A bem da economia

Os santos portugueses precisam sempre de milagres ocorridos pela entranja. Pelo que se vê, já somos auto-suficientes em azeite, tomate, frutas sortidas, vinho, legumes. Mas não em milagres. Esses, temos de importar.

Zita recomenda…

Miséria do marketing é chegar ao ponto de pensar que a recomendação – com rosto! – da Zita Seabra faz alguém comprar um produto.

Legendas

A legendagem de filmes – primeiro – e das emissões televisivas – depois- foi uma das raríssimas heranças positivas dos tempos “da outra senhora”. Não que a ditadura tivesse preocupações com a integridade da criação artística, como acontece hoje connosco. Longe disso. A verdade é que a legendagem funcionava – independentemente da sua qualidade – como uma última barreira de censura.

A primeira era a proibição pura e simples, a segunda os cortes – por vezes brutais – e, finalmente, a legendagem. A dois níveis: um primeiro, a adulteração das falas, um segundo decorrente da simples dificuldade, ou impossibilidade, da sua leitura dada a baixíssima literacia da maioria da população. As coisas melhoraram muito depois da queda da ditadura e chegaram a elevados níveis na qualidade de tradução. [Read more…]

​AI !


Vejam como ele se comove! Vejam como ele lamenta “aquelas lindas criancinhas”, enquanto, rastejando, os amigos, lá atrás, fazem contas aos lucros emergentes. Vejam como se esforça por produzir uma piedosa lágrima, como se esforça por criar um esgar de dó, como não consegue evitar uma pequena e jubilosa libertação de urina. Ai que pena que ele tem dos infelizes, ai que sacrifício que representou ter de atacar a Síria por quem seu coração extremoso sofre. Ai como ele lamenta subir na popularidade entre os seus concidadãos, por ter, por eles, atacado um país soberano e derramado o sangue dos humanos alvos. Ai como ele chama, fraternal e desinteressadamente, os seus aliados para o seu lado, exortando-os à cruzada contra os infiéis, juntando as forças às benfasejas e agora abençoadas e perdoadas hostes da AlQaeda e do Daesh que, afinal, não são assim tão maus rapazes. Ai como é bonito ver esta chamada às armas a caminho do supremo prémio do petró…, perdão, do céu! Ai como é comovente, após milhões de anos de evolução e dezenas de milhares anos de história, ver o pináculo do poder da maior potência militar mundial ser ocupado, graças à esclarecida escolha do seu dotado povo, por tão elevada personagem! Ai, como é possível que haja por aí quem não consiga ver a luz que emana deste rosto alaranjado, deste vingador ungido pelo alto!
Numa palavra: AI !!!

Gibraltar é nossa

A patética declaração de Boris Johnson, ministro dos negócios estrangeiros de sua majestade, sobre Gibraltar, dá o tom em que decorre esta tragicomédia. Agitando as louras melenas e fazendo aquele ar que inspiraria, decerto, o grande Jim Henson a produzir o correspondente “muppet”, proclamou um sonoro “Gibraltar é nossa (…) e a decisão sobre o seu futuro cabe ao governo e ao povo Britânico”.

Está bem, ó Boris, será assim. Mas que é um cómico remate no habitual estilo imperial inglês, lá isso é. Lembra-me, já lá vão muitos anos, aquele etilizado compatriota penicheiro que, no rescaldo da nossa descolonização, declarava, naquele tom pomposo que só o bom tintol confere: “levem lá o que quiserem, mas as Berlengas são nossas! Mai’ nada!”.

verdade = ƒ(x),  x ∈ {tempo, espaço}

A solução encontrada para o Novo Banco é questionável? Claro que é. Mas o modo como Montenegro e Cristas abordaram a questão é intelectualmente miserável e eticamente repugnante. Quanto ao grau de amnésia patenteado, trata-se já de um problema médico, pelo que não me vale uma palavra.

Cassandra Vera

A condenação a uma pena de prisão imposta por um tribunal à jovem Cassandra Vera, sob a acusação de os seus comentários sobre a morte, por atentado atribuído à ETA – quando a ETA era guerrilha – , nos idos anos 70, de Carrero Blanco terem um “carácter de descrédito, gozo e escárnio a uma vítima de terrorismo”, é inquietante. Blanco, um brutal ditador fascista, vítima?! Até os autores do atentado foram, depois da democratização de Espanha, amnistiados. E quero ser claro: um ataque a um 1º ministro fascista, isto é, um objectivo politico-militar de uma implacável ditadura – não esqueçamos que Franco, já depois do 25 de Abril português, promoveu fuzilamentos “preventivos” em Espanha – é resistência, é guerrilha, coisa muito diferente de terrorismo.
Não conheço todos os comentários irónicos de Cassandra, se são de bom ou de mau gosto. Sei que foi condenada a uma pena de prisão por delito de opinião. Ainda por cima, por ter má opinião de um tirano.

Assalto ao (nome do) aeroporto

Claro que, quanto ao caricato disparate do aeroporto da Madeira, poderíamos desejar que Cristiano Ronaldo recusasse a honra. Porém, apesar de um génio da bola e um sobredotado em vários aspectos, no fundo é ainda um garoto imaturo e deslumbrado demais para perceber a armadilha que lhe ficará amarrada aos pés. Quanto ao presidente do governo regional da Madeira, Miguel Albuquerque, seria esperar demais vê-lo abdicar do seu rasteiro oportunismo e populismo barato e perceber que um jovem ainda tem muito tempo – e direito – para desgostar – por razões respeitavelmente humanas – quem o homenageia com um cheque de confiança absoluta no futuro. Não é por acaso que gente bem mais sábia que Albuquerque espera pela maturidade ou morte do homenageando para o honrar na toponímia. É porque, na velha tradição positivista, estes homenageados se constituem em referências cívicas e culturais que podem servir de exemplo aos vindouros. Homenagear deste modo após a morte não é sinal de morbidez, mas de sabedoria. Claro que o governante madeirense já refutou esta ideia, debitando as tolices apropriadas ao tema naquele tom modernaço e négigé tão grato aos neo-reaccionários.
Suponho que quem faz o favor de me ler está, neste momento, a pensar em vultos madeirenses de indiscutível grandeza, como Herberto Helder, ou em grandes figuras ligadas à aviação e ciência como Gago Coutinho. Qualquer deles seria mais adequado. Mas duvido que o primeiro desejasse tal honra e o segundo a quisesse vinda de quem vem e, de resto, já tem o seu nome espalhado por toponímia dos quatro cantos do mundo.
Finalmente, já o escrevi aqui, não me parece que os que dão o nome a aeroportos venham a ter uma memória alegre. É que não há boas notícias relacionadas com esses lugares. Só más. E, se tudo corre bem, notícia nenhuma.

Justiça suspensa

O homicida autor do massacre na Freguesia de S. Verissímo, Barcelos, tinha sido, há meses, condenado a três anos de prisão por ter agredido com um ferro, de modo brutal, a sogra e a filha – esta grávida. A violência posta no acto só não foi fatal porque os vizinhos intervieram. Apesar disso, e apesar das ameaças às testemunhas que se recusaram a defender o criminoso, o juíz que, como é habitual e jurisprudência por cá, deve achar essa coisa de violência doméstica é uma modernice, suspendeu a pena, deixando em risco as vítimas – obrigadas a abandonar a região – e as testemunhas. Quer dizer, o confesso assassino deveria, nesta altura, estar preso, cumprindo a pena estabelecida, em vez de andar a matar pessoas. Espero que o/a juiz da causa tenha os pesadelos que merece. E espero, sobretudo, que a justiça no nosso país passe a pesar de outro modo este tipo de crimes .

O vinho, as mulheres e o coiso

A metafísica é coisa complicada, pelo convém respirar fundo – e talvez beber um copo – para nos aventurarmos nas suas profundezas. É que a tese de Jeron Dijsselbloem segundo a qual os habitantes dos países do Sul – nós, portanto – andam de mão estendida à caridade dos povos superiores do Norte por estoirarem a massa toda em mulheres e vinho, levanta sérias perplexidades. É que “os do Sul” só podem ser, por razões que decorrem da mais elementar e hermenêutica, os homens, os varões. Isto porque andam a gastar dinheiro em vinho e mulheres. Para o Coiso, eles são o sujeito, elas e o tintol o objecto. Ora, sendo assim, fica-me a dúvida: o que andam a fazer as nossas compatriotas além de serem objecto da nossa meridional lascívia? Será que elas são ontologicamente diferentes, quiçá superiores a nós? Na verdade, lá dizia lord Byron que, entre os portugueses, as mulheres pareciam pertencer a uma espécie diferente dos homens, já que elas eram bonitas e eles feios. Claro que não se pode excluir a hipótese de algumas delas andarem também a beber uns copos e a gastar numerário com outras mulheres, que isto ou há igualdade ou comem – e bebem…- todos. Mas persiste a dúvida que nos atormente a alma: será que o ranhoso flamengo pensa que o mal é só dos homens sulistas e se propõe resgatar as respectivas mulheres das suas latinas garras? É que sabemos bem o que significa para esta corja “resgatar”.

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Banho turco 

É comovente ver o proto-fascista Erdogan preocupado e, até, indignado com o que ele diz ser a falta de liberdade e democracia nos países da Europa que lhe recusaram espaço para seu número de circo político. Na verdade, a criatura não queria, bondosamente, levar a sua campanha referendária aos seus compatriotas espalhados por esses países. Fosse esse o caso e a oposição turca também se poderia movimentar à vontade sem receio de ser presa ou morta. Erdogan investiu, sobretudo, sobre os países que atravessam processos eleitorais, tentando neles intervir de vários modos, influenciando as decisões políticas dos cidadãos – nomeadamente os de origem turca, mas não só – e procurando caçar a oposição turca exilada ou pressionado os governos desses países para que lhe fizessem o trabalho sujo. Não por acaso, a acusação de a Alemanha ter um regime nazi seguiu-se à exigência – recusada, e bem, pelo governo alemão – de prisão dos “terroristas” turcos residentes na Alemanha que são, do ponto de vista de Erdogan, os opositores ao seu regime, nomeadamente os curdos.
Só a França cedeu na importação da “campanha” do governo turco, autorizando um comício no seu território. E a grosseria agressiva e belicista do discurso do ministro turco destacado para a função foi a merecida paga que os anfitriões receberam por terem patrocinado essa imitação grotesca de “liberdade de expressão”, por essa patética insegurança na defesa de princípios fundamentais. A violência do último discurso de Erdogan – para consumo interno e externo – não devia, penso eu, deixar dúvidas quanto à natureza do seu projecto e aos riscos que aí vêm. [Read more…]

Esta é para gente de boa memória

A D. Branca foi presa. A D. Banca, não.

Sobral

Hoje ouvi a canção que ganhou o festival da RTP. Não fazia tal coisa há décadas. Desde que tal evento se transformou num desfile de mediocridade musical e poética que nos provocava vergonha por procuração – e aquilo não é nada connosco. Mas disseram que a canção era da Luísa Sobral e eu gosto dela. Gosto daquela mistura de bossa dos anos 60, cool jazz, palavras que cantam, acompanhamentos e arranjos decentes, tudo regado com o caramelo de uma cândida sensualidade. São canções que parecem feitas para ser cantadas ao ouvido. Não conhecia o mano Salvador, versão masculina da voz da irmã. A mesma entoação, o mesmo jeito, mas não é ela. E nós não conseguimos deixar de pensar no que será a canção cantada pela sua criadora. Não me interessa nada se “ganhamos”- acho piada a esta primeira pessoa do plural…- o festival inter-pimba ou não. Há mais uma boa canção em português. Pela raridade do fenómeno, saúda-se.

Computemos

Fartos de estar no fim da cadeia de culpados, decidiram inventar uma máquina a que pudessem atribuir, também eles, culpa. Estava inventado o computador-máquina.

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O livro

cavaco

O livro de Cavaco Silva, além de não ter qualquer garantia de verdade dos seus conteúdos – dado o autor, muito pelo contrário – é um golpe na fiabilidade da própria instituição presidência da República. A própria proclamação de Cavaco segundo a qual este livro é “uma prestação de contas aos portugueses” é – pela incapacidade do autor admitir o risco de subjectividade, considerando o texto completamente “objectivo” – a primeira e mais óbvia prova do pechisbeque político-literário que nos é oferecido. Mas os efeitos situam-se a outro nível. Quem estará disposto, agora, a ser completamente franco nas conversas reservadas com o presidente? Não que uma tal incomunicação – chamemos-lhe assim – impeça mistificações futuras, já que quem escreve este tipo de memórias mente quando e no que quer – sem ter, sequer, no caso presente, o mérito da qualidade literária. Mas, pelo menos, não será fornecido combustível para putativos incendiários políticos. Dir-se-á que Cavaco não tem credibilidade para provocar grandes prejuízos com as suas inconfidências e a parcialidade da sua narrativa. Mas o mal está feito e haverá sempre quem vá espojar-se neste material.

O sistema semi-presidencialista português tem os seus inegáveis méritos. Mas nem ele resistirá a muitos mais Cavacos e respectivas cavacadas. E se Cavaco Silva quer mesmo prestar contas ao país, todos temos imensas perguntas a fazer-lhe que nada têm a ver com este desleal e sujo exercício de quadrilhice institucional.

A conferência de imprensa

Queriam muito que Centeno falasse, que fosse a comissões, que enfrentasse o que eles não se cansam de chamar o “escrutínio da comunicação social”. Ora, o ministro, pressionado pelas circunstâncias, sim, enredado em telenovela menor, sim, mas compreensivelmente farto desta feira e resolvendo despachar este expediente, foi-se a eles num conferência de imprensa. Fez uma declaração e ficou em pose de “venham eles, quantos são, quantos são”. E eles acometeram. Nas sedes dos vários canais estavam todos a postos. Finalmente a caça tinha caído na armadilha. Comentadores sortidos – sortidos de cara, não de cor – afiavam a faca sentadinhos nas suas cadeirinhas de comentar. Começou a conferência, o ministro declarou, o ministro foi respondendo, o espectáculo não dava as broncas que se esperavam. Centeno respondia a perguntas às centenas. E como a coisa não estava a dar o resultado previsto e não havia foguetório, os vários canais foram deixando cair a emissão em directo e passando a palavra aos tais comendadores, perdão, comentadores, para que eles dissessem o que Centeno queria dizer com o que disse e, sobretudo, com o que não disse, com o que deveria ter dito e, até, com o que quase disse mas não disse. O resto ficará para o falar viscoso do Lobo Xavier. [Read more…]

Detritus Minimus, o pequeno comentador

 

Cena I

“Sente-se”!- ordenou o Patrão ao Pequeno Comentador mal este assomou à porta do gabinete. Este hesitou. Não gostava de se sentar a conversar, sobretudo quando a cadeira tinha a altura da que o Patrão lhe apontava. Não chegava com os pés ao chão, enfim, sentia-se – por assim dizer – apoucado. “Estou bem de pé, ch-chefe”, titubeou o Comentador. Um olhar fulminante do Patrão levou-o a sentar-se sem mais demora. Este começou: [Read more…]

Última hora 

Cavaco vai publicar um livro. A Academia  Sueca  está atenta.

Aníbal e as 5ª feiras – Ensaio de compreensão 

Tratemos então de coisas sérias. Brinquei aqui com o futuro livro de Aníbal Cavaco Silva sem o ter lido. E, sejamos esperançosos, pode ali estar uma obra prima a caminho. O que me leva a pensar isto? As pequenas citações que dele ouvi nos telejornais. Aníbal, com a abissal profundidade do seu pensamento, perscruta o espírito daqueles com que partilhou o poder. Mas, objectareis vós, aquilo não é um rosário de banalidades mesquinhas e completamente desinteressantes? À primeira vista assim parece. Mas tentemos olhar mais longe. Que nos diz, Aníbal, em resumo? Que as reuniões com Mário Soares eram sonolentas. Que Sócrates se atrasava muito, falava muito, mas, a dado momento, despertou-lhe a suspeita de que nem sempre dizia era verdade. Passos Coelho, por sua vez, não sabia o que dizer, optava pelo silêncio inicial, mas respondia obedientemente ao que lhe era perguntado.  [Read more…]

Teodora

Teodora vá lá, vai-te embora
Teodora, não sejas assim
(tarará-ta-tchim!)
Teodora, tanta gente chora
Vai lá, Teodora
Não sejas ruiiiiiiiim!…

Dos livros, das listas, das crianças

Gustave Doré, ilustração para «O Pequeno Polegar»

Gustave Doré, ilustração para «O Pequeno Polegar»

Continuam, ainda hoje, as variações sobre o livro do Valter Hugo Mãe. Parece que a Comissão de especialistas veio dizer que a selecção da obra foi um lapso. Pior a emenda que o soneto.

Pessoalmente, não sendo admirador da escrita do autor, acho toda esta história caricata. Na verdade, a obra consta de uma lista de centenas de livros de leitura não obrigatória, apenas sugerida, e foi atacada por argumentos surpreendentes, quando se lêem as várias listas propostas.

Pergunto-me mesmo – desculpem-me os “especialistas – se os seus autores leram os livros que recomendam e ainda mais me pergunto sobre que diabo de critérios alinham aquela salada sem sentido. Como declaração de interesses, aqui garanto que não saberia fazer uma tal lista nem, valha a verdade, lhe vejo qualquer valor. Quando muito saberia fazer uma curta lista de obras sem as quais “não sois nada neste mundo”, como no dito popular. Pessoal, claro, mas pela qual saberia responder. [Read more…]

Convite

Finalmente, e após alguma hesitação – por, eventualmente, não acreditarem que tudo isto fosse possível – os dirigentes e quadros superiores de Silicon Valley – e alguns dos mais importantes são refugiados ou filhos de refugiados, como o era próprio Steve Jobs – perderam a cabeça com Trump, resolvendo enfrentar o energúmeno. Espero que tenham sucesso. Mas em caso de vos faltar a paciência, caros nerds, podem vir aqui para Coimbra, onde temos o Canas Valley e uns petiscos que vos vão agarrar cá à terra que nem carrapatos. E se já sois criativos alimentados a fast-food e coca-cola, com uma boa chanfana, um leitão à Bairrada e uma lampreia feita a preceito, com um pastelinho de Tentúgal de sobremesa – e tudo isto acompanhado de umas boas pingas da Bairrada – a vossa imaginação e criatividade levantará voo para alturas inimagináveis. [Read more…]

Agradecimento público

– Obrigado, Pedro, por votares com a “extrema” esquerda – como tu dizes – contra a descida da TSU das empresas.
– Obrigado, Pedro, por ajudares a recompor um caminho de entendimento entre os partidos da maioria parlamentar que apoia o governo.
– Obrigado, Pedro, pela ajuda dada na redução – pena não ser extinção – do Pagamento Especial por Conta (PEC), tendo permitido que o PCP – e também o BE e os Verdes, cuja posição é idêntica – tivesse finalmente êxito numa luta que trava, desde o primeiro dia, contra este imposto.
– Obrigado, Pedro, por ajudares a proteger a Segurança Social do erro que se desenhava, votando ao lado da esquerda e da razão.
– Obrigado, Pedro, por teres traído tudo em que dizes acreditar por amor à esquerda e aos trabalhadores. [Read more…]

A Comissão

Julgava não ser preciso, mas convém lembrar aqui que a Comissão Permanente de Concertação Social é só isso, uma comissão autónoma do Conselho Económico e Social. Pronuncia-se, dá pareceres, subscreve acordos sem carácter deliberativo. Tem a sua relativa importância como ensaio de amortecedor social. Mas não é um órgão de soberania. E de modo nenhum as suas funções se podem equiparar às da Assembleia da República, como parece estar na cabeça de alguns – ou nos querem pôr na cabeça a nós. E nem sequer é uma diferença quantitativa, mas sim qualitativa. De natureza, não de grau.
Se é que, sequer, tem sentido colocar esta questão. Mas pelo que ouvimos nestes últimos dias…

John Lewis e os russos

Se o partido Republicano dos EUA parece ter ensandecido, o espectáculo dado pelos Democratas tem sido patético. Embalados pelas tretas da CIA, até alguns dos mais liberais – no sentido político, claro – debatem a vitória de Trump através de argumentos evasivos, não hesitando em despertar velhos fantasmas tão queridos à direita.

Até o senador John Lewis, ícone da luta pelos direitos civis nos EUA, referência da comunidade negra – ou afro-americana, como eles gostam de dizer, vá lá saber-se porquê – manifestou ruidosamente a sua recusa em comparecer à tomada de posse de Trump por considerá-lo um presidente ilegítimo. Porquê? [Read more…]

O leão desdentado

Theresa May – a antiga moderada hesitante quanto ao Brexit – atirou-se que nem uma leoa à União Europeia, honrando a heráldica da velha Albion. Mas o leão da Albion está desdentado e a fúria da primeira-ministra britânica é mais fruto de uma agressividade nascida da frustração que um sinal de força e firmeza.

Em resumo, o que a zangada senhora disse foi: queremos sair da UE, queremos manter todas as vantagens e dispensar todas as obrigações e desvantagens, ou nos dão o que queremos ou a vingança – quiçá traduzida num mega-paraíso fiscal – será terrível; mandem-nos os vossos quadros mais qualificados que os outros nos encarregamos nós de devolver. [Read more…]

O estado de graça possível

Trump continua a falar e escrever como um troll alcoolizado. As consequências só não foram ainda trágicas porque os líderes e governos visados o vêem como um inimputável. É o estado de graça possível. Do governo alemão veio uma bofetada em modo de aviso, de Putin um cordial cachação, da China e do seu presidente veio – com aquela paciência de um povo que conta a sua história em milénios…- um elegantíssimo e rendilhado discurso que disse tudo o que havia a dizer nunca mencionando o nome do grunho, para espanto do público do Fórum de Davos.
And the beat goes on...

Ela resolve

Esta é a personagem ideal para negociar a questão de Almaraz.

padeira-de-aljubarrota

O auto-retrato feito pelas escolhas

Homens da dimensão de Mário Soares nunca são unidimensionais. Assim, as avaliações e referências que a eles se fazem reflectem sempre esta realidade. Na morte, ficam entregues às palavras dos outros sem direito a apelo. É por isso que os que agora se pronunciam escolhem o retrato que querem desenhar e ficam, eles próprios, sujeitos a julgamento pelas inclusões e omissões que fizeram, pela probidade e procedência do que dizem, sabendo-se que o que afirmam diz tanto deles como do objecto das suas apreciações. É por isso que um elogio pode ser insultuoso, uma distanciação pode ser honrosa, uma crítica pode ser um sinal de integridade. Ao escolher os atributos que definem aquele de quem falo, não me posso furtar de definir-me a mim próprio. Estes dias têm sido, neste domínio, uma lição do que há de pior e de melhor. Assim sendo, aguardava com alguma expectativa os discursos da cerimónia fúnebre a que assistimos hoje. Queria saber qual, nas palavras dos oradores – os filhos de Mário Soares e as figuras institucionais -, era a a imagem que emergia. Foi, há que reconhecer, um momento digno. Ilustro o que digo com o discurso de João Soares, o qual sublinhou, sobretudo, a dimensão de lutador anti-fascista e resistente do homenageado, a sua busca de liberdade. Em palavras que reflectiam, como é natural, a sua vivência pessoal dos acontecimentos. E lembrando factos que a comunicação social mal mencionou por estes dias, ocupada que estava em construções ficcionais tão indignas nos ditirambos como nos insultos e falsificações da história.

Lava mais branco

O tema das notícias do dia é, como é natural e lógico, a morte de Mário Soares. E assistimos à televisão no seu melhor – que é mau, como sabemos. Liga-se a TVI24 e fica-se perplexo. Para discutir a figura de Soares, foram escolhidos, além das duas jornalistas, o sobrinho – o estimável e pitoresco Eduardo Barroso -, o amigo – Carlos Monjardino- e, para o comentário político puro e duro, dois salazaristas reciclados: José Miguel Júdice – que aderiu à democracia pelos lucros que ela lhe trouxe – e Adriano Moreira, que, fino e inteligente como é, conseguiu fazer esquecer a muita gente, através da criação de uma “persona” democrática, o facto de ter sido destacado ministro – do “Ultramar”…- de Salazar e autor da reabertura do campo do Tarrafal, entre outras habilidades. E foi vê-lo, ladino, como se não tivesse nada a ver com o assunto, a discorrer sobre as políticas anti-coloniais defendidas por Mário Soares. Foi nesse momento que, nauseado, desliguei a televisão e abri um livro, opção sempre recomendável em casos que tais.