“PS enfia na gaveta caso da ‘cigana’”

Alguém sabe onde é que o PS manda fazer os móveis? Davam-me mesmo jeito umas gavetas com tanta arrumação.

Shaolin, meu amor

Entre os meus escassos talentos conta-se o de fingir que falo mandarim na perfeição. É um talento apenas conhecido de um reduzido grupo de eleitos que têm aplaudido as minhas actuações com inexcedível simpatia, chegando mesmo a fingir um entusiasmo que eu reconheço não poder ser genuíno. Evidentemente, não falo uma palavra do autêntico e legítimo mandarim, excepto as que se podem aprender nos restaurantes chineses. Mas finjo que falo e o meu fingimento é credível. Na verdade, é mais uma performance multidisciplinar porque também gesticulo de forma lenta e cerimoniosa e uso uma panóplia de expressões faciais que me parecem muito adequadas.

Fingir que falo mandarim é uma habilidade que está ao meu alcance apenas porque vi, numa idade por assim dizer tenra, um número considerável de episódios de “Os jovens heróis de Shaolin”. Para quem não sabe, nessa série produzida em Hong Kong contavam-se as empolgantes aventuras de Hung Hei Goon, Fong Sai Yuk e Wu Wai Kin, e os seus árduos treinos no templo de Shaolin, na China do século XVIII, para virem a tornar-se mestres de Kung Fu. Estes três haveriam de converter-se em heróis, recordados durante séculos, na luta contra a Dinastia Ching, dos Manchu, que havia derrubado a Dinastia Ming, dos Han.  [Read more…]

Zeus

Às vezes encontrava-o no restaurante, ele vendia a «Cais» e quase ninguém a comprava, mas o pior nem era isso, era o ar de nojo com que lhe diziam que não, não fosse a sua presença ao lado da mesa contaminar a batata assada e a costela mendinha, diziam-lhe que não com um gesto enfastiado da mão mas não olhavam para ele, e ele agradecia e afastava-se devagar, com aquele corpo lento e cerimonioso, mas havia uma tensão nos seus lábios, rápida, logo afastada, que denunciava uma violência que ele tinha de conter a cada instante, uma luta nunca vencida.

Depois deixou de ter a «Cais», não sei que aconteceu, porque apareceu com uma revista gratuita, uma publicação dos lojistas de uma rua qualquer, e eu disse que não precisava da revista, que o ajudava na mesma, mas foi um gesto indigno, o meu, e arrependi-me logo porque ele insistiu em dar-me a revista. Aceitei-a, ele agradeceu de novo com aquela vénia solene que eu já lhe conhecia, mas desta vez demorou mais tempo a erguer a cabeça, vi-o sonolento, pesado, ferido e percebi que o grande deus caído em desgraça estava cansado da sua penitência. [Read more…]

Inhos

Conhecendo, como conhecemos todos, o amor dos portugueses pelos diminutivos, julgava que já nenhum poderia surpreender-me. Uma ingenuidade pouco justificável na minha idade, devo reconhecer. Bastou cruzar-me na rua com uma simpática vizinha a quem vou perguntando pela saúde familiar para que ela me confessasse que anda preocupada com uma das filhas, a fumadora, porque não há maneira de deixar o vício, apesar de já ter tido um “AVCzinho”. Atentai, leitores, na delicadeza desta construção: um AVCzinho. [Read more…]

Dmitri Hvorostovsky (1962-2017)

Horas do diabo

Ninguém diria, aqui, recostados ao sol como esse gato gordo que quase morreu de tantas sardaniscas que comia, mas agora passa os dias a dormir encostado ao muro. Ninguém diria que era daqui que saltavam para a linha, homens e mulheres, velhos e novos, gente daqui do bairro e doutras paragens, porque havia quem viesse de propósito para matar-se aqui. Desde que puseram este gradeamento alto, os suicidas desistiram da ideia ou buscaram outros lugares.

À mesa, sou a única forasteira. Os homens não dizem nada,  fala a Maria, a mais velha.

– Nunca mais me esquece o dia em que vi muita gente debruçada no muro, fui espreitar e vi uma mulher caída, com a cabeça a deitar tanto sangue… Andei meses a pensar nisso, nem dormia em condições. Eu devia ter uns 14 anos e aquilo impressionou-me tanto…

O comboio está a passar debaixo dos nossos pés, estremece-nos.

A Maria puxa o xaile para os ombros. É o comboio que a arrepia. [Read more…]

Stop

Foi centro comercial nos anos 80, com cinema, lojas, restaurantes. Depois começou a perder fôlego para a múltipla concorrência e decaiu. Foram encerrando-se lojas, houve algum episódio de violência, o local tornou-se indesejável. Esteve fechado, a apodrecer lentamente aos olhos de quem passava, uma ruína mais numa cidade que acumulou demasiadas. Mas há poucos anos, ganhou uma nova vida quando os músicos da cidade começaram a alugar as antigas lojas e a convertê-las em salas de ensaio. A porta da rua reabriu-se, voltou a ver-se gente por ali, um segurança, um café à entrada –  sintomas de vida num corpo que estivera inerte.

A vida deste local, a sua experiência distinta de todos os outros grandes espaços comerciais da cidade, tornou-o um lugar especialmente interessante. Desde logo, essa nova vida não se fez acompanhar de uma renovação estética. O Stop continua a parecer um local abandonado. Há paredes grafitadas, zonas mal iluminadas, beatas no chão, lojas que ainda exibem os seus antigos cartazes, agora arruinados, montras que deixam ver salas vazias, janelas tapadas, algum caixote abandonado pelos últimos inquilinos, uma lista telefónica manchada de humidade, um calendário de um ano longínquo. Os estúdios dos músicos, tapados dos olhares de quem passa, não se distinguem das salas para alugar. Os elevadores funcionam, mas as escadas rolantes estão paradas. As casas de banho, de paredes cobertas de rabiscos, estão reduzidas ao mínimo. Aí não há espelhos, não há sabonete e é quase com espanto que confirmamos que há retretes e água corrente. [Read more…]