Um novo rumo

Ninguém pára para pensar.
Elis Regina

Das Mißverhältnis aber zwischen der Größe meiner Aufgabe und der Kleinheit meiner Zeitgenossen ist darin zum Ausdruck gekommen, daß man mich weder gehört, noch auch nur gesehn hat.
Nietzsche

On ne vit pas dans un espace neutre et blanc ; on ne vit pas, on ne meurt pas, on n’aime pas dans le rectangle d’une feuille de papier.
Foucault (pdf)

***

Uma das hipóteses para a existência de contato num documento publicado no Diário da República é a redacção ter sido feita por um escrevente de português do Brasil ou por alguém que tenha tenha passado os anos formativos no Brasil ou em ambientes onde o português do Brasil era a língua dominante. É uma hipótese remota, mas as hipóteses remotas são as mais interessantes e são obviamente sempre excluídas à partida por quem escreve Orçamentos do Estado com os pés. Todavia, esta tese não se aplicará ao documento que hoje vos apresento, publicado no sítio do costume, no exacto dia em que os muito respeitáveis Nietzsche e Foucault fazem 176 e 94 anos,, respectivamente.

A razão é simples: [Read more…]

O mês de Outubro começa lindamente

When perceiving speech, listeners need to first decode the auditory signal and transform this time-varying input into accurate phonemic representation (Cutler & Clifton, 1999).
— Jinghua Ou & Sam-Po Law (2017)

Keep me walking, October road.
James Taylor

Faz quatro anos em Outubro que aderi ao Movimento, disse o Homem. E por acaso, olha, como quase tudo o que me sucedeu na vida.
— António Lobo Antunes, Tratado das Paixões da Alma

***

Hoje, ao ler estes dois belos nacos de prosa,

não pude deixar de me lembrar de José António Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura que lamentava ainda não conseguir escrever fato em vez de facto:

“Ato jurídico” é fácil, agora “fato” em vez de “facto”…

Efectivamente, seguindo o princípio de Pinto Ribeiro, fruto de um deficiente conhecimento do instrumento sobre o qual frequentemente se pronunciou e relativamente ao qual tomou medidas políticas com consequências graves, mutatis mutandis, o redactor das pérolas de hoje no sítio do costume pensará que efetuar e eletrónico são fáceis, agora contatando e contatar em vez de contactando e contactar

Obviamente, depois de escritas estas linhas, não pude deixar de me lembrar do “agora facto é igual a fato (de roupa)“.

Desejo-vos um óptimo mês de Outubro.

***

A doutrina Santana Lopes continua a dar os seus frutos

é preciso o fato
Mário Cesariny

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É verdade que é importante estar atento à cruzada do Governo de Portugal e da Câmara Municipal de Lisboa, em nome do reforço da língua inglesa como língua de comunicação internacional. Todavia devemos continuar a prestar atenção a outros assuntos importantes, como o “agora facto é igual a fato (de roupa)” de Santana Lopes, que continua na ordem do dia no sítio do costume.

Exactamente. Efectivamente.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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A sessão ortográfica

It was a new breed of men, created by the Renaissance cult of the individual, who embarked on these hazardous voyages of exploration.
Gustav Jahoda

You’re perfect, yes, it’s true.
Mike Patton

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Já aqui se reconheceu a vantagem de sexão em relação a secção, por não haver cê à mão de semear para suprimir. Ou seja, enquanto secção é uma presa fácil, sexão é uma grafia à prova de bala. Há uns anos, secção começou a transformar-se em seção na consciência grafémica de determinados escreventes e chegámos ao ponto de sessão. De facto, no caso aqui apreciado, a doutrina alternativa de 1990 — a do n’importe quoi, estimulada por pérolas como “agora facto é igual a fato (de roupa)” ou “se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’” — dividir-se-á entre duas interpretações extremamente sofisticadas: por um lado, a sexão de voto e, por outro, a sessão de voto.

Secção de voto, algures na cidade de Lisboa. Foto: Cristina Carvalho (http://bit.ly/2JGgAo2), cf. Aventar, 26/5/2019 (https://aventar.eu/2019/05/26/sexao-seccao-secao/)

Tudo começou a descambar [Read more…]

Fim de semana de calor

But there is no [i]skin.
Kiko Loureiro

Music has its written language, but it’s audio.
Steve Vai

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Durante toda a semana, esteve calor em Portugal. Foi semana de calor. E essa semana de calor terminou. Acabou-se o calor. Doravante, durante os próximos dias, provavelmente, estará frio em Portugal. Por isso, temos o título deste texto e, mais importante, deste oráculo:

Obviamente, dir-me-ão, trata-se do fim-de-semana. Não é uma semana de calor que termina, é um fim-de-semana com calor que começa ou se prevê. Então, se tão obviamente se trata de um fim-de-semana com hífenes, por que motivo lhos tiraram? Como já explicou António Emiliano, fim-de-semana não é o fim da semana e um bicho-de-sete-cabeças não é um bicho com sete cabeças.

É escusado perguntarmos o motivo de tal supressão a quem assinou de cruz o Acordo Ortográfico de 1990. Ainda nos respondiam com algo de semelhante a:

Fim-de-semana passa a fim de semana, porque agora facto é igual a fato (de roupa).

Continuação de um fim-de-semana com hífenes e votos de óptima saúde.

***

A 1.ª Lei da Termodinâmica e o Paradoxo de Fação

Physical attraction 
It’s a chemical reaction 
It’s a physical attraction 
Sweet satisfaction
Madonna

Tezeo. Vem a meus braços, fiel amigo, e releva-me o errado conceito, que de ti formei.
António José da Silva (O Judeu), “O Labirinto de Creta

So when it was time to register for the [Spanish] class, we were standing outside, ready to go into the classroom, when this pneumatic blonde came along. You know how once in a  while you get this feeling, WOW? She looked terrific. I said to myself, “Maybe she’s going to be in the Spanish class —that’ll be great!” But no, she walked into the Portuguese class. So I figured, What the hell­­—I might as well learn Portuguese.
Richard Feynman

***

Há uns tempos, estive para escrever algumas linhas sobre estas intervenções de políticos (do PSD). Naquela altura, uma delas deixara no ar a probabilidade quer de o secretário de Estado da Energia (do PS) desconhecer, por exemplo, a 1.ª Lei da Termodinâmica, quer de essa lacuna o desqualificar para o cargo. Acabei por não escrever as linhas, mas ri-me. Contudo, o meu riso não foi motivado pelos comentários. Antes pelo contrário. Ri-me, isso sim, do ensurdecedor silêncio. O ensurdecedor silêncio dos políticos do PSD, dos políticos portugueses em geral e da população portuguesa activa nos meios de comunicação social e nas redes sociais, aquando do “agora facto é igual a fato (de roupa)“. O “agora facto é igual a fato (de roupa)” foi escrito por quem assinou o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em nome da República Portuguesa. Exactamente. O silêncio cúmplice mantém-se até hoje.

No que diz respeito ao [Read more…]

Os *inteletuais em Portugal

Programs characterized by instability and/or hostile environments were associated with lower effect sizes.
Ann C. Willig (apud Stephen Krashen)

I was raised in a religious atmosphere, Mr. Verger, but whatever that left me with, it’s not religion.
Alana Bloom

***

Em princípio, os negociadores, promotores e amigos do Acordo Ortográfico de 1990 não estarão satisfeitos com as frequentes supressões do cê medial de facto, de contacto e de secção que actualmente vão acontecendo em português europeu. Mas ignoraram os avisos e criaram as condições para este desastre. No entanto, há excepções. Por exemplo, Pedro Santana Lopes desejou e até promoveu a supressão do cê de facto, com o célebre

Agora facto é igual a fato (de roupa).

 

Facto, contacto e secção são as vítimas a quem tenho dado palco, quer aqui, quer ali, quer alhures.

Mas há mais.

Recentemente, o excelente leitor do costume (que tem andado entretido com outras vítimas do AO90) enviou-me esta ocorrência de *inteletual no sítio do costume:

Em Abril de 2008, Fernando Venâncio previu [Read more…]

As infra-estruturas e o fato

I follow Lakoff and Johnson’s definition of a conceptual metaphor as an underlying association that is systematic in both language and thought and explains something new or abstract in terms of something familiar or concrete. Although the focus of my analysis is on metaphor, I also relate to metonymies and similes, which function in similar ways (Lakoff & Johnson 1980 : 36).
Marta Neüff

MÉNÉLAS
Les déesses furent rapides à exiger de toi le prix du sang.
Le fait d’avoir vengé ton père ne t’est-il pas compté?
ORESTE
Pas encore, et pour moi le retard équivaut au refus.
Eurípides, “Électre/Oreste” (trad. Marie Delcourt Curves)

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Efectivamente, enquanto houver quem ache este salgueiro

melhor do que este,

não há qualquer problema.

Todavia, enquanto houver quem ache que agora facto é igual a fato (de roupa), o problema é grave, pois pode levar a isto:

De igual modo, [Read more…]

O fato das alianças, a persistência dos contatos e o massacre contínuo

MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. La voix U se forme en rapprochant les dents sans les joindre entièrement, et allongeant les deux lèvres en dehors, les approchant aussi l’une de l’autre sans les joindre tout à fait : U.
MONSIEUR JOURDAIN. Il, U. il n’y a rien de plus véritable : U.
MAÎTRE DE PHILOSOPHIE. Vos deux lèvres s’allongent comme si vous faisiez la moue : d’où vient que si vous la voulez faire à quelqu’un, et vous moquer de lui, vous ne sauriez lui dire que : U.
— Molière, “Le Bourgeois gentilhomme

Considering that the sound /y/ is absent from the vowel space of the subjects in the present study, both at the phonemic and allophonic levels, and consequently that /u/ varies freely, beginner L1 American English learners of L2 French should have difficulty establishing contrastive phonemic categories for /y/ and /u/.
Ruellot

Specifically, the study focused on production by native English speakers of the French vowels /u/ and /y/. French /u/ is realized with variants that are similar, yet acoustically non-identical, to the realizations of the /u/ category of English. French /y/, on the other hand, does not correspond directly to an English vowel, and can therefore be regarded as a new sound for English native speakers who learn French as an L2.
Flege

***

Há um importante aspecto — com <c>, que em português do Brasil ilustra /k/ e em português europeu fixa o /ɛ/, impedindo um /ɛ/→[e] (cf. ‘espeto’) — a ter em mente, ao reflectirmos — também com <c>, que ilustra o /k/ subjacente e fixa igualmente o /ɛ/, evitando-se /ɛ/→[ɨ] (cf.repetirmos‘) — sobre a recorrência de grafias como aquela ali à esquerda:

Agora, de forma escorreita.

Há um importante aspecto a ter em mente, [Read more…]

Os factos de Câncio e os fatos da CMTV

Avec ses quatre dromadaires
Don Pedro d’Alfaroubeira
Courut le monde et l’admira.
Il fit ce que je voudrais faire
Si j’avais quatre dromadaires.
— Apollinaire, “Le Dromadaire

Sedulo curavi, humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere.— Espinosa

Woah oh oh oh oh oh oh oh.
Ian Astbury

***

Convém sempre lembrar que nem só de fatos se vive no Diário da República:

Seja como for, de fatos efectivamente muito se vive, no Diário da República em particular e na realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, desde Janeiro de 2012.

Eis um exemplo, no Diário da República de hoje:

Quanto à realidade (orto)gráfica portuguesa europeia em geral, peguemos na nossa fidelíssima lupa e debrucemo-nos sobre um episódio extremamente interessante. Ao contrário do excelente Público, que traduziuperspectiva‘, para a nossa correcta interpretação da *perspetiva de Daniel Oliveira, a CMTV deturpou factos, indicando fatos,

quando Fernanda Câncio claramente não se refere aos fatos “de roupa” espalhados por Santana Lopes.

Apresentado este meu pequeno relatório, resta-me desejar-vos um óptimo fim-de-semana.

***

Depois de ter escrito «agora facto é igual a fato (de roupa)»,

(exactamente) «Santana Lopes admite abandonar presidência da Aliança». OK. Siga.

Reflictamos acerca do fato

Nice chap, buys his round.
Ian Hislop

Never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few.
Churchill (apud Boris Johnson)

Furthermore, there is an enormous class hatred: how can this uneducated worker who doesn’t even speak proper Portuguese dare to be sitting in the presidential palace?
Noam Chomsky

***

Efectivamente, depois de o livro de Nuno Pacheco ter sido muito bem apresentado, houve uma semana ligeiramente atribulada e o sossego do fim-de-semana.

Chegados a segunda-feira, encontramos isto, no sítio do costume:

Os responsáveis pelo desastre lá vão encolhendo os ombros, assobiando para o ar e, armados em Boris, fazendo de conta que não está a chover.

Apetecia-me escrever umas linhas acerca do verbo reflectir e da nítida função diacrítica do c nas formas arrizotónicas com e: reflecti, reflectia, reflectiam, reflectíamos, reflectias, reflectido, reflectíeis, reflectimos, reflectindo, reflectir, reflectira, reflectirá, reflectiram, reflectíramos, reflectirão, reflectiras, reflectirás, reflectirdes, reflectirei, reflectireis, reflectíreis, reflectirem, reflectiremos, reflectires, reflectiria, reflectiriam, reflectiríamos, reflectirias, reflectiríeis, reflectirmos, reflectis, reflectisse, reflectísseis, reflectissem, reflectíssemos, reflectisses, reflectiste, reflectistes, reflectiu.

Tal função torna-se perceptível, por exemplo, se compararmos com repetir: repeti, repetia, repetiam, repetíamos, repetias, repetido, repetíeis, repetimos, repetindo, repetir, repetira, repetirá, repetiram, repetíramos, repetirão, repetiras, repetirás, repetirdes, repetirei, repetireis, repetíreis, repetirem, repetiremos, repetires, repetiria, repetiriam, repetiríamos, repetirias, repetiríeis, repetirmos, repetis, repetisse, repetísseis, repetissem, repetíssemos, repetisses, repetiste, repetistes, repetiu — e quanto à justificação de -ct- nas formas com i (reflicto, reflictamos, etc.), lembremo-nos da “derivação ou afinidade evidente” e do <x>com valor [ks].

Além dessas apetecidas linhas, também queria propor formalmente uma adenda à lista de Vasco Pulido Valente. Ei-la, informal: agora facto não é igual a fato (de roupa).

Infelizmente, como o “bem-amado kaiser“, ando com pouco tempo: quer para as linhas, quer para a formalização da proposta. Fica para outra altura.

***

Quem para a extrema-direita na polícia?

Les perroquets commencèrent à crier, âcres, aigres, puis les perruches ajoutèrent leur pépiement à cette symphonie discordante. Leur charivari montait avec la lumière.
Éric-Emmanuel Schmitt, “Les Perroquets de la place d’Arezzo

***

Aliás,

Quem pára a extrema-direita na polícia?

Exactamente, apesar de ativa e de ativistas:

Como sabemos, existe uma diferença entre afirmar

Escrevo com o AO nos jornais

e escrever com o AO nos jornais.

É como a diferença entre determinar

a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa [..], a partir de 1 de Janeiro de 2012, […] à publicação do Diário da República

e permitir que isto aconteça:

— ou até um bocadinho semelhante a, por um lado, afirmar

No Acordo é limpinho: é muito mais fácil dizer que se é contra. E também parece que algumas pessoas têm de encontrar válvulas de escape para a insatisfação em que vivem. É um pouco como chamar nomes ao árbitro. Acho que às vezes as pessoas precisam de conhecer mais mundo.

e, por outro, escrever

Agora facto é igual a fato (de roupa).

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

A aliança ortográfica

Linguistics is the field that tries to figure out how human language works — for example: how the languages of the world differ, how they are the same, and why; how children acquire language; how languages change over time and why; how we produce and understand language in real time; and how language is processed by the brain.
David Pesetsky

***

Depois de Santana Lopes ter promovido os fatos, através do famoso “agora facto é igual a fato (de roupa)“, vem agora o Expresso (num intervalo das aulas) dar uma notícia sobre a Aliança com contatou:

Na quinta-feira, dia deste excelente artigo de Nuno Pacheco, o Diário da República trouxe-nos os habituais fatos

e andou a promover contatos [Read more…]

Rio sobre Santana:

É uma figura que todos nós acarinhamos.

Santana sobre o AO90:

Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).

A União das Freguesias de Azueira e Sobral da Abelheira, em 2013, sobre atestado [pdf, p. 10]:

Exactamente:

documento público, escrito, de carácter informativo, relativo a factos, situações ou qualidades ou estados de pessoas determinadas, que são do conhecimento dos membros da Junta de Freguesia, ou que representam a sua convicção. Este documento não tem força probatória material, podendo o seu conteúdo ser contestado e contrariado.

A União das Freguesias de Massamá e Monte Abraão, em 2018 (aliás, foi mesmo ontem, no sítio do costume, obviamente), sobre atestado:

Efectivamente:

documento público, escrito, de caráter informativo, relativo a fatos, situações ou qualidades ou estados de pessoas determinadas, que são do conhecimento dos membros da Junta de Freguesia, ou que representam a sua convicção. Este documento não tem força probatória material, podendo o seu conteúdo ser contestado e contrariado.

***

O fato do senhor deputado

No JN de hoje, o deputado social-democrata (ou do PSD) Paulo Rios de Oliveira escreve sobre os CTT. Aquém do conteúdo, está a forma. Como deputado de um dos partidos que impuseram o chamado acordo ortográfico (AO90), é natural que o use.

Não sei se Paulo Rios de Oliveira terá sido apoiante de Santana Lopes nas últimas eleições internas, mas é, em termos ortográficos, um seguidor fiel do candidato derrotado por Rui Rio. Na realidade, foi Santana Lopes que declarou “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).” [Read more…]

Santana Lopes é fixe

Com Santana Lopes, há fatos e contatos.

Santana Lopes e a ortografia à deriva

Jorge Sampaio escreveu o seguinte:

Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva — mas não foi uma decisão ad hominem.

De facto, este anúncio de Santana Lopes foi muito mau :

em relação ao acordo ortográfico […], o empenho do Presidente [do Brasil] Lula da Silva é o de que se dinamizem todos os instrumentos nesse domínio.

Contudo, isto é bem pior:

Agora facto é igual a fato (de roupa).

Efectivamente. Hoje, no sítio do costume.

Sampaio acrescenta:

De vez em quando é preciso dar voz ao povo – e percebi qual era o sentimento do povo.

Então, vamos por partes:

Já assinou a petição? Sim, esta. Óptimo.

Já assinou a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do AO90? Muito bem.

E a Iniciativa de Referendo? Sim? Excelente!

Os motivos dos fatos

amadeo3

Amadeo de Souza-Cardoso, Caricatura de Emmérico Nunes (1909)(http://bit.ly/1sHl6FW)

Chacun, là-haut, sait mieux que le matador ce qu’il conviendrait de faire en bas. En outre, comme chez tous les publics, la critique prouve l’intelligence et l’enthousiasme se verse au compte de la crédulité, de la naïveté, de la bêtise.

— Jean Cocteau, “La corrida du 1er mai

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Fausto Bordalo Dias

***

Os leitores do Aventar conhecerão certamente a seguinte afirmação de Santana Lopes:

Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).

Não será, contudo, todavia ou até mesmo porventura, o caso do jornalista que entrevistou o autor desta afirmação, ainda por cima, produzida em artigo escrito para o jornal em que a entrevista foi publicada. Efectivamente, uma vez que na entrevista nenhures se vislumbra qualquer referência à afirmação de Santana Lopes, o autor terá perdido, [Read more…]

«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas»

bola de fogo

© Rogério Pacheco (http://bit.ly/20mxHxw)

Nonetheless, it seems to me doubtful as a way to proceed in the present situation for the following reason. I said above that the essence of consciousness was subjectivity. There is a certain subjective qualitative feel to every conscious state. One aspect of this subjectivity, and it is a necessary aspect, is that conscious states always come to us in a unified form. We do not perceive just the color or the shape, or the sound, of an object, we perceive all of these at once simultaneously in a unified conscious experience. The subjectivity of consciousness implies unity. They are not two separate features, but two aspects of the same feature.
— John Searle, Philosophy In a New Century

***

Hoje, ao passar os olhos pelo sítio do costume, lembrei-me quer deste parágrafo escrito por Searle, quer daquela frase que Cavaco Silva não disse. A Câmara Municipal de Ovar, à qual dediquei meio parágrafo na quinta-feira, estará provavelmente a preparar, neste exacto momento, uma nova declaração de rectificação.

DRE 222016 ovar

Houve discernimento [Read more…]

No que diz respeito ao Acordo Ortográfico de 1990, o jornal Sol é uma referência

Ecce tituli inscriptionem non corrumpit; quod scripsit, scripsit.

Santo Agostinho

A razão é simples e não tem a ver com a anunciada adopção do instrumento em causa. Por exemplo, o jornal A Bola, quando anunciou a adopção do Acordo Ortográfico de 1990, não passou a constituir uma referência em relação ao AO90 — é uma referência, isso sim, no que diz respeito à resistência silenciosa num país em que todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente aquilo que pensam pela palavra.

Contudo, o jornal Sol é, sem sombra de dúvida, uma das grandes referências no que diz respeito ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990: foi no jornal Sol que Pedro Santana Lopes escreveu

Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)

Exactamente: “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”. Efectivamente: “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”.

Como escreveu Santo Agostinho, «quod scripsit, scripsit».

AO90

As minhas reais preocupações sobre o fato

017AFR14D09J2303

© Alain Rossignol / Jorge Cunha (http://bit.ly/1Denk24)

That no good. Ugh.

Allen Ginsberg, America

***

Segundo Elisabete Jacinto, o “problema reside no fato de desconhecermos onde está esse limite“. Por seu turno, Ricardo Leal dos Santos considerou importante “o fato de tudo ter corrido sem qualquer tipo de percalço“. Efectivamente, já em Novembro de 2014, de acordo com a mesma fonte, o piloto Nico Hulkenberg revelara estar “muito contente pelo fato do calendário da Fórmula 1“. Há poucas horas, surgiu “o fato de na véspera“. Através deste pequeno périplo, isolámos um exemplo muito concreto de geração de estrangulamentos e de constrangimentos. Estrangulamentos e constrangimentos? Exactamente.

Igualmente respeitador daquele princípio extremamente conhecido (“Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”), Rui Caldeira, director do Observatório Oceânico da Madeiraescreve o seguinte:

Estes acontecimentos serviram também para despertar as minhas reais preocupações sobre o fato de que na condição de ilha no meio do Atlântico estarmos [sic] desprovidos de um sistema de monitorização permanente do oceano circundante.

Além das “preocupações sobre o fato”, poderíamos perguntar o porquê de ‘trajeto’, ‘boias’, ‘direção’ e até ‘efetuamos’, quando ‘Dezembro’, ‘afectam’ e ‘detectados‘ abriam boas (para não dizer óptimas) perspectivas.

oom

Admito que o «’orgulhosamente’ sós», escrito por Caldeira, isolando o orgulhosamente e deixando o sós à solta, me levou às aspas do Tarski. Não, não são do Tarski do Searle: são do Alfred.

Contudo, como o problema que hoje apreciamos “reside no fato“, terminemos com chave de ouro e debrucemo-nos sobre o assunto.

O final do Verão, a Primavera e depois de Outubro

Efectivamente, com o Acordo Ortográfico de 1990, o Verão deixa de existir. Contudo, há quem adopte o AO90 e simultaneamente ignore aquilo que ele determina.

Marcelo

Depois de ter assinado o Acordo Ortográfico de 1990 e de ter escrito “Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”, Santana Lopes traz-nos Outubro e Primavera.

santana

Exactamente.

A ininteligível produção de *fatos políticos

galilei

“Retrato de Galileu Galilei”
Justus Sustermans (http://bit.ly/17Msan7)

Muito rapidamente, aproveitando alguns intervalos para cafés.

Fiquei ontem a saber, através do Público, que Rui Teixeira foi acusado de denegação de justiça, abuso de poder e coacção de funcionário.

Lembremo-nos daquilo que disse um dos principais responsáveis pela situação caótica actualmente vivida na ortografia portuguesa europeia:

Ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir às novas normas”.

É verdade que José António Pinto Ribeiro nada disse nem acerca de eventual abate, prisão ou punição daqueles que não aceitarem ler e estudar documentos com as “novas regras”, nem sobre abate, prisão ou punição de quem impingir documentos redigidos “ao abrigo” de regras que não estão em vigor. Enfim, como já tive a oportunidade de recordar, relativamente ao aspecto ‘adesão’ e à dimensão ‘punição’, a doutrina divide-se.

Contudo, é sabido, não se encontrando os tribunais “sob a tutela orgânica e funcional do Governo“, nada obriga Rui Teixeira a adoptar uma norma que, manifesta e compreensivelmente, lhe desagrada. Resta saber se, não tendo o dever de adoptar o AO90, incumbe ou não a qualquer juiz a obrigação de aturar no seu círculo judicial textos redigidos “ao abrigo” de uma proposta ortográfica que, como sabemos, é inadequada para a norma portuguesa europeia, tendo – convém sempre refrescar a memória – sido objecto de pareceres negativos.

Haverá sempre quem critique Rui Teixeira por este indicar alterações efectivamente não previstas no Acordo Ortográfico de 1990, aludindo à supressão quer do acento de ‘cágado’ (proposta de 1986), quer da letra consonântica ‘c’ de ‘facto’. Segundo a SIC, “não se entende o reparo do juiz”. Lamento imenso, mas entendo [Read more…]

Duas ou três coisas sobre *fatos do Acordo Ortográfico de 1990

DR AO90

Pour prendre position il faut, en général, 
savoir d’abord un certain nombre de choses.
— Georges Didi-Huberman (2009:15)

And intellectual bankruptcy, I’m sorry to say, 
is a problem that no amount of drilling 
and fracking can solve.
— Paul Krugman, 15/3/2012

Em 2009 (p.18), escrevi:

Existindo, como em qualquer reforma, opções susceptíveis de contestação e de debate no plano linguístico, já se torna difícil rebater argumentos taxativos, simplistas e contraditórios, que não vão ao cerne da motivação, ou então acusações avulsas, suspiradas através do facilitismo da emoção, peças movidas em tabuleiros não linguísticos e não culturais.

De facto, é extremamente difícil rebater aquilo que Seixas da Costa escreveu há pouco mais de um ano:

A má fé [sic] e a distorção propositada obtêm, por vezes, algumas vitórias. Admito que alguns possam não gostar do novo Acordo Ortográfico, mas não é aceitável que, por mera vigarice intelectual, se procurem criar mitos em torno das mudanças que ele introduz.

O mais flagrante, e que tenho verificado que que [sic] está já na cabeça de muitas pessoas incautas, é a ideia de que a palavra facto passa, por virtude do Acordo, a mudar para fato. De tanto isto ser repetido, há quem acredite.

Ora isto é uma falsidade, que alguns se entretêm a instilar. Por uma vez, que fique claro: o novo Acordo Ortográfico não altera a forma de escrita (e, naturalmente, de pronúncia) da palavra “facto”.

Quantas vezes será necessário repetir isto?

Depois desta acusação em abstracto, consideremos uma hipótese remota, mas concreta: [Read more…]

O Acordo Ortográfico através do monóculo

Ega entalara vivamente o monóculo para examinar esse lendário tio do Dâmaso…

– Eça, Os Maias

A edição de Outubro da revista internacional Monocle foi amplamente divulgada pela comunicação social portuguesa. Segundo a Fugas, trata-se duma “publicação mensal de culto para muitos e a marcar tendências em todo o mundo desde 2007 “. Confesso que nunca tinha comprado esta revista e só o tema de capa me levaria a adquiri-la. Como esta edição estava à venda no quiosque do Parlamento Europeu, acabou por vir para casa.

Vejamos com atenção aquilo que nesta publicação a marcar tendências em todo o mundo desde 2007 se pensa sobre Portugal, no contexto da língua portuguesa e do Acordo Ortográfico de 1990.

Aguardemos igualmente por uma reacção de Carlos Reis, pois é evidente que o senhor Steve Bloomfield, além de  “uma concepção da Língua Portuguesa como património exclusivo dos portugueses”, tem “um complexo”, “traumas por resolver” e “o medo das ‘cedências’”. Obviamente que as leituras de artigos do Dr. Santana Lopes e de entrevistas do Dr. Pinto Ribeiro terão ajudado ao arranque em falso. O Dr. Carlos Reis que explique, quando reagir ao artigo.

Once upon a time, the Portuguese spelt the word “fact” F-A-C-T-O. The Brazilian spelt it F-A-T-O. It was one of many words that had changed in the journey across the Atlantic.
Yet the influence of Brazilian popular culture has become so pervasive from Porto to Lisbon that most young people use some form of Brazilian Portuguese – and now it has become formalized. An orthographic agreement between the two countries has seen Portugal accept a whole raft of Brazilian spellings.
There are many ways to highlight Portugal’s relative decline and the meteoric rise of Brazil and, to a certain extent, Angola. Hundreds of thousands of Portuguese have moved to to other Lusophone countries (see page 037); Angola is now investing billions of oil-fuelled dollars in Portugal. But few factors sum it up as perfectly as the language changes. Imagine the UK agreeing to spell “centre” the American way

– Steve Bloomfield, “Something in common”, Monocle, Issue 57 , volume 06 , October 2012, p. 33

Monti, de fato

«O RIGOR? ONDE ESTÁ O RIGOR?»

– Pedro Santana Lopes, 23/11/2007

Dei-me ao trabalho de avisar Pedro Santana Lopes. O jornal Sol teve a amabilidade de publicar o aviso na edição imediatamente seguinte à do “‘facto’ é igual a fato (de roupa)”. Poucas semanas depois, voltei  à carga. Esta é a terceira vez que me dou a tal trabalho.

Os meus agradecimentos a Glória Saraiva pela chamada de atenção (em Nota no Facebook de Madalena Homem Cardoso) para este lamentável e persistente… fato.

Correcção (30/03/2019): supressão de “(e última)”.