António Costa, o bom aluno

Tenho aqui uma reflexão para partilhar convosco.

É o seguinte:

O governo anunciou um excedente orçamental de 0,8%. Qualquer coisa como 2.190.000.000€.

Há quem olhe para isto e veja o copo meio-cheio.

Eu vejo um governo que optou por andar mais rápido do que aquilo que se propôs, para mostrar a Bruxelas que é o “bom aluno”, prejudicando, para o efeito, o funcionamento dos serviços do Estado.

Prejudicando as condições dos profissionais da Educação, da Saúde, da Justiça e da generalidade da Administração Pública.
Com as consequências que se conhecem: greves, escolas disfuncionais, urgências encerradas e processos adiados e prescritos.

E porquê? [Read more…]

Uma consulta (muito) atrasada no CUF Porto

Fui pela primeira vez na vida a um hospital da rede CUF. Foi-me recomendada uma profissional para o meu filho, que pelos vistos só exerce lá, de maneira que fui e não bufei. No questions asked.

E o que sucede?

Sucede que a consulta era às 11h, mas só entramos às 11:50h.

Respirei de alívio. Afinal, não é um problema exclusivo do SNS. Agora imaginem que tínhamos governantes competentes para o gerir e financiamento adequado.

Seria uma chatice para o sector privado.

Testemunho real de uma ida à urgência do Hospital de Famalicão

Terça-feira fui encaminhado pelo SNS 24 para o Hospital de Famalicão, após um atendimento rápido, amável e super profissional.

Chegamos à urgência do hospital 10h.

Entramos na triagem às 10:13h.

Fomos atendidos às 10:26h.

Saímos do hospital às 10:41h.

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Ainda bem que não somos os EUA

Luís é um professor português que decidiu visitar Nova Iorque. Tragicamente, sofreu um aneurisma durante a estadia, foi internado e operado nos EUA e adquiriu imediatamente uma divida de 150 mil euros, porque o seguro só cobre até 30 mil.

Não sei quanto a vós, mas democracia americana, com a maior economia do mundo e o pior sistema de saúde público do mundo desenvolvido é, em bom rigor, uma democracia de merda. E o exemplo acabado daquilo que nos acontecerá se nos deixarmos levar pelo conto do vigário neoliberal, que tudo quer privado.

E sim, até o nosso SNS é melhor que aquela porcaria que eles lá têm. Mesmo de rastos, mal gerido e descapitalizado como está agora. Mil vezes melhor.

Mil.

Marta Temido, Miguel Gonçalves e Ana Rita Cavaco entram num bar

Li por aí que certas ordens estão ao serviço de certas agendas políticas. Que por sua vez poderão estar relacionadas com o cerco e queda de Marta Temido. Mas tal não pode ser verdade! Se fossem sindicatos, seguramente estariam ao serviço da agenda do PCP. Mas as ordens são muito independentes e estão sempre, mas sempre acima de qualquer suspeita. Mesmo quando uma certa bastonária apresenta despesas onde garante percorrer 400km por dia, durante um mês. De maneira que tais acusações só poderão ter origem no Largo do Rato. Ou no Kremlin, claro.

Marta Temido no altar do sacrifício

A demissão da Marta Temido, planeada há meses ou decidida esta semana, mais não é do que o sacrifício de um cordeiro no altar da política, de uma personagem que foi sempre secundária nas decisões estruturais que agora ditam o seu afastamento.

Marta Temido, como qualquer ministra fora do círculo dos pesos pesados do PS, tinha o poder e a capacidade de decisão que António Costa lhe permitiu ter. Independentemente da competência que lhe possamos ou não atribuir, não era Temido quem tinha a última palavra quanto à contratação de mais profissionais de saúde, ao aumento do investimento no sector ou às necessárias reformas para combater a degradação galopante do SNS. Era Costa e, quanto muito, Mário Centeno e Fernando Medina. A própria direcção nacional do PS tinha mais peso nas decisões do que a ministra. E achar que a substituição de Temido por Lacerda Sales, ou por outro qualquer, mudará o que quer que seja nesta equação é pura ingenuidade. Só existe um responsável pelos problemas actuais no SNS. O seu nome é António Costa. O afastamento da ministra não muda rigorosamente nada. Mas satisfaz momentaneamente a ira justificada da turba. Paz à alma do bode expiatório.

As fragilidades do SNS e outras áreas menos frágeis do sector público

Faltam médicos, enfermeiros e técnicos auxiliares em praticamente todas as unidades de saúde do SNS. Não há dinheiro para mais contratações, alega o governo, mas depois vão contratar tarefeiros pelo triplo ou pelo quádruplo do valor pago aos profissionais com vínculo contratual. E depois queixam-se que os portugueses não acreditam na gestão pública. Pudera…

Num outro Portugal, numa galáxia far far away, vive-se uma realidade totalmente diferente, das autarquias ao Parlamento, onde não falta nem nunca faltou um euro que fosse para contratar assessores, adjuntos, chefes disto e daquilo e mais uns quantos profissionais do tacho político-partidário. Uma casta sobretudo proveniente do Largo do Rato e da São Caetano à Lapa, mas que vai hoje muito para lá do centrão das negociatas e dos escândalos de corrupção, fraudes variadas e tráfico de influências.

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Taxa de desinfecção covid: como o Grupo Trofa Saúde me cobrou 25€ para desinfectar as suas instalações

Vim ao hospital com a minha patroa, para a acompanhar numa série de exames. O único hospital existente na nossa cidade, a Trofa, é privado, e pertence ao Grupo Trofa Saúde.

Aqui chegados, fomos directos à admissão. Chegada a nossa vez, fomos prontamente informados sobre a taxa de desinfecção covid, de 25€.

Sendo uma taxa no privado, assumi desde logo tratar-se uma taxa do bem, não um desses confiscos soviéticos do governo Kosta, como é conhecido o primeiro-ministro na chaluposfera.

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Não seja piegas, ministra Temido!

Porventura não, ministra Temido: a competência técnica dos médicos é aquilo que permite diagnosticar, prescrever soluções e salvar vidas dos utentes do SNS, essa coisa subfinanciada e com falta de operacionais em toda a linha que está sob sua tutela.

A solução não passa por mais resiliência. Essa solução, em tempos aventada noutras circunstâncias por Pedro Passos Coelho, não serve o país e os portugueses. Chamar piegas aos médicos não resolve nada. O que resolve é contratar mais profissionais de saúde, de todas as áreas, especializações e competências, para reforçar o SNS. É criar condições para garantir a exclusividade destes profissionais. É tratá-los com dignidade e valorizar as suas carreiras. É investir em vez de simular rubricas orçamentais para cativar.

Portanto, senhora ministra, faça lá o seu trabalho, para o qual lhe pagamos muito bem, com todas as condições e regalias com as quais funcionário público algum sonha, seja médico, professor ou técnico camarário, e não seja piegas, ok?

Ou teimosia

Vamos falar de resiliência? Ora então, pergunto: por que razão teimam os Governos de PS e PSD em ser tão estupidamente resilientes à sua própria estupidez?

Longa vida ao SNS!

Em Fevereiro, na unidade de Alfena do Grupo Trofa Saúde, uma mulher caiu nas escadas rolantes do hospital, que lhe exigiu 600 euros para suturas e exames de RX e TAC. A mulher, que não podia pagar os avultados valores cobrados pelo hospital, teve que chamar uma ambulância e fazer os 11KM que separam a unidade privada do Hospital de São João.

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XII Convenção do Bloco de Esquerda: Justiça na Resposta à Crise

Fotografia: LUSA

Realizou-se este fim-de-semana, em Matosinhos, a XII Convenção do Bloco de Esquerda.

Depois de quatro anos de “geringonça” e de acordos firmados à Esquerda com o Governo do Partido Socialista e depois de mais quase quatro anos de oposição a um Governo teimosa e prepotentemente minoritário do mesmo partido, o Bloco de Esquerda reuniu-se a Norte para aferir o pulso aos seus militantes e à sua direccção. Catarina Martins, apesar de algo contestada interiormente, venceu e parte assim para pelo menos mais dois anos à frente do partido.

Mas vamos ao fundo da questão. Depois de quatro anos em que o objectivo foi, em conjunto com o PCP e com o PS a governar, reverter a maioria das medidas da Troika, o PS partiu para as eleições de 2019 a apostar em dois trunfos: um, o primeiro, o da maioria absoluta; esperança acalentada até ao fim, tratada como tabu publicamente, mas objectivo premente nas hostes internas; o outro, menos significante para António Costa e Cª, a da continuação dos acordos à Esquerda. Contudo, findado o acto eleitoral de 2019, decidiu o PS governar sozinho, minoritariamente, julgando que podia ceder à Esquerda e à Direita quando melhor lhe conviesse, arregimentando, assim, votos de um lado e do outro, e secando a oposição. Podemos dizer, ainda assim, e tendo por base as sondagens que têm vindo a público, que a estratégia do Partido Socialista não tem saído, de todo, furada – mas, neste ponto em concreto, teríamos base para outro texto.

Fazendo jogo duplo, julgou o PS que, chegada a hora da votação do Orçamento de Estado, tudo se decidiria sem sobressalto. Enganou-se. Para o OE’21, o Bloco de Esquerda insistiu num x número de medidas – que, diga-se de passagem, nem eram todas quantas o partido idealizaria -, entre as quais o reforço do SNS (através da contratação de mais profissionais, sejam médicos, auxiliares ou enfermeiros), a reversão das medidas do Governo PSD/CDS, impostas pela Troika, no que diz respeito à Lei Laboral, e um aumento da rede de protecção social, para prevenir o desemprego e ser possível responder ao aumento anunciado do mesmo, face à situação pandémica. A nenhuma destas propostas atendeu o PS, preferindo, todavia, ceder noutras matérias propostas pelo PCP e contar com a abstenção dos comunistas (e do PAN). Teve azar, o Partido Socialista, pois no Bloco de Esquerda nunca nos contentamos com pouco. Mesmo quando o contexto é mais apertado e complicado, sabemos é que é possível ir mais além e conceder mais a quem trabalha. Ao contrário do PS, não está o Bloco de Esquerda, (bem ou mal, dependendo do espectro político e dos valores ideológicos de cada um) preso às imposições neo-liberais da Comunidade Internacional, encabeçadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América. Está, isso sim, interessado o BE em dar mais condições a quem trabalha, a quem está à margem, a quem não vê reconhecidos os seus direitos nas áreas do trabalho, da educação, da saúde ou da segurança social. E isso basta-nos para sabermos dizer “não” às pretensões do PS de colonizar a Esquerda. [Read more…]

Rui Rocha: Quem vigia o Estado quando o Estado vigia os cidadãos?

(Rui Rocha, Membro do Conselho Nacional da Iniciativa Liberal)

De onde vem e para onde vai? Estas perguntas, repetidas vezes sem conta pelos agentes da autoridade ao longo dos já inúmeros estados de emergência sucessivamente decretados durante a pandemia, são provavelmente o melhor exemplo do nível de intromissão que, enquanto cidadãos, tivemos de tolerar no decurso do último ano.

Mas, admitindo que esta violação do nosso espaço de reserva teve justificação na necessidade de preservar a saúde pública, há ainda assim uma assimetria entre aquilo que o Estado exigiu aos cidadãos e aquilo que os cidadãos puderam exigir do Estado. Numa relação equilibrada, a vigilância a que os cidadãos são submetidos pode eventualmente ser reforçada em função de circunstâncias excecionais como as que vivemos. Mas tem de ser recíproca.

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Bruno Maia: O 25 de Abril é mais do que expressão!

(Bruno Maia, Médico Neurologista e Activista pela legalização da Eutanásia)

Pensar o 25 de Abril quando se tem 39 anos obriga à invocação da memória alheia: dos pais e avós, dos livros, das poucas imagens e áudio que existem sobre a época. É fácil distrairmo-nos, perdermo-nos na espuma dos dias e aceitar esta lengalenga do 25 de Abril ser sobre a liberdade de expressão, a ausência do lápis-azul da censura e o fim da perseguição a quem não se revia no regime da miséria generalizada e da guerra que era o Estado Novo. É muito mais do que isso.

Nos encontros de família, a vida antes da revolução é invocada com aquela graça irónica de quem nasceu na miséria e sobreviveu. E também com aquele toque paternalista de quem diz: “vocês hoje têm tudo muito mais facilitado, naquele tempo era tudo muito difícil”! Nenhum de nós – dos “mais novos” – perde muito tempo com esta conversa, é “conversa de velhos”, não nos diz nada. Ouvimos as mesmas histórias vezes sem conta: é a sardinha que tinha de ser partilhada por três, o frango que só se comia no Natal, o quarto onde dormiam rapazes e raparigas separados por uma cortina, a idade em que começaram a trabalhar que variava entre os 9 e os 12 anos! Fala-se pouco na liberdade de expressão, como creio que assim será na maioria das famílias pobres que viveram o Estado Novo. Mas há uma coisa que os mais novos sabem: não crescemos agrilhoados a uma miséria da qual nunca se sai, sem nunca ver um médico, sem nunca ir além da “quarta classe”.

É verdade que muitos de nós continuam pobres, mas há coisas que damos por garantidas e que aos nossos velhos estavam vedadas. Pudemos ir ao médico quando foi necessário, ao contrário do irmão da mãe que morreu ainda bebé em casa, sem ninguém saber porquê, ou daquela vizinha que morreu durante o parto, também em casa e deixou 5 órfãos. Todos fomos à escola até ao nível máximo que quisemos. Alguns foram mais longe (eu tornei-me médico), outros ficaram pelo ensino obrigatório, mas mesmo assim sabem falar duas línguas, interagem perfeitamente com um computador e já viajaram para fora do país algumas vezes. Nenhum de nós passou fome.

Viver em liberdade, sem censura e sem o medo da PIDE é um adquirido que reconheço ser extraordinário na minha vida. Mas quando me pedem para falar sobre o 25 de Abril, a primeira coisa que me vem à cabeça é escola pública e serviço nacional de saúde. Foram estas conquistas que Abril possibilitou que marcaram a divisão de gerações na minha família. Entre a fome e a abundância. Entre a morte e a saúde. Entre ir à guerra ou ir à escola. Para mim a liberdade é, sobretudo, ter tido no meu caminho estes instrumentos que me deram a oportunidade de me tornar aquilo que bem entendi. Uma liberdade coartada à esmagadora maioria das famílias durante a ditadura.

Passaram 47 anos desde o 25 de Abril. E apareceu uma pandemia. E a única coisa que importa perguntar é esta: imaginam o país a enfrentar este desafio sem o SNS? Com hospitais privados a fechar portas, a recusar doentes com Covid-19, a transferir grávidas para o SNS? Com as seguradoras todas a saltar fora do barco e a lembrar que não cobrem epidemias?

 

 

Suspeito de vacinação indevida

“Suspeito de vacinação indevida” é o crime do momento. Já não há corrupção, não há violência doméstica, não há condução sob o efeito de álcool, não há criminalidade económica nem tráfico de influências. O que há é um pequeno grupo de chicos-espertos, versão “pulha sem escrúpulos ou vergonha na cara”, que fura o plano de vacinação com muita criatividade, as mais esfarrapadas desculpas e uma imensa cara de pau, levando maridos, filhas e notáveis de um qualquer conselho de administração consigo. São sobretudo autarcas, quiçá a espécie mais versada na arte do crime em Portugal, mas também administradores de IPSS, gestores hospitalares e outros vigaristas em posição de poder. E quanto mais pequeno o meio, mais fácil o assalto: voltando aos autarcas, basta ver como se gere a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesias desde país, principalmente fora dos grandes centros urbanos, onde o escrutínio mútuo é mais elevado, para percebermos isso mesmo. Se se gerem orçamentos camarários e o acesso à função pública em função dos apetites e das necessidades das habituais redes de tráfico de influências, em prejuízo dos concelhos e dos munícipes, porque não desviar umas vacinazitas? Os idosos em princípio nem vão votar!

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Willkommen!

Sejam bem-vindos, ó profissionais de saúde alemães.

Antes de mais, pedimos desculpa pelo facto de se saber primeiro na Alemanha que vocês vinham para cá ajudar, sem que aqui se soubesse ainda.

É que isto sem a pandemia já era um pandemónio, com a bronca de um ucraniano a morrer às mãos do SEF, um Presidente a fazer striptease em campanha por uma vacina que depois não houve, uma candidatura martelada ao lugar de Procurador da União Europeia, entre outras cenas tipo.

E aquela coisa do Cavani não ter vindo para o Benfica, também não ajudou nada.

Enfim, tem sido só scheisse.

Mas, como podem ver, tivemos o cuidado de vos colocar num hospital privado.

O que não é para qualquer um.

Olhem que nesta terra, recorrer aos privados só mesmo depois de esgotar o parque automóvel das ambulâncias às portas das nossas urgências.

E, também, porque há sempre comunicação social e sociedade civil a meterem nojo.

Compreendam que os nossos recursos são parcos, e se queremos continuar a ser o país que menos gasta com a pandemia, temos de manter este esforço.

Atenção que não é austeridade. É esforço.

De qualquer forma, vindos de tão longe, era só o que faltava se iam agora andar de ambulância em ambulância para assistir ao povo, às portas das urgências do Santa Maria.

Ainda para mais com este tempo.

Mas, dizia eu, que são muito bem-vindos.

Fazem-nos um jeito do caraças.

Imaginem que temos imensos profissionais de saúde a trabalhar no estrangeiro. Principalmente enfermeiros. Que foram para fora à procura de melhores salários e progressões na carreira e outras coisas assim.

E nenhum parece estar com ideias de voltar para cá e dar uma mãozinha.

Malandros!

Mas, o que importa é vocês estão cá. E até trouxeram material auxiliar.

Pena não ter sido no Natal, pois faziam de Reis Magos.

De qualquer forma, se precisarem de alguma coisa, seja o que for, até mesmo umas sandes de pernil, é só dizerem.

Estejam à vontade e obrigadinho.

2020: o ano de todas as pandemias

2020 foi um ano difícil, que pode ser resumido em poucas palavras: vírus, epidemia, pandemia, medo, confinamento, distanciamento social, máscara, álcool-gel, negacionismo, contágio, zaragatoa, teste, ventilador, profissionais de saúde, SNS, layoff, crise económica, vacina e morte. Talvez pudessem ser acrescentadas mais algumas, que nem me ocorrem nem me apetece procurar, porque não pretendo fazer disto uma obra científica, mas este foi o léxico dominante, durante os nove últimos meses. E, não nos iludamos, continuará a sê-lo.

Muito foi dito e escrito sobre a pandemia. Da “gripezinha” à falsa sensação de segurança, passando pelas habituais conspirações, amplificadas pela ignorância militante, de repente éramos 7,8 mil milhões de especialistas em saúde pública, virologia e gestão de crises. Por cá fomos bestiais, depois bestas, e, quer-me agora parecer, terminamos o ano como culpados pelo agravar dos números. E não, não saíamos mais unidos, mais conscientes ou mais humanos de tudo isto. Saímos como entramos, com as nossas virtudes e defeitos, adaptados ao novo normal que, esperamos, já seja uma recordação distante daqui por um ano. [Read more…]

Nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda, excepto todas as que foram

Sempre que alguém ousa tecer uma crítica aos abusos do capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada, rapidamente surge alguém que nos recorda uma de duas coisas (ou ambas): que 1) Cuba e Venezuela existem e que 2) nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda.

Sobre o primeiro ponto, é interessante verificar que raramente se traz a China para esta equação, apesar de se tratar de um regime que monitoriza, persegue e oprime os seus cidadãos como nenhum, talvez com a excepção da Coreia do Norte. Imagino que tal não seja alheio a uma das características desse incriticável capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada: a China é o seu motor. E porque, é bom dizê-lo, não faltam governos e governantes, no ocidente democrático, a sonhar com um poder (proporcionalmente) igual ao de Xi Jinping. Erdogan, Orbán, Bolsonaro, Borisov ou Morawiechi, os candidatos acumulam-se e já nem se dão ao trabalho de dissimular. [Read more…]

E dizem-se democratas

Está fácil de ver que a solução apresentada pelo Governo para “achatar a curva”, é limitar-nos a liberdade.

Isto quando a curva chegou onde chegou, e o SNS abeirou-se da ruptura, porque o Governo não fez o que lhe competia e permitiu o que não devia.

Milhões terão de ficar em casa, para que umas dezenas de milhar pudessem fazer aquilo que queriam.

Milhões terão de ficar em casa, porque a economia tinha que trabalhar, ao ponto dos hotéis poderem exibir o selo “Clean & Safe” com base em mera declaração de compromisso dos donos, e não numa efectiva avaliação técnica. E as praias tinham semáforos, mas se estivesse vermelho, podia-se ir na mesma.

Não houve uma única campanha nacional de sensibilização digna desse nome. Num país em que constantemente se juntam cantores, actores e afins, em campanhas solidárias. Algo para o que esta pandemia, pelos vistos, não teve dignidade suficiente.

Só tivemos direito às constantes conferências de imprensa a debitar números, por entre disparates que uma DGS, claramente inapta para o cargo, lá ia dizendo por entre a estatística.

Ficam na memória as máscaras que davam uma falsa sensação de segurança, e a desnecessidade de distanciamento nos aviões porque as pessoas vão a olhar para a frente.

O SNS está à beira da ruptura, porque, contrariando os apelos dos médicos que estavam no terreno, o Governo não aproveitou a Primavera e o Verão para reforçar os hospitais com recursos humanos nas valências mais sensíveis como a dos cuidados intensivos.

Descurou a segunda vaga, que há meses que a comunidade científica, nacional e internacional, avisou que ia chegar. Mas que pelo vistos o PM nunca ouviu falar, a avaliar pela entrevista que hoje deu a Miguel Sousa Tavares.

Ao contrário, foi-se pelo mais barato: mandar sms para quem tinha consultas agendadas, a desmarcar e a dizer para não ir ao hospital nem sequer telefonar. E, mais tarde umas sms a disponibilizar apoio psicológico gratuito. Enquanto consultas, rastreios, tratamentos e cirurgias eram desmarcados por todo o país.

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A propósito do funcionamento do SNS em tempos de Pandemia – o desabafo de um médico

O texto seguinte foi publicado pelo utilizador /u/aleph_heideger do Reddit, reproduzo sem qualquer alteração. Sendo o Reddit uma rede social uma certa dose de pensamento crítico é necessária. Podem consultar o post original e os respectivos comentários aqui.

Meus amigos. Caso tenham paciência para algo diferente do texto diário sobre reconversão para TI ou o anúncio da próxima bolha imobiliária.

Tenho lido e ouvido, aqui e ali, uma série de críticas ao SNS e à DGS sobre a forma como está a ser gerida esta crise sanitária. Da DGS não vou falar porque não apenas têm a sua própria agenda mas também porque as decisões que são obrigados a tomar, parecendo certas ou erradas, são apenas isso: opções. E porque eu não conheço a realidade deles (mas sei que não se vivem dias felizes por aqueles lados).

Vou sim falar na resposta do SNS. Como tem sido a vida dos profissionais no terreno, algo que se calhar muito boa gente desconhece.

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Pior do que o cego…

Estamos, diariamente, a assistir à destruição de qualquer resquício de ética republicana que pudesse ainda existir. E, pior, as perspectivas de tal ser travado estão completamente fora de hipótese, a avaliar pela postura dos partidos com representação parlamentar que, em teoria, poderiam fazer algum tipo de diferença.

Desde logo, temos um Presidente da República (doravante PR, pois não merece mais do que uma sigla), que está transformado num autêntico porta-voz propagandista do Governo e da sua agenda. E que todos os dias nos aparece na televisão a vender a política do governo, seja de fato e gravata, seja de calção de banho.

Da mesma forma que cria, conjuntamente com o Governo, um conveniente princípio de não recondução nos cargos, com que justifica a não recondução da incómoda Procurador Geral da República, Joana Marques Vidal e, recentemente, do também incómodo Presidente do Tribunal de Contas, Vítor Caldeira.

Houvesse um mínimo de coerência, e o PR, para dar o exemplo da regra por si defendida, não se recandidatava.

Mas, há mais.

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Repensar, defender e reforçar o SNS

SNS

Umas das lições que (já) podemos tirar desta pandemia, e que para muitos não é novidade nenhuma, tem a ver com o carácter imprescindível e vital do Serviço Nacional de Saúde no nosso modelo de sociedade. Como dizia Ricardo Araújo Pereira, numa recente intervenção no Governo Sombra, “não há ateus na cova do lobo e também não há grandes críticos do SNS em tempos de pandemia”.

O SNS, na minha opinião, e na de muitos portugueses, é o maior avanço civilizacional do pós-25 de Abril, a par da Educação e das liberdades a garantias fundamentais conquistadas. E, por muito que o critiquem, ele está entre os melhores. O Euro Health Consumer Index 2018 (não encontrei o de 2019, presumo que ainda não tenha sido publicado), o ranking de SNSs europeus elaborado pelo think tank sueco Health Consumer Powerhouse, coloca Portugal no 13° posto, entre 35 serviços nacionais de saúde analisados no continente europeu, atrás dos óbvios mas à frente de países como o Reino Unido, Espanha, Itália ou Irlanda. [Read more…]

Sondagens e outras coisas que não interessam

No tempo em que havia futebol e, consequentemente, programas em que se discutia corrupção e arbitragens, era vulgar perguntar aos telespectadores, através de inquéritos, quem seria o futuro campeão nacional ou se pensavam que o árbitro teria prejudicado ou beneficiado determinado clube em determinado lance. Confesso que nunca fiquei espantado com os resultados. Mais: nunca estive interessado em conhecer os resultados.

Hoje, fiquei a saber que, de acordo com uma sondagem, os portugueses (é sempre assim que anunciam o resultado de uma sondagem) têm uma opinião positiva acerca da actuação do primeiro-ministro e do presidente da República ou vice-versa. Se fosse ao contrário, também não me admiraria. Mais: não estou interessado.

Mesmo sabendo que é complicadíssimo gerir um país nas circunstâncias em que o mundo se encontra, haveria outras sondagens mais importantes. Por exemplo: quantos profissionais de saúde pensam que António Costa estava enganado (ou que mentiu) quando afirmou que não faltava nada nos hospitais nem era previsível que viesse a faltar?

Há muitos argumentos contra: que devemos estar todos unidos, que o corporativismo pode atrapalhar, que pode haver pessoas do contra. É tudo verdade, mas eu continuo a preferir que as pessoas de cada área falem da área em que trabalham. Na verdade, as sondagens nem sequer fazem muita falta, sobretudo se dependerem de politiquice ou de clubismo, que são mais ou menos a mesma coisa.

Exemplo a seguir

Governo espanhol coloca hospitais privados ao dispor do SNS

Costa sabe nadar

Foi por isso que o discurso de hoje foi sobre o SNS, sem uma palavra sobre as cheias. Água não é problema para peixe.

Humor negro

O governo vai entregar 800 milhões de euros ao Novo Banco e exactamente a mesma importância ao Serviço Nacional de Saúde. Espero que apreciem a ironia da coisa.

Descativações eleitoralistas

Ontem perdi a cabeça e vi 10 minutos do telejornal das 13h. Logo no inicio, assim de rajada, duas notícias captaram a minha atenção: uma sobre uma cerimónia qualquer que assinala o início (???) das obras na ala pediátrica do São João, outra sobre uma verba que foi “descativada” por Mário Centeno, para comprar ambulâncias. Eleitoralismo com o dinheiro e, pior, que instrumentalizam os anseios e emoções dos contribuintes. Um nojo.

É por estas e por outras, muitas outras, que espero sinceramente que o PS NÃO tenha maioria absoluta. Porque, perante a inexistência de oposição, a vitória dificilmente lhe escapará. E se a ditadura do défice foi o que foi com a Geringonça, imaginem as cativações de um PS a mandar sozinho. E as “descativações” eleitoralistas que usarão para comprar e manipular o eleitorado em 2023. Não, obrigado.

Sobre a degradação do SNS

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Fotografia: Lusa

Ao contrário de Marques Mendes, que será, porventura, o cidadão português mais bem informado da actualidade, eu não sei se o SNS está pior ou melhor do que no tempo da Troika. Não tenho números ou dados estatísticos que me permitam chegar a uma conclusão clara e objectiva sobre o problema. Nem sei sequer se o que se passa hoje no SNS resulta das políticas deste governo ou dos seus antecessores.

Contudo, não me interessa saber se, estatisticamente, o SNS está pior ou melhor que no tempo da invasão pirata neoliberal, à qual nos submeteram as mesmas pessoas que participaram na fabricação da crise artificial que colocou a economia mundial de rastos, e da qual os mais ricos emergiram mais ricos, e os mais pobres, sem surpresa, mais pobres. [Read more…]

Eleitoralismo? Naaaaaa, isso é velhaca maledicência

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Em declarações ao Expresso, António Costa comprometeu-se com aumentos salariais na função pública e investimento no SNS. A quatro meses das Legislativas, e com os olhos postos numa improvável maioria absoluta, Costa pisca o olho a uma fatia significativa do eleitorado e poderá muito bem cumprir a sua promessa, até porque tem recursos para o fazer. Se correr mal, cativa-se tudo e não se fala mais nisso.

Partiu pela curva da estrada

Ao Emanuel

“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
O sr. Marques abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente. Há dois dias que não conseguia fazê-lo.
A doença progrediu muito depressa. Quando chegou ao Hospital de S. João, há cerca de um mês, já estava condenado. Do pâncreas, o bicho fora para o fígado e pulmões e, agora no fim, para todo o lado.
A equipa médica informou a família há uma semana de que não havia nada a fazer. Puseram-no então na unidade de Cuidados Paliativos – as condições de que usufruiu nos últimos dias deixam-nos orgulhosos do nosso SNS.
Ontem à tarde, chamaram a família. Chegara o momento das despedidas. Os que mais o amavam estiveram presentes.
“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
Foi a última coisa que ouviu. Abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente.
Como uma cotovia, começou a respirar cada vez mais baixinho até deixar de se ouvir. Partiu, “pela curva da estrada”, pouco depois das 18 horas.

«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vai sem se sentir.
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!
(…)
E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio” (Antonio Nobre)

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