Quanto tempo deve demorar uma consulta?!

cronometro-300x300O facto de se estar a discutir quanto tempo deve demorar uma consulta médica é, só por si, um péssimo sinal, um de muitos que indicam retrocesso no que se refere aos direitos mais básicos, tudo porque o mundo está dominado pelo gestor-economista-empreendedor-consultor, esse sábio global que tudo ordena sabendo nada e sem a consciência de que nada sabe. É esta mentalidade simplista que reduz o mundo a folhas de cálculos, competitividade, estatísticas e rankings, tudo em nome de um liberalismo, no fundo, muito controlador.

Uma das grandes lutas do século consistirá em recuperar a autonomia das várias áreas de actividade. Um hospital é um hospital é um hospital, uma escola é uma escola é uma escola e uma pessoa é uma é uma pessoa. Se qualquer profissional é competente e sensato até prova em contrário, o tempo de uma consulta médica deve depender de um médico e nunca de uma besta quadrada com um cronómetro na mão.

O impaciente inglês

o-paciente-inglesUm paciente inglês, sujeito às agruras de uma lista de espera, impacientou-se e resolveu operar-se a si mesmo. A história tem mais alguns nós, mas dá que pensar. O pior, para alguns mais tendenciosos, será o facto de o pobre homem ter andado quinze anos inclinado para a esquerda, esperemos que sem cair em extremismos.

Portugal é um país com alguns hábitos estranhos, como, por exemplo, a manutenção, há anos, de épocas de incêndios e de cheias, infelizmente nunca coincidentes. Não sou de ler o Diário da República, mas, diante da constância de fogos estivais e invernais inundações, não me admiraria que as referidas épocas resultassem de decretos. Chegou mesmo a haver um ministro a explanar uma verdadeira teologia da enxurrada, que, para isso, pelo menos, os ministros servem, sejam de Deus ou do Diabo.

Outro hábito estranho é o das listas de espera nos hospitais, numa contradição evidente, já que a espera pode fazer mal à saúde. Se há sítios em que a palavra ‘paciente’ faz sentidos, é nos hospitais.

As listas de espera resultam, certamente, de vários factores e o mercantilismo economês não será um dos menos importantes, com os espécimes que gerem hospitais muito preocupados com competitividade, porque tudo é um campeonato. Os que (se) ocupam (d)o Estado têm, de qualquer modo, tecido o esvaziamento dos hospitais públicos, favorecendo empresas, porque ao lado de uma lista de espera há sempre um hospital privado a abrir. O cidadão que seja desinformado ou desabonado ficará sentado na lista de espera e não faltará muito tempo para que os portugueses, desenrascados como são, passem a tratar da própria saúde, seguindo o exemplo do impaciente inglês. [Read more…]

O médico e o monstro

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O turista prefere fotografar o mundo a vê-lo. Já o gestor-economista-empreendedor-consultor, mundo, nem vê-lo, apenas medi-lo.

O gestor-economista-empreendedor-consultor é omnisciente, detentor do saber universal, explicador-geral de todas as realidades, incluindo a da missa ao padre. Se não acreditam, perguntem-lhe. As relações humanas poderão existir, se puderem ser contabilizadas, medidas, reduzidas a lucro. Serão dispensáveis, se implicarem despesa ou tempo, outra despesa.

Não espanta que o gestor-economista-empreendedor-consultor pense assim, porque foi esse não-pensamento que lhe ensinaram. Não-pensamento, porque não há verdadeiro pensamento sem sentimentos, sem humanidade. Na realidade, o gestor-economista-empreendedor-consultor é um andróide que vive convencido de que é uma pessoa, porque acredita que todas as pessoas se devem comportar como andróides. [Read more…]

São os recursos humanos, estúpidos!

O mundo tem sido invadido por extraterrestres com ar de pessoas sérias. Em vez de serem verdes e terem dedos compridos, usam MBA e gravata. Com a típica habilidade dos marcianos, conseguiram convencer os terráqueos de que era preciso trabalhar mais horas e que havia Estado a mais e que o que era preciso era empreendedorismo, seguros de saúde e competitividade e que é cada um por si e que o mexilhão é mesmo para se lixar.

Em 2005, deu-se, então, início a um processo de desmantelamento dos serviços públicos, ao mesmo tempo que se abre caminho para que os privados ocupem o espaço, com destaque para o que acontece na Saúde.

Independentemente da conversa extraplanetária do coordenador de um relatório sobre os blocos operatórios, com demasiadas alusões a termos como oferta e procura, vale a pena fixar a seguinte ideia: faltam anestesiologistas e enfermeiros. Camilo Lourenço, de Plutão, no entanto, já disse que não há nada melhor do que ter profissionais de saúde a emigrar. É o que dá passar muitas horas dentro de discos voadores.

Da colecção O governo que destrói recursos humanos (6)

S. José sem tratamento para os aneurismas ao fim-de-semana.

Da colecção O governo que destrói recursos humanos (5)

Hospitais atendem cada vez mais grávidas com fome

Da colecção O governo que destrói recursos humanos (4)

Hospital da Feira com tempos de espera inaceitáveis

Da colecção O governo que destrói recursos humanos (2)

Hospitais públicos perdem quase 700 camas num ano e privados ficam com 30% do total

O príncipe da Carpátia

Podemos ter regressado à caridadezinha, se é que alguma vez saímos dela, e exigir aos pobrezinhos que sejam humildes e agradecidos, e não aspirem ao bife mas tão só às papas de cereais marca branca do supermercado, mas ainda há, rejubilemos, gente como o príncipe da Carpátia.

Contaram-me que quando ele chegou à enfermaria, era apenas “o sem-abrigo”, sem documentos nem vontade de falar. Vinha sujo, sujíssimo, a pele já muito morena ainda mais enegrecida pela vida nas ruas. Saltavam-lhe piolhos dos cabelos e pulgas do casacão gigantesco. Assim pequenino, perdido dentro do casacão, deveria parecer alguém a quem uma poção mágica tivesse feito encolher. Mas bastou que lhe servissem a primeira refeição quente para que começasse a revelar ao pequeno mundo hospitalar o seu carácter. [Read more…]

Empreendedorismo é enfermeiros receberem 3,1 euros por hora

Segundo o Diário de Notícias, o Centro Hospitalar do Médio Tejo entrega à empresa Sucesso 24 Horas 1200 euros mensais por cada enfermeiro colocado pela dita empresa. No referido centro hospitalar, estão a trabalhar oito enfermeiros contratados nessas condições.

Os enfermeiros, para receberem 510 euros mensais (que a Sucesso 24 Horas tira dos 1200 que recebe), têm de trabalhar 40 horas por semana.

É uma história edificante: um hospital precisa de enfermeiros. Como, por alguma razão, não os pode contratar, paga 1200 euros a uma empresa para fazer aquilo que o hospital não pode fazer. Por razões fáceis de entender, há enfermeiros dispostos a receber 510 euros para trabalhar 40 horas por semana.

Contas feitas, o Estado gasta 1200 euros por cada enfermeiro e os enfermeiros, profissionais altamente diferenciados, recebem muito abaixo da tabela. A Sucesso 24 Horas ganha 690 euros por cada enfermeiro que consegue contratar para trabalhar por um valor próximo do ordenado mínimo. Convém não esquecer que a Sucesso 24 Horas é uma empresa especializada em prestação de serviços na área da saúde.

Não faltará quem diga que sempre estão melhores do que as enfermeiras que trabalhavam a troco de comida.

Aí está o empreendedorismo em todo o seu esplendor. É claro que estes enfermeiros não fazem greve: deve ser porque não sentem a mínima revolta.

Hospitais da luz vermelha

imagesDaniel Bessa teve medo de assumir, frontalmente, as consequências das suas declarações. Na Universidade de Verão de um dos seus partidos, o ex-ministro da Economia explicou que há demasiadas semelhanças entre um hospital e um hotel para que o primeiro não possa ser, também, o segundo, porque, segundo Bessa, “na saúde, há muito de hotelaria.” E acrescentou: “O que é um hospital? São camas, como um hotel. Tem uma cozinha, como um hotel. Muito do que se passa num hospital é equivalente ao que se passa no turismo.”

Nunca tinha pensado nisso, mas, na realidade, não há nada mais parecido com um turista do que um paciente que passeia, com vagares ociosos, a sua garrafinha de soro, que, conforme as posses, poderá passar a ser gourmet. E haverá turista mais privilegiado do que alguém que, por exemplo, tenha ficado incapaz de comer pelas próprias mãos, podendo, agora, ser alimentado sem se cansar?

Mas Daniel Bessa deveria ter ido mais longe e não soube ver mais além. E se, em vez de “O que é um hospital? São camas, como um hotel!”, saltássemos para fora do quadrado e disséssemos “O que é um hospital? São camas, como um bordel.” [Read more…]

Dar alta a mortos

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O Correio da Manhã inclui na categoria “Insólito” a seguinte notícia:

 

No Hospital de Aveiro, os mortos entram pela Urgência, são sujeitos a triagem e depois de admitidos “têm alta”.

Em primeiro lugar, os mortos são pessoas com direitos, incluindo o de se abster nas eleições. Que os mortos entrem pela Urgência parece-me óbvio, uma vez que é do interesse de todos que não se fique à espera que entrem em decomposição. Parece-me uma medida ainda mais virtuosa do que aquela que elogiei há dois anos. [Read more…]

O campeonato dos hospitais

bigstockphoto_Victory_Podium_-_Winners_In_Go_3778414Para os iluminados pelo espírito empresarialês, o mundo não é mais do que um conglomerado empresarial (holding para os amigos), o que faz com que qualquer instituição seja vista como uma empresa. No fundo, o empresarialismo é uma religião, com os gestores, erigidos em sacerdotes abençoados pela infalibilidade, a anunciarem virtudes cardeais como a concorrência ou a competitividade ou o empreendedorismo.

Sendo uma religião proselítica, é claro que os clérigos tudo fizeram até impor as suas crenças a entidades que não eram empresas, como é o caso das escolas e dos hospitais. Assim, criaram a ilusão de que o sucesso é sempre mensurável: a Igreja fazia proclamações; o empresarialismo anuncia estatísticas, rankings e percentagens. Como sempre aconteceu, a maioria, embrutecida, repete a ladainha.

Mais uma vez, hoje, pude confirmar a omnipresença desta seita. Silvério Cordeiro, Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Gaia/Espinho e antigo director do Centro de Formação Profissional da Indústria da Cortiça, queixava-se de falta de obras e de equipamentos, em entrevista ao Jornal de Notícias. Para o administrador, isso fez com que a instituição perdesse “claramente competitividade face aos hospitais da região.” [Read more…]

O Natal nos Hospitais

A Carla já aqui escreveu – melhor do que eu o faria – sobre pessoas nas salas de espera de hospitais.

Por razões de ordem pessoal, que não chamo para aqui, passei nos últimos meses horas incontáveis em hospitais públicos. Como familiar próximo de enfermos, muito próximo, como utente, como enfermo. Conheci uma realidade que ignorava e quero aqui partilhar: a extraordinária qualidade humana das pessoas que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. Encontrei uma ou outra besta maldisposta, um morcãozinho de passagem aqui ou ali, sem os quais o mundo mundo não seria, mas, na verdade, o que mais cruzei foram pessoas dedicadas, solidárias, com estratégias e sorrisos para lidar com doentes em todas as condições, gente que nos conforta e,  na fragilidade que nos enfermos se instala, transmite esperança e confiança.

Essas pessoas, auxiliares, enfermeiros, copeiros, médicos, são do melhor que nós enquanto sociedade temos e deveriam ser, eles próprios, as estrelas celebradas do Natal dos hospitais.

Outros, passistas, gasparistas, miserabilistas e contabilistas, não entram neste texto, nem como leitores. Desde logo e para começar, porque não o compreenderiam.

Da série ai aguenta, aguenta (13)

Governo vai cortar mil camas nos hospitais do SNS. Num país em que há doentes internados em macas.

Da série ai aguenta, aguenta (7)

Hospitais falidos param cirurgias

De que é que se queixa quem está melhor do que eu?

O portuguesinho é um português pequenino e isso vê-se não só pelo diminutivo. Uma das características do portuguesinho consiste em desvalorizar o sofrimento de quem sofre menos do que ele, o portuguesinho. O portuguesinho que fracturou ambas as pernas ri-se com desprezo daquele que geme a dor de ter partido apenas uma. Se o portuguesinho ganha quinhentos euros, nunca perceberá de que se queixa o outro que ganha seiscentos.

Não sei quantos portuguesinhos existem em Portugal, porque a sua existência é oscilante. Qualquer um de nós, por muito português que seja, passa por momentos em que é portuguesinho, invejando a infelicidade alheia, porque, vista daqui, até parece felicidade. [Read more…]

Há mortos a menos

“É doce e decente morrer pela pátria.”
Horácio, Odes, III.2.13

O governo já deu vários sinais de que quer contribuir para que haja mais portugueses a morrer, o que é coerente com o incentivo à emigração, já que partir é morrer um pouco.

Que os doentes que insistem em permanecer vivos, na Guarda, sejam obrigados a partilhar o seu espaço ainda vital com os falecidos parece-me uma boa medida. Deste modo, o doente terá ocasião de apreciar as vantagens de se ser cadáver: na realidade, haverá melhor analgésico do que a morte? [Read more…]

Cromo do Dia: Ministério da Saúde e Hospitais

O cromo de hoje é triste e não adianta estar com trocadilhos humorísticos ou apontamentos caricatos. Seja porque houve desinvestimento nos transplantes (Paulo Macedo, ministro da saúde), seja porque os hospitais se consideram insuficientemente pagos, a lista de pacientes à espera de transplante de orgãos não pára de aumentar e estes não cessam de diminuir, com um número indeterminado de mortos por conta desta situação.transplantes.

Já não se trata de empobrecer o país em nome da “economia futura”, de emagrecer o nível de vida da população, ou de cortar no Natal e nas férias. Aqui a diferença é entre a vida e a morte. E isso povo nenhum devia tolerar.

a saúde em Portugal

no nosso país todos os hospitais são velhos,estreitos e sem recusrsos

No meu entender, no nosso país temos, pelos menos, três problemas: a educação, a crise financeira e o atendimento da saúde pública.

A educação tem recebido pouca ajuda do Estado para organizar Bibliotecas, criar campos desportivos ou convidar pessoas sábias, fora do recinto estudantil, para suplementar o que sempre se ensina. Já estou farto, nos meus 50 anos de docência, de aceitar convites para falar em escolas, colégios secundários ou universidades. Mas, como o povo merece, nunca disse que não e sempre apareci. Apenas começava a falar, o cansaço desaparecia, passava a ser era para mim um grande prazer, apenas compensado pelos diálogos estabelecidos com estudantes e a minha pessoa. Costumava ir às escolas com menos alunos, até que a brilhante ideia de juntar sítios de estudos, apareceu, foi aprovado e os aglomerados escolares passaram a ser um sucesso, sobre o qual já tenho escrito e não vou repetir. [Read more…]

Chamar a isto um governo é boa vontade…

Diz o Publico :

 

A Jornalista Ângela Silva resumiu bem a situação ao comentar na Rádio Renascença "Assistimos atónitos a um governo que decidiu desmentir-se a si próprio. A avaliação dos professores era para manter, mas já caiu. As taxas moderadoras não podiam acabar nos internamentos e cirurgias, mas já acabaram.O enriquecimento ílicito não podia ser crime, mas afinal vai ser…Chamar a isto um governo é boa vontade"

 

Aventado a Francisco Sarsfield Cabral