Cai a Carmo e a Trindade

Confesso que tenho uma certa atração pelo abismo e por situações dignas de novela, mesmo quando acontecem comigo. Isso faz com que me divirta com coisas inúteis como, por exemplo, todo o filme à volta da Carmo Afonso. Gosto das piadas fáceis sobre a sua hipocrisia, as referências ao segundo olhar, gosto de ver a felicidade nos olhos das pessoas de direita ao apontar o dedo sem saber bem porquê e também de ver uma defesa acérrima por parte daqueles que estariam a propor uma tortura chinesa se se tratasse de uma pessoa de direita. Bem, parece que a Carmo Afonso fazia parte de uma sociedade que atuava na área do Alojamento Local e depois andou a vendê–la a israelitas. Não sei até que ponto é verdade, até porque não me interessa. O que me interessa é que este caso mostra-nos algumas evidências que são muito mais nefastas do que uma possível incoerência da Carmo Afonso, que, no máximo, é um casinho à portuguesa.

A única coisa que me revolta na Carmo Afonso, além de ser uma autêntica privilegiada que gosta de brincar aos pobres sem saber como, fazendo lembrar aquelas pessoas que gritam golo numa repetição para se sentirem integradas, é achar que terroristas merecem um segundo olhar, enquanto pedia a ilegalização do Chega. Isto era como eu pedir um segundo olhar para as touradas, mas depois lutar pela ilegalização do consumo de carne. Temos animais mal tratados em ambos os casos, mas um é bem menos grave que o outro. De resto, no máximo, estamos perante uma pequena incoerência. Mas vejamos, a Carmo Afonso apenas beneficiou de uma circunstância. Em nenhum momento, poderia mudar o sistema. Mas pode fazê-lo através da sua exposição mediática. Os jogadores de futebol também podem criticar o sportswashing que se vive na Arábia Saudita e, mesmo assim, aceitar contratos milionários. Se um jogador recusa, é bonito, mas no lugar dele vai outro e assim perde uma oportunidade de meter comida na mesa durante gerações. Quem beneficiaria se a Carmo recusasse tais negócios? Provavelmente, outro investidor e a procissão continuaria.

Aqueles que constantemente querem encontrar incoerências nas pessoas mais disruptivas (quer queiramos quer não, a Carmo é) são sempre os que se satisfazem com o sistema atual. E o meu problema não é com a Carmo, mas sim em casos mais graves. Estamos a falar de pessoas que convivem bem com a pobreza alheia, porque deve ser falta de mérito, mas que têm um piripaque quando há algum caso que envolva okupas. Numa altura em que se fala – e bem – tanto de machismo, homofobia, entre outros, devíamos falar mais do classismo que atinge a sociedade da esquerda à direita. Pouco se ouvem os problemas de quem passa por eles, dando-se voz apenas a pessoas com os mesmos contextos, mas que se sentem no direito de falar por todos. Na altura da pandemia, havia um disparate bastante vezes dito: estamos todos no mesmo barco. Epah, não, não estamos. Há quem esteja num iate, há quem esteja num barco de borracha. Quem acha que um barco de borracha se pode transformar num iate porque não se toma o pequeno-almoço fora devia deixar esses delírios para os filmes da Disney.

Esta tendência é cada vez mais comum. Critica-se quem se impõe perante injustiças, concordemos ou não, e critica-se as pessoas por fazerem a sua vida. Qualquer dia, quem critica situações de enorme desigualdade não pode repetir o prato do jantar nenhuma vez, que já está a incorrer numa hipocrisia. São a matilha do choro quando um imposto sobre 0,01p.p. para os mais ricos e acha que isso é sufocante, mas que acha que quem não está na direção de uma empresa é por falta de mérito. Dizem-se liberais. Não o são. São cães de guarda das elites que aguardam pelo dia em que estas abram a porta e peçam para entrar.

Comments

  1. Não gostam? Proíbam, que assinamos por baixo. Até lá, fazemos todos pela vida, que custa a viver, e obriga a fazer o que não se gosta. Há quem lhe chame ser adulto. Aliás, a grande vitória do neo-liberalismo, parabéns, da esquerda burguesa à direita.
    Não tem nada a ver com confundir a liberdade com o bombardeamento e a condenação à fome, enquanto se factura com a venda de droga para os vassalos já comprados para mascarar os fluxos de dinheiro para mais matança e condenação à fome. E corrupção, oh oh.

  2. JOSE AUGUSTO JESUS DUARTE says:

    “Não sei até que ponto é verdade, até porque não me interessa. O que me interessa é que este caso mostra-nos algumas evidências que são muito mais nefastas do que uma possível incoerência da Carmo Afonso, que, no máximo, é um casinho à portuguesa.”
    Infelizmente é este o ponto. Actualmente, já não interessa a verdade ou o apuramento da verdade. O que interessa é construir uma crónica, sobre “um casinho à portuguesa”, sobre alguém que lhe ficou atravessado na garganta, por algum motivo, aos quais nós leitores somos alheios.
    Porque as farpas atiradas: “A única coisa que me revolta na Carmo Afonso, além de ser uma autêntica privilegiada que gosta de brincar aos pobres sem saber como, fazendo lembrar aquelas pessoas que gritam golo numa repetição para se sentirem integradas…” ou “De resto, no máximo, estamos perante uma pequena incoerência. Mas vejamos, a Carmo Afonso apenas beneficiou de uma circunstância”, dão como verdadeiro, ter beneficiado de uma circunstância,
    O Francisco Figueiredo, autor da crónica, apesar de não saber se o facto é verdadeiro ou não, e tão pouco lhe interessar, apenas lhe interessar expôr um caso que nos mostra “algumas evidências que são muito mais nefastas do que uma possível incoerência da Carmo Afonso”, mas que constrói uma crónica baseada no pressuposto de o facto apontado ser verdadeiro e assim expôr as contradições e hipocrisia de Carmo Afonso e de todos aqueles que agem da mesma forma mas quando chega o momento aproveitam as circunstâncias, sobre todas aquelas “pessoas mais disruptivas”, “pessoas que convivem bem com a pobreza alheia”, “pessoas com os mesmos contextos, mas que se sentem no direito de falar por todos.”
    Portanto, se for verdade, justificar-se-á tal crónica. Mas, e se não for? O que é que fica de válido na crónica e das farpas atiradas a Carmo Afonso?
    Porque a crítica a todos aqueles que se aproveitam das circunstância numa evidente contradição e hipocrisia, relativamente ao que dizem defender, perde toda a validade se o facto atribuído a Carmo Afonso, base e justificação desta crónica, se vier a comprovar não ser verdadeiro, isto é, ser falso.

  3. POIS! says:

    Pois resta saber…

    Se este ato da Carmo Afonso não irá atingir, indiretamente de raspão de forma travessa, os arrojados liberal-empreendedores da Uber e da Bolt.

    Precisamente! Os que ainda há não muito tempo fizeram um vigoroso protesto contra a intervenção do Estado e pela reposição imediata do pleno funcionamento da sua querida “mão invisível” (1)

    (1) A fiel forma de alívio das consciências (e não só…) liberais.

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