querido filho

mãe que pensa sobre a vida do filho

Para a minha filha Camila, uma fantasia escrita em tempos de crescimento escrita em inversão de género….

1. Gostei de ler a tua carta. Nem sempre me falas dessa maneira e achei-a pessoal e muito próxima de mim. Como quando eras bebé. Só que agora falas. Pensas e fazes. Falas. Com os teus gestos, os teus afazeres, a tua distância de mim. É aí onde leio o que desejas da vida. É tanto o que procuras, que até desejava dizer: pára! Deixa alguns dias para ti! Adivinho, no entanto, que estes são os teus dias, quando andas a correr de tarefa em tarefa, de trabalho em trabalho. Raramente vejo a tua querida pessoa. Raramente queres dar um beijo na minha cara já adulta. Raramente brincas comigo. Mas, às tantas, até te sentas no meu colo, como um pequeno que lhe tenham roubado o seu brinquedo. Adivinho. Adivinho e não pergunto. Passo a minha mão pelo teu cabelo, e dou doces beijinhos na tua fronte. Às vezes até pareces um pequeno abandonado. Parece-me ser real esse sentimento de te sentires abandonado. Porém, os beijos, a comida especial que mando preparar para ti, a palmadinha na mão quando me abraças forte. És um garanhão em pequeno, à procura da carícia da mulher. Eis que adivinho, quando estás sem ela, por me procurares a mim.

Eu fico feliz pelo teu carinho. Nem sempre, no entanto, porque às vezes, foges. Foges, como quando tinhas doze, treze anos. Numa idade que nem para mim olhavas. Eu sabia que amavas a tua mãe. Com esse respeito silencioso que eu via no teu olhar. Eu sabia, falavas aos teus amigos. Nem sempre bem de mim: uma mãe autoritária, que gostava de definir o que tu devias fazer. Mas, tinha que fazê-lo. Nem sempre andavas em lugares santos. Nunca te disse, mas eu sabia. Pedia ao meu Deus por ti. Porque esse ser tão doce e crescido, tinha que andar em boas mãos. Às vezes eram boas, outras vezes tive que afastar-te de muitas pessoas que andavam perto de ti. Que convidavas. Que invadias. Que festejavas. Aí ficava, às vezes, a ouvir por onde é que virias, pela porta ou pela janela, cedo ou tarde, só ou com mais alguém. Às vezes, tive que ser dura com pessoas que invadiam a tua intimidade. Não dizias. Não contavas. Mas, eu sabia. Tu, disfarçavas. Se soubesses! Até chorava. Especialmente quando desaparecias. Mas, orgulhosa, orgulhosa estava, pelo filho que tinha.

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