Palavra do ano em 2017

Plutocracia“.

A minha dupla

Street art, Barrio del Oeste, Salamanca, artista desconhecido, foto minha.

“Street art” em Barrio del Oeste (Salamanca), artista desconhecido.

Há muito que sei que anda por aí uma mulher que é igual a mim. Já vários me haviam dado conta da sua passagem por distintos lugares nos quais tenho amigos ou conhecidos. Apesar disso, nunca nos cruzáramos.

A primeira notícia que tive da sua existência chegou há perto de 15 anos, numa festa de aniversário. Foi aí que uma amiga me apresentou um sujeito, amigo seu, que me tratou com uma frieza inexplicável. Só mais tarde, em novo encontro com essa amiga, ela me explicou que a reacção dele tinha uma justificação. É que eu era a sósia perfeita de uma antiga namorada e ele ficara perturbado com essa semelhança. Tão perfeita sósia que, pasme-se, até usávamos o mesmo perfume. Naturalmente, decidi nesse instante mudar de perfume. Por mim, a história acabaria ali. Mas nos anos seguintes os relatos multiplicaram-se. “Pensei mesmo que eras tu!”, “Parecem gémeas!”, “São iguaizinhas”.

Depois disto, fui obrigada a concluir que tenho uma dupla. [Read more…]

Bichos-carpinteiros

©CR

©CR

Vou pouco a “eventos sociais”, pelo menos àqueles que têm muita visibilidade, presença da comunicação social e de figuras ditas públicas. Há tempos, porém, fui a um debate cujo tema me interessava e no qual participavam um ou dois nomes mais ou menos sonantes. A sala era ampla e como eu não sabia se teria tempo para assistir até ao fim, sentei-me numa das últimas filas, para poder escapulir-me sem dar demasiado nas vistas. Tinha chegado cedo e tocava-me esperar.

As pessoas sem importância nenhuma, como eu, sentavam-se onde escolhiam sentar-se, ou onde ainda encontravam sítio, e aguardavam com serenidade. Relíamos o programa do evento, conversávamos com quem estava ao lado, íamos espreitando o relógio. Começaram, então, a aparecer os aspirantes. É uma gente irrequieta e a inquietude começa-lhes logo na escolha da cadeira. Querem sentar-se à frente, perto da mesa dos oradores, mas também querem sentar-se num bom ângulo para as câmaras, se as houver, e não querem estar longe da porta por onde hão-de entrar ilustres. E pode ser difícil conseguir tudo isto numa cadeira só. [Read more…]

O estranho caso do ambientador

Conta-me o A. que leva dias convencido de que foi ele a estragar a sonda Schiaparelli. É preciso que vos diga que o meu amigo A. é um neurótico que cede com frequência à paranóia, mas a quem efectivamente acontecem coisas invulgares.

Levava dias enfiado em casa a experimentar um brinquedo novo, uma coluna de som pequenina e discreta, com aspecto de perfume ambientador, à qual ele ditava ordens e que respondia apagando as luzes do corredor ou ligando a máquina de lavar roupa, conforme o que ele mandasse. A coluna, explicou-me ele, precisa de ser calibrada, coisa que só acontece falando muito com ela e deixando que ela se vá enganando, ligando agora a máquina do café em vez da secadora, fazendo tocar o alarme de casa em vez de ligar o rádio. Explicou-me tudo com paciência, como se também eu precisasse desse tempo para calibrar-me e ser capaz de perceber o que aí vinha. Perguntei-lhe se a coluna estava ligada. Estava. Tinha de estar. Quanto mais nos ouvisse melhor seria capaz de perceber as distintas modulações da voz humana. [Read more…]

Piratas

Não vai há muito que conheci um pirata. Entrou na tasca com um papagaio ao ombro, pediu uma sandes de panado ao balcão, foi sentar-se com ela na mesa ao pé da porta, e o papagaio saltou-lhe do ombro para a mesa e debicou o pão até à última migalha. Uma turista, que parecia ter entrado ali por engano mas foi ficando, pediu ao empregado, num português de dicionário de conversação, que fotografasse a cena porque ela tinha vergonha de aproximar-se. Passou-lhe para a mão um descomunal telefone cor-de-rosa e ele, muito castiço, fez de conta que não percebeu.

– Quer que fotografe quem?

Ela apontou para o papagaio.

– Ah, bom. É que o dono é feio como o caralho.

Ela não percebeu, quem estava achou por bem não traduzir, o pirata não se deu por aludido, e o papagaio espreguiçou uma pata de cada vez, limpou o bico às penas do peito, e voltou para a câmara o seu melhor perfil. [Read more…]

Afecto não solicitado, aqui não, obrigado

Urge a criação de um Estatuto de Objector de Consciência dos Afectos para proteger o cidadão de manifestações indesejadas por parte do presidente da República.

Morrinha

©Carla Olas

Quando começamos a subir o monte, aparecem os caçadores. Dois rapazes, com coletes militares. Sobem para uma pedra para que os vejamos, de espingarda ao ombro, estátuas desengonçadas a posar para os forasteiros. Costumam andar aos pares, acompanhados por três ou quatro cães, fazem ruído e assustam os bichos, mas raramente lhes acertam. Passam o domingo no monte, “andam entretidos”, como dizem as mães, com as espingardas de segunda mão e os camuflados. Seguem-nos com os olhos, sem disfarçar, quando passamos, e levantam bem alto o cano da espingarda para que os admiremos. Poderia um impulso infantil levá-los a apontar a arma na nossa direcção e disparar, só para ver se nos acertam, só para ver como caímos. As coisas que nos passam pela cabeça. (Uma vez, um homem de quem todos gostavam, o santo da vizinhança, de bochechas redondas e sorriso beatífico, levantou os olhos para o céu onde passava um avião, e com toda a naturalidade confessou que gostaria de vê-lo cair. A esse e a todos os que via passar.) Mas os jovens caçadores contêm-se, e passámos incólumes.  [Read more…]

Histórias reais – Uma proposta irrecusável

É pouco provável que algum de vós tenha conhecido o Mocambo. Fechou portas em 1958, depois de década e meia de glória no esplendoroso Sunset Boulevard, onde os argumentistas fracassados acabam a boiar nas piscinas. Com a sua decoração carregada de estereótipos de uma América do Sul de caricatura, e as paredes cobertas de jaulas de vidro com papagaios, catatuas, e pombos, devia ser um desses lugares em que tudo é genuinamente postiço. Ver e ser visto no Mocambo era um imperativo para as estrelas da época e nenhuma falhava. E actuar no Mocambo era o empurrão necessário para qualquer carreira musical. Poucos eram, porém, os artistas negros que conseguiam um contrato, numa época em que a segregação racial ainda era a norma.

Impunha-se, portanto, jogar uma carta alta para que uma cantora negra pudesse actuar no Mocambo. Foi necessário que a sua amiga e admiradora fizesse ao dono do clube uma proposta irrecusável. Se ele contratasse certa cantora, a quem apenas a mais preconceituosa burrice poderia cerrar portas, ela, a sua amiga e admiradora, estaria todas as noites na fila da frente do Mocambo, sorriria para as câmaras dos fotógrafos que não deixariam de seguir-lhe os passos e com isso faria ao clube uma publicidade tão esplendorosa que nem o Mocambo poderia desdenhar. [Read more…]

Ninguém comparece ao meu rendez-vous

Assim de repente, lembro-me de quatro ou cinco malucos que desapareceram da cidade. Demoramos tempo a dar pela falta deles, só os vemos quando calha, mas sabemos quem são, que tipo de maluqueira é a sua, qual a melhor forma de tratá-los. Por exemplo, há dois que andam sempre a correr. Um com aspecto de corredor (perdão: runner) profissional, roupa desportiva, todo apetrechado, mas quando se olha mais de perto vê-se que a roupa está gasta de tanto vento e chuva que apanha, a faixa fluorescente à volta da cabeça é claramente excessiva, e a expressão dos seus olhos é de quem está para lá de Marraquexe. O outro, um velhote que suspeito sofrer de Tourette, sempre muito inquieto, o rosto convulso, sempre a correr como quem vai salvar os bens de uma casa em chamas, dá aflição vê-lo. Não sei que será feito deles. [Read more…]

Bravo, Manuel Luís Goucha!

Exemplar.

Ovos de serpente

O governo nazi não começou por mandar judeus para campos de concentração e câmaras de gás. A primeira medida oficial, anunciada em Abril de 1933, foi apelar ao boicote das lojas e comércios que fossem propriedade de judeus. As serpentes levam tempo a incubar.

E a sobretaxa do IRS?

Passos Coelho: “Quando as coisas correrem mal, nós cá estamos para devolver a confiança e a esperança aos portugueses.”

Pobre país, pobre Porto

Um país mais pobre, uma cidade mais desigual.

O bonezinho

À porta do restaurante, deparei-me com uma discussão entre um controlador de estacionamento e um arrumador, ambos muito solenes no exercício das suas funções, à volta de um carro com proprietário ausente. Desde que a Câmara do Porto concessionou o estacionamento a uma empresa privada, as ruas encheram-se de homens e mulheres apetrechados de coletes fluorescentes e com a identificação garrafal, nas costas: CONTROLADOR DE ESTACIONAMENTO. Os arrumadores não desapareceram, antes procuraram adaptar-se aos novos “partners”, como se diz em empreendedorês. Mas o arrumador, pelo menos este, o da discussão, possui por vezes um vínculo tácito com os seus clientes e rapidamente se solidariza com eles contra a figura do controlador. A discussão era toda cheia de salamaleques, porque o arrumador é um moço que está limpo há anos, e tem orgulho em trabalhar só com doutores e engenheiros. Era “o indivíduo” para cá, “a viatura” para lá, “o tiquê de estacionamento” para acolá, com o controlador muito imbuído do seu papel institucional e o arrumador inflado de uma dignidade que não dependia de coletes. Tive pena de não poder almoçar lá fora só para poder acompanhar a discussão. Mas não tinha tempo a perder e era dia de tripas. Já no restaurante, cruzei-me com um velhinho, de saída, mas que logo voltou atrás porque lhe faltava o chapéu. [Read more…]

Imposturices

Sobre o eventual novo imposto, Assunção Cristas afirmou, ontem, no debate quinzenal na Assembleia da República, que “já muita gente deixou de comprar casa, já muita gente deixou de vir para aqui”. Baseou-se em quê para fazer semelhante afirmação? Só ela sabe.

Fez-me lembrar um velho conhecido que juntava uma percentagem a todas as suas opiniões. Dizia: “Cerca de 70% das pessoas gostam de bacalhau.” Ou: “Há aí uns 10% que vão à praia no Inverno”.
No início ainda pensei que ele trabalhava no INE, depois descobri que as estatísticas só o representavam a ele.
Questões ideológicas à parte, um líder partidário com este tipo de discurso não pode ser sério.

Não deixa de ser curioso, por isso, que a Juventude Popular tenha hoje lançado um cartaz com as fotos de Catarina Martins, António Costa e Mariana Mortágua, encimadas pelo título “As Impostoras”. Graçola à parte (a ideia é ridicularizar o primeiro-ministro referindo-se a ele no feminino?), percebe-se onde foi a JP buscar inspiração para o adjectivo. Basta olhar para quem preside o partido.

Cosmos

Certa amiga contava-me, não vai há muito, as suas desventuras numa repartição do Registo Automóvel, para onde partiu, manhã cedo, logo depois do beijo de despedida aos filhos, à porta da escola, sem certezas quanto ao seu retorno. Levou para fazer-lhe companhia na espera o Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac. Passou boa parte do dia a lê-lo, mal sentada num dos bancos de plástico da repartição, e, quanto mais lia, mais se lhe afirmava irrefutável a ideia de que há dois tipos de vida: aquele, na estrada, livre, improvisado, sem regras; e o seu, que impõe a actualização de livretes e a apresentação de actas, certidões, registos vários.

Concordei com ela. E contei-lhe que passo com frequência por uma livraria especializada em economia, finanças, contabilidade e quejandos, e que por vezes me detenho frente à montra, sempre com o mesmo espanto. Enquanto a sonda Huygens da missão Cassini envia as primeiras imagens de Saturno, e o Curiosity anda aos tropeços por Marte, e se decifram os primeiros mistérios do cosmos, e se reconhece a espantosa contracção do espaço onde existe matéria, aqui, no planeta Terra, há quem se dedique a escrever (e quem o compre) o Boletim do Contribuinte. [Read more…]

“E o trono é do charlatão”

chopra
Charlatães e charlatonas que discutem seus assuntos, na travessa dos defuntos, instalados em poltronas. Foram logo estes versos que me ocorreram quando li hoje, na imprensa nacional, um artigo sobre o guru Deepak Chopra. A este, conheço-o dos títulos sempre muito bem posicionados nos escaparates das livrarias comerciais. Tanto quanto percebi, é um cozinhado de new age com ecos muito distantes de Katmandu, temperados com física quântica para totós. Vende extraordinariamente bem.

E assim se apresenta perante as audiências, com os seus refulgentes Dolce & Gabanna e os modos seguros de quem está habituado a enfrentar um público que quer acreditar.

E diz, entre outras teorias convenientemente indemonstráveis através do método científico,  que uma das sua pacientes, doente com cancro, se curou seguindo as suas recomendações (é certo que ela não deixou de fazer também quiomioterapia) e que “os pacientes bem-sucedidos aprenderam a motivar a sua própria cura” e ainda que “a razão pela qual nem todos conseguimos levar o processo de cura até ao seu limite tem a ver com o facto de nos mobilizarmos de formas drasticamente diferentes”. O que poderá ser lido, como o faz o repórter David Marçal, que assina a peça, “se morrer de cancro, para Chopra a culpa é sua porque não se mobiliza”. [Read more…]

Passos sabe

Quando Passos Coelho sentencia que Portugal “não precisa de agravamento de impostos” é capaz de ter razão. Afinal, só ele, em 2013, promoveu uma subida do IRS correspondente a 16 vezes a exigida pela troika.

José Rodrigues (1936-2016)

© Fundação José Rodrigues

© Fundação José Rodrigues

A obra e os seus frutos continuarão nas ruas, na Fábrica Social – Fundação José Rodrigues, na Cooperativa Árvore, no Convento de Sanpayo, na Bienal de Vila Nova de Cerveira, entre tantos outros lugares.

Como tantos que algum dia se cruzaram com ele, também eu guardo o esboço de um anjo num guardanapo de papel.

Ao sul

Homem e cão, uma única mancha negra pelo areal, com os banhistas a lançar mão ao saco à sua passagem, a guardar o telemóvel, a carteira com o dinheiro para o almoço, tão inquietante será esse negro no areal dourado? Vieram os miúdos pedir-lhe que soltasse o cão, que o deixasse tomar banho, e o cão queria, via-se que sim, mas respeitava as ordens do dono. O homem caminhou devagar até à água, e então sim, confiou o cão aos miúdos, que nadassem com ele e se agarrassem ao seu dorso negro, golfinho improvável em águas límpidas. [Read more…]

Azul

Histórias reais – Os assassinos cinéfilos

Catherine Lorre tinha 24 anos quando conheceu dois assassinos em série. Eles eram Angelo J. Buono e Kenneth A. Bianchi, dois primos que ficariam conhecidos como os “Estranguladores de Hillside”. De Outubro de 1977 a Fevereiro de 1978, raptaram, violaram e assassinaram dez jovens mulheres, em Los Angeles.

Certa noite, cruzaram-se com Catherine. Ela ia a pé, eles pararam o carro e abordaram-na. Mostraram-lhe distintivos falsos da polícia, quiseram ver a identificação dela. Catherine trazia na carteira uma foto sua, em criança, com o pai. Como os assassinos viriam a confessar à polícia, quando viram que a rapariga era filha de Peter Lorre, o assassino de crianças de “M”, o clássico de Fritz Lang, o vilão perturbado e perturbador de tantas histórias, deixaram-na ir. Admiravam tanto o pai que não conseguiram matar a filha. Tanto quanto se sabe, foi a única mulher a escapar aos assassinos. [Read more…]

Isso agora (também) não interessa nada

A proposta que isentou do IMI as famílias com rendimentos brutos anuais até 11.560 euros foi aprovada por todos os partidos, excepto PSD e CDS, aquando da votação do OE2016.

Isso agora não interessa nada

Na votação do OE2016, o PSD foi o único partido que não aprovou a descida da taxa máxima do IMI. Absteve-se.

Pitões das Júnias

pj

Passe de letra

passe de letra

Ando a treinar para fazer um passe de letra. Nunca tive jeito para jogar com os pés, mas enamorei-me da ideia de fazer um passe assim, todo ele artifício. Acertar na bola é o menos, difícil é dar-lhe com a força certa e fazê-la tomar a direcção que queremos. O normal é que o passe saia frouxo e sem rumo. Um passe de letra perfeito pode exigir uma vida inteira de treino. Bem, exagero, é certo, mas pode ser projecto a longo prazo. Porque um passe de letra – inesperado, harmonioso, cheio de graça – só se fará com uma inspiração divina (e provavelmente irrepetível) ou com horas de trabalho, passes toscos, joelhos doridos, um mau jeito no calcanhar. Até ao momento em que enfim se fundem talento e prática e o passe sai exemplar, tão falsamente espontâneo que qualquer um poderá achar-se capaz de repeti-lo. É nisso que acredito. Ainda não cheguei lá, mas vou treinando. [Read more…]

Pergunta ao Prof. Marcelo

Quanto tempo necessita um presidente da República de aparecer e falar (quase) ininterruptamente para que se deixe de fazer-lhe caso?

Elisabeth, Dallas, Geni

«Stagecoach" (1939)

«Stagecoach” (1939)

Certa mãe de um adolescente queixava-se a uma amiga que, para chegar à sua nova escola secundária, o filho tem agora de passar por uma rua onde há senhoras. “Daquelas. Sabes? Das de má vida.” E que as senhoras não se metem com o rapaz, mas dão mau aspecto à rua. Carregava muito na palavra “senhoras” e fazia um trejeito amargo com os lábios para que se percebesse que dizia “senhoras” para mostrar que ela o era, as outras é que não.

A amiga solidarizava-se com aquela angústia. Realmente. Nem devia ser permitido tão próximo de uma escola. Deviam estar lá num bairro delas, como na Holanda. Sabes que na Holanda é assim, explicava, elas estão proibidas de sair dali. Têm cada uma casinha, com uma lanterna à janela, podem ir para a montra, para se mostrarem, mas não podem sair dali. Era o que faltava andar a rondar as escolas, isso é que era bom. Ia logo tudo para o xilindró. [Read more…]

Celofane

Karp Lykov e a sua filha Agafia, vestidos com as roupas oferecidas pelos membros da expedição de geólogos.

Karp Lykov e a sua filha Agafia, vestidos com as roupas oferecidas pelos membros da expedição.

 

A família Lykov, descoberta por uma expedição de geológos, em 1978, vivia na taiga siberiana há quatro décadas, sem nada saber do mundo, sem avistar qualquer outro ser humano que não um dos seis membros da família, sem paredes de tijolo, sem telhado que repelisse a chuva, sem electricidade, sem canalizações, sem sapatos dignos desse nome, sem cobertores, sem panelas, sem médicos, sem escola, sem notícias do mundo, sempre em risco de morrer de fome ou de qualquer doença que a medicina há muito houvesse domesticado. Viviam numa espécie de bolha, suspensa do tempo, isolada no espaço, uma vida de agruras ancestrais. [Read more…]

O país do “mas”

Numa reportagem sobre o Simplex nos centros de saúde, ouvi duas admiráveis expressões ditas por dois cidadãos portugueses:

“Isto está a ficar um bocadinho no século XXI” e “Tenho de andar nos médicos”.

Parece-me que algumas das características mais importantes da portugalidade se reúnem nestas duas frases. Por um lado, está o entusiasmo moderado. Sim, há avanços, inegavelmente há avanços, o português reconhece-os, mas desconfia do seu alcance, mantém sempre uma reserva de cepticismo, e o máximo que pode reconhecer, em Maio de 2016, é que se alcançou “um bocadinho” de século XXI. Porque o português sabe que o avanço brilha, o avanço refulge, mas o avanço é enganador. E, a qualquer momento, o português inflamado pela miragem do Simplex tecnológico, baterá com os dentes todos num demolidor “estou sem sistema” ou num impreciso “a impressora está desfigurada”, que o fará retroceder ao passado dos requerimentos, dos P1s, da palavrinha à senhora doutora, da chamadinha, do “ela não me está a atender”, do “volte para a semana”. [Read more…]