
Por: Francisco Sousa Barros, front man da Irreversível
Se a cultura é de todos e para todos, porque é que só alguns a recebem em paletes de euros?
Chegamos à primavera/verão e, em conjunto com estas estações, surgem também os cartazes reluzentes que prometem tudo. É a época alta dos festivais e festas populares, onde o dinheiro circula à velocidade de um palco giratório e onde o discurso do “apoio à cultura” se torna mais barulhento que os próprios concertos.
Câmaras municipais abrem cofres, organismos públicos carimbam apoios, empresas estatais fazem fila para associar o nome à “dinamização do território”. Tudo em nome da cultura. Ou melhor, de uma certa ideia de cultura. Aquela que já vem pré-embalada, com riders imensos, cachês inflacionados e a “certeza” de que vai “encher”.
Comissões, produtores, autarquias e agências, continuam a escolher nomes por catálogo, com cachês combinados à porta fechada, sem transparência, sem critério artístico, sem qualquer visão a longo prazo nem qualquer apoio aqueles que tanto fazem, tantas vezes.
… Cachês inflacionados e riders que dariam para pagar um ano inteiro de cultura real, local e viva.
Enquanto isso, centenas de projetos independentes atravessam o país, e o estrangeiro, em carrinhas com mais quilometragem que orçamento, montam o próprio palco, afinam o som sozinhos e tocam para quem resiste a ficar em casa, tudo isto quase sempre por um valor simbólico ou com o que sobrar da bilheteira. Há quem grave discos em casa, edite no formato que for possível e faça tours autogeridas, porque acredita. Não porque tem um contrato.
Mas, no discurso público, continuam a falar de apoio à criação.
Continua-se a vender diversidade e inovação, enquanto se repete o mesmo cartaz com três arranjos diferentes.
Continua-se a encher a boca com “acesso à cultura”, enquanto se deixam salas independentes à míngua e artistas emergentes no esquecimento.
O problema não está em trazer nomes grandes, está em esquecer todos os outros.
O problema não está em investir, está em quem se investe sempre.
O problema não está nas luzes, está na sombra em que se deixa o resto.
O problema está quando se gastam milhares de euros em três noites de festa, ou na semana de qualquer coisa xpto, e existem estruturas culturais que fecham por não conseguirem pagar a renda ou a conta da luz. É preciso não esquecer que muitos que acabam por chegar aos grandes palcos passaram primeiro por todo o processo. E quantos não perdemos durante o processo antes de chegarem a uma rentabilização?
A cultura não se resume ao que enche praças, ruas e parques da cidade com fogo de artifício.
A cultura acontece todos os dias, de forma frágil, invisível, teimosa.
A cultura nasce e vive nas margens, mas não sobrevive sem meios.
E enquanto houver mais dinheiro para o palco principal de uma festa/festival do que para todo um ecossistema de criação local, não nos venham falar em apoio à cultura.
Nós cá continuamos.
A apoiar o que é feito com verdade, com urgência e com muito pouco.
A dar palco a quem não vive da máquina, mas faz da criação o seu ofício.
A amplificar, no que podemos, o que está fora do circuito dourado, mas dentro do que realmente importa.
Há quem prefira ficar no camarote. Nós preferimos estar no chão, onde tudo acontece.
Não é fácil, não é lucrativo, mas é bastante real.
E se a cultura é de todos, então que todos se juntem a defendê-la. Porque um país sem cultura é um espaço vazio.
*
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Quando Cultura é Festa…
…(ora pois!) Vosselência não tem lá lugar.
Mas tem sorte: há funerais todos os dias. Onde Vosselência pode declamar, já que a atmosfera costuma permitir, a sua poesia favorita, em ambiente de profunda seriedade salazaresca:
Rio Lima, porque choras?
Dantes, cantavas! – “Eu ando
A acompanhar, em seu chôro,
Quem acompanhei, cantando –“.
Correia de Oliveira forever!
A anedota escreve-se sozinha nesta contradição transformada em prosa “colt(a)”.
Alguém protestar porque “…se deixam salas independentes à míngua… sem se dar conta da auto-contradição implícita no raciocínio, é simplesmente hilariante.
Quanto à “Cultura Real” e ao “Critério Artístico”, é igualmente risível — para não dizer outra coisa — não perceber que ambos são, por definição, incompatíveis com “apoios”.
Enfim, para não me alongar, o único apoio que poderia eventualmente fazer sentido seria ao “consumidor” de cultura, nunca ao “produtor”, por razões que me parecem óbvias.
Joana Quelhas
Tudo parece óbvio, mas só para a Joaninha. Resta saber se são, na sua mente, para acabar os apoios aos festivais de música ou às festas municipais, por exemplo, mas também a concertos ao ar livre pagos pela câmara, da música popular à clássica, ou exposições. Ou às touradas ou fogos de artifício, sejam à última hora antes de um alerta vermelho ou não – e não é que lá ardeu? Ou, já agora, aumentar os gastos com a protecção de importações, um apoio indirecto.
A anedota escreve-se sozinha nesta contradição transformada em prosa “colt(a)”.
Alguém protestar porque “…se deixam salas independentes à míngua… sem se dar conta da auto-contradição implícita no raciocínio, é simplesmente hilariante.
Quanto à “Cultura Real” e ao “Critério Artístico”, é igualmente risível — para não dizer outra coisa — não perceber que ambos são, por definição, incompatíveis com “apoios”.
Enfim, para não me alongar, o único apoio que poderia eventualmente fazer sentido seria ao “consumidor” de cultura, nunca ao “produtor”, por razões que me parecem óbvias.
Joana Quelhas
Pois…curioso, ó Qwellllhasss!
iria jurar que já vi esta prosa em qualquer lado!
Será plágio? Ou simplesmente incoltura?
Pois, Joaninha. Já o velho Musolini dizia “quando ouço falar de cultura puxo logo da pistola”.
Apoios ao consumidor, bora lá oferecer de borla bilhetes para os concertos do Quim Barreiros.
Valha te um burro aos coices.