Texto politicamente incorrecto

Na SICn o tema da noite é a “falha do Estado”. O que é curioso é que esta gentinha confunde Estado com Governo de um modo que está longe de ser inocente. Chegaram ao ponto de tentar que Pacheco Pereira afirmasse que Portugal era um “Estado falhado”! Claro que o sr. José – dotado de mais neurónios que o par de entrevistadores juntos – não foi na conversa e deu-lhes uma palmada no ego. Mas o tema atravessa a noite. Os convidados especiais estão, na sua maioria, na onda. O presidente da Câmara de Viseu bradava contra a falha do Estado, como se o Estado fosse uma entidade longínqua e com a qual ele próprio nada tivesse. Tem! Ele é Estado também e tem obrigações. Ele e todos os autarcas. E, por muito que isso seja doloroso, é bom que alguém, tarde ou cedo, dê um murro na mesa e pergunte pelas responsabilidades dos que, nas suas terras, têm obrigações a que muitos se furtam sistematicamente para não perder a popularidade e os votos. Essas obrigações estão claras na lei e são, em tantos lugares, sistematicamente incumpridas por acção ou omissão. Elas são descritas no famoso relatório da comissão independente, mas não se fala nelas para que não se pense que se está a culpar as vítimas de que alguns autarcas se fazem lídimos representantes, tentando esconder a sua parte da responsabilidade. Compreendo, mas não aceito. Como compreendo o embaraço dos partidos e governantes em tocarem neste assunto. Por isso aqui deixo esta palavra. Por ela só eu respondo. Sim, os governantes têm mais responsabilidade – eu não digo culpa – do que afirmam os seus representantes. Mas quem autorizou o fogo de artifício dos srs. padres não deve ter sido nenhum ministro. Para citar um micro-exemplo…

Comovente

Caramba! Os figurões que painelam neste momento na SINn – a direita perdeu as eleições, mas não as televisões – estão preocupados com o destino do PCP. Estou, até, comovido.

A revelação

O jovem estagiário estava espantado. Aquela candidata fazia promessas completamente disparatadas, discursos no limite da insanidade, propostas que denunciavam uma total ausência de sensibilidade para os problemas, os quais visivelmente não conhecia e, portanto, não sentia. Mas os seniores insistiam que a candidata estava a fazer uma grande campanha, que ia ficar em 2º lugar – pelo menos…- que era a verdadeira alternativa e tudo o mais.

Mais diziam à boca pequena pelos corredores dos jornais: ” o Paulo disse que ela estava a fazer uma grande campanha”. O tal Paulo era, pelos vistos, um importante critério de verdade. Se o Paulo dizia, era certo e sabido. Era , então, um sucesso do CDS? Em Lisboa?!

– “Qual CDS qual treta, puto, isto é um jogo de crescidos. O objectivo é outro, não vês, maçarico? Ó Pedro, diz ao Ricardo que diga ao Francisco que o Rui pode avançar nas primárias e no congresso. Depois deste resultado, está no papo!”

– “Ah!…” – foi o que ocorreu dizer ao estagiário, certamente elevado com a epifania que lhe revelava o que era o tal “jornalismo de referência”.

Popularuchistas

As televisões – todas elas – têm, como sabemos, os seus candidatos em todas as eleições. Promovem-nos de formas subtis e subliminares – quando se trata de interesses das forças sociais dominantes, isto é, quando é a sério – algumas vezes e, outras tantas, de modo chungoso e popularucho, com efeitos imediatos e mais ou menos exuberantes. Estes últimos aparecem nos programas da tarde e nos mais conspirativos da noite, ostentando competências ora jurídicas, ora jornalisticas, ora psicossociais, ora de leitura de horóscopos e outras e desvairadas artes. Já vimos vários destes cometas políticos aparecer e fenecer com a mesma velocidade. O traço que os une é o populismo – ou popularuchismo – mais básico, dirigido a sectores particulares da população ou, no caso dos mais ambiciosos, ao “povo em geral”. Utilizam com frequência partidos “barrigas de aluguer” e não apresentam especial apego a princípios e outros luxos éticos. Há vários em gestação neste momento. E, apesar de candidatos autárquicos, nenhum teve a inclinação para mais pequeno escrúpulo, suspendendo as sua actividades comentatórias. O caso mas obsceno em acção é o tal André Ventura – comentador de futebol, de política, de criminologia e tudo o mais que lhe vier à mão. É artista da CMTV e há muito que espalha as suas obscenas teses, tornadas agora mais conspícuas com a sua promoção de sonda populista-rasca do PSD em Loures. Mas o meu ponto não são estas criaturas, já que quem (se) importa sabe ao que vêm. É que para chocar o ovo da serpente é preciso o calor da cumplicidade. E o que se lamenta é ver quem acompanha e dá legitimidade e um verniz de respeitabilidade a esta gente. O criminologista, escritor e ex-presidente da Câmara Moita Flores, o ex-ministro do PS Rui Pereira e outros que tais. A paga deve ser boa. E, lá diz o diabo do outro, a alma é de cada um. Mas temos o dever da denúncia. De dizer não, não me enganam.

Pigmeus políticos

O sibilino José Eduardo Martins não encontrou melhor forma de se luzir na campanha de Teresa Leal Coelho que recitar-lhe, em altos brados, um poema de Sophia de Mello Breyner. Eu sei que ninguém é proprietário exclusivo de poetas. Mas há qualquer coisa de sórdido nesta cena. De batota. E, curiosamente, dirigir a Teresa Coelho versos como “Porque os outros vão à sombra dos abrigos/ E tu vais de mãos dadas com os perigos/ Porque os outros calculam mas tu não”, é uma rematada mentira. Não da poetisa, claro, mas do declamador, que sabe que a sua dama não merece nem corresponde a um único destes versos.

Isto é poesia de gente grande, para gente grande. Não para pigmeus políticos e oportunistas.

Banha da cobra

Parece que Paulo Portas botou por aí “oração de sapiência”. Tanto bastou para que jornalistas sortidos ficassem em estado de êxtase e com o sistema endócrino desatinado. Nunca compreenderei a adoração que leva os fiéis a queimar incenso aos pés deste vendedor de banha da cobra, deste homem de vão saber, tratando-o como o mais profundo dos pensadores.

Valha a verdade, esta veneração diz mais sobre os crentes que sobre o seu ídolo. Quem ainda tem paciência e estômago para frequentar jornais percebe isto muito bem.

Um certo sarro de tempos longínquos

Ontem foi dia de festa na “universidade” (não uso minúscula mais pequena porque não há). Aníbal, o Cavaco, falava. E do que disse escorreu bílis, sobrou mediocridade, soprou vacuidade. Há nele um certo sarro de tempos longínquos, uma desconformidade com o que de mais nobre tem a democracia. Há nele aquele ódio que gela o espírito dos que pensam ser médium de uma qualquer verdade absoluta que paira no ar e, ao fim de muitos anos, começam penosamente a suspeitar de que talvez se enganem e, pior, que talvez tenham perdido a capacidade de enganar os outros. Em nós há a náusea, a incontível náusea.