
Uma das consequências mais interessantes da guerra lançada por Israel e EUA contra o Irão teve lugar mais a leste. Na relação de forças entre dois aliados de ocasião, com longo historial de escaramuças entre si, mas que, perante um poder maior, perceberam ser do interesse de ambos ter boas relações. Pelo menos por agora. Depois logo se vê.
Até há poucas semanas, a Rússia encontrava-se numa situação de maior dependência em relação à China. Algo que se arrastava desde o início da invasão em 2022. Moscovo viu as vendas de energia para a UE cair abruptamente, foi alvo de sanções e a sua economia foi atacada em várias frentes pelo bloco ocidental. Virou-se para oriente.
Para termos a noção do desequilíbrio de forças, a China é hoje o maior parceiro comercial da Rússia. Só nos primeiros meses de 2026, as suas compras de energia russa representaram 50% do total exportado pelo país. No total, a China é o destino de mais de 30% do comércio internacional russo. Já a Rússia representa apenas 3% das exportações chinesas. O maior parceiro comercial da China, ironicamente, são os EUA. Não menos irónico, o maior dos EUA é o México. Adiante.
Com o início desta guerra, contudo, a China sofreu um duro golpe no fornecimento de energia. Cerca de 30% das suas importações de petróleo vêm do Golfo e passam pelo estreito de Ormuz. Arábia Saudita, Kuwait e EAU estão entre os seus principais fornecedores. Tal como o Irão, que por razões óbvias deixou de exportar para a China. Assim como a Venezuela.
E quem sai a ganhar com tudo isto?
Vladimir Putin.
Torna-se no único dos principais fornecedores cujas exportações não são afectadas pelo conflito. E isso equilibra a balança com a China a seu favor, que precisa do seu petróleo mais que nunca. E favorece também a sua posição na Ucrânia, não apenas porque Moscovo depende de tecnologia chinesa – que assim se torna, digamos, mais acessível – mas sobretudo porque esta crise no Médio Oriente também afecta o sector energético europeu. E enfraquece os únicos aliados que restam à Ucrânia.
E como se tudo isto não fosse já um sonho para o Kremlin, Trump, que está a derreter com o Irão o stock de mísseis Patriot que Zelensky nunca receberá, decidiu ontem levantar temporariamente algumas sanções contra países que comprem petróleo russo. Segundo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a decisão pretende “promover a estabilidade nos mercados energéticos”. Porque Bessent, como a administração que integra, está muito preocupado com a estabilidade dos mercados energéticos. Daí lançarem uma guerra desnecessária que os desestabilizou. Na lógica alucinada do trumpismo, isto faz todo o sentido. Até porque já há por lá malta que garante que isto é uma guerra santa, que Trump foi escolhido por Jesus para o trazer de volta, e que caminho da Ressurreição passa por um Armagedão no Irão.
Entre aflitos para conseguir petróleo e malucos na Casa Branca e no Pentágono, a realidade torna-se mais bizarra que a ficção e a vida não podia correr melhor ao Adolfo de São Petersburgo. Não percebo como é que Trump ainda não o trouxe para o Board of Peace.






E a eurolândia, do alto da sua superioridade moral enquanto apoiante do genocídio em curso bem como de todos as outras atrocidades, continua a assobiar para o lado e a focar-se no idiota projecto de expansão a leste quando lhe começa a chegar a factura.
Eu não sei bem se é um projecto da eurolândia de expansão a leste, se é um projecto do leste a tentar fugir ao “ainda mais leste”… e como se vê na Ucrânia, a adesão à NATO é uma treta a Rússia tem há muito tempo países limitrofes membros da NATO, acredito que seja mais a segunda versão!
Pode concordar ou não com as consequências, e ter dificuldade em aceitar a força usada para lá chegar, mas que foi um projecto de expansão declarado da NATO a leste é simplesmente um facto. Basta procurar Brzezinski, esse comuna russófano, sobre o assunto.