Bonecos


Os vários canais de televisão, entre outras patologias, obedecem, de há uns meses para cá, ao princípio ” os telespectadores são, em geral, nabos”. Logo, querem sempre ver bonecos a mexer, mesmo que só longinquamente tenham a ver com a notícia que se está a ler. Os noticiaristas televisivos devem ter, por estes tempos, assistido a inúmeros workshops – como se diz agora em português – onde “formadores” lhes explicam que a malta é básica, sofre de distúrbio de défice de atenção e sem imagens não vai lá. Assim, toca a pôr no ar seja o que for que haja lá pelas prateleiras, qualquer coisa que ilustre o que o pivô está a debitar. O jogo de futebol que acompanha a notícia do ocorrido ontem já foi há um ano? Ninguém vai notar. É preciso noticiar um naufrágio e não há reportagem? Avança um parecido, de há quatro anos. E um incêndio é sempre semelhante com outro incêndio, logo, enquanto não há repórter no local a fazer perguntas tolas, vai-se ao arquivo. Aquele partido reuniu a sua direcção e não mandamos lá ninguém? Usam-se imagens antigas de um reunião semelhante, ocorrida anos antes, mesmo que em grandes planos apareçam pessoas já falecidas.
E assim, com a falta de profissionalismo dos indigentes, a irresponsabilidade dos idiotas, a crueldade dos sociopatas, eles vão-nos “informando”. Verdade e decência, não têm. Mas bonecada nunca falta.

Marcelo, de comentador a Presidente:

Há quantos anos anda o Senhor a dar palpites sobre os incêndios?

Telejornais

são, de repente, business schools e cada pivot um PhD em finanças públicas. Tudo pelo preço da TDT ou uma assinatura de TV Cabo.
Perdemos totalmente a noção do ridículo. Os pássaros riem, nos galhos.

Bruno Santos

Telemissão

Nestes dias, os vários canais de televisão fazem uma espécie de sprint de contra-informação que, prevê-se, se irá ainda acentuando até à próxima semana. Todos os caminhos argumentativos servem, mesmo aqueles que ofendem a inteligência de qualquer pessoa de bom senso. É que eles não procuram o bom senso nem a reflexão séria. Procuram a confusão, o melodrama reles. Atiram como pedras todas as calúnias e fantasmas que mobilizem imbecis. Qual discussão democrática, qual ponderação de ideias, qual quê. São jogadores que apostam a cave e esperam ganhar com batota. Custe o que custar, custe a quem custar. A direita mais golpista acantona-se nas televisões e prepara-se para fazer delas a sua trincheira de vigarice política. Sente-se em missão.
Hoje, quem ainda tinha alguma consideração – em muitos casos residual, eu sei – por gente como Luís Amado, Luís Delgado, Gomes Ferreira, Nicolau Santos – para citar só os que vi nesta hora e sem referir protagonistas partidários, porque não é sobretudo por estes que passa a jogada – espero que tenha ficado esclarecido.  [Read more…]

O Zé é jornalista?

A Sarah já fez referência ao assunto. Vale a pena ver o vídeo. De acordo com o Zé Rodrigues dos Santos, o Zé Rodrigues dos Santos é jornalista.

Mais abaixo, fica a opinião do Carlos Vaz Marques.

Se o José Rodrigues dos Santos é jornalista, eu quero ser operário metalúrgico. Se o José Rodrigues dos Santos é escritor, eu quero ser analfabeto. Se o José Rodrigues dos Santos é português, eu quero ser espanhol.
Disse ontem José Rodrigues dos Santos no lançamento – reles – de uma peça sobre os novos deputados eleitos: “O novo Parlamento terá muitas caras novas; o deputado mais velho [Alexandre Quintanilha, gay assumido] tem 70 anos e foi eleito – ou eleita – pelo PS.”

Os tele-psicossociólogos (ou, como diz a Júlia, os especialistas)

Sabemos todos da prudência que nos deve acompanhar quando usamos armas pesadas e de pontaria duvidosa como as Ciências Sociais. Porém, ai de nós, elas parecem contagiar muita gente com a convicção de que tais saberes se podem usar sem que deles se tenha grande conhecimento, isto é, não faltam os “especialistas” que, tendo lido um digest de tretas sobre, por exemplo, Psicologia e Direito, desatem a disparar sentenças que, à falta de verdadeira ciência, se sustentam em dogmas e no senso comum do mais rasteiro. E se sujeitos que tais forem pagos para isso, vale tudo, a coisa transforma-se em espectáculo, numa espécie de feira de freeks muito praticada pelas estações de televisão nos programas da manhã.

Mas és cliente de tais programas, perguntareis vós? Na verdade, não. Mas, infelizmente, não me têm faltado oportunidades para os ver sempre que tenho de passar ocasionais férias nos HUC. A simpatia com que alguns serviços instalam televisões nos quartos tem este preço – tendo a vantagem inopinada de nos testar e consolidar o sistema imunitário. Também em zaps caseiros páro, por vezes espantado, ao ouvir as peremptórias ”análises” supostamente psicossociológicas, dos enérgicos comentadores residentes. A irresponsabilidade, a indigência científica, a falta do mais elementar sentido ético, andam à solta. E não me venham com eventuais currículos lustrosos ou argumentos de autoridade. Quem se sujeita – a troco de uma boa remuneração, claro – a transformar a sua ciência em instrumento de predação pública de verdadeiros problemas humanos – sobretudo se a tais problemas puder ser dado aquele tom berrante que tão bem acompanha as indignações de papelão – não merece a menor consideração. E a entusiástica gritaria com que os pivôs de serviço acompanham estas sessões de banha-da-cobra jurídico-psicossociológica não ajuda nada. Mas, parece, vende bem.

Azar, o Zé julga que é jornalista

A vida é um palco, já dizia o Bardo, transformando-nos a todos em actores. No prolongamento desta imagem dramática, e sem ser original, é possível dizer-se que o mundo é um conjunto de palcos em que desempenhamos papéis diferentes. Não me faz, portanto, confusão que, de copo em riste, entre compinchas, possamos exercer o saudável direito ao disparate, mesmo que seja politicamente incorrecto ou só incorrecto e até desinformado, porque há sítios em que é lícito que  todas as louras sejam burras e todos os alentejanos, preguiçosos. [Read more…]