A felicidade é um prato de tripas

Proust tinha uma madalena, cujos aroma, textura e paladar evocavam memórias de infância. Eu, mal comparando, tive recentemente uma tripa enfarinhada, o que só comprova que não é Proust quem quer, e que não há-de ser o mesmo uma infância nutrida a madalenas que a tripas de porco.

Passou-se isto num restaurante onde eu nunca tinha estado, algures em terras minhotas. Depois de perguntar a vários desconhecidos onde é que se podia comer por aquelas bandas, fui parar a um lugar aconchegado e que prometia mesa farta. Se esperam crítica gastronómica, desenganem-se, que eu careço de jeito e entusiasmo para tanto. Aliás, sei que comi e bebi bem mas já nem me lembro exactamente o quê. E não me lembro porque foi nas entradas que eu me detive, e apesar de ter continuado a comer alarvemente, o meu coração – sim, o meu coração, por que não? – apenas recorda aquele petisco inicial, as pequenas iscas de tripa enfarinhada que me foram servidas. 

Surpreendo-me sempre quando alguém se refere com asco à hipótese de comer um prato de tripas, tal como se deve surpreender um Sherpa quando alguém lhe diz que tem vertigens. Na minha infância livre de biguemaques e comida rápida, eu saudava sempre com entusiasmo a notícia de que a minha mãe ia comprar tripas enfarinhadas ao talho de sempre. Entre as figuras épicas e semi-épicas dessa infância estará sempre o Sr. Jorge do talho, que passava dias a lavar tripas e a preparar a massa com que as recheava, com farinha de milho, cominhos e pimenta. Cominhos e pimenta, mistura mágica, são um dos cheiros da minha infância e são, inegavelmente, aquilo a que cheiram as tripas enfarinhadas. Se a ASAE hoje fosse dar com o Sr. Jorge, na sala dos fundos, de galochas e mangas arregaçadas, à mangueirada aos intestinos de porco, acabavam-se as tripas enfarinhadas num instante. Escusa de lá ir, porém, porque o talho já fechou, como tantas outras lojas de Campanhã.

Ainda se vêem tripas nos tascos do Porto, mas o cheiro a frito e a zurrapa fazem-me perder o rasto aos cominhos e à pimenta, e sem o aval da minha mãezinha eu também não como tripas em qualquer lado. Mas aquelas tripas enfarinhadas que me serviram de entrada, as que eu não pedi nem esperava que me dessem, tinham o mesmo aroma, a mesma textura, a pele rija, levemente crestada, o recheio morno e suave, daquele prato antigo. E por isso apanharam-me de surpresa, escancararam a porta da rua para fazer entrar um vendaval de memórias antigas, e se a senhora que as serviu não se espantou com a minha cara, antes riu e percebeu tudo sem mais, será porque por estas terras ninguém se espanta que alguém se comova com um prato de tripas.

Se entre o que fomos num passado mais ou menos remoto e o que somos hoje não há-de haver muito mais que memória, e se essa memória pode nutrir-se de amores e desamores, alegrias e mágoas, por que não, com mil demónios enfarinhados!, não há-de também nutrir-se de um prato de tripas?

Por isso, honra lhe seja feita, eu que nunca aqui fiz publicidade, digo-vos a todos que este meu momento proustiano se passou numa casa honesta e acolhedora chamada “Vaticano”, nome que me inspirou – mea culpa, mea culpa – muita desconfiança inicial, depressa posta de parte, e que fica no coração do lugar de Souto, concelho de Terras de Bouro. Ide, ide, e sede felizes.

Comments


  1. Ó Carla, que diacho, até me fez voltar a cheirar as ‘tripas’ (salvo seja) da minha avó, minhota também! E as visões da lavagem e preparação das ditas, que a minha avó, desconfiada e cuidadosa, teimava em repetir ela própria, para ter a certeza do que punha na mesa… 🙂

  2. adelinoferreira says:

    A Carla recordou a infância, foi “em busca do
    tempo perdido”


  3. … e alguém pediu o meu tintol, na malga, pois claro?!
    A babar-me, com todo o ritual…
    Ah! Conheço na memória essa Adega regional, uma boa altura para regressar.

  4. doorstep says:

    “Se esperam crítica gastronómica, desenganem-se, que eu careço de jeito…”

    Que inverdadeira…


  5. A pimenta e os cominhos eram o segredo. Não a tripa mas o que está lá dentro. O travo a pimenta, o cheiro das especiarias, Na Praça da República havia um talho que preservava todos esses segredos,

  6. Jacinta Maria Martins da Fonte Gunther says:

    Pois olha! Eu sou da freguesia de Souto e o Vaticano fica no lugar da Igreja (bem pertinho da mesma). Só tomei café por lá, porque vivo longe de Souto há muitos anos, mas sempre visito, quando posso.
    Então o Vaticano também serve comida!… Que bom!
    Que bom, sobretudo, ouvir falar de minha aldeia a mais de 10.000 km de distância!
    Obrigada!

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