O grande negócio da saúde

Os hospitais públicos já não são hospitais, são Unidades Locais de Saúde (ULS).

Algumas ULS. Que locais são estes?

Saí das visitas dos HUC, antigos Hospitais da Universidade de Coimbra, a pensar nisto. Agora, “hospital” é uma instituição privada. Hospital da Luz, Hospital da CUF, Hospital Lusíadas. E por aí fora. Para estes, a taxonomia mantém-se. Aqueles que ainda conhecemos como Hospitais são agora, na terminologia oficial, ULS.

É certo que em alguns casos, como na ULS Amadora / Sintra, a palavra hospital continua por lá. Na comunicação social idem, que é o termo que as pessoas reconhecem. Com o passar do tempo talvez vá ficando menos, sobrando o valioso nome para os privados, que continuam a ser chamados de “hospitais”.

Um detalhe, certamente. Mas as palavras têm valor, como nos poderia dizer George Orwell com a sua Novilíngua de “1984”.

Foi um caminho iniciado em 1999 com Guterres, concluído em 2023 com Costa e que teve a participação de todos os governos ao longo deste período. Um autêntico bloco central.

Entretanto, os tentáculos partidários continuam a estender-se na sociedade. Também diz algo sobre a génese das transformações.

Expresso, 30/12/2025

Aos poucos vemos o desinvestimento no SNS crescer, na mesma medida em que floresce o negócio dos seguros e estabelecimentos de saúde privados. A escolha é deliberada e reforçada com benefícios fiscais às empresas e aos trabalhadores. Agora, diz Montenegro, irão abrir centros de saúde privados – algo inédito. Pagos com dinheiro público, claro está. São opções políticas.

Este deslumbramento desvanecer-se-á quando o privado dominar. É uma história que já vimos contada em outras situações. O negócio dos livros foi dizimado pela Fnac, a bricolage pelo Le Roy Merlin, o pequeno comércio desapareceu com os hipermercados. Só para ilustrar com alguns exemplos. A estratégia é simples. Começa-se com preços competitivos que arruínam a concorrência e depois faz-se o que se quer.

Na saúde, a conivência do Estado é chave, permitindo a degradação dos serviços ao mesmo tempo que cria condições favoráveis para o privado.

Tal como a noite se segue ao dia, cá chegará o tempo em que uma doença grave poderá levar a família à falência devido ao custos a suportar. Será, então, clara a ilusão que os seguros de saúde criaram. Mas, nessa altura, será tarde.

Comments

  1. Nada que mais dívida privada impagável não possa empurrar com a barriga mais um bocadinho.

  2. Júlio santos says:

    A saúde está pela hora da morte no que respeita aos tempos de espera em consultas, exames e tratamentos e, tudo isto, não por falta de investimento nem por falta de recursos humanos, mas apenas, por falta de lideranças capazes de os gerirem. Em democracia todos mandam e ninguém obedece e, assim, o sistema colapsa. O SNS seria a única esperança para quem não tem alternativas a um seguro de saúde ou outro para poderem recorrer aos privados, se bem que estes também são bem limitados nos cuidados que prestam, mas o sistema está podre porque os abutres se aproveitam do seu mau funcionamento para exigirem, o que em condições normais, não seria legítimo obterem. Só um novo 25 de Abril para os pôr a todos na ordem já que, tal como está, não se vai a lado nenhum.

  3. balio says:

    O negócio dos livros foi dizimado pela Fnac

    Qual o problema? Os livros não ficaram mais baratos? É difícil comprá-los? Estão indisponíveis? Há menos livros a ser editados? As respostas a todas estas perguntas são “não”.

  4. balio says:

    o pequeno comércio desapareceu com os hipermercados

    Mas que disparate!!! Há montes de pequeno comércio. Lojas de indianos e de chineses por todo o lado. Todos os meses fecham umas e abrem outras, mas os produtos estão mais disponíveis que nunca. Em especial fruta e vegetais, nunca estiveram tão disponíveis em pqueno comercio como atuamente.

  5. balio says:

    Se muito pequeno comércio desapareceu, isso não se deveu aos maléficos supermercados, mas sim ao envelhecimento dos comerciantes, que se reformaram, e à atualização das rendas, que em muitos casos eram baixíssimas.
    De qualquer forma, não houve nem há problema, porque continua a haver montes de pequeno comércio, só que agora os proprietários, em vez de serem portugueses – os quais se reformaram – são chineses ou outros asiáticos.

  6. Creio, que chegamos á triste conclusão, que querem o neoliberalismo em Portugal! Mas antes devem ir confessar-se ao paróquia da V/freguesia!

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