Os “grandes depósitos”

A União Europeia prepara-se para arrasar Chipre com medidas ainda mais gravosas que aquelas que, há dias, indignaram todas as pessoas decentes. As fronteiras, neste caso, nem são as que separam direita e esquerda. A medida é de uma estupidez insana, qualquer que seja o volume dos depósitos atacados, por razões que, de tão óbvias, me dispenso de enumerar. Todavia, não sei se sou eu que estou a ver coisas, as manobras de comunicação passam por referir até à náusea “os grandes depósitos”, dando à canalhice uma espécie de simulacro de justiça social e tentando despertar a inveja que se recolhe, larvar, em muitos espíritos.

Estas referências aos “grandes depósitos” aparecem misturadas com as que são feitas à oligarquia russa, à lavagem de dinheiros, ao paraíso fiscal (como se o núcleo de poder de UE não estivesse cheio deles – mas são os “bons”, são do norte). E como se unifica isto tudo? Qual é o conceito de milionário com que opera a maioria dos nossos jornalistas e os tartufos políticos? São os depósitos de mais de cem mil euros. Quer dizer: as poupanças de uma vida de uma família de classe média-média (igual a metade do ordenado mensal de alguns dos nossos gestores, uma fracção do que recebem alguns CEO só por serem transferidos, uma semana de ordenado de um bom – mas não dos maiores – jogador de futebol, alguns minutos de lucro de alguns “investidores”, alguns segundos de outros e por aí fora) são consideradas riqueza ao nível dos depósitos de milhares de milhões. [Read more…]