Jorge Fallorca (1949-2014)

O tempo passou. O caso arrastou-se para o esquecimento, até um dia. Encontraram-no pendurado pelos pés, descalços, no galho de uma árvore velha. A boca estava amordaçada, com crostas de sangue, anónimo. Tinham-lhe dado um tiro. A agonia estava escrita no chão.
Ninguém quis descer o corpo. Os vizinhos calaram-se. O silêncio era consensual. Alguém de fora tinha feito aquilo. Confiavam no tempo para apodrecer a razão.
Vieram moscas varejeiras e aves de rapina. Seguidas pelos lobos e as raposas, apoiadas nas patas de trás. As formigas procuraram-no atordoadas pelo cheiro. Garantiu-lhes a sobrevivência, pouco a curiosidade.
À noite, os vizinhos trancavam as portas e tapavam os ouvidos e vendavam os olhos. O caso recortava-se na loucura. Ninguém dormia, ninguém falava. Era o estandarte das armas indesejadas, desfraldado numa árvore velha. Descalço.
E começou o exílio. E a suspeita, entre os que ficavam.

[in A Mulher Descalça, edição do autor, 2011]

Foto: Fábio Teixeira

Comments

  1. Muito bom Carla Romualdo, faz lembrar de muito perto o poema muitas vezes erroneamente atribuído a Bertrolt Brecht “primeiro levaram… depois levaram… quando chegou a munha vez de me levarem já não restava ninguém para me defender”.
    Ou seja, em termos mais simples, que a indiferença, talvez mais que o conformismo, é o pior inimigo de todos os que são vítimas da rapina e fascismo sob as mais variadas formas.
    Obrigado!

  2. Paulo Inacio says:

    João Paz, o texto é da autoria de Jorge Fallorca, ontem falecido.
    nemsemprealapis.blogspot.com

  3. Obrigado Paulo Inácio, não tinha reparado na última linha mas estou habituado a textos da Carla Romualdo do mesmo nível.

  4. Joam Roiz says:

    Só hoje me apercebi que morreu o Fallorca. Perdoem-me o tratamento. Fallorca tinha a minha idade e passou pela minha vida já lá vão quase cinquenta anos. Aparacia, de vez em quando, por Viseu, no Café Monte Branco. Fui seu amigo e companheiro de primícias literárias, numa tertúlia de jovens sedentos de vida e de saberes de que faziam parte, entre outros, nomes que ficaram conhecidos nas letras portuguesas:António Júlio Vallarinho, Luís de Miranda Rocha ou Fernando Cabral Martins. Fallorca vinha, de quando em vez, sentava-se, sempre humilde, quase tímido. Sóbrio, falava pouco. Perdi-o na voragem da vida. Mas guardo dele uma subtil memória: a de um tempo de trevas. E de um livro, autografado, que gosto de reler – Rosa dos Ventos.

  5. cristina alves says:

    Estava a ver a novela, Rui Morrison e lembrei-me de ti Jorge…
    Corri para o computador para ter a triste noticia d que tinha falecido este ano !
    Fiquei Triste ! Tão triste !
    a última vez que estivemos juntos andámos a correr de mãos dadas á frente dos policias de choque no Concerto dos POLICE no Restelo , já lá vão uns bons aninhos !
    Que estejas em paz Migo !

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