A felicidade é um prato de tripas

Proust tinha uma madalena, cujos aroma, textura e paladar evocavam memórias de infância. Eu, mal comparando, tive recentemente uma tripa enfarinhada, o que só comprova que não é Proust quem quer, e que não há-de ser o mesmo uma infância nutrida a madalenas que a tripas de porco.

Passou-se isto num restaurante onde eu nunca tinha estado, algures em terras minhotas. Depois de perguntar a vários desconhecidos onde é que se podia comer por aquelas bandas, fui parar a um lugar aconchegado e que prometia mesa farta. Se esperam crítica gastronómica, desenganem-se, que eu careço de jeito e entusiasmo para tanto. Aliás, sei que comi e bebi bem mas já nem me lembro exactamente o quê. E não me lembro porque foi nas entradas que eu me detive, e apesar de ter continuado a comer alarvemente, o meu coração – sim, o meu coração, por que não? – apenas recorda aquele petisco inicial, as pequenas iscas de tripa enfarinhada que me foram servidas.  [Read more…]