A minha detenção ilegal na acampada do Porto


Hoje, de madrugada, fui detido na praça D. João I de forma ilegal, arbitrária e injustificada.
Por volta das 4 horas, uns 100 polícias de choque saíram das respectivas carrinhas armados até aos dentes. Com cães, capacetes, bastões, coletes à prova de bala, armaduras e tasers.
Investiram então, à bastonada, contra uns 300 manifestantes completamente desarmados que cantavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”.
Por mais que me solidarize com a justa luta dos nossos heróis, estava ali sobretudo para proteger a minha filha de 18 anos, a Leonor. É que esta noite adivinhava-se nova carga policial.
Não consegui protegê-la. Para além das bastonadas, as pessoas começaram a ser empurradas com uma força incomum, completamente desproporcional, a tropeçar e a cair nas escadas que dão acesso ao Rivoli.
Deixei de ver a Leonor quando caí ao chão naqueles degraus. Podia ter sido uma tragédia. Porque outras pessoas começaram a cair em cima de mim. Sentia-me a ser esmagado, só ouvia gritos e pessoas a dizer “cuidado, há gente no chão, não pisem”.
Mas era impossível não pisar. As pessoas caíam umas em cima das outras. Só pensava onde é que estaria a Leonor.
De repente, senti-me a ser retirado de baixo dos outros corpos. Pensei que me estavam a salvar.
Mas afinal eram dois polícias. Levantaram-me e, sem dizerem uma palavra, como se fosse um meliante de delito comum, um criminoso, algemaram-me e levaram-me para a carrinha celular. Nunca me disseram as razões da detenção ou o que quer que fosse. Disse que tinha caído, disse que precisava de saber da minha filha, mas não me responderam.
Na carrinha celular, para além das algemas de metal, colocaram-me umas abraçadeiras de plástico que praticamente não me deixavam mexer as mãos e que me deixaram marcas nos braços.
Olhei para a parte de trás da carrinha. Éramos 7 pessoas e vi, com alívio, que uma delas era a Leonor. Também tinha caído ao chão nas escadas e também fora tirada do chão e levada pela Polícia.
Já na esquadra da rua do Heroísmo, perto da antiga PIDE, tiraram-me as algemas de metal e deixaram apenas as abraçadeiras. Fiquei assim durante 4 horas. Revistaram-me. Fotografaram-me. Fui constituído arguido. Eu e os outros 6 detidos passámos estas 4 horas na “Sala de Apoio à Vítima”. É justo.
Deixaram-nos sair por volta das 8 horas.
Durante todo este tempo, nunca fui informado das razões da minha detenção ilegal.
À parte algumas dores nas costas e um cotovelo esfolado, estou bem.
Tive de esperar 55 anos para ser detido. E sabem que mais? Esta detenção é para mim uma medalha.

Comments

  1. JgMenos says:

    Tens toda a razão.

    Nada justifica tantos polícias e tantas horas extraordinárias pagas para mandar a canalha para casa a horas.

    Um canhão d’água tinta era o bastante para acabar com o carnaval da esquerdalhada e poupava-se tempo e dinheiro.

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