ANDRÉ VENTURA ARRASA QUEM APOIA DITADURAS

As relações entre Portugal e a Venezuela esfriaram há alguns anos. Mas não passaram de prazo de validade.

Em 2013, depois da morte de Hugo Chávez – já habituado aos botões de rosa que Sócrates lhe fazia -, Nicolás Maduro assumiu a presidência venezuelana e logo tratou de tentar estreitar as relações entre o seu país e a Europa. Como seria de esperar, Portugal, este país tão forte na letra e tão fraco na acção, estava na linha da frente.

Numa visita à Europa, em Junho de 2013, Maduro aterrava em Portugal. Tinha à sua espera uma comitiva sedenta de negociatas para mascarar as trapalhadas dos cortes e da perda de direitos. Portugal não era novo nas andanças; as relações com o regime venezuelano vinham de trás, com gigajogas à mistura, as relações com a Rússia e com a China viam dias resplandecentes e Angola era uma maravilha para o Estado português.

Recebido pelo primeiro-ministro de então, Pedro Passos Coelho, que resumiu as relações de Portugal com a Venezuela da seguinte forma:

“Não é por de mais dizer que as relações políticas entre Portugal e a Venezuela são excelentes. A visita do Presidente Maduro, incluída na sua primeira deslocação à Europa, é demonstrativa da vontade em aprofundar a parceria existente entre os dois países, fundada numa sólida base de confiança, amizade e compreensão mútuas”, considerou Passos Coelho, numa intervenção de menos de dez minutos.”

Em 2013 a Venezuela não era o paraíso do voto livre, das liberdades civis e da prosperidade do seu povo. Pelo contrário: já era um regime sanguinário que condenava milhares dos seus cidadãos à fome e à miséria. Mas isso não interessava nada, até porque havia negócios para fechar e o povo não percebe nada de trocas comerciais. Afinal, só quem for muito retorcido é que pode achar que é contraditório dizermo-nos muito defensores da democracia e da liberdade, ao mesmo tempo que negociamos com ditadores psicopatas e lhes apertamos a mão. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, obviamente. O meu vizinho bate na mulher, mas vende frangos para fora.

Passos Coelho não louvou as relações comerciais entre Portugal e a Venezuela, somente. Decidiu que era boa ideia afirmar que Portugal e Venezuela estavam unidos… politicamente. Em quê? Eu sei: de 2011 a 2013, as políticas neo-liberais impostas pela Troika e levadas ao extremo pelo (des)governo de então, também condenaram milhares de portugueses à fome e à pobreza. E o primeiro-ministro, já com o seu ar de autocrata de Massamá (que hoje, quando aparece, estrebucha como se apertar a mão a déspotas lhe tivesse infectado o espírito), mandou os portugueses emigrar. Certamente, alguns terão acabado na Venezuela. Um orgulho político.

“Confiança. Amizade mútua. Compreensão”. Como? Em 2009, já a Humans Rights Watch denunciava a perseguição política naquele país sul-americano. Talvez a Passos Coelho não lhe interessasse de sobremaneira os direitos dos humanos. De 2009 a 2015, já existiam detenções e condenações indiscriminadas de activistas, cidadãos e líderes estudantis, por simplesmente se oporem ao governo. Em 2014, mais de 3300 pessoas foram detidas na Venezuela durante manifestações contra o regime. A instrumentalização da justiça, o uso aleatório de prisões e detenções preventivas, etc. Tudo era público.

O primeiro-ministro de então desejava, com convicção, o seguinte:

“Senhor Presidente, foi um prazer tê-lo, bem como a toda a sua comitiva governamental, em Lisboa. Volte mais vezes, com amizade e confiança”.”

Nesta altura, André Ventura era militante do PSD. Um orgulhoso militante. O homem sério e íntegro que é veio a público rasgar as vestes contra Pedro Passos Coelho e a sua anuência em receber ditadores comunistas na nossa Pátria amada… só que não. Ventura era um irrelevante jurista, que escrevia livros homoeróticos e comentava a bola na CMTV. Não lhe interessavam o ditador Maduro ou o comunismo em Cuba. O único ditador de que gostava chamava-se Luís Filipe Vieira e as únicas críticas que lhe conhecíamos eram as de que devia ter sido assinalado penálti aos sete minutos de jogo na área do Desportivo das Aves e que o Carlos Xistra era o equivalente na arbitragem a Lula da Silva. Mais ou menos isto.

Agora, Ventura levanta-se do alto da sua moral para criticar quem não se revê na invasão de países para depor regimes, atropelando qualquer lei internacional, apoiando e incentivando a que os EUA e os seus autocratas favoritos façam o que bem lhes apeteça, se isso significa depor os autocratas de que não gosta. Sobre Passos Coelho e os felácios a Nicolás Maduro, nunca lhe conhecemos um “ai”. E faz sentido…

Quem se traveste todos os dias, pode usar laranja às Segundas, azul às Quartas e rosa às Quintas, apertar a mão a déspotas às Sextas, criticar esses mesmos déspotas com quem fechou negócios aos Sábados e descansar ao Domingo.

A cara dos sem moral é sempre a mesma: imbuída de uma moral artificial que quem está atento e nunca defendeu ditaduras e muito menos acordos comerciais com estas (o que dizer de amizades… políticas com ditaduras), nunca deixará passar.

Porque na chicana do presente que nos condena a um futuro sem perspectivas, importa sempre recordar quem, no passado, estava “na boa” desde que o dinheiro continuasse a entrar.

Borrem a cara.

Comments

  1. Política estrangeira com base em propaganda do paizinho e ideologia supremacista do paraíso só pode dar num regime de salganhada em que todos se contradizem e ninguém tem ideias para mais que o lento declínio.
    Mas tudo bem, o paraíso da eurolândia há-de encontrar regimes compatíveis para ter alguma relação comercial.. como esses faróis da liberdade nos EUA, RU, “Israel” ou Síria.

  2. Anonimo says:

    Exactamente

  3. Espero em seguida pelas sentidas lágrimas pelos pacíficos protestos com atentados terroristas no Irão, sendo que a Mossad já publica que lhes paga.

  4. Whale project says:

    Espero também que o Maio publique quem pagou as sondagens que davam 70 por cento dos votos ao “mata-curas” Edmundo Gonzalez Urrutia, que continuam a dizer que ganhou as últimas eleições na Venezuela.
    E também que divulgue o lindo curriculum do sujeito, que lhe valeu a alcunha.
    E quanto aos “protestos” no Irão que digam também quais são os democráticos projectos para uma nação de 80 milhões de habitantes.
    Nada menos da repetição do que foi feito contra Mossadegh em 1956. Uma nova monarquia absoluta, sangrenta pois que o traste já prometeu executar todos os actuais dirigentes do país que não conseguirem fugir e quem os apoiar, dirigida por um filho do passado dos cornos deposto em 1979.
    E vao chamar ditador ao Diabo que os carregue. Se Maduro não tivesse aceite, por pressão de protestos violentos, antecipar actos eleitorais estaria a cumprir o segundo mandato no ano que vem.
    O mesmo aconteceu com Chavez que até enfrentou um referendo a meio do primeiro mandato.
    Maduro e um prisioneiro raptado e neste momento a ser torturado por um dos regimes carcerários mais cruéis do mundo.
    Alguém sabe o que e uma cela solidária nos Estados Unidos? Sim meus meninos, e mesmo como nos filmes.
    E quanto a Bukele ter conseguido mudar a lei para se poder candidatar as vezes que quiser? Quando em El salvador só era permitido candidatarem se uma vez?
    Nenhum destes grandes defensores da democracia tem nada a dizer?
    Tenham vergonha no focinho ou então vão ver se o mar da um cardume de tubarões brancos cheios de larica.

    • As sondagens foram “compradas” à mesma máquina que declarou semelhante para Trump e Bolsonaro, seguidas da mesmas tentativas de adulterar o que era contado e como, ou como poderia ser anulado. Como é num país mais pobre e mais mestiço, os nossos democratas estão bem com isso.

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