Equívocos

No degrau onde um homem costuma dormir estava uma embalagem de donuts de morango. Não havia sinal do homem, mas estavam lá os cartões que lhe servem de colchão, agora ao alto, encostados à parede. No chão, a embalagem de plástico, fechada, com três donuts de um estridente cor-de-rosa E128, intactos. Faltava pouco para as nove da manhã. Os donuts eram de uma marca estranha, talvez saídos da loja de oportunidades da esquina, que vende produtos “de fora do nosso mercado”, como diz a gerente, e que vêm com rótulos em servo-croata e prazos de validade indecifráveis.

Quem os deixara ali? Podia ter sido uma compra disparatada, um desses impulsos de que é difícil não acabar arrependido. Podiam estar fora de prazo ou perto disso. Ou podiam ter sido comprados de propósito para oferecer ao homem que nunca pede esmola mas aceita o que lhe oferecem. [Read more…]

Um gesto vergonhoso

O Tondela anunciou hoje que o pedido que dirigiu à Belenenses SAD para adiar o jogo marcado para o próximo domingo num dos concelhos mais fustigados pelos incêndios foi recusado. Fico a torcer por uma vitória não apenas moral do Tondela, mas com muitos golos na baliza adversária.

À sua procura

Enquanto tomo um dos cafés do dia, habituei-me a ver se há novas fotos no “À sua procura”. As fotos vão sendo publicadas a um ritmo lento, mas certo, no Instagram do projecto. São retratos tipo passe, feitos em certo estúdio fotográfico da rua de Cedofeita, no Porto, entre Março de 1968 e Setembro de 1969. No total, umas 11 mil fotografias, número astronómico para tão breve período, sobretudo tendo em conta que terão sido feitas por um único fotógrafo.

Procuro as novas fotos, a cada dia, na esperança de que alguma me seja familiar. Pai, mãe, familiares, vizinhos, amigos, algum daqueles rostos terá para mim um nome, uma história. E a ilusão de que isso acontecerá é um dos muitos pequenos prazeres que, todos juntos, me dão sentido aos dias.

As fotos saíram de um livro de prova de contactos que o fotógrafo catalão Pau Storch comprou numa feira de velharias, quando visitava o Porto. “Queria ver aquelas imagens de perto, os rostos, saber como era a fotografia e aquele Portugal antes de 1974”, contou ele ao jornal Público. 11 mil rostos de homens e mulheres, de crianças e velhos. “Como seria encontrar estas pessoas 50 anos depois? Seria possível? Como estaria a sua vida? Seria possível retratá-las?” [Read more…]

O gabinete das maravilhas de Arxentino da Rocha Alemparte

Arxentino da Rocha Alemparte, galego trota-mundos, nasceu em Xunqueira de Ambía, em Ourense, em 1886 e morreu em Cuba, em 1959. Fez fortuna na América Latina e regressou a Xunqueira nos primeiros tempos da II República Espanhola, na década de 1930, para mostrar aos seus conterrâneos as maravilhas que reunira. Arxentino fizera fortuna mas era à sua colecção de objectos curiosos que dava mais valor. À moda dos grandes coleccionadores renascentistas, fora juntando curiosidades, objectos únicos, relíquias, monstruosidades. [Read more…]

Satélites

Frente a uma televisão aparelhada de pequenas engenhocas luminosas – para ver vídeos, fotos, partilhar, sincronizar – sentei-me no sofá, esse que diz o Millás que é como se estivesse conectado à televisão porque esta parece ligar-se sozinha quando alguém se deixa cair sobre aquele, sentei-me a aborrecer-me, e em vez de ver o que havia para ver, e que é agora praticamente tudo o que há no mundo – coisa que pode levar a vida toda, queira eu assim gastá-la – em vez disso comecei a ouvir, naquela estação de rádio que passa só na cabeça de cada um, o “Satellite of love”, e onde se diz, com enganadora inocência “Gosto de ver coisas na tv”. [Read more…]

O pó da fivela

©Guy Denning

Já toda a gente conhece o Tomé e esse é o maior problema dele. Já não há ouvintes para os seus poemas, nem mecenas para umas cervejas, nem testemunhas para as epifanias que com frequência o arrebatam.

Ao Tomé, ignora-se e apenas quando não é possível evitá-lo.

É um homem de idade incerta, algures entre os 40 e os 65, escanzelado, com cabelo cortado às três pancadas, roupa que já passou por outros corpos antes de lhe chegar, sapatos cambados, dentes estragados, o nariz sempre a pingar porque, como ele vai contando a toda a gente, sofre de uma alergia que lhe dura o ano inteiro e tem o septo desviado.

Por acaso, no dia em que o conheci, e em que ele insistia em ler-me a sua elegia “A sétima morte dos ludopatas”, comecei por oferecer-lhe um lenço de papel, que ele recusou com gesto soberbo.

– Não, obrigado. Só uso lenços Poker. [Read more…]

A tolerância

No quiosque onde por vezes vou fazer o Euromilhões só para poder dizer Alea jacta est!  qual impetuosa estratega, enquanto a dona do quiosque deixa cair o boletim na máquina, sem cuidar da importância do momento, alheia à frágil tessitura onde se entrecruzam acaso, sincronia, sorte, mirabolantes coincidências, e tudo redunda no invariável resultado de um número e uma estrela, no quiosque, dizia, discutia-se hoje o Papa e a tolerância. A dona do quiosque, que de todos os assuntos pensa que nada vai mudar mas que tudo acabará por ficar pior, dizia que é muito a favor da tolerância mas que há limites e que há gente que abusa. Olha aquela da farmácia, por exemplo, que vem aqui muitas vezes, lê as revistas das telenovelas todas e nunca paga nada, eu sou tolerante mas às vezes apetece-me mandá-la àquela parte. E o Papa, ora o Papa… A Igreja fala muito de dar a outra face mas quando é com eles é outra história, não é? Falar é muito lindo – concluiu, com um gesto amplo, abarcador do mundo, a dona do quiosque.

Fez-se silêncio. [Read more…]