatífico, levantou os olhos para o céu onde passava um avião, e com toda a naturalidade confessou que gostaria de vê-lo cair. A esse e a todos os que via passar.) Mas os jovens caçadores contêm-se, e passámos incólumes.  [Read more…]

Cruzei-me com os olhos da minha avó

Isto é por tua causa, João.

Hoje, fui felizmente obrigado a ir até à Rua de Santa Catarina (ou até Santa Catarina, como dizem os meus irmãos portuenses). A manhã estava luminosa, indecisa entre fria e quente. Fui até à Latina, comprei um livro e regressei, de costas para a Batalha. Estava como gosto de estar, com tempo. Como se fosse um turista sem a pressão das visitas guiadas, livre de mapas. À porta do Majestic, fui turista de turistas (já não deve faltar muito para que se organizem percursos de observação de turistas).

Precisava de tomar o segundo café, ler um bocadinho do jornal de ontem, continuar o livro, sentar-me. Ócio, o luxo obrigatório.

Pelo caminho, cruzei-me com uma velha conduzida por um casal. Estava a olhar para mim. Eram os olhos da minha avó. Não da mesma cor, não os mesmos olhos, antes o mesmo olhar, como é que isso se explica? Um certo desamparo, uma espécie de espanto infantil com a realidade, como se tivesse desaprendido tudo o que já soube. Os olhos da minha avó olharam para mim e não me estavam a acusar, talvez porque queira (eu ou ela?) limpar a minha consciência. [Read more…]

Cosmos

Certa amiga contava-me, não vai há muito, as suas desventuras numa repartição do Registo Automóvel, para onde partiu, manhã cedo, logo depois do beijo de despedida aos filhos, à porta da escola, sem certezas quanto ao seu retorno. Levou para fazer-lhe companhia na espera o Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac. Passou boa parte do dia a lê-lo, mal sentada num dos bancos de plástico da repartição, e, quanto mais lia, mais se lhe afirmava irrefutável a ideia de que há dois tipos de vida: aquele, na estrada, livre, improvisado, sem regras; e o seu, que impõe a actualização de livretes e a apresentação de actas, certidões, registos vários.

Concordei com ela. E contei-lhe que passo com frequência por uma livraria especializada em economia, finanças, contabilidade e quejandos, e que por vezes me detenho frente à montra, sempre com o mesmo espanto. Enquanto a sonda Huygens da missão Cassini envia as primeiras imagens de Saturno, e o Curiosity anda aos tropeços por Marte, e se decifram os primeiros mistérios do cosmos, e se reconhece a espantosa contracção do espaço onde existe matéria, aqui, no planeta Terra, há quem se dedique a escrever (e quem o compre) o Boletim do Contribuinte. [Read more…]

Era Lisboa e ríamos

New Portuguese Letters to the World
Imagem: Google books

A notícia da morte de Isabel Barreno e a evocação mediática do escândalo armado no regime anterior, que ficou conhecido como o caso das Três Marias, levou-me a olhar para trás uns largos anos. 

O livro, assinado por Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, foi acusado de pornografia pelos censores oficiais quando, muito simplesmente, se tratava de dar relevo, artístico e literário, às cartas da freira Mariana Alcoforado que, num convento de Beja, se enamorou dum oficial francês, amigo e companheiro de armas de seu irmão. Como de costume, a coisa meteu interrogatórios policiais, tribunais e uma razoável tribuna de acusações por parte de todos os correios da manhã de que o governo fazia gato-sapato. O assunto, porque a lentidão está no ADN da justiça portuguesa, só viria a ser concluído por uma absolvição depois de 1974. [Read more…]

Carta do Canadá – Setenta e um anos depois

Quanza

Navio Quanza, da Companhia Nacional de Navegação (imagem daqui)

No dia 6 de Agosto de 1945 os Estados Unidos da América arrasaram com uma bomba atómica a cidade japonesa de Hiroshima, assim retaliando o ataque que sofreram dos aéreos nipónicos sobre a sua base militar de Pearl Harbor. Aliado de Hitler, pouco depois também o Japão se rendia. Estava consumada a vitória dos aliados europeus  e americanos sobre o hediondo crime dos nazis alemães que, aliados também aos fascistas italianos e contando com a simpatia colaborante dos fascistas portugueses e espanhóis, ensombraram o século XX com milhões de mortos e fortaleceram o comunismo soviético.  Este, como se sabe, foi depois o fautor dum desastre sangrento e horrendo nos países que a Rússia agregou a si, a ferro e fogo, propagando depois o terror à China, ao Vietnam, à Coreia, a Cuba e  alguns países africanos, designadamente Angola.

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Os Dias de Gatwick

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Johnny English

Aqui na ilha, tudo na mesma.
Trabalhamos quatro dias seguidos, depois mais três dos supostos quatro de folga. Depois mais quatro, e por aí fora. Já não nos lembramos de ter dois dias seguidos de folga…
Os comboios andam sempre atrasados ou nem andam por falta de pessoal e conflitos laborais insanados.
Amanhã o dia começa um pouco antes de brotar a luz, às 03h45. O habitual.
Hoje um americano deixou uma libra de gorjeta. É de estranhar porque os americanos ficam sempre muito indignados por terem que pagar os serviços como qualquer mortal.
Os franceses, os espanhóis, os italianos, os espanhófilos e outros tentam falar inglês.
O café no geral é mau ou péssimo. Resta o Dijo, o café luso da Station Road.

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Passe de letra

passe de letra

Ando a treinar para fazer um passe de letra. Nunca tive jeito para jogar com os pés, mas enamorei-me da ideia de fazer um passe assim, todo ele artifício. Acertar na bola é o menos, difícil é dar-lhe com a força certa e fazê-la tomar a direcção que queremos. O normal é que o passe saia frouxo e sem rumo. Um passe de letra perfeito pode exigir uma vida inteira de treino. Bem, exagero, é certo, mas pode ser projecto a longo prazo. Porque um passe de letra – inesperado, harmonioso, cheio de graça – só se fará com uma inspiração divina (e provavelmente irrepetível) ou com horas de trabalho, passes toscos, joelhos doridos, um mau jeito no calcanhar. Até ao momento em que enfim se fundem talento e prática e o passe sai exemplar, tão falsamente espontâneo que qualquer um poderá achar-se capaz de repeti-lo. É nisso que acredito. Ainda não cheguei lá, mas vou treinando. [Read more…]

Avô

Adélia Pires

O meu avô João era o ídolo dos meus quatro anos.
Fazia magia com um relógio de bolso e com ramos de oliveira. Com essa magia encontrava água e nasciam poços.
Como era cantoneiro, plantava árvores ao longo das estradas e muitos anos depois da sua partida elas ainda lá estão.
Monumentos à sua memória.
Pedaços do tempo da sua vida.
Pedaços de mim porque as amo em memória dele.
Quando tinha tempo, amanhava um Chão, onde uma macieira esperava pacientemente até Setembro para dar à luz umas maçãs rosadas, que o meu avô guardava numa cesta e ficavam libertar perfume na frescura silenciosa da loja.
No quintal da casa fez um jardim de canteiros, onde antes da Primavera se anunciar, combatia os trevos de jardim, plantava bolbos de narcisos e túlipas, ajeitava os arbustos dos jasmins, aparava as “rapaziadas”, arranjava sombra para as hortenses, semeava amores-perfeitos e plantava açucenas.  [Read more…]

Carta do Canadá – Sombra dos nossos dias

Na Europa e no Mundo, não estamos a viver dias claros e límpidos. Somam-se as sombras da angústia, da preocupação, da incerteza.

Erdogan, o ditador turco cujas subterrâneas simpatias pelo Daesh são tão inexplicadas como as suas opiniões fanáticas acerca das mulheres que estudam, trabalham e vestem à ocidental, acaba de decretar o estado de emergência por três meses – depois dum golpe militar de origem mais do que suspeita que ele aproveitou para caír como um milhafre sobre a população. Tem sido um trágico cortejo de prisões e despedimentos de militares, magistrados, professores e jornalistas. Alguns turcos que fugiram para o mundo livre fazem saber, através das televisões, que há populares decapitando opositores de Erdogan na ponte do Bósforo. Tal qual fazem os membros da seita Daesh, a que não esconde querer estender o Califado à Europa ao mesmo tempo que as suas hostes são bombardeadas e dizimadas no Médio Oriente. Os sequazes de Erdogan que enchem as ruas de Istambul não precisam que a pena de morte seja instituída, por via parlamentar. Já a praticam. Impunemente.
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Crónicas do Rochedo VIII – Nós não somos alemães.

Tenho para mim que Pedro Passos Coelho é um homem sério e um político que acredita piamente no seu conceito do que deve ser Portugal. O problema pode estar no “seu” conceito.

Olho para a sua entrevista mais recente com a devida distância de quem não estando muito longe também não está perto. Como não sou nem bruxo nem adivinho não sei nem faço a mínima ideia se ele está certo. Penso saber que está a falar com toda a convicção, de quem acredita que o caminho é aquele. O futuro dirá se a razão está do seu lado. Eu não o posso dizer. Por desconhecimento do futuro. O que sei é outra coisa. Nós não somos alemães. Para o bem e para o mal.

Hoje lido diariamente com alemães. E o que vejo é diferente daquilo que deles pensava, daquilo que deles nos é dado pela comunicação social e pelas “ideias feitas”. Trabalham mais que nós, portugueses? Não. São mais produtivos que nós? Não. Quando muito serão mais focados, mais pragmáticos e mais cumpridores do “by the book”. Neles não encontro o “desenrasca”. Não encontro o improviso. Nesse ponto são diferentes de nós. Mas… a realidade mostra que os alemães com forte poder financeiro gostam do nosso estilo de vida. Gostam do clima de Maiorca, do sul de Espanha, de Itália, da Grécia, do Algarve, de certas zonas de sul de França. Aqui em Maiorca chega-se ao ponto de serem donos de quase tudo na ilha – supermercados, restaurantes, bares, lojas, dos espaços de animação cultural, casas, hotéis médios e pequenos, jornais e rádios, entre inúmeros negócios. E fogem ao fisco. Que latinos que eles são…

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Crónicas do Rochedo VII – Europa

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Chovem pedras na vidraria

Estava aqui a olhar para esta vista e a pensar que ando a falhar ao treinos do Aventar. E a distância não é desculpa bastante. Entretanto um aventador casou e resmas de outros fizeram anos. E por estes dias o mundo, pelo menos aquele que nos é mais próximo, mudou e muito.

Em terras de Sua Majestade o povo falou. Escolheu seguir outro caminho. Tenho lido e ouvido muitas opiniões sobre este referendo. Que votaram sem saber bem o quê (tenho que tal até pode ser verdade no caso de uma pequena maioria mas não façam do povo estúpido), que a culpa é de Bruxelas e dos seus burocratas (lá ajudar, ajudou), e eu sei lá que mais culpados e razões encontraram. Uma coisa tenho como certa: independentemente do resultado, aplaudo o facto de terem feito um referendo. Assim ninguém vai ao engano.

O resultado só veio confirmar a enorme, gigantesca crise europeia. E não estou a falar de economia. Estou a falar de valores, de civilização. Em praticamente todos os países europeus cresce o extremismo. Tanto o de direita como o de esquerda. Fico espantado ao ver que até em Inglaterra se verifica uma clivagem perigosa entre gerações. Os mais novos dizem que foram os mais velhos que escolheram o caminho da saída. Os mais velhos afirmam que o problema é o desconhecimento e a falta de experiência dos mais novos. Vi, li e ouvi discursos inflamados de uns e outros, o mesmo género de palavreado que ouvi em Portugal sobre as reformas e a crise, a dívida e o futuro para as novas gerações. Cá como lá, uma divisão geracional destrutiva e estúpida. Estamos a assistir a um espectáculo dantesco: chovem pedras entre telhados de vidro.

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Sopra doido

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Na farmácia do bairro, ouvi certa manhã um velhote contar que, até ir ao médico pela primeira vez, o seu coração batia: “tum-tam, tum-tam, tum-tam”. O médico ouvira aquele desconcerto, sentenciara umas palavras ininteligíveis e receitara-lhe a pastilha que lhe fizera o coração acertar o ritmo. Agora, no seu peito apenas se ouvia um circunspecto “tum-tum, tum-tum, tum-tum”. O médico ficara satisfeito, a pastilha era para manter, mas o velhote desconfiava de batida tão certa.

– Isto é soldado que nasceu para marchar torto – garantia ele ao farmacêutico, que sorri sempre,  sem escárnio, das sentenças dos leigos.

Vivia agora mais preocupado do que antes do acerto. Era um caso evidente de um coração que se fizera perfeito, como o daqueles versos do O’Neill, mas batia descompassado do seu dono. [Read more…]

Pó enamorado

©CR

© CR

Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.

Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.

As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir. [Read more…]

Paraíso fiscal

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Se o paraíso fiscal existe, então também existirá o inferno fiscal, do qual teremos um vislumbre durante este mês ao entregarmos a declaração de IRS. A propósito, de acordo com o que tem sido noticiado, o processo tem laivos de via sacra, tendo como estações declarações mal pré-preenchidas e bugs no software de suporte.

Mas voltando à tese inicial, a semântica associada à expressão usada para classificar os bordéis onde se pratica a fuga ao fisco pode se alargada de forma extensiva. Quem são o deus fiscal e o diabo dos impostos? E os anjos, os demónios e os santos? Cada qual não terá, certamente, dificuldade em atribuir nomes a estes cargos. Mas há casos complicados. Por exemplo, aqueles que agora se mostram chocados, como Junker, que foi primeiro-ministro de um desses paraísos, são judas fiscais ou madalenas que atraem pecadores?

Por outro lado, não sendo claro quem seja o papa fiscal, representante do deus fisco na terra dos capitais, já a existência de bulas fiscais é factual, chamado-se, apropriadamente, perdão fiscal.

Falta saber se as declarações de vários apóstolos sobre fecharem os paraísos fiscais são para ser tomadas a sério e se, simultaneamente, os infernos fiscais também são para acabar. Mas, mais importante ainda, sobra a grande questão: há vida para além do fisco?

Carta do Canadá – A Espuma dos Dias

L'écume des jours

Não surpreende excessivamente o fervilhar da fétida situação internacional, e principalmente europeia, se tivermos memória. Lembro que, em sucessivas reuniões da UCIDT (União Católica dos Industriais e Dirigentes do Trabalho), há 40 anos, se debatia o que então era designado por “desarmamento moral da Europa”.

Em plena Guerra Fria, e estando Portugal a viver a sua própria revolução, a Europa inquietava por estar a desfazer-se dos seus valores morais e tradicionais como quem, por desespero ou leviandade, deitasse ao lixo as jóias da família. Percebia-se que o vazio deixado por esse deslize era ocupado pela finança. Entrava-se na era de tudo ter um preço. De tudo ser objecto de compra e venda. Incluindo as consciências. [Read more…]

Transporte de emigrantes portugueses – relato na primeira pessoa

Mini bus

Joel Martins

Introdução: Sou filho de emigrante, e eu próprio já fui emigrante várias vezes, ainda que em curtos espaço de tempo.

Esta introdução serve para atenuar as críticas que se irão seguir pelo que vou escrever.

Há dois motivos muito simples para isto acontecer (o transporte de emigrantes da França e da Suíça para Portugal em mini-bus ou carrinhas ligeiras de transporte de mercadorias adaptadas):
1. A capacidade de carga: o emigrante quando vem de férias traz a mala cheia de chocolates, rebuçados, e um salpicão comprado em Espanha. É certo que se podia comprar isto num qualquer intermarche, mas recordo-me da emoção de ver o que o meu pai trazia no saco quando chegava de férias, por menos que fossem umas botas “made in portugal” compradas em França, true story …..
2. A comodidade: as “carrinhas” apanham os passageiros em casa, e largam-nos em casa, dado que muitos dos nossos emigrantes são de zonas remotas que ficam a centenas de km’s dos aeroportos.

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Carta do Canadá – A morte que dói

Acabo de saber da morte súbita de Nicolau Breyner. Dói-me a alma. Não é fácil ver desaparecer os artistas que amamos como se fossem do nosso sangue.

Vem-me à memória aquele rapaz que, mudo e emocionado, levantava um cartaz num recital dos Três Tenores em Buenos Aires. “Não morras Pavaroti”, dizia o cartaz. Quando amamos o teatro, o cinema, as artes plásticas, a música, a literatura, é o que apetece implorar aos que se distinguem. Daí a considerá-los imortais vai um passo. E garantido enorme desgosto quando eles partem. Foi assim que me senti tantas vezes: Rommy Schneider, Yves Montand, Edith Piaf, Jaques Brel, Ingrid Bergman, Chagal, José Régio, Jorge Barradas, Almada-Negreiros, tantos e tantos mais. Mas também por eles estou grata à TV e ao cinema que perduram a sua obra e a lembram de vez em quando.

Agora, o Nicolau. O actor que dominava a profissão sem ser enfadonho, agarrando o público. O humorista que sentia prazer em fazer rir, em aliviar o fardo da vida ao próximo, sem precisar, para ter graça, de ser ordinário, vulgar, insultuoso da religião e opções dos demais. Era um senhor e popular por isso de ser amado pelo povo que se revia nele. Porque, para além do palco, era um homem generoso, leal, escorreito de carácter. Um alentejano puro sangue.

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Carta do Canadá – As listas da KGB


Por estes dias são vistas à lupa as listas dos filiados do chamado estado islâmico e as dos colaboradores da KGB, a temível polícia política da defunta União Soviética. Parece que numas e noutras há portugueses, o que não surpreende porque há portugueses em toda a parte. Diz-se que é desta vez que se fica a saber por inteiro como foi aquilo dos ficheiros da PIDE terem ido parar a Moscovo.  Eu duvido mas, por outro lado, acredito em milagres.

Em 1975 havia agentes soviéticos, disfarçados, no aeroporto de Lisboa. E escutas com material fornecido pela Alemanha de Leste, segundo se dizia. Era notório que o PCP tinha grande apoio da União Soviética. Uma vez um comandante duma base aérea contou que, ao fazer voos rasantes no Alentejo, viu densos grupos em pânico, fugindo para trás de moitas, tendo apurado depois que eram revolucionários de vários países, incluindo russos. Por piada, esse comandante até sugeriu voltar aos voos rasantes com pessoas atrás munidas de vassouras. Ia-se varrendo, até eles chegarem a casa.

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Em cada mulher, uma super mulher

Na espuma do dia de hoje, o dia internacional da mulher, o Governo vai propor aos parceiros sociais medidas que promovam a representação equilibrada de mulheres e homens nos conselhos de administração das empresas. Mais mulheres vão representar incentivo às empresas que promovam a igualdade. Menos, penalizações para quem não o faça.
Mas fica a eterna questão: serão as quotas uma medida de igualdade ou uma penalização para as mulheres que efetivamente têm capacidades? Confesso que quando analisei as listas de candidatos a deputados fiquei quase sempre a pensar se o 3º elemento estaria lá por mérito ou por género. A quotas parecem-se às vezes mais com uma ofensa que com um direito.

41 anos depois da ONU o ter instituído há quem brinque e há também quem acredite que o “dia da mulher” já não faz sentido. A desigualdade em Portugal está démodé, dizem alguns. Quer um reality check? Em Portugal a situação da desigualdade de género não é um assunto sério mas ainda existe. Enquanto este “ainda” não desaparecer o dia continua a fazer sentido. Para os que precisam de memória fica a sugestão de um projecto recente – Mulher não entra – pensado inteiramente por homens, que alerta para situações em que as mulheres ficam de fora.

A mulher tem lugar central na música de Chico Buarque. “Todos os musicais dos Chico Buarque em Noventa minutos” é uma peça do compositor e escritor brasileiro que está em cena no Porto e em Lisboa. Dez anos depois do sucesso da “Ópera do Malandro”, a dupla de criadores brasileiros Charles Möeller e Cláudio Botelho regressa a Portugal com uma nova produção que promete uma fantástica viagem pelas mais belas canções do músico brasileiro, escritas para musicais como “Gota d’Água”, “O Corsário do Rei” ou “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Marque na agenda, a homenagem ao compositor chega nos dias 8 e 9 de março ao Coliseu do Porto e nos dias 11 e 12 de março ao Campo Pequeno, em Lisboa.

 

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