Crónicas do Rochedo 38 – Tempos de Excepção, medidas de Excepção

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O que acontece se o sector da Restauração e similares (restaurantes, bares, cafés, confeitarias, etc) não recupera rapidamente?

Nenhum problema, eu sou agricultor e produtor de fruta e legumes, continuo a plantar e a mãe natureza encarrega-se do resto”. Errado: o sector da Restauração e Similares é o principal consumidor de frutas e legumes. Sem ele o agricultor terá de fazer como já se vê em muitos dos países atingidos pela pandemia: deixar na terra a maioria da sua produção por não ter quem compre. O mesmo no caso dos produtores de gado.

Nenhum problema, eu sou produtor de vinhos e as uvas continuam a nascer e o vinho a produzir-se”. Errado: o sector da Restauração e Similares é o principal comprador de vinhos a nível mundial. Sem restaurantes e bares bem que os produtores de vinho terão de reduzir em 75% a sua produção.

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Crónicas do Rochedo 37 – Já alguém avisou quem nos governa?

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Há quase um mês, mais precisamente a 20 de Março escrevi a primeira crónica sobre a verdadeira catástrofe económica que se avizinhava com a queda do turismo fruto da pandemia. Mais tarde, abordei a questão dos supostos apoios lançados pelo governo e depois sobre outro sector com uma ligação muito forte ao turismo, o da restauração e similares.

Hoje, em Espanha, começam a surgir os primeiros números da realidade. Todos eles explicam que as previsões negativas apontadas pelo FMI afinal são mais optimistas que a realidade. A média apontada para a queda do sector em 2020 é de 81,4% do PIB. Sendo a menor nas Canárias (-76%) e a maior nas Baleares (-95%) e na Catalunha (-84%). Neste momento o sector já aponta para perdas superiores a 124 mil milhões de euros em 2020. Recordo que o Turismo e Similares representa cerca de 12,5% do PIB espanhol e 15% do PIB português.

Estes valores significam uma queda do PIB em Espanha (e em Portugal, não se iludam) superior, bem superior, à prevista pelo FMI no final da semana passada. Ora, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, desaconselhou os europeus a marcar férias em Julho e Agosto. Na passada sexta, a Ministra do Trabalho espanhol foi mais longe, ao afirmar que não acredita que as restrições actuais existentes no que toca ao turismo possam ser levantadas antes do final do ano. Para piorar, a IATA reviu em baixa as suas previsões anteriores apontando que o tráfico aéreo talvez atinge um valor de 50% do normal no último trimestre do ano e o tráfico aéreo interno talvez chegue aos 50% no terceiro trimestre. Por isso mesmo, uma parte dos empresários do turismo nas Baleares assim como em Benidorm já assumiu que nem sequer vão abrir este ano, independentemente de serem ou não levantadas as restrições colocadas pelo governo espanhol.

O caso português não será muito diferente. Não será mais positivo. Podem esperar, se nada de concreto e real for feito antes, com no mínimo mais de 2 milhões de pessoas atiradas para o desemprego só neste sector e nos sectores com ele conexos. Milhares de micro, pequenas e médias empresas falidas. Mesmo acreditando (tenho muitas dúvidas) nos que dizem que em 2021 teremos uma recuperação do sector em 50% e que em 2022 já estará em valores normais, será preciso que as empresas e os postos de trabalho lá cheguem. Os custos para o Estado, para o país no seu todo, serão maiores que os custos das ajudas directas que o sector vai precisar para chegar vivo a 2021. Se o Governo e os partidos que o apoiam (BE e PCP), mais o PSD não perceberem isto, vai ser trágico para a economia nacional no seu todo e por vários anos.

Em Espanha acordaram hoje para os números desta catástrofe e para a necessidade de um plano de resgate urgente. Em Portugal alguém avise quem de direito…

Crónicas do Rochedo 36 – Restauração e Similares ou as costas dos outros…

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Nas últimas crónicas escrevi sobre o impacto do Covid19/Corona vírus no turismo em Portugal. Finalmente, em Portugal, alguém se debruçou na televisão sobre os problemas que se avizinham para a economia portuguesa fruto da mais que certa queda abrupta do turismo: foi na TVI24, ontem (15 de Abril), Paulo Portas no seu programa “O Estado da Emergência”. 

Se analisarem o que ele disse comparando com o que já tinha escrito AQUI e AQUI no Aventar, a grande diferença foi o assumir de que o número de trabalhadores directamente afectados ser superior a um milhão. Ou seja, Paulo Portas juntou aos cerca de 450 mil trabalhadores do sector, os trabalhadores de sectores que directa e indirectamente vão sofrer por tabela. Eu apontei para mais de 350 mil (800 mil, avisando que era um número bastante conservador) mas Portas, certamente com boas fontes, aponta bem mais para cima. Devo dizer que concordo plenamente com a sua análise mas continuo a considerar os números como conservadores. Não é preciso ser bruxo, basta conhecer minimamente a realidade do sector.

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Crónica do Rochedo 33º – A pandemia europeia

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Quando Portugal procurou a ajuda dos seus parceiros europeus para a questão da violação dos direitos humanos em Timor, boa parte da Europa assobiou para o lado (então a Holanda…). Quando os países do sul da Europa precisaram de ajuda no combate à crise provocada pelo colapso financeiro de 2008/9, boa parte da Europa balançou entre o assobiar para o lado e o castigar esses “bebedolas”. Quando a Grécia se viu a braços (e continua) com o problema dos refugiados, boa parte da Europa fez de conta. Quando, hoje, perante uma pandemia sem precedentes a Itália pediu ajuda, parte substancial da Europa disse não ou, no melhor dos casos, nim.
A Europa está refém de uma doença infecciosa que se espalha entre parte substancial dos seus países, sobretudo a norte e centro, um vírus que se pode descrever como uma espécie de “eu quero lá saber dos outros países, do bem comum, o que importa é o meu interesse: o meu país, a minha economia, os meus problemas”. É uma pandemia europeia.

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Crónicas do Rochedo 31º – Ainda o Turismo e os supostos apoios

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Depois da publicação da Crónica anterior, vou continuar a desenvolver a problemática económica que se avizinha para o turismo agora na óptica dos apoios já tornados públicos. Para se perceber a grandeza do problema é ler a crónica anterior.

Analisando o que já está previsto e publicado pelo governo (site IAPMEI e PME Investimento) e que se pode resumir a apoios de tesouraria e fundo de maneio, acrescentando os apoios ao sector da Restauração e Similares (profundamente dependentes do Turismo na Grande Lisboa, Área Metropolitana do Porto, Algarve, Madeira, Açores, Região do Douro e em muitas das nossas cidades), temos o seguinte:

Em praticamente todas as linhas de crédito os spreads bancários (sublinho, apenas no que toca aos spreads) variam entre um mínimo de 1,928% e um máximo de 3,278%. 

Não encontrei de quanto é o juro nem tão pouco, se existem, os custos bancários para processamento e afins destas medidas. Nem que tipo de garantias são exigidas.

Vamos lá ver se nos entendemos: 

Neste momento, todo o sector do Turismo assim como o da restauração e similares dele dependente estão numa realidade surreal: receitas zero. Para piorar a situação, a principal época de facturação está compreendida entre 15 de junho e 30 de setembro. Ora, como facilmente se compreende atendendo à realidade actual, a chamada “temporada de 2020” foi ao ar. Não se enganem, não vamos ter turistas estrangeiros a tempo de a salvar. Mais, é muito bonito ver algumas iniciativas que circulam pelas redes sociais com a temática do “ajude as nossas empresas e este ano faça férias em Portugal”. Desculpem mas não resolve. A estrutura existente está desenhada para uma realidade de, pelo menos, 20 milhões de turistas. O aumento incrível do número de hotéis (e similares), restaurantes, bares, lojas de lembranças (etc) e o correspondente aumento de trabalhadores nessa área não é sustentável apenas e só com o turismo interno. Nem a esmagadora maioria dos portugueses vão ter, no final de tudo isto, capacidade financeira para esse luxo a que se chamam férias. Pensem um pouco, com a excepção dos funcionários públicos, todos os outros portugueses terão, no mínimo e a correr bem, um corte de 30% nas suas receitas. A correr mesmo muito bem. E, já agora, para piorar o cenário, por exemplo, aqui em Espanha também circulam as mesmas iniciativas de este ano fazer férias em Espanha. Suponho que será um sentimento generalizado noutros países…

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Crónicas do Rochedo 30º – Turismo: Uma catástrofe à vista

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Já não escrevia uma crónica há muito tempo. Ora, tempo é o que mais temos nestes últimos dias. Tempo para pensar e tempo para escrever. Perante a pandemia que estamos a viver existem vários sectores da nossa sociedade que enfrentam várias ameaças. Um deles é o turismo. Por ser dos sectores que melhor conheço profissionalmente, deixo aqui a minha análise baseada em factos e fontes e na experiência profissional. Podia escrever o mesmo sobre o turismo em Espanha e, sobretudo, na realidade que melhor conheço, as Baleares. Contudo, para já, prefiro analisar o problema português (aqui não será muito diferente).

Vamos começar pelos números:

O Turismo em Portugal representa 14,6% do PIB (dados de 2018) e 9% do emprego (dados de 2018) e 13,3% do total das nossas exportações (dados de 2018).

Tentando tornar a coisa mais simples de entender: 

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Estes dias

O «Sinais», do Fernando Alves, na TSF, se antes era uma companhia diária, é agora a minha vitamina. A crónica de hoje foi uma saudação especial aos caminhantes. Confinados em casa, ou quando muito reduzidos a uma escapadela em horários pouco concorridos (porque até o nosso passeio higiénico tem algo de traição a todos os que aguentam encerrados), sentimos a falta das nossas caminhadas. Ontem mesmo levei para a varanda o mini-stepper, aquele aparelhinho ridículo para andar a pé sem sair do sítio, e lá fiquei um bom bocado, num caminhar fingido que faz lembrar o correr fingido do hamster na sua roda, mas com a vista posta bem longe, naquela nesga da Torre dos Clérigos que avisto da proa da varanda. [Read more…]

Dia de visita

E se houvesse um dia no ano em que pudéssemos visitar os nossos mortos e encontrá-los vivos? Partiríamos de comboio (vem-me à memória a viagem que fazem os sul-coreanos para visitar parentes e amigos na Coreia do Norte) rumo ao lugar deles, que eu gostaria de imaginar que fosse um bosque de carvalhos e tílias, mas apenas consigo ver um bloco de edifícios de traça austera, funcional, um lugar com longos corredores e salas pequenas, com uma única janela e um aquecedor de parede, e onde nos esperariam, à janela, os nossos mortos, sempre no mesmo dia, uma vez por ano. Ficaríamos todos juntos, cada um no seu cantinho da sala, famílias e amigos, num mesmo espaço partilhado, como nos hospitais e nas cadeias, a ouvir a conversa uns dos outros, a lamentar os que desperdiçam o dia discutindo e os que nada têm para dizer. [Read more…]

Per saecula saeculorum

A pergunta apanhou-me de surpresa:

Sabes de alguém que queira vender um jazigo?

Nascida numa família de campas rasas, um jazigo soou-me sempre a luxo das elites,  vagamente oitocentista, um garante per saecula saeculorum de que não haveria misturas inapropriadas no além tangível das ossadas.

Entendo que se possa buscar conforto na ideia de manter unidos os membros de uma família, enfrentar a morte acompanhado por quem se amou em vida, mas é precisa uma grande dose de pensamento mágico para que esse conforto seja real. E, claro, há o horror à decomposição na terra, mas são assuntos em que se pensa às quatro da manhã, depois de um pesadelo, e se esquece pela alvorada.

Portanto, eu não sabia de jazigos à venda nem estava interessada em sabê-lo, mas a minha amiga estava e não foi preciso muita insistência para que eu acabasse a fazer-lhe companhia num encontro com um vendedor. O meu papel era fazer perguntas inteligentes, tarefa em que manifestamente falhei, e avaliar se o negócio valia a pena, competência para a qual nunca manifestei grande talento, mas é sempre comovedor ver como os amigos acreditam em nós. [Read more…]

O homem que nunca existiu

©Marian

Um amigo recebeu, por motivos pessoais que não vou contar, uma pequena parte da biblioteca de um ilustre bibliófilo. “Pequena” tendo em conta o tamanho total, mas, ainda assim, pouco mais de uma centena de livros. Cheguei a conhecer o bibliófilo, ainda que só de vista. Era um professor aposentado, conhecido pelo humor cáustico, pelo apetite voraz e por jamais sair à rua sem um livro na mão. Troquei com ele pouco mais do que uma saudação fugaz, nos restaurantes do bairro, adiando sempre o dia em que me decidisse a meter conversa. Tanto adiei esse dia que o deixei fugir.

Ajudei o meu amigo a organizar a biblioteca e recebi, em troca, alguns exemplares (não vale a pena esconder o meu oportunismo). Entre as páginas dos livros foram aparecendo consultas de mesa de todos os restaurantes da zona, recortes de jornal sobre os mais diversos temas, algum número de telefone rabiscado, apontamentos nas margens, guardanapos com definições de palavras, escritas com uma letra vagarosa e muito desenhada, postais de viagem. Com tudo isto, foi-se definindo o retrato desse homem que mal conhecíamos, como se pudéssemos recriá-lo a partir destes escassos vestígios da sua passagem pelo mundo.

No final, com os livros ordenados e o montinho de papéis pescados entre as páginas pousados sobre a mesa, achei piada à ideia de que o meu amigo e eu tínhamos feito a operação “Carne Picada” ao contrário. Eu explico. [Read more…]

Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna. [Read more…]

A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXIX – Península Ibérica 2483 d.C.

ronaldo jornal da Madeira

“Em 2485 vamos celebrar os 500 anos do nascimento de Cristiano Ronaldo e por esse motivo, os responsáveis das cidades do Funchal, Lisboa, Manchester, Madrid, Turim e Miami aqui reunidos, decidiram criar a ACRM (Associação das Cidades Ronaldianas no Mundo) que terão como responsabilidade criar o programa das festividades em todo o ano de 2485 ficando a sede desta associação aqui, na cidade de Madrid” – anunciou em conferência de imprensa a governadora da província de Madrid.

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Crónicas do Rochedo XXVIII – Justiça Perdida

Quando uma sociedade deixa de acreditar na justiça é o princípio do fim.

As decisões do juiz Neto de Moura e dos seus pares – sim, como bem lembrou o Professor Aguiar Conraria no último programa “Governo Sombra” da TVI 24 as decisões deste juiz não foram tomadas apenas por ele – são uma machadada na credibilidade da justiça em Portugal. A ameaça de processar todos aqueles que o criticam e a posição tomada pela Associação de Juízes é a cereja no topo do bolo.

Tempos perigosos estes…

 

Chinelos

À hora a que chegam os primeiros funcionários das lojas, e a rua desperta com o cacarejar metálico das grades corridas com a resignação brusca das segundas-feiras, o homem ainda dorme um sono profundo. A sua cama é ampla, ocupa quase metade de um passeio largo, e, pese a precariedade da instalação, está bem cuidada. Cartões grossos no fundo, dois cobertores finos por cima, um cobertor mais grosso e um edredão amarelo no topo.

O homem dorme, o rosto voltado para a rua, para quem passa. A seu lado, há um balde com duas garrafas de água e uns chinelos de quarto, muito finos, quase de papel, daqueles que os hospitais e hotéis por vezes oferecem. Os chinelos são de um branco impecável. E é a presença dos chinelos ao lado da cama, no chão, tal como a cama, que nos fazem sentir embaraçados por estar ali, como se tivéssemos entrado inadvertidamente em casa do vizinho – uma porta mal fechada, pensávamos estar no segundo e afinal estávamos no terceiro andar, uma distracção, enfim, e agora estamos aqui, frente à cama deste desconhecido que dorme de gorro na cabeça, alheio à nossa invasão. [Read more…]

Tradução e gratidão

Foi depois de ter enfiado – com alguma fúria e frustração, diga-se – aquele insuportável livro num raro buraco de uma das estantes grávidas de livros cá de casa que, vendo na prateleira imediatamente superior e ao nível dos olhos o título a letras de ouro de “As Minas de Salomão”, de Henry Rider Haggard, na brilhante tradução de Eça de Queirós, me ocorreu de novo aquele sentimento de gratidão que tantas vezes me ocorre ao ler um livro traduzido por alguém cujo talento literário se mostra ao nível do autor original – não quero ter o maldoso atrevimento de me interrogar se, por vezes, não o ultrapassa.

Podia aqui fazer uma lista de tradutores- escritores e tradutores -académicos a quem estou profundamente agradecido mas, dada a feliz extensão de uma tal lista e a possibilidade de, por esquecimento ou ignorância, pecar por omissão, não o farei. Mas passam-me pela memória nomes, obras, descobertas, verdadeiros prodígios de tradução e recriação literária e/ou científica. Tanto mais que, não o ignoro, o trabalho de tradução é pessimamente pago e só o amor à arte motiva os melhores a fazê-lo. As gerações mais novas talvez achem esta gratidão excessiva, mas bem sabem os mais antigos como fizeram, por necessidade, os seus estudos sem ler uma linha na nossa língua. [Read more…]

Famosa lenda em versão vegan pós-moderna

Pelos campos do Sítio da Nazaré ia D. Fuas Roupinho em esforçada perseguição a um veado que, lesto, lhe escapava como se se divertisse com o esforço do cavaleiro. Este porfiava e atiçava o cavalo que, espumando e resfolgando, corria a toda a brida, cortando os ventos fortes do lugar. No seu entusiasmo, não reparou o fidalgo que presa e caçador se aproximavam perigosamente da falésia do Sítio. E foi quando, subitamente, o abismo se lhes deparou como uma fatal sentença. Foi nesse momento que se abriu um clarão nos céus.

Assustado, o corço estacou de pronto, cortando o solo com os cascos até parar mesmo à beira da falésia, à qual prestes virou as costas. O mesmo fez o cavalo, fazendo brilhar faíscas ao fincar as ferraduras no solo rochoso. Também o rocinante se salvou. Só D. Fuas, coitado, não teve sorte. A brutal paragem da sua montada fê-lo sair em voo sobre as orelhas do cavalo e despenhar-se na falésia. Durante a sua breve queda ainda gritou “valha-me a Senhooooora…”. Mas a Senhora não valeu e o infeliz alcaide de Porto de Mós foi estatelar-se nas rochas da praia. [Read more…]

Uma preguiça transcendental

Convocaram-me para ir convencer o Professor Castelo a cumprir o plano. Como habitualmente, a sua posição era irredutível. Tentei explicar-lhes que nunca tinha existido uma verdadeira amizade entre nós, apenas um fascínio juvenil da minha parte, que ele retribuiu com uma cortesia excessiva e não isenta de vaidade. E muitos anos haviam passado sem que voltássemos a ver-nos. Responderam-me que isso pouco importava porque já não restava ninguém que lhe fosse mais próximo.

Resignei-me, então, a voltar ao casarão fracamente iluminado e mal aquecido, onde numerosas vezes tropeçara em pilhas de livros e onde sucessivos gatos, que nunca cheguei a distinguir uns dos outros, bufavam à minha passagem como se chamassem “invasora!”. Mas não encontrei nada disso. A casa estava vazia, à excepção de meia dúzia de móveis essenciais, e de uns quantos caixotes que estavam a ser levados para um camião parado à porta.

É o vigésimo quinto camião que enchemos – esclareceu-me o jovem que me recebeu, de rosto meio escondido atrás de um dossier de capa negra, e que se apresentou como “o inventariador”. – Está praticamente tudo. Só falta o homem. Ou melhor, o cérebro. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXVII – E a puta da liberdade de opinião?

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O director da RTP, Paulo Dentinho (pensava eu que ele já não era director da RTP) escreveu um post no facebook sobre o caso do Cristiano Ronaldo e a americana Kathryn Mayorga.

Os representantes do jogador, a Gestifute, responderam à letra. Estão no seu direito. Como Paulo Dentinho está no seu direito. Cada uma das partes é responsável pelas respectivas afirmações. É a chamada liberdade de expressão. Uma liberdade absoluta e que responsabiliza cada um. Certo?

Não. Parece que não. Já se pede a cabeça do director da RTP. Num caso (e no outro) nas redes sociais já se fez o julgamento e já se lavrou a sentença. Liberdade de expressão? Livre opinião? Isso é que era bom. Como diz o camarada Arnaldo de Matos, isto é tudo um putedo…

 

Vida animal

Os documentários sobre a vida dos animais sempre me pareceram abomináveis. Seja qual for a espécie retratada, os guiões tendem a ser iguais. Começam por apelar à nossa benevolência: aqui vemos uma jovem gazela, terna, vulnerável, feliz, a dar os seus desajeitados primeiros passos, a bebericar água no lago, a aprender os rudimentos da vida na luminosa savana. Corre, brinca graciosamente com as outras gazelas, fixa por vezes a câmara como se soubesse que a observamos e quisesse piscar-nos o olho. Atingido o ponto em que a nossa simpatia pela gazela não pode ser maior, o tom monótono do locutor altera-se:

“Mas, na savana, há sempre perigos à espreita! Ali perto, uma experiente leoa espreguiça-se e prepara-se para caçar.” [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXVI – Quando o Porto não é de abrigo

Tal como a esmagadora maioria das pessoas dotadas de senso comum, também não consigo perceber mais ESTA decisão do Tribunal de Relação do Porto.

E o grande problema é que não é um caso isolado. Basta lembrar os dois casos mais badalados: um de violência doméstica e outro de violação. Comum a todos estas decisões: o Tribunal de Relação do Porto.

Só tenho uma palavra para tudo isto: MEDO!

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Sagres (Regressa)

CAPÍTULO 66
César

Um Anjo aproximou-se de mim e disse:
-Oh, desgraçado e insensato jovem! Oh, terrível condição a tua! Atenta na masmorra ardente que estás a preparar para ti, por toda a eternidade, e onde irá levar o caminho que prossegues.
Ao que respondi:
-Talvez tu queiras mostrar-me o que a eternidade me reserva, e juntos contemplaremos o meu destino para vermos qual será o mais desejável, o meu ou o teu.
William Blake, A União do Céu e do Inferno

-A tatuagem, para o homem arcaico, era um gesto ritual que assentava num princípio de sacralidade do corpo enquanto extensão e fala, Verbo, do Universo e dos Deuses. O corpo-templo era marcado por sinais iniciáticos, emblemas que o inscreviam num Cosmos significativo, cuja Ordem advinha de um significado, de uma pluralidade de significados coerentes.

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O Ponto. Técnica Mista sobre tela. 120cmx80cm. BS.

 

CAPÍTULO 6
Morrer

O “argot” permanece a linguagem de uma minoria de indivíduos vivendo à margem das leis estabelecidas, das convenções, dos hábitos, do protocolo, aos quais se aplica o epíteto de vadios (”voyous”), ou seja , de videntes (“voyants”) e, mais expressivo ainda, de Filhos ou Descendentes do sol. A arte gótica é, com efeito, a art got ou cot (Xo), a arte da Luz ou do Espírito.
Fulcanelli, O Mistério das Catedrais

 

Às três horas e nove minutos da madrugada do dia vinte e três de Setembro do ano de dois mil e dez, Basilides entrou em coma profundo. O coração ainda batia, como um punho que se abre e fecha lentamente, e o Cordão de Prata estava aparentemente intacto. Mas a Alma de Basilides ordenara já o início da grande viagem que adiara durante mais de cinquenta anos.

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Desenho do autor

 

CAPÍTULO 5
Basilides Villanova: o nosso planeta

Ora, a alma – diz o nosso autor – está apenas parcialmente encarcerada no corpo, tal como Deus está apenas parcialmente confinado no corpo do mundo.
Carl Gustav Jung, Psicologia e Alquimia

 

-Porque trouxeste o Mocenigo?

-Foi ele que pediu para vir. Insistiu que queria falar com o Avô.

-Porque quiseste ver o Avô, Mocenigo?

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Desenho do autor

 

CAPÍTULO 15
Clarice

– A sua mulher lê muitos filósofos?
– Enormemente! – exclamei.
António Victorino D’Almeida, coca-cola Killer

 

Lisboa, dois de Novembro de mil setecentos e cinquenta e cinco

Querida Clarice,
espero que esta te encontre de saúde.

Houve um grande terramoto aqui em Lisboa. Uma desgraça muito grande.
A Tia está bem.
Amanhã partimos para o Freixo. Escrevo-te de lá.

Beijos,
Conde Vidraça

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Rollerball pen e Tinta da China | Desenho do autor

 

CAPÍTULO 8
A Loja Malkuth

Diz-se também que estes dois planetas [Saturno e Júpiter] são os mais importantes para o destino do mundo, e em particular para o destino dos judeus.
Carl Gustav Jung, AION

 

Simon de Monfort era o nome simbólico de Simões Aboab, um judeu sefardita cuja família se radicara na cidade do Porto no início do século XV. Aboab era respeitado e temido na sua comunidade, não só devido à pistola que trazia sempre no tornozelo, mas principalmente porque se sabia que era membro destacado de uma das mais poderosas e antigas sociedades secretas portuguesas, a Loja Malkuth, pertencente a uma Obediência selvagem formada por agentes duplos dos dois principais movimentos maçónicos existentes em Portugal.

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CAPÍTULO IV
Chove

Um dia, o xeque Khircani, que descansava sobre o próprio trono de Deus, sentiu uma grande vontade de comer uma beringela.
Farid Ud-Din Attar, A Conferência dos Pássaros

 

Do lado esquerdo do quarto, por baixo de uma grande janela, estava o leito da morte de Basilides Villanova, um homem cujas rugas do rosto, se pudessem unir-se numa só linha, chegariam para dar uma volta inteira ao mundo e traçar três vezes o labirinto de Chartres. Basilides era um velho tranquilo mas marcado por uma vida muito longa que o deixara exausto.

– Chumbei, Krebs – dizia, sorrindo ao seu filho, estendido no leito da morte. – A possibilidade de conhecer com a razão termina quando chegamos a vislumbrar o que somos. E como somos apenas espelhos do mundo, resta-nos a consolação da viagem pela espiral divina, o velho caduceu de Hermes, por esse jardim que se estende pelos céus em círculos de raio crescente e que nunca terminam. Se não ganhamos altura e amplitude, se não mudamos em nós a escala da Visão, chumbamos, Krebs. Mergulhamos na noite do Deus sob o peso do chumbo, que é o peso do mundo de Sísifo, da repetição circular e do tédio. Do labirinto. No fundo, é como se nos matássemos, meu filho. Somos condenados pelo Eterno e pelos fantasmas de Blake a viver como árvores pela infinitude dos tempos.

Krebs tremeu por dentro ao ouvir as palavras do pai. Achava-as injustas, até cruéis, ditas de si mesmo por um homem que toda a vida lutara pela justiça e pela harmonia do mundo. Mas naquele momento não tinha força nem ciência para ripostar. Não tinha sequer os setenta e dois anos que permitam ao seu pai uma tal soberania e tanta impiedade sobre o seu próprio mistério.

– Mas nem tudo está perdido, meu filho – prosseguiu o velho Basilides, acendendo um cigarro. – O Alquimista sabe que não se chega ao Ouro sem conhecer o chumbo e que a vida é o laboratório secreto onde a grande transmutação lentamente se opera. Lentamente. Muito lentamente. Mas deixemos agora isso. Que farás quanto à proposta que te fiz, meu filho?

Krebs apertou involuntariamente a frágil mão de Mocenigo, que se mantinha aparentemente distraído e silencioso, e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

– Chover, meu pai! Eu quero chover!

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CAPÍTULO II
O Jardim

Sobre as origens de Josef Knecht não se sabe nada.
Herman Hesse, O Jogo das Contas de Vidro

 

DEUS, clemente e misericordioso, cujo Nome é Santo, não me deixa mentir. No dia vinte e dois de Setembro de mil seiscentos e dezasseis, à mesma hora em que na cidade de Estrasburgo se conhecia a primeira edição das Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz, uma brisa morna e um canto de Poupa abriram o céu do Jichang Yuan, o belo jardim de Wuxi, onde há mais de quatro mil e quinhentos anos o Imperador Amarelo plantou uma árvore infinita.

Dizia-se que quem comesse o seu fruto não conheceria a morte.

Mocenigo Alba vagueou durante alguns minutos entre os lagos de nenúfares, enquanto esperava por um homem que desconhecia e com o qual marcara este encontro havia mais de cento e oitenta anos.

Há um silêncio em Porto d’Olho

Porto d’Olho

Não é um Silêncio igual ao que se faz quando de repente toda a gente pára de falar ou quando um inesperado corte de energia faz calar a televisão e a máquina de lavar roupa.

Não é um silêncio comum, ou mesmo humano, aquele que verdadeiramente nunca se verifica, pois há sempre um ruído mecânico presente, em surdina, sempre um carro que passa ao longe, uma voz da casa ao lado, uma porta que range.

O Silêncio que se vê do alto do Outeiro da Varela, em Porto d’Olho, é o do coração a bater.

É aquele Silêncio que Deus faz quando os olhos emudecem em face da maravilha, quando fica leve o que é pesado e ao alcance da mão o que desde sempre viveu para lá do infinito.

É um Silêncio incomum e paradoxal que traz todas as vozes dentro.
Que pronuncia todas as palavras como se fossem uma, não soprando, contudo, a mais humilde sílaba.
Não é possível, na verdade, descrever um Silêncio destes, assim como se não pode dizer o Pleroma, ou o Nirvana, ou o Céu.

É um Silêncio que desaparece quando se diz, mas que, uma vez ouvido, jamais desaparece.

 

 

*Publicado originalmente no jornal Ecos de Basto.

 

História miudinha


Ele estava doente. Não se alarmou. De imediato, pôs em acção os melhores recursos terapêuticos. Fez-se tratar pelos melhores biomagnetistas, evocou a energia universal com a prática intensiva de reiki, tomou cápsulas de extracto de barbatana de tubarão, rabos de lagartixa liofilizados e pó de bigodes de tigre de Bengala que é, como se sabe, o mais eficaz. Tudo em doses homeopáticas, claro. Queimou incenso. E tencionava, até, tomar cogumelo do tempo para rejuvenescer não fora o caso de, entretanto, ter morrido. E foi então que, pela primeira vez, foi ao médico. Sujeitar-se à respectiva autópsia.

[imagem: Animation Over Frozen Frame – Dr. Seuss]