José Mário Branco já ironizava. Na hora de tirar lições, a culpa é de todos no geral para não ser de ninguém em particular. Essa incapacidade crítica tem certamente responsabilidade no pior resultado eleitoral da esquerda da história democrática. Pior do que a derrota eleitoral, que já seria má, é essa derrota ser o espelho da relação de forças em vários campos de batalha da nossa sociedade, das tascas às redações, dos andaimes à academia. A baixa intensidade da generalidade do movimento social e sindical – salvo poucas e honrosas exceções – associado a uma juventude muito individualista, e, consequentemente, muito à direita, devia levar todos a pensar que é um ato de loucura tentar mudar a realidade a repetir uma equação com os mesmos parciais, à espera de um resultado diferente.
A esquerda liberal e a esquerda reformista, do ponto de vista coletivo, sabem que têm responsabilidades. Foi à boleia das suas teses e táticas que a esquerda se despistou. A esquerda liberal porque governou sempre à direita, iludiu durante décadas a esperança de milhares de jovens e trabalhadores, foi sistematicamente o motor dos retrocessos legislativos e não raras vezes deixou a mão escorregar para o pote, o que somou ao desastre programático uma crise ética sem precedentes. A esquerda reformista porque se lembrou de trocar projetos portadores de alternativas para entregar o poder sem contrapartidas aos suspeitos do costume, sem garantir nada de substancial em termos de medidas progressivas para a maioria da população e a ter que passar a carregar o ónus da governação nas suas costas. A jogada tática parecia brilhante quando depois disso são recompensados com uma maioria absoluta e secam as organizações à sua esquerda, mas a fragilidade com que implodiu diz tudo sobre a força que essa maioria absoluta nunca teve.
Se não queremos ver repetido o resultado eleitoral de ontem é urgente resolver as razões que conduziram a esse resultado, mudar a forma como se comunica, não ter medo nem das palavras nem das ideias. Importa perceber que houve erros que não devem ser repetidos e que não é bom deixar nem a análise nem o futuro entregues ao furor das carpideiras. Mesmo que esteja mais difícil o caminho é mais simples do que parece: é urgente produzir sujeitos e processos políticos que alarguem o campo da resistência, que voltem a ser portadores da única mudança radical que as pessoas precisam e podem compreender: a inversão da relação de poder entre quem explora e quem trabalha.
Quem não olhar para isso como uma prioridade pode festejar conjunturalmente alguns deputados, mas vai continuar a contar pouco para a luta de todos os dias e para ajudar a mudar o vento no combate contra a direita e a extrema-direita, que a partir de agora passarão a governar em conjunto.






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