A Papoila Saltitante

O famoso homem é meu vizinho. De volta e meia, vejo-o ao sábado de manhã, a caminhar com duas sacadas de jornais. Uma em cada mão. Dirige-se para casa, cheio de informação daqui e de acolá, e disto e daquilo. Antes esteve sentado no pequeno café, frequentado por gente muito formal e vazia de conteúdo. Saúdam-no com reverência, sobretudo elas, com vozes melífluas e gestos curvilíneos. O cabotino sente-se idolatrado. Crê ser génio. Agradece, de ar babado, com sorriso de fingimento, as manifestações bacocas de popularidade.

Tem o peito enfunado de presunções místicas. Intitula-se professor doutor e é apenas licenciado. E assim consegue ser tratado por ‘Senhor Professor’. Tem escasso mérito de cidadania, mas é um mestre do saber viver neste país de abundante acefalia. Consegue atingir e desempenhar cargos tão destacados quanto ecléticos.

Pelo comportamento exibido, uns quantos, dos poucos que ouço, tratam-no por ‘melga’. Outros dizem que é a ‘Papoila Saltitante’, em alusão implícita à preferência clubista. Prefiro este último epíteto. O acasalamento do símbolo da flor campestre e vermelha com a procura de se juntar ao poder – e de bons resultados remuneratórios – dão todo o sentido à alcunha.

Tal ‘Papoila Saltitante’ é o equivalente, em imagens televisivas, a um emplastro de luxo. É, pois, o assimétrico do emplastro anónimo, de olhar e sorrisos esquizofrénicos a mostrar-se nas costas dos repórteres desportivos de TV, como réplica psiquiátrica a Jack Nicholson, em ‘Voando sobre um Ninho de Cucos’.

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