Os “grandes depósitos”

A União Europeia prepara-se para arrasar Chipre com medidas ainda mais gravosas que aquelas que, há dias, indignaram todas as pessoas decentes. As fronteiras, neste caso, nem são as que separam direita e esquerda. A medida é de uma estupidez insana, qualquer que seja o volume dos depósitos atacados, por razões que, de tão óbvias, me dispenso de enumerar. Todavia, não sei se sou eu que estou a ver coisas, as manobras de comunicação passam por referir até à náusea “os grandes depósitos”, dando à canalhice uma espécie de simulacro de justiça social e tentando despertar a inveja que se recolhe, larvar, em muitos espíritos.

Estas referências aos “grandes depósitos” aparecem misturadas com as que são feitas à oligarquia russa, à lavagem de dinheiros, ao paraíso fiscal (como se o núcleo de poder de UE não estivesse cheio deles – mas são os “bons”, são do norte). E como se unifica isto tudo? Qual é o conceito de milionário com que opera a maioria dos nossos jornalistas e os tartufos políticos? São os depósitos de mais de cem mil euros. Quer dizer: as poupanças de uma vida de uma família de classe média-média (igual a metade do ordenado mensal de alguns dos nossos gestores, uma fracção do que recebem alguns CEO só por serem transferidos, uma semana de ordenado de um bom – mas não dos maiores – jogador de futebol, alguns minutos de lucro de alguns “investidores”, alguns segundos de outros e por aí fora) são consideradas riqueza ao nível dos depósitos de milhares de milhões.

E o que se pode comprar com esta suposta fortuna de 100.000 euros? Um pequeno apartamento em Coimbra (um T2, se não for demasiado exigente com as áreas), um carro de gama alta (mas não da mais alta), um relógio de pulso daqueles que se vêem nos braços de alguns afortunados (mas longe de ser dos mais caros), um pequeno quadro de um bom pintor português (mas não se entusiasme, senão não chega nem perto), uma máquina fotográfica de qualidade profissional com duas ou três objectivas(mas tenha cuidado senão o orçamento dispara), uma casinha pequena à beira mar para gozar a reforma (se não for muito esquisito), uma parte (só uma parte) do tratamento de uma doença oncológica se o sistema público de saúde falhar. Mas atenção: se o suposto ricaço que tem os tais 100.000 euros cair nalguma destas tentações, fica liso. Teso. Sem cheta. E é este o padrão de milionário que tanto se agita. Quer dizer: lá se vão tramar os remediados, enquanto os tubarões nadam para águas profundas. E os pobres? Bem, esses já nem entram nas contas.

Comments

  1. Konigvs says:

    100 mil euros é o limiar de pobreza na união europeia.
    Mas se um qualquer cipriota tiver um milhão dividido por dez bancos não fica sem nenhum cêntimo certo? Já diz o povo que aconselha a sensatez nunca meter os ovos todos no mesmo cesto!!


  2. MAIS UMA VEZ VOLTO A DIZER QUE A CULPA DISTO TUDO É DA BANCA E DOS SEUS ARRNAJINHOS CORRUPTOS COM O
    BENEPÁCITO DOS POLÍTICOS E MAGISTRADOS , COQDJU-VADOS COM OUTRAS ORGANIZAÇÕES ESTRANHAS E SE-CRETAS . E , OBVIAMENTE , DOS POVOS , QUE CONTINUAM
    A PACTUAR COM ESTAS MANOBRAS , PARA SE EVIDENCIA-REM E DIZEREM QUE TÊM DINHEIRO NO BANCO , COMO SE
    ISSO FOSSE UM GRANDES STATUS , QUANDO MUITAS VE-ZES O QUE LÁ TÊM NÃO DÁ PARA NADA .
    MAS AS MANIAS E CAGANÇAS PAGAM-SE CARAS .


  3. CONTINUEM COM O PROTECCIOMISMO PARA COM A BANCA QUE VÃO VER AONDE VAMOS PARAR : À MISÉRIA TOTAL ,
    IRRECUPERÁVEL E IRREPARÁVEL .


  4. QUALQUER DIA ATÉ A PELE NOS TIRAM PARA BENEFICIAR O
    DITO SECTOR FINANCEIRO , CORRUPTO E EXPLORADOR , DA BANCA


  5. Com os diabos, ainda não entendi porque raio se insurgem tanto com esta medida.
    Expliquem-me como se eu fosse muito burro, em que medida é mais injusto ou perigoso ir-se mexer nas contas mais recheadas daqueles que legitimamente ou não conseguiram um “pé de meia”, colocado num oportuno paraíso fiscal no Mediterrâneo, do que assaltar despudoradamente os rendimentos do trabalho de toda uma população cuja grande maioria está no limiar da pobreza?
    Para a grande maioria dos cipriotas o facto de taxarem a 40% os depósitos existentes nos bancos da ilha irá ter menos consequências na sua vida do dia a dia que se lhes retirassem dois salários e lhes aumentassem a carga fiscal.
    Vão-me dizer que se violou a confiança depositada na banca enquanto instituição e que a partir de agora quem conseguir aforrar vai pensar duas vezes antes de depositar o seu aforro no banco?
    Pois então eu digo-vos que usem esse dinheiro para comprar propriedades, para fazer remodelações no seu património edificado ou que invistam em áreas da economia real que gerem mais emprego. Com isso estarão a contribuir para o desenvolvimento dos países e a promover uma maior redistribuição da riqueza.

  6. joao riqueto says:

    Mas há uma tábua de salvação; o QCA, 2013-2020.Nós também temos, mas ninguém fala nisso.
    .
    Espero que sobre o de 2007-2013, o sr Sócrates esteja disponível para explicar como foram aplicados mais de 800.000.000(OITOCENTOS MIL MILHÕES) de euros, entregues pela UE.
    Até prova em contrário muito dele foi parar ao paraíso(s). E a culpa é nossa; somos dotados de consciência e não fazemos uso dela. Espero que o sr Sarmento nem tenha medo, do homem sem ela.


  7. Aposto que a Rússia ajoelhará a União das Repúblicas Socialistas Europeias através do aumento do preço do gás, o mais tardar no próximo Inverno, para reaver o saque que o cartel de Bruxelas decretou em Chipre…


  8. … não sei se já entenderam que qualquer “alminha” que tenha mais de € 100.000,- em “cash”, vai passar a depositá-lo em bancos alemães…

    • Konigvs says:

      Não percebo nada de bancos, mas sempre ouvi dizer que dinheiro seguro é no país dos canivetes.
      Os portugueses gostam da Alemanha mas é mais para importar carros usados.

  9. M João says:

    Até que enfim! Não sou só eu que pensa que 100 mil euros não é uma fortuna ….

  10. murphy says:

    Cansa este clima de histeria permanente… Vejamos, não foram as redacções que constantemente passaram ideias como “os bancos é que devem pagar a crise”, ou então, que “os ricos” é deviam suportar a austeridade? Pois bem, quando um País, no caso o Chipre, prefere adoptar medidas que vão nessa linha (10% do património financeiro acima de 100.000 €) afinal parece que esse caminho, em vez de representar uma solução, é sinónimo de caos, de líderes irresponsáveis, blá, blá, blá… diz que é a “Era da Informação”.
    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2013/03/do-jornalismo-histerico.html

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