O auto-retrato feito pelas escolhas

Homens da dimensão de Mário Soares nunca são unidimensionais. Assim, as avaliações e referências que a eles se fazem reflectem sempre esta realidade. Na morte, ficam entregues às palavras dos outros sem direito a apelo. É por isso que os que agora se pronunciam escolhem o retrato que querem desenhar e ficam, eles próprios, sujeitos a julgamento pelas inclusões e omissões que fizeram, pela probidade e procedência do que dizem, sabendo-se que o que afirmam diz tanto deles como do objecto das suas apreciações. É por isso que um elogio pode ser insultuoso, uma distanciação pode ser honrosa, uma crítica pode ser um sinal de integridade. Ao escolher os atributos que definem aquele de quem falo, não me posso furtar de definir-me a mim próprio. Estes dias têm sido, neste domínio, uma lição do que há de pior e de melhor. Assim sendo, aguardava com alguma expectativa os discursos da cerimónia fúnebre a que assistimos hoje. Queria saber qual, nas palavras dos oradores – os filhos de Mário Soares e as figuras institucionais -, era a a imagem que emergia. Foi, há que reconhecer, um momento digno. Ilustro o que digo com o discurso de João Soares, o qual sublinhou, sobretudo, a dimensão de lutador anti-fascista e resistente do homenageado, a sua busca de liberdade. Em palavras que reflectiam, como é natural, a sua vivência pessoal dos acontecimentos. E lembrando factos que a comunicação social mal mencionou por estes dias, ocupada que estava em construções ficcionais tão indignas nos ditirambos como nos insultos e falsificações da história.

Lava mais branco

O tema das notícias do dia é, como é natural e lógico, a morte de Mário Soares. E assistimos à televisão no seu melhor – que é mau, como sabemos. Liga-se a TVI24 e fica-se perplexo. Para discutir a figura de Soares, foram escolhidos, além das duas jornalistas, o sobrinho – o estimável e pitoresco Eduardo Barroso -, o amigo – Carlos Monjardino- e, para o comentário político puro e duro, dois salazaristas reciclados: José Miguel Júdice – que aderiu à democracia pelos lucros que ela lhe trouxe – e Adriano Moreira, que, fino e inteligente como é, conseguiu fazer esquecer a muita gente, através da criação de uma “persona” democrática, o facto de ter sido destacado ministro – do “Ultramar”…- de Salazar e autor da reabertura do campo do Tarrafal, entre outras habilidades. E foi vê-lo, ladino, como se não tivesse nada a ver com o assunto, a discorrer sobre as políticas anti-coloniais defendidas por Mário Soares. Foi nesse momento que, nauseado, desliguei a televisão e abri um livro, opção sempre recomendável em casos que tais.

Feliz Ano Novo

Ele está novinho em folha; não o deixemos estragar…

Governo Sombra Geringonçado

E sobre o “governo sombra” de hoje, guardemos um piedoso silêncio.Disse(ou ‘da-se).

Cristas, Cristas

Ó Assunção Cristas, cada vez que ergues as ditas em parlamentar pirueta, metes água. A graçola das prendas ao primeiro ministro na sessão parlamentar de hoje evidencia, mais uma vez, a boçalidade soez, a bronca incultura que costuma ser apanágio da tua bancada. Até o incensado Portas se quis luzir proclamando – sem ter a mais pequena ideia do que estava a dizer, acredito – a frase que encima o portão do campo de Auschwitz. Agora, tu, Sussãozita, brindas o nosso primeiro com um frasco de “soro da verdade”, quiçá para o obrigar a dizer o que esperas ouvir. Fazes ideia de quem usava tal técnica e com que fins, criatura? Sabes a que soube a tua performance rasca? Sabes alguma coisa?
(ou talvez tu e o teu antecessor saibam; e isso é muito pior)

Medo e democracia

Sim, o referendo italiano era uma distorção redutora e maniqueísta de um conjunto complexo de problemas. Um golpe, portanto. Que, entre outras questões, evidencia a impossibilidade de discutir em profundidade o mérito das propostas em confronto, já que elas jamais se reduziriam a uma dicotomia tão simplória.

Terminados os actos, vejo, não sem surpresa, muitas pessoas a verberar aqui os votantes que escolheram o “não”, acusando-os de abrir as portas a eleições e, portanto, à ofensiva eleitoral da extrema direita. Ora, se nos lembrarmos que a Itália era governada por um comissário político não eleito e imposto pela força hegemónica na União Europeia, pergunto: desde quando este terror pela possibilidade de eleições tomou conta da nossa razão? O que vale o argumento segundo o qual os votantes do “não” estão ao serviço da extrema-direita pelo facto de quererem eleições?

Perguntando de outro modo e tentando compreender estes receios: o que é, agora, a democracia? Ou: o que vamos fazer do que fizemos da democracia? Era bom trocarmos umas ideias sobre o assunto.

O debate

Acompanho, geralmente, as sessões da Assembleia da República que deliberam sobre o Orçamento de Estado. Não me lembro, em todos estes anos, de uma participação da direita tão politicamente indigente, tão grosseira e iliterata na linguagem, tão intelectualmente preguiçosa, tão cheia de raiva quanto vazia de ideias.

Dir-se ia que poderiam fazer melhor. A verdade é que, recorrentemente, têm mostrado que não são capazes. Seria de esperar uma direita empenhada na difusão das suas ideias – caso as tenha – no combate político pelos seus programas para o país. Mas tudo o que vemos é gente a escavar cada vez mais fundo a toca de seu próprio ódio. Que não leva a lado nenhum. Mas conforta os que lá cabem. Que, voto meu, serão cada vez menos.

Do parlamentar insulto

O grupo parlamentar do PSD ficou numa exaltada indignação, que provocou a interrupção dos trabalhos parlamentares. Eles não perceberam bem o que disse o secretário de estado que discursava, mas intuíram que, naquela elegante disjunção, estava contido um insulto. Não tinham a certeza. É que o grupo parlamentar laranja, na AR e Madeira – então ali…- quando insulta, insulta a valer e toda a gente percebe. “Puta que o pariu”, “burro”, “anormal”, “filho da puta”, “dou-te um tiro nos cornos”, são mimos que, da parte dos grupos parlamentares do PSD estão registados nas Actas dos Parlamentos da República e insular. Ora, quem está habituado a produzir tão franca e assertiva linguagem, forçoso é que fique indignado com o gongorismo da elegante alternativa “o senhor deputado ou é profundamente ignorante do regime ou sofre de uma disfuncionalidade cognitiva temporária” – temporária, imaginem! Assim, justifica-se a indignação dos passistas. Na verdade, com insultos tão rebuscados, como podem eles partilhar grupal e irmãmente a sua indignação, uma vez que, obviamente, a maioria dos seus companheiros de bancada ficou com cara de “o que foi isto”, isto é, com cara de disfuncionalidade cognitiva momentânea?
Compreende-se, pois, a indignação da direita parlamentar. Portanto, a próxima vez que quiserem insultá-los, bradem, à moda antiga: “V. Exa. é uma besta! Salta uma garrafa de Colares!”. E toda a gente, em parlamentar comunhão, percebe perfeitamente.

Muros e pontes

Não queria comentar isto, mas com a insistência no tema e a ridícula e empertigada interpelação que o PSD fez sobre este assunto, não resisto. Não, oh alaranjadas criaturas, os cartazes que ornam as entradas do Web Summit, que terminam com o justo propósito de “fazer pontes, não muros”, não são uma proclamação anti-Trump. Se esquecermos a gralha da primeira versão – entretanto corrigida -, esta metáfora, com esta exacta formulação ou outras muito semelhantes, é antiga como a noite. Não foi inventada por Hillary Clinton – donde a sintomática indignação do PSD que, pelos vistos, anseia por agradar ao novo chefe. Já a encontramos, implícita ou explicita, em textos antigos, em documentos de evangelização e ecuménicos, em obras de filósofos. O grande – enorme! – Isaac Newton (se os laranjas não sabem quem é,vão ao Google) escrevia “construímos muros de mais e pontes de menos”. E, só para ficarmos nos Newton, Joseph Newton escreveu, dois séculos depois, “as pessoas estão sós porque constroem muros em vez de pontes”. E até o Papa Francisco, há já algum tempo, afirmou, em Auschwitz, “lancem-se na aventura de construir pontes e destruir muros, vedações ou redes”. E não vale a pena continuar. O problema, portanto, não é da Câmara de Lisboa, oh PSD, que atacais, fogosos, sem antes procurar informação.
O problema é o da vossa arrogante iliteracia.

Escolhas

Desafiado por voz amiga a comentar a posição de Susan Sarandon em relação às eleições no seu país – “Eu não voto com a minha vagina!”, declarou ela, querendo dizer que não se justifica o voto em Hillary Clinton pelo simples facto de ser mulher -, tenho a dizer que, com todo o respeito pela actriz e sua postura, não a sigo – nem aos que como ela pensam – nesta opinião. Não me sendo indiferente o significado de ser eleita, pela 1ª vez, uma mulher para a Casa Branca, tal está longe de ser a questão central. Ensinaram-me as voltas da vida e a reflexão que elas impõem, que, sendo espiritualmente confortável a ideia de uma abstenção por razões de princípio, ela sempre me pareceu uma via sem saída. Na verdade, a abstenção é, na vida como na política, as mais das vezes, uma ilusão. Ela tem efeitos, e tem efeitos na direcção que tomam as escolhas com que, verdadeiramente, nos deparamos. Penso, por isso, que há sempre, em condições normais, uma opção preferível. Digo-o sem qualquer laivo de cinismo, já que abomino a via do “quanto pior melhor” com que alguns parecem comprazer-se. A liberdade é a nossa mais bela condenação. E porque é condenação, não há modo de a evitar. Quer dizer: as nossas escolhas são inevitáveis, mesmo quando parece que lhes conseguimos fugir. A evasão não tem, aqui, lugar. Nunca.

Bob, o bardo

Os zangados da literatura estão, na sua indignação, a promover Dylan a grande – ou mesmo genial! – músico, tentando, assim, diminuir-lhe a obra poética. “O que ele é é músico” – proclamam. Ora eu, que gosto de Dylan, não o considero um genial músico, um grande cantor e, muito menos um, sequer, razoável instrumentista. Na verdade, sendo um melodista de mérito, com algumas boas ideias musicais que se quedam na sua mais pura simplicidade, é um cantor de voz deveras limitada – para dizer o mínimo – e um ainda mais limitado instrumentista. Dylan é um bardo, um trovador, um poeta que canta as suas palavras. E é aí que se lhe vislumbra a grandeza. Tanta, que acabamos por lhe perdoar as limitações como interprete. E mais: fizemos da sua voz rouca e limitada, do seu estilo simples e básico, valores artístico por si mesmos. É pela palavra que Dylan se eleva aos grandes. E como a palavra é bela, todo o conjunto se ergue como excepcional.
Há muitos anos, encontrei entre os alfarrábios da loja do Ricardo, ali do Arco da Amedina, uma volumosa edição artesanal – e pirata…- das “lyrics” das canções do Bob Dylan. Estava a ler o meu achado na mesa do canto da Brasileira e não tardou a piada sobre se me ia pôr a cantar. Não ia. Mas confirmava esta evidência: há uma grande diferença entre um letrista e um poeta. E raramente se encontram na mesma pessoa. Dylan é uma das excepções. Por cá, José Afonso e Sérgio Godinho – entre os poetas-cantores – são bons exemplos, como Ary dos Santos, Alexandre O’Neill e David Mourão Ferreira o são entre os que têm o segredo de fazer poesia que (se) canta. O movimento que, nos últimos anos, tem trazido para a canção grandes poetas, deu belos resultados; e também disparates intragáveis.
Quem quiser que se entretenha na florentina discussão de saber se o que Dylan faz é literatura ou não. Se o seu nariz cabe no catálogo teutónico de judeus, se os seus genes lhe traem a origem russa. Quero lá saber. Como o Poeta, eu “canto o peito ilustre” Dylaniano.

Olh’ó resgate

A estagiária da CBS estava orgulhosa. Tinha sido destacada para entrevistar o ministro das finanças de Portugal! A primeira tarefa que se impôs foi a de investigar onde era esse país – porque se tratava de um país, assegurou-lhe o chefe. Levou algum tempo e precisou da ajuda do Google Earth, já no mapa que percorreu detalhadamente não encontrara tal lugar. Também, pensou, era tão pequeno. Mas agora, com o apoio da Wikipédia, estava pronta. Já sabia que o país tinha sofrido um resgate financeiro – embora não atinasse lá muito bem o que isso significava. O chefe até disse que isso era coisa de peso. Importante. Logo, mal enfrentou o sorridente ministro português, disparou: “Portugal vai ter um segundo resgate?” O senhor, perplexo – mas sempre sorridente – lá construiu uma resposta em que nunca mencionou resgate nenhum e manifestou a sua disposição e empenho em que tudo corresse bem. E pronto.

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Bonecos


Os vários canais de televisão, entre outras patologias, obedecem, de há uns meses para cá, ao princípio ” os telespectadores são, em geral, nabos”. Logo, querem sempre ver bonecos a mexer, mesmo que só longinquamente tenham a ver com a notícia que se está a ler. Os noticiaristas televisivos devem ter, por estes tempos, assistido a inúmeros workshops – como se diz agora em português – onde “formadores” lhes explicam que a malta é básica, sofre de distúrbio de défice de atenção e sem imagens não vai lá. Assim, toca a pôr no ar seja o que for que haja lá pelas prateleiras, qualquer coisa que ilustre o que o pivô está a debitar. O jogo de futebol que acompanha a notícia do ocorrido ontem já foi há um ano? Ninguém vai notar. É preciso noticiar um naufrágio e não há reportagem? Avança um parecido, de há quatro anos. E um incêndio é sempre semelhante com outro incêndio, logo, enquanto não há repórter no local a fazer perguntas tolas, vai-se ao arquivo. Aquele partido reuniu a sua direcção e não mandamos lá ninguém? Usam-se imagens antigas de um reunião semelhante, ocorrida anos antes, mesmo que em grandes planos apareçam pessoas já falecidas.
E assim, com a falta de profissionalismo dos indigentes, a irresponsabilidade dos idiotas, a crueldade dos sociopatas, eles vão-nos “informando”. Verdade e decência, não têm. Mas bonecada nunca falta.

Discurso dos muros

O mundo murado (Novembro de 2015)

Estava eu a compor o álbum com fotos dos grafitos do muro de Gaza quando, na televisão, se dava a notícia da construção de um muro anti-emigrantes em Calais, construção ordenada pelo Reino Unido e aceite pelos panhonhas dos franceses. Caspité!! O trumpismo avança e tem acolhimento em países governados, já não digo por democratas, nem sequer inteligentes, ainda menos sensatos mas, vá lá, por gente relativamente normal; com um arcaboiço intelectual ao nível de um 1º ciclo de escolaridade, digamos. Falsa esperança. Há uma espécie de rarefacção neuronal provocada por um ar vindo de Oeste, que perigosamente alastra pela Europa e contra a qual o bendito anti-ciclone dos Açores nada pode. Nos EUA, ainda ontem Trump repetia, naquele estilo de alforreca falante, “faremos o muro”! Refere-se, claro, ao muro que separará a União do México e que, segundo ele, será pago por este país. Esta parte da promessa não está esclarecida, já que não sabemos como se irá forçar os mexicanos a pagar o muro. Claro que se perguntarmos ao Donald, ele não deixará de responder; talvez com uma ameaça de invasão, como é costume. Impossível? Já ouviram discursos do homem? Pois, lá está. [Read more…]

Fogo

fogoNão, não vou teorizar sobre as razões de Portugal ser, de longe, o país com mais incêndios e área ardida da Europa. Não vou especular sobre causas e, muito menos, soluções. É que todas elas são claras há décadas. A sua repetição – enunciadas por pessoas verdadeiramente conhecedoras e agitadas pelos papalvos de serviço habituais -, de cada vez que estamos nesta situação, já tem alguma coisa de ritual. Uma espécie de liturgia do fogo, que nem evita o mal disfarçado entusiasmo com que certos dispositivos noticiosos chafurdam nos dramas alheios, sem qualquer réstia de contenção ou sentido da mais elementar decência. Depois de rever todas abordagens sérias e fundamentadas, mas pouco excitantes para a telenovela jornalística, alguém irá falar, de novo, na “imperiosa necessidade de mais meios para combater o fogo”. Aparecerão propostas. E nós perguntaremos quem, de uma vez por todas, tem a coragem política de as denunciar e pôr as questões no seu devido lugar.
De caminho, nós fazemos contas ao desastre à vista, outros fazem contas aos negócios em vista. A vítima chorará a sua desdita, tu procurarás ser solidário. Outro contará o numerário.
Falaremos de heróis, falaremos de como podia ser e não é, sofreremos com a família que perdeu tudo, tentaremos entender o que suspeitamos oculto, lembraremos de tudo o que foi decidido e não foi praticado.
E assim, de fogo em fogo, vamos queimando o caminho do futuro. Não porque faltem razões e soluções. Mas porque falta coragem.

Um dia glorioso para o desporto português

Patrícia Mamona, campeã europeia de triplo salto

Hoje foi um dia glorioso para o desporto português. Campeões da Europa de futebol, duas medalhas de ouro e duas de bronze no atletismo e até o Rui Costa, no ciclismo, se chegou à frente. Não tarda algum artista vir dizer que estamos a ganhar acima das nossas possibilidades.

Sara Moreira, campeã europeia de meia-maratona

A Assembleia da República está em brasa!

O Passos, canhestro e faceiro, atacou. Depois, desabou-lhe o céu em cima da cabeça. Parte do grupo parlamentar do PSD, desagradado e com a sua frágil sensibilidade ofendida, abandonou a sala. A parte restante – posta restante? -, num elegante protesto, pateia e bate com e nas mesas. Assunção Cristas, excitadíssima e em vertigem verbal, defende que o actual governo devia martelar as contas de 2015 e introduz no Parlamento – o progresso não para! – a tecnologia do cartolina-point! Em vão. A direita não atina nem afina. Deve ser por coincidência que, à mesma hora que começava o debate do estado da Nação, os seus aliados na União Europeia iniciavam, em Bruxelas, a conferência de ameaça ao Estado Português ( se bem que, se bem me lembro, o meu avô me avisava, há muitos anos, que desconfiasse das coincidências…).

O jogo de hoje

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Vai começar o jogo França-Alemanha. Nestas alturas, parece que temos de tomar partido. Eu, que naquilo que mais importa nunca hesitei no imperativo da escolha, recuso-me a fazê-lo agora. É mais divertido, concordo, se escolhermos um lado. Mas não consigo. É que, apesar de tudo – tudo, tudo, tudo…- não me move qualquer fobia em relação a qualquer dos contendores. Ouço os Hinos e sinto o habitual afecto por “La Marsellaise” e a admiração pela magnifica peça musical que é “Deutschland, Deutschland über alles” – ou não houvesse aqui a mão de Haydn. Por muito que abominemos os poderosos que nos envenenam a vida e nos tentam devorar a liberdade, o meu alvo não vai além deles. Nunca sofri de qualquer francofobia ou germanofobia. Como poderia, se tal seria negar muito do que sou, muito do que somos? Para lá das circunstâncias do tempo, o que melhor fica dos povos é a sua cultura, a sua herança emancipadora. E ambos os povos nos deixaram tesouros inestimáveis. Pena que nestes tempos de integração forçada se vá perdendo a fraternidade criadora.

Eurocídio

Não consigo acompanhar os meus amigos que conseguem ver na actual situação da União Europeia, após o brexit, uma oportunidade para uma virtuosa reforma da organização. Pelo contrário. Todos os sinais indicam o caminho oposto. A preparação de sanções contra Portugal e Espanha – depois das eleições…- são apenas mais um sintoma. As ameaças a todos os países que hesitem na obediência, as reuniões restritas à clique dominante, as interpretações abusivas e distorcidas, quer do comportamento dos britânicos, quer da resistência democrática noutros países, tudo conduz ao mesmo fim. Os mandantes alegam que querem curar a UE. Parece mais que querem fazer-lhe eutanásia. Isto já não é só uma crise aguda do capitalismo. Também é, claro. Mas há aqui uma sombra, talvez de crueldade social, quiçá de sociopatia ou, quem sabe, uma vertigem de pura estupidez que, como estabeleceu Einstein, pode tender para infinita em condições determinadas.

Estou-te a ver

vigilância

O “daesh” está a transformar-se numa espécie de franchising internacional para toda a espécie de psicopatas, oferecendo validação religiosa e moral para toda a sorte de psicóticos narcisistas. Por vezes, estes são tão alarvemente estúpidos – como acontece no assassino de Orlando – que se assumem simultaneamente inspirados pela Al-Qaeda, pelo Hezbollah e pelo Daesh, ignorando que estes movimentos são inimigos entre si.

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A metáfora da moda

vacaA coisa é séria e já dava bem uma rechonchuda tese de pós-doc. Falo na importância das metáforas vacuns no discurso político nacional. Ele são as vacas que sorriem, as que voam e, até, as vacas que falam de vacas. Não ignoro, claro, a presença das metáforas e versos de temas animais, digo mais, veterinários. Tudo isto tem raízes antigas, que remontam à esmerada educação de que os mais velhos de nós bem se lembram. Quem pode esquecer a anualmente repetida redacção subordinada ao título “A Vaca”? Obedecia, até, a um modelo, uma matriz. “A vaca é um animal doméstico.Quadrúpede, porque caminha sobre quatro patas. Mamífero, porque se alimenta de leite nos primeiros tempos da sua existência. A vaca é muito nossa amiga e muito útil. Dá-nos o leite, tão importante para a alimentação. A pele, com que se fazem sapatos e vestuário.Os chifres – jamais cornos, atenção! – utilizados em cabos de talheres, botões, etc. E os ossos, com os quais se faz a refinação do açúcar (nunca percebi esta parte, mas era obrigatória). Eu gosto muito da vaca.” Ora, estes eram os atributos que, obrigatoriamente deviam ser mencionados em tal redacção. Jamais se mencionou a capacidade das vacas sorrirem, voarem ou, muito menos, falarem no Parlamento. Claro é, bem o sabemos, que, apesar da sua recente popularidade, a vaca não está só na metáfora política ou na criatividade poética popular. Mesmo formulações genéricas como “V.Exa. é uma besta!” nunca faltaram no Parlamento, ensina-nos Eça. E não faltam as referências desprestigiantes que metem porcos e gamelas, galinhas, seu cacarejo e pequeno cérebro, ovelhas e a sua tendência para ir no rebanho, gatos que devêm timoratos depois de escaldados, leões que se tornam sendeiros à saída, ou dos burros e a sua alegada falta de inteligência – que, na minha opinião, é usada em injustas e desfavoráveis comparações. Desfavoráveis para o jerico, entenda-se. Já nem falo no frequente recurso retórico a bicharada menos doméstica como papagaios, catatuas, vampiros, sanguessugas, lacraus, abutres, vermes em geral e mesmo parasitas intestinais.
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Missa e escola

O presidente da Confederação de Pais e Encarregados de Educação defendeu a realização de missas na Escola Pública. Há mesmo escolas no Norte que já o fazem, e em horário lectivo, relegando os alunos que não participam para salas de espera. Tal é ilegal, inconstitucional. A liberdade de culto só pode ser garantida por um Estado laico. Forçar as situações nesta questão é abusivo, provocador e imprudente. Não faltam os templos – grande parte deles propriedade do Estado, que os cede benevolamente – onde os cultos naturalmente ocorrem. Forçar o culto religioso nas Escolas Públicas é ostentar um abuso de posição, saudade de uma hegemonia há muito e em boa hora perdida. Não forcem, pois, não joguem em conflitos há muito ultrapassados e que nada trazem de bom Já basta o que basta.

O peixismo-aranhismo

Ora bem, vamos lá botar sentença politológica: tínhamos os partidos parlamentaristas, os semi-parlamentaristas e até os anti-parlamentaristas. Graças ao PSD temos uma nova categoria: os a-parlamentaristas. Estão lá, mas é como se não estivessem. São e não são. Como o gato de Schrodinger, está vivo e está morto. Os outros agem, eles esperam. Para, no melhor estilo cavaquista, se pronunciarem sobre os resultados do trabalho alheio e poderem dizer, seja qual for o resultado: nós bem avisamos. E ferrar.
É uma espécie de partido peixe-aranha. Fica quietinho, escondido na sua areia e, quando um incauto que está a fazer qualquer coisa da vida o pisa, sabe-se o resultado.

Jornal ao fundo

Ontem, fechou mais um jornal ou, pelo menos, a sua edição em papel. Não faltarão justificações e teorizações sobre este facto e, de caminho, sobre as raquíticas tiragens dos auto-proclamados jornais de referência. Claro que a culpa vai ser atribuída aos potenciais leitores. Ora permitam-me que contribua com um singelo argumento: os jornais não se vendem, não porque os portugueses não gostem de ler e não gostem, sobretudo, de ler jornais, mas porque os jornais não são feitos para os leitores; são feitos para os “outros”. E de tanto tentar manipular ingénuos e iletrados – ou reduzir o máximo de pessoas a essas condições -, esquecem que estes não são leitores lá muito fiéis ou consistentes. Assim, os jornais vão deixando de o ser para se transformarem em entidades que designaremos por “correio da manhã”. E à medida em que se vão aproximando desta execrável condição, vão perdendo os leitores que…lêem.

Ai Mouraria…

Mas que raio se passa na Câmara de Lisboa cujo executivo decidiu expropriar uma série de prédios na Mouraria para que ali se construa uma mesquita? Não colhe a declaração de que os “prédios estão devolutos e em mau estado”, já que uma linha de edifícios sofreu recentes obras de restauro por determinação do próprio Município. Compreendo a fúria estético-urbanística de Manuel Salgado, grande arquitecto mas medíocre político. Mas a deliberação colectiva é surpreendente. Sublinho que se a expropriação fosse para construir um templo de qualquer outra religião – ou servisse qualquer interesse poderoso – esta nota seria exactamente igual. Quem quer construir seja o que for sujeite-se a comprar os terrenos disponíveis e a seguir a lei como toda a gente.

Andar por aí

De bandeirinha na lapela e aquele ar de permanente obstipação, Passos Coelho, deslocando-se pelo país – vamos ver o povo, ai que lindo que ele é – visita coisas, inaugura (!) coisas, diz coisas. E o que diz é ouvido pelos repórteres televisivos de serviço com os cuidados de quem colhe pepitas de ouro. Assim, o ex ocupa mais tempo televisivo que todos os ministros e lideres da oposição juntos. Os jornalistas, já que é seu mister dar notícias, podiam informar o Passos de que já não é primeiro-ministro; o problema é que tenho dúvidas de que eles próprios saibam dessa feliz novidade.

Próximo país a aderir à UE:

(República da) Escócia.

Nasceu princesa, foi rameira…

Quem diria que, lá dos longínquos tempos em que escreveu, António Botto nos deixava um tão expressivo retrato de uma coisa que nunca viu, a União Europeia – sobretudo a dos últimos anos -, que, pensada como uma deusa, veio a dar no que deu. Após a negociata de ontem, adivinhem quem são os chatos coçados e os fregueses que aproveitam.
(almas mais sensíveis, abstenham-se) [Read more…]

A culpa é nossa

O Deutsche Bank afunda-se numa crise inquietante e as suas acções caem. Como a culpa só pode ser nossa, ‘bora lá pedir perdão ao Schäuble e pagar o prejuízo. Verzeihung, mein Führer!

A importância de ser Humberto

O aeroporto da Portela vai, por decisão do governo, passar a chamar-se Humberto Delgado. Os telejornais deram a notícia. Segundo o que vi, o homenageado foi um senhor muito importante no arranque da aviação civil em Portugal. E pronto. Tem piada, o nome é igualzinho ao daquele Humberto Delgado candidato à presidência da República no tempo de Salazar, vencido por vigarice do regime e tornado importante referência da oposição democrática, vindo a ser assassinado pela PIDE. Chamavam-lhe “general sem medo”. Foi, lembro-me, a primeira vez que eu, ainda criança, confrontei o meu Pai com as minhas primeiras dúvidas políticas. É que na escola onde estava beatificava-se Américo Tomás e o meu pai, para minha surpresa, não parecia nada entusiasmado com esse facto. Hoje sei porquê e honro-lhe a memória.
Então – pelo menos segundo o telejornal – o homenageado vai ser o Humberto Delgado da aviação civil. Que coincidência, não é?…