América, hoje (1): A interferência russa nas eleições norte-americanas de 2016

O que é que se passou com os russos e a interferência nas eleições norte-americanas de 2016?

Ao longo da eleição [de 2016], um grupo alargado de russos testou as base de dados de eleitores do Estado [norte-americano] em busca de inseguranças; infiltrou-se [hacked] na Campanha de Hillary Clinton, na Comissão de Campanha Democrata ao Congresso e na Comissão Nacional Democrata; tentou infiltrar-se na campanha do senador [republicano] Marco Rubio e na Comissão Nacional Republicana; divulgou informações politicamente prejudiciais na Internet; espalhou propaganda no Twitter, Facebook, YouTube e Instagram; organizou comícios na Flórida e na Pensilvânia; teve reuniões com membros da campanha Trump e seus associados; e apresentou uma proposta de negócio de um arranha-céu em Moscovo para a Trump Organization. [Revista Time, 18 de Abril de 2019]

Poderão alguns dizer que a Time faz parte dos Fake Media a que Trump recorrentemente se refere quando as notícias não lhe são favoráveis (spoiler alert: para Trump, tudo o que não é notícia a ele favorável, é fake media).

Vejamos então o que disse a comissão de espionagem do senado norte-americano (US SSCI), parte integrante do Congresso norte-americano, o qual é controlado pela maioria republicana de Trump. Dito de outra forma, só ficou escrito o que os republicanos aprovaram. E disso, só ficou por censurar na versão tornada pública o que, novamente, os republicanos aprovaram.

US Senate Select Committe on Intelligence (US SSCI), com a composição à data de hoje

1. Relatório do US SSCI “Campanhas de medidas activas da Rússia e interferência na eleição dos EUA em 2016” (URL)

1.1 Ataque à infraestrutura eleitoral

Fonte: Volume 1

  • Admite-se que o governo russo agiu contra a infraestrutura eleitoral norte-americana
  • Considera-se que não houve votos alterados ou máquinas de voto manipuladas

No restante documento, de uma forma geral, admite-se que as máquinas de voto continham vulnerabilidades, as quais foram exploradas pelos atacantes, tendo, inclusivamente, conseguido infiltrarem-se no sistema eleitoral de um estado (não identificado) através de uma campanha de phishing. Mas que não terá havido acesso à base de dados eleitoral.

Porém, no depoimento do senador Wyden (minoria democrata), “16 estados não têm auditorias pós-eleitorais de qualquer tipo, enquanto muitos outros têm auditorias insuficientes ou superficiais”. Acrescenta Wyden que as “[a]valiações sobre manipulações das base de dados de registo eleitoral são igualmente dificultadas pela ausência de dados”, algo reconhecido pela Comissão ao afirmar que “tem informação limitada sobre até que ponto as autoridades eleitorais estatais e locais realizaram avaliações forenses às base de dados de recenseamento”.

1.2 Ataque nas redes sociais

Fonte: Volume 2

Fonte: Volume 2

Fonte: Volume 2

Fonte: Volume 2

Fonte: Volume 2

De uma forma geral, admite-se que os russos, via a sua agência IRA, conduziram uma operação de manipulação nas redes sociais, com o objectivo de espalhar desinformação, dividir opiniões e lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral americano.

Também é reconhecido o ataque a Hillary Clinton, sendo porém menorizado com o ataque (sem sucesso) a outros senadores republicanos.

Como é sabido, o ataque aos democratas foi aquele que teve impacto mediático e que fez parte do último grande tema da campanha de Trump (“lock her up” – prendam-na). Foi uma arma disponibilizada pelos russos e largamente aproveitada pelos republicanos, com impacto considerável.

2. Relatório sobre a investigação sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016, Conselheiro Especial Robert S. Mueller, III (URL)

A versão censurada do relatório de Mueller está publicada no sítio do Departamento de Justiça dos EUA. Ficam aqui alguns extractos para ilustrar o modo de operação e resultados das acções dos russos.

2.1 Disseminação de propaganda

Manifestações promovidas pelo IRA em território norte-americano

Exemplo de propaganda produzida pelos russos do IRA

2.2 Recrutamento de americanos

O recrutamento de americanos para as actividades do IRA

2.3 Envolvimento da campanha de Trump

Uso de materiais publicados pelo IRA por parte da campanha de Trump

Uso de materiais publicados pelo IRA por parte da campanha de Trump

Contactos entre o IRA e elementos da campanha de Trump

2.4 A WikiLeaks, os emails de Hillary Clinton e a ligação a Trump

A WikiLeaks como actor activo a favor de Trump

A WikiLeaks como intermediária do material pirateado pelo GRU e a participação do filho de Trump no esquema

Sumário

  • Democratas e republicanos reconhecem que a Rússia teve um papel activo na eleição de 2016.
  • O alcance deste ataque não é reconhecido em igual extensão por ambas as partes.
  • Mas os dois partidos concordam que o ataque mais eficaz ocorreu nas redes sociais.
  • Sendo factual que houve informação libertada pelos russos que favoreceu os republicanos.
  • E que os russos organizaram diversas iniciativas que favoreceram Trump.

Comments

  1. ANTONIO CARDOSO says:

    E sobejamente conhecida a interferencia americana nos assuntos internos de outros paises, tanto pelos democratas como republicanos. Umas vezes essa interferencia nao causa ruidos nem e conhecida do publico mas, por vezes, e conduzida descaradamente e sem qualquer pudor. Nao terao os outros paises o mesmo direito de actuacao?

    • j. manuel cordeiro says:

      Nenhum país tem o direito de interferir ilegalmente noutro país e não será por os outros o fazerem que passarão a estar legitimados.

      Mas o tópico aqui é outro, nomeadamente, se a Rússia interferiu ou não nas eleições americanas de 2016. E a resposta é um óbvio sim.

  2. Tá bem says:

    Frank Carlucci

    O diplomata esteve presente em Portugal durante uma época
    conturbada – o Verão Quente de 1975 (período pós-25 de Abril marcado por confrontos entre forças de esquerda portuguesas, que defendiam a tomada de poder pela força revolucionária, e outras facções políticas de centro e de direita que queriam uma democracia eleitoral). Carlucci tornou-se uma peça-chave do apoio norte-americano a Mário Soares e procurou ajudar na transição de Portugal de ditadura para democracia.

    Os américas fazem tudo bem feitinho…

  3. Filipe Bastos says:

    Estou como o António Cardoso acima: so what?

    Há largas décadas que a canalha americana ‘influencia’ o que bem entende pelo mundo todo, invade e bombardeia com total impunidade, instala fantoches e ditadores, saqueia e mata.

    Não há nação mais terrorista, chula ou hipócrita no planeta.

    E agora foram eles ‘influenciados’ pelo mafioso Putin. A questão é para quê. O Trampa é outro mafioso, mas qual a diferença de ganhar ele, a Hilária ou o Biden? Todos servem os mesmos donos. Até o Santo Obama. Basta ver como mama à grande.

    • Paulo Marques says:

      A diferença é que só se serve a ele próprio, a qualquer custo, incluindo do que vier a seguir. Mesmo que a queda do império fosse inevitável há muito, convinha um bocadinho de dignidade controlo, porque levar tudo à frente era um bocado chato.

    • j. manuel cordeiro says:

      ” O Trampa é outro mafioso, mas qual a diferença de ganhar ele, a Hilária ou o Biden? ”

      Se não vê diferença algum, será melhor rever as suas noções sobre a decência e a justiça. Ou então, que pergunte àqueles que sentem na pele os actos da extrema-direita americana dos supremacistas brancos.

  4. Elvimonte says:

    A “América, hoje”, precisa é de ver o relatório Durham publicado antes de votarem.

    Essa é a peça que falta para se perceber até que ponto o FBI e algumas agências de informação terão sido instrumentalizadas pela administração Obama para espiarem e atingirem a campanha republicana em 2016.

    Um dos advogados do FBI já se declarou culpado de falsas declarações junto dos tribunais FISA. Agiu por iniciativa própria? De quem recebeu ordens? Quem tinha conhecimento do que se passava?

    • j. manuel cordeiro says:

      “Vejamos então o que disse a comissão de espionagem do senado norte-americano (US SSCI), parte integrante do Congresso norte-americano, o qual é controlado pela maioria republicana de Trump. Dito de outra forma, só ficou escrito o que os republicanos aprovaram. E disso, só ficou por censurar na versão tornada pública o que, novamente, os republicanos aprovaram.”

    • Paulo Marques says:

      Patético. Vêm-se gregos, depois de nomeações atrás de nomeações, para encontrar uma narrativa de problemas na “espionagem”, a parte de “atingir” fica para daqui a umas décadas. Nada do qual altera ou justifica os milhões oriundos da Rússia.

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