Viagem a Atenas e ao futuro de Portugal

Aviso à navegação: este relato não é  asséptico, nem imparcial. É a história de uma ida a Atenas, o berço da democracia, agora transformado em laboratório de experiências pela Troika, que todos os dias mata em todos nós mais um pouco de esperança. É o relato do contacto, na primeira pessoa, com um estado policial, que nos deixa o sentimento de que, na Grécia, a polícia é um dos principais inimigos dos cidadãos. É a narrativa de uma perda pessoal. Do vazio que fica depois de nos roubarem algo que nos é precioso e vital. De nos sonegarem a memória. Mas é também a história de gente que resiste. Que teima em idealizar um sonho colectivo. Que persiste em ser solidária. E que acredita que todos os povos são irmãos.

 I

Portugueses, gregos, franceses, italianos, alemães…juntaram-se na capital grega para, juntos, darem mais um passo naquilo que é a resistência à austeridade imposta aos povos da Europa.

“Acabar com a austeridade antes que a austeridade destrua a democracia” foi o lema da Alter Summit, a cimeira alternativa que reuniu cerca de 2000 representantes de movimentos sociais em luta “por uma Europa democrática, social, ecológica e feminista”.

“Ninguém deve ficar só perante a crise é a palavra de ordem dos movimentos gregos”, pode ler-se no comunicado distribuído à imprensa pela delegação portuguesa que participou na cimeira. “Porque a Grécia tem sido particularmente massacrada pela austeridade, mas também porque as lutas travadas pela população têm sido verdadeiros exemplos de resistência, esta cimeira alternativa vai acontecer lá. A afirmação da solidariedade é o primeiro passo para a construção de espaços de acção e de mobilização conjunta. Conhecer, partilhar, denunciar, transformar, reforçar a nossa capacidade de acção e delinear uma estratégia comum, à escala europeia, que inverta a relação de forças face às elites que têm dominado a Europa e derrube as politicas de austeridade impostas, são os nossos principais objectivos”.

Com estes objectivos em mente, a delegação portuguesa, constituída por activistas e sindicalistas de diferentes organizações, aterrou, na quinta-feira, dia 6 de Junho, no aeroporto Eleftherios Venizelos, depois de oito horas passadas entre voos e esperas em aeroportos, para se juntar, no estádio olímpico de Atenas, às outras delegações. Eu levava comigo a minha máquina fotográfica para trazer a memória desses dias, não sabendo ainda que, quando regressasse, ela já não me acompanharia. Mas essa história contarei mais tarde. Primeiro, quero dar-vos a ver a cimeira e o que, por lá, se discutiu. Quero dizer-vos do tanto orgulho que senti das mulheres que representaram e falaram por Portugal. Quero contar-vos da esperança e da certeza de que o mundo ainda está cheio de mulheres e homens de boa-vontade.

Chegámos ao estádio olímpico, localizado em Marousi, um subúrbio ao norte de Atenas, já tarde (por volta das 22.30 locais), mas não tarde o suficiente para que não pudéssemos aperceber-nos da sua degradação. Inaugurado originalmente em 1982, o edifício projectado pelo arquitecto espanhol Santiago Calatrava foi completamente renovado para os Jogos Olímpicos de 2004. Há nove anos, o regresso das Olimpíadas a Atenas foi celebrado com pompa e circunstância. Hoje, o cenário é desolador. A decadência do parque olímpico é visível e a sua remodelação parece ter sido obtida por um preço demasiado elevado. Transformando-se pouco a pouco em ruínas, o estádio representa, agora, para os gregos, todos os maus investimentos que cavaram a desastrosa situação financeira do país.

A simpatia dos gregos cativa-nos logo à chegada. Disponibilizam-se para nos acompanhar ao sítio onde vamos dormir, mas não sem antes encomendarem pizzas que alguém nos entrega passados 45 minutos. Depois de jantarmos, vamos em grupos de quatro, entre malas e bagagens, no pequeno carro que Abdul disponibiliza para nos transportar. É o chão de um pavilhão abandonado que nos espera. Vêem-se corpos deitados nos vários cantos do recinto. As luzes mantêm-se acesas porque ninguém sabe desligá-las. São duas e meia da manhã em Atenas e a exaustão começa a tomar conta de nós.

II

A noite é agitada pela dureza do piso e pelo ressonar de um dos participantes na cimeira. Mas passa, e é com entusiasmo que vejo as mulheres que acompanho levantarem-se, prontas para um dia de luta por um mundo mais justo. A alegria é quase eufórica quando nos damos conta de que temos direito a um banho de água quente. Estamos todas prontas para enfrentar o longo dia que nos espera. A cimeira começa às 11 horas e vai prolongar-se até à meia-noite.

Magda Alves, Myriam Zaluar, Lídia Fernandes, Gabriela Farinha, e Judite Fernandes vão participar em discussões sobre os efeitos da austeridade, habitação, saúde, educação, direitos sociais, feminismo, dívida e sistema financeiro, juventude, (des)emprego, ambiente, …certas de que o papel das mulheres em tudo isso é fundamental. Eu vou para registar, em imagens, essas discussões o melhor que sei e posso, mas não sem antes tomar um frappé, café solúvel com cubos de gelo e espumado num shaker ou liquidificador. Hei-de descobrir mais tarde que durante toda a estadia andarei “movida” a frappé.

Chegadas ao enorme espaço onde vai decorrer a cimeira, assistimos ao montar das bancas de cada associação ou movimento social de cada país. A delegação portuguesa faz o mesmo e rapidamente surgem pins, camisolas, sacos… da UMAR, dos Precários Inflexíveis, da Marcha Mundial da Mulheres… em cima das mesas reservadas para o efeito. A cimeira está quase a começar e temos de fazer a acreditação. Tudo está organizado, permitindo que, em pouco tempo, estejamos a assistir à assembleia feminista que marca o arranque do Alter Summit. Mas, antes, os 25 delegados portugueses juntam-se para ensaiar “Grândola Vila Morena” – canção escolhida pela organização para encerrar primeiro dia da cimeira –, perante a curiosidade de quem passa. A assembleia feminista começa e torna-se evidente, perante os testemunhos das delegadas dos diferentes países, que o mercado de trabalho cada vez mais fechado relega as mulheres para papéis tradicionais, como a maternidade e a cozinha; e as mulheres são as primeiras a perder o emprego. E que, na Grécia, como em Itália, ou em Portugal, as mulheres se encontram entre o sub-emprego e a acumulação de empregos para poderem sobreviver. Entre outros expedientes, muitas são forçadas a recorrer à prostituição. O aumento dos preços impede o acesso aos serviços públicos, como cuidados médicos e creches. Magda Alves, representante da Marcha Mundial das Mulheres, fala sobre a experiência das portuguesas, numa intervenção aplaudida por todos. Do outro lado do estádio, Manuela Mendonça, da FENPROF, fala sobre educação e do que em Portugal estão a tentar fazer à escola pública.

Feitas as várias fotografias das várias assembleias, penso em comer. Dirijo-me ao exterior e à banca da comida. Fotografo duas mulheres que fazem pão, sentadas ali mesmo, no chão. Converso com elas enquanto espero pela minha refeição. Depois de alimentar o estômago, volto a alimentar os olhos e fotografo as bancas, os panos com palavras de ordem, a azáfama de quem está ali porque quer mudar o mundo. Vejo uma mulher bonita com uma criança e por trás um pano onde se lê “Les peuples se lèvent face à la finance”: A primeira foto é feita depois de ela assentir com um sorriso. Age com tanta normalidade que eu fico fascinada. A criança, ainda bebé, choraminga por comida e ela dá-lhe o peito. Permite-me fotografá-la. Depois disso conversamos. Chama-se Evi. Pergunta-me de onde sou e diz-me que também ela faz parte de uma associação grega. É uma escola para imigrantes. Pergunta-me onde estou a dormir e eu conto-lhe sobre a noite anterior. Com a naturalidade das pessoas boas, diz-me “Vem dormir na minha casa”. Sorrio e digo-lhe que não estou sozinha e que eu e uma amiga estamos a pensar fazer um trabalho sobre a crise na Grécia, e que, também por isso, queremos ficar juntas. Ela diz-me “Trá-la contigo também”. E eu, que ando com a “Grândola” na garganta, lembrei-me do Zeca Afonso. Juro que lembrei. Trocamos contactos telefónicos e despedimo-nos.

Volto a entrar, pois está prestes a começar o plenário onde vão falar, entre outros, Judite Fernandes, da Marcha Mundial das Mulheres, e Myriam Zaluar, dos Precários Inflexíveis. Troco o cartão da máquina fotográfica por um com mais memória e preparo-me para fotografar noite dentro. São muitas as intervenções e de toda a Europa. Junto-me à delegação portuguesa e falo com a Myriam sobre a proposta da Evi. Resolvemos aceitar tanta amabilidade. Depois de escolhido o local para fotografar tudo o que se passa no palco, o meu trabalho recomeça. Ao palanque sobe gente de toda a Europa, empenhada na luta contra o capitalismo e a austeridade. Judite Fernandes faz uma dissertação gloriosa sobre o modo como a crise mexe com a vida de todos, especialmente a das mulheres, e é aplaudida de pé quando exige respeito para todas e todos que sofrem com as políticas de austeridade.

Myriam Zaluar sobe também ao palco para dizer, entre outras coisas: “Hoje venho aqui falar-vos do que se passa no meu país, sabendo porém de antemão que o que vos vou contar vos será familiar: a vida que nos roubam, o futuro que nos sonegam, o presente condenado à sobrevivência e à precariedade. O emprego que se perde, os direitos que vemos por um canudo, os bens essenciais que de repente nos parecem luxos. Em Portugal a electricidade e o gás passaram a pagar a taxa máxima de IVA: 23%. Os desempregados e os reformados agora pagam impostos sobre os seus subsídios e reformas. Dos 18% oficialmente desempregados apenas metade recebe ajuda. Para não falar nas dezenas, centenas(?) de milhares que não contam para as estatísticas: são os biscateiros, os que trabalham apenas umas horas por mês, os que são considerados empresários porque só conseguem trabalhar a troco de um recibo que nos tornou tristemente famosos nos restantes países: os recibos verdes, que transformam trabalhadores por conta de outrém em autoempregados, forçados a descontar para o Estado mais de metade dos seus rendimentos sem qualquer contrapartida. Hoje, mais de 50% da população activa é precária ou está sem trabalho e o salário mínimo mantém-se nuns miseráveis 485 euros brutos. A troika – FMI, BCI e BCE – que literalmente ocupou o nosso país há dois anos veio apenas piorar ainda mais a situação. Dois anos depois da sua chegada e graças à sua “ajuda”, temos hoje uma dívida que ultrapassa 120% do PIB e que continua a aumentar”.

No fim de todas as intervenções, a delegação portuguesa é convidada a cantar a «Grândola». Que melhor final podíamos desejar?

III

No sábado, eu e a Myriam resolvemos, com o apoio da delegação portuguesa, dedicar o dia ao trabalho que ambas queríamos trazer da Grécia. Um retrato social que permitisse às portuguesas (e digo portuguesas porque era um trabalho sobre os efeitos da crise na vida das mulheres gregas) e aos portugueses, perceber o que se está a passar na Grécia. Levanto-me um pouco mais cedo pois quero fotografar o ambiente babilónico do centro de Atenas: os mercados, as ruas, as paredes cheias de palavras de ordem e grafitis…Saio de casa às oito (seis horas em Portugal), compro um bilhete por 1,40€ e apanho o autocarro 040 em direcção ao centro. Os transportes públicos, tal como em Lisboa, circulam apinhados de gente.
Já no centro de Atenas, ando de rua em rua até encontrar o mercado central da capital grega, perto da praça de Monastaraki. O festival de cheiros e cores seduz-nos, mas a quantidade de crianças e de velhos indigentes é uma golpada para qualquer alma, mesmo para as menos sensíveis. Fotografo uma criança com cerca de nove anos que vende alhos. Não tem mais do que seis cabeças de alhos para vender. Ao lado, um gato maltratado e abandonado compõe a cena de um filme que ninguém gosta de ver. Parecem dois pequenos animais desamparados, penso enquanto fotografo. Ainda à entrada do mercado, junto a um carro muito velho, de portas abertas, mala levantada, um adolescente pede aos passantes que lhe comprem os alhos que tem para vender. O tejadilho e a mala do carro estão cheios deles.
Tudo se vende, no mercado e nas ruas adjacentes: carnes, peixes, mariscos, legumes, rádios, pilhas… tudo o que possamos imaginar. As bancas de frutos secos são um regalo para os olhos e por todo o lado se vêem vendedores com um molho ou dois de ervas aromáticas. Muitas vezes, esses vendedores são imigrantes, crianças e velhos que tentam vender qualquer coisa para combater a fome logo ali.

Passo grande parte da manhã por ali e só páro de fotografar para tomar um frappé. Num pequeno café, aproveito e converso com o empregado sobre o que se está a passar na Grécia. Fala inglês muito bem e tem consciência política. Aliás, a consciência política dos gregos surpreende-me sempre que falo com um deles. Mas penso para comigo que, afinal de contas, Atenas é o berço da civilização e terra de filósofos e tudo faz sentido. Conto-lhe sobre Portugal e concluímos ambos que a situação dos dois países é idêntica: a corrupção, o despotismo, a irresponsabilidade governamental, a fome, e miséria não têm pátria nem são exclusivos de um qualquer país. Despeço-me e dirijo-me para a praça de Monastiraki. A imagem do velho e lindíssimo mosteiro e a leveza dos turistas contrastam com a pobreza dos vendedores e dos pedintes. É confrangedor. Uma família, constituída por pai e dois filhos menores – o mais novo não tem mais de cinco anos –, prepara-se para animar os turistas com o seu acordeão. Do instrumento saem sons de uma melancolia que nos atravessa o coração.
Por todo o lado se vêem polícias. Andam em bandos e constato que não têm mais do que 25 anos. Hei-de falar sobre isto com George e com Evi, o casal que nos deu guarida, penso eu enquanto espero por Myriam à porta do metro onde um guitarrista tenta ganhar o dia. Vejo, na caixa da guitarra, um CD que já editou. Provavelmente já teve dias melhores, reflicto. Ao lado, vivem dois sem-abrigo. A Myriam Zaluar chega, e, juntas, apanhamos o metro para Eleonas. Vamos conhecer mulheres gregas e as suas histórias. Ela vai entrevistá-las e eu vou fotografá-las. Chegamos a uma zona industrial abandonada e o cenário lembra-me o de muitas que conhecemos em Portugal. Velhas fábricas em ruínas, armazéns abandonados ainda com alguma maquinaria deixada para trás, carros velhos parados, a solidão dos edifícios outrora cheios de gente. Num velho armazém encontramo-nos com um cineasta que está a fazer um documentário sobre a situação das mulheres na Grécia. A Myriam fala com algumas e eu aproveito para retratá-las. Há mulheres muito jovens e mulheres menos jovens. Fotografo uma que chora enquanto conta a sua história. Fotografo outra que demonstra, na sua linguagem corporal, toda a força e todo o repúdio de que é capaz. Ficamos contentes, eu e a Myriam, pois o nosso trabalho está a correr bem, e despedimo-nos para voltarmos a apanhar o metro, desta vez em direcção à estação de Viktoria para nos juntarmos à manifestação internacional que terminará em Sintagma, onde se juntará ao Atenas Pride. O caminho é feito por ruas cheias de lojas fechadas e casas abandonadas. As paredes dos edifícios foram inundadas por grafitis e palavras de ordem. Conseguimos finalmente alcançar a manifestação e encontramos as várias delegações da Alter Summit. A nossa luta é mesmo internacional, penso enquanto fotografo os protestos de gregos, franceses, italianos, alemães e portugueses. O Atenas Pride é profundamente político as palavras de ordem assumem uma força surpreendente. Encontramos Evi e George com a sua pequena bebé e alguns amigos. A sensação que nos fica é a de que os gregos são muito mais aguerridos do que nós. A indignação que sentem é visível nas ruas. A ordem é “que ninguém fique em casa”. E eles não ficam. Mesmo com crianças pequenas, mesmo com os seus afazeres, ou as suas vidas pessoais mais ou menos complicadas. A rua é o lugar de todas as lutas. Há polícias escondidos entre arbustos e quando a manifestação termina começam a surgir. São muitos. Parecem-me em número excessivo.
Depois da manifestação, a Myriam vai falar mais calmamente com as mulheres da manhã, com quem combinou encontrar-se em Monastiraki. Eu telefono a uma das amigas da delegação portuguesa que me diz o nome do restaurante onde estão. Junto-me a elas, mal sabendo eu que ia começar aí a minha viagem à realidade mais crua da Grécia. E ao futuro de Portugal.

IV

O restaurante chama-se Metropolis e tem uma esplanada convidativa, rodeada por alguns arbustos que a protegem e delimitam. As cinco mulheres que me aguardam estão sentadas em três mesas mais recatadas, no interior da esplanada, fora da zona de passagem. São 22 horas e 30 minutos. Comemos comida tradicional grega, bebemos um pouco de vinho branco e conversamos. Para resguardar a máquina fotográfica que levo comigo, coloco-a numa cadeira, ao meu lado, protegida pela toalha que cobre a mesa.

Já depois da meia-noite e meia, algumas mulheres, que têm de ir dormir ao estádio, despedem-se. Eu fico com Judite Fernandes, que vai apanhar o avião de regresso a Portugal, dali a umas horas. Telefono a Myriam Zaluar e combinamos que estaremos no restaurante à espera dela. Um empregado começa a arrumar e a retirar as toalhas e as mesas.

Nenhuma de nós desconfia do que se passará a seguir, mas quando o mesmo empregado se senta mesmo ao nosso lado, na mesa contígua à nossa, o meu instinto dispara e olho para a cadeira onde deveria estar a máquina fotográfica. Desapareceu. Grito isso aos empregados, únicas pessoas que estão no restaurante há quase meia hora. Estão já, aliás, sentados na esplanada, nas cadeiras e mesas mais encostadas à parede do restaurante. A confusão instala-se e a certeza de que a única pessoa que se aproximou da mesa foi o empregado é confirmada pelos outros funcionários do restaurante e pelo comportamento daquele que nos serviu. Ele nega de forma arrogante, e chama-se a polícia. O empregado – saberemos mais tarde que se chama Romeo – prepara-se para sair mas são os outros que lhe dizem, quase aos gritos, que não pode. Que todos ficarão no restaurante até chegar a polícia.

Entretanto, Myriam chega e é informada pela Judite do que se está a passar. O insólito começa com a chegada dos agentes, uns minutos depois. São três homens, com menos de 25 anos, equipados como a nossa polícia de intervenção, faltando-lhes apenas o escudo. Falam alarvemente e olham-nos de cima para baixo, nunca nos olhos. Começam a falar em grego com o filho do dono do estabelecimento e quando eu lhes digo, em inglês, que não percebo a conversa e que quero percebê-la, eles ignoram-me e continuam. Eu volto a chamar-lhes a atenção e eles pedem-me a identificação.

Vendo a minha indignação, Myriam diz aos polícias que aquela é uma delegação portuguesa, e que há jornalistas no local. Eles acedem em falar inglês mas dizem-nos que só nos resta apresentar queixa na esquadra. Myriam exige uma busca às instalações e começa ela mesma a fazê-la, instigada pelo filho do dono do restaurante. Judite ajuda. A polícia assiste impávida e serena, como se nada se passasse. Quando acusamos o empregado, eles perguntam-lhe o nome e pouco depois retiram-se. Nós ficamos mais um pouco, tentando convencer Romeo a entregar a máquina, prometendo que, se o fizesse, não apresentaríamos qualquer queixa. Ficamos a saber que o jovem é albanês e trabalha ali à jorna. Na mesa onde está sentado, estão outros empregados na mesma situação. Riem-se e nós não percebemos porquê. O ambiente é suspeito e tudo nos leva a crer que naquele espaço se fazem muitos negócios escusos, cada vez mais comuns na capital grega.

Abandonamos o restaurante prometendo voltar para falar com o proprietário e levamos Judite ao autocarro que a transportará ao aeroporto. Myriam e eu procuramos a paragem de autocarro que nos levará a casa. O condutor não nos deixa pagar bilhete e percebemos que ninguém paga. É uma forma de protesto contra a privatização dos transportes. A angústia apodera-se de nós. Pela máquina, mas sobretudo por todo o trabalho perdido. Ambas fomos afectadas com aquele roubo. A reportagem que estávamos a fazer estava completamente perdida, e foi com angústia que depois da viagem de autocarro caminhámos durante cerca de duas horas até encontrarmos a casa de Evi e George que já tinham sido informados do sucedido.

A noite é tormentosa e eu anseio pela manhã de domingo para que o casal grego me acompanhe ao restaurante no sentido de explicarem a Romeo, que eu apenas quero a máquina e não farei qualquer queixa se ele a entregar. O rapaz não trabalh nesse dia mas dão-nos o seu contacto telefónico. Nem sequer sabem o apelido dele e começam a sentir-se incomodados pela nossa persistência. Incansáveis, os nossos amigos gregos levam-nos – a mim e a Myriam – ao bairro anarquista. De lá telefonam a Romeo, oferecendo-lhe dinheiro pela máquina e garantindo-lhe que nada faremos contra ele. Sem resultado. A certeza de que a máquina já entrou no circuito de venda de objectos roubados apodera-se de todos.

Resta-nos a queixa na polícia e na embaixada portuguesa, que tentamos contactar, em vão. Não há nenhum número de emergência no site, nem sequer um atendedor que nos remeta para um número de atendimento permanente. A solidariedade da delegação portuguesa começa rapidamente a chegar e Gabriela Farinha, advogada e activista também presente em Atenas para a Cimeira Alternativa, prontifica-se a acompanhar-me à esquadra e à embaixada no dia seguinte. Da parte dos gregos também chegam manifestações de solidariedade. A notícia do roubo já corre nas redes sociais. O gerente do bar onde estamos dá-nos algumas dicas, mas diz-me para não me iludir. É um dos muitos lugares ocupados por activistas e onde eles se juntam em Atenas.

George quer distrair-me para que eu tente esquecer um pouco a máquina e todo o trabalho perdido. Chama-me a atenção para os extraordinários murais espalhados pela zona. Fotografo, com o telemóvel, um dos que me chama mais a atenção. É o ministro da Administração Interna (que aqui tem o pomposo nome de “ministro da defesa dos cidadãos”) desenhado na parede, bebendo sangue como um vampiro. Mal eu sabia que, no dia seguinte, na esquadra de Monastaraki, iria vê-lo ao vivo, quando lá aparecer para uma visita “surpresa”, acompanhado por uma comitiva internacional.

Decidimos levar Evi, a sua bebé e Myriam a casa e passar na esquadra, não para apresentar queixa – isso seria apenas no dia seguinte –, mas para ver se alguém teria lá deixado o cartão de memória da máquina. George acede mais para não me contrariar do que por pensar que pode resultar. Tem pela polícia grega um profundo repúdio e é na esquadra que eu vou perceber exactamente porquê. Depois de estacionarmos, percorremos ruas menos turísticas a pé, em direcção à esquadra. Conto-lhe do desconforto que sinto perante tanta polícia nas ruas, do incómodo de os ver tão jovens e tão insensíveis, quais máquinas de guerra. Ele diz-me que, desde há dois anos, a polícia mudou muito. Entraram 7000 novos agentes, treinados pela polícia israelita. Fico estupefacta. Fala-me ainda da insegurança que os cidadãos sentem perante as forças policiais que, por exemplo num protesto, escolhem a cabeça como sítio privilegiado para bater. Conta-me de um amigo seu, jornalista, que tem ataques de epilepsia desde que foi brutalmente agredido durante uma manifestação. Chegamos à esquadra e George pergunta a um dos muitos polícias que estão na entrada a rir e a falar alto – mais uma vez, a forma artilhada como estão equipados incomoda-me –, sem olhar para nós, um deles indica-nos o quarto andar.

Quando entramos na sala onde temos de esperar que alguém nos atenda, não podemos deixar de reparar num imigrante sentado num dos bancos, guardado por três polícias. Todo ele treme. Lá dentro, numa outra sala, antes de fecharem a porta, ainda consigo ver um outro imigrante a ser empurrado para um cubículo sem janela, construído em madeira. Depois de o empurrarem, cinco polícias de grande estatura entram com ele. Ouço o bater de algo contra as paredes de madeira vezes sem conta. Sei que é um corpo. A porta é fechada, mas o barulho continua a ouvir-se. Olho para George e ele diz-me para não falarmos ali. Quinze minutos depois, um polícia diz-nos para entrar. Os cinco homens saem entretanto. Do imigrante, nada sabemos. Um outro agente manda-nos sentar. Depois de George lhe explicar ao que íamos, diz-nos de forma arrogante que a única coisa a fazer é apresentar queixa. George diz-lhe que ainda não queremos fazê-lo e o polícia responde que, nesse caso, só nos resta ir embora. Entra o outro imigrante na sala e é também empurrado para dentro do tal cubículo pelos mesmos cinco polícias. Somos convidados sair. Já fora da esquadra, o desconforto é enorme. E a sensação de impotência também. George conta-me que aquela esquadra é famosa por ser a que mais maltrata os imigrantes, que são vítimas de tortura e da impunidade que reina entre as forças policias. Conta-me dos campos de detenção para imigrantes, a funcionar fora do centro de Atenas, autênticos campos de concentração onde “desaparecem” muitos dos que para lá são enviados.

Voltamos às ruas de Atenas. Não quero acreditar quando vejo ratos a passear pelas ruas. São muitos. Olho incrédula para George que me explica que a cidade, normalmente desinfestada todos os anos, já não o é há dois, e que ratos, baratas e outros bichos pululam pela cidade. A saúde pública está cada vez mais ameaçada. Regressamos a casa onde Evi nos espera para jantar. Myriam sai para ver as ruínas gregas. Eu estou cansada de ruínas e fico em casa. Quando regressa, traz-me um «olho profilático», também conhecido como «o olho que tudo vê» – um único olho humano cercado por feixes de luz – símbolo do poder observador e protector de um ser supremo. Emociono-me e choro finalmente.

V

É segunda-feira e dia de regresso a Portugal. Sinto-me como se já estivesse em Atenas há 15 dias e só se passaram três. Levanto-me com Myriam para a ajudar a carregar as coisas dela. Tem viagem marcada para as nove, mas tem de estar no aeroporto às sete. Despedimo-nos na Praça Sintagma, onde eu ficarei a aguardar por Gabriela Farinha para, juntas, irmos mais uma vez ao restaurante, e depois à esquadra. Ela chega por volta das nove e diz-me que Sissi, uma activista grega conhecedora da lei grega, se juntará a nós no Metropolis. Quando chegamos ao restaurante, é a Gabriela quem fala com o jovem empregado. Durante a conversa, ele mantém os olhos baixos. Diz-lhe que nada pode fazer. Ela repara que falta a falange do dedo mindinho ao imigrante albanês, o que, depois, nos leva a considerar a hipótese de ele estar a ser pressionado, como tantos outros imigrantes, pela máfia albanesa.

Sissi chega entretanto e fala com o proprietário, avisando-o de que vamos fazer uma queixa contra o restaurante. Diz-nos que já nada há a fazer ali e dirigimo-nos à esquadra. Mandam-nos subir, de novo, ao quarto andar. O cenário, desta vez, é muito diferente. Os polícias estão vestidos à paisana. São mais de dez os que vemos por ali. Mandam-nos entrar para a sala onde eu tinha estado no dia anterior. Sissi fala em grego com o polícia e começa todo o processo da apresentação formal da queixa. Sissi vai-me fazendo perguntas e chega ao momento em que me diz que o polícia quer saber qual é a minha religião, ao que respondo que ele nada tem a ver com isso. Ela diz-lhe que esse é um assunto privado meu e ele responde que tenho de jurar que tudo aquilo é verdade. Respondo que o faço pela minha honra.

Nas paredes da sala estão espalhadas folhas A4 com retratos de Cristo e de muitos santos. Isso impressiona-me. Gabriela chama-me a atenção para as baratas que se passeiam pela sala. No fim da apresentação da queixa, peço uma cópia. Sissi diz-me que já a pediu, mas que o polícia lhe respondeu que temos de a requerer no primeiro andar e que alguém terá de a levantar no prazo de 10 dias. Diz-me também que se quisermos avançar com a queixa criminalmente, temos de pagar 100 euros, uma medida recente para dissuadir quem não tem dinheiro de recorrer à justiça. Dirigimo-nos ao primeiro andar. Depois de preenchermos uma quantidade de papéis, saímos da esquadra, não sem antes reparar que nas paredes da sala do primeiro andar os retratos de Cristo e dos santos se misturam com os de “criminosos” procurados pela polícia. A mim parecem-me todos imigrantes.

Despeço-me de Sissi e de Gabriela pois tenho de regressar a casa de Evi e de George para ir buscar a minha bagagem. Combinamos encontrar-nos depois para, juntas, irmos para o aeroporto no autocarro que apanharemos em Sintagma. Evi telefona-me entretanto e diz-me que George está à minha espera para me levar de novo a Sintagma. Têm receio de que, para além de tudo o que aconteceu, eu ainda perca o avião. A solidariedade deles é tocante, e a ideia de que fiz amigos ali parece-me remediar um pouco toda a situação vivida nestes dias. Aliás, é o sentimento mais forte que tenho. Magda Alves, Myriam Zaluar, Lídia Fernandes, Judite Fernandes, Gabiela Farinha, Sissi, são o exemplo de que o mundo não está perdido enquanto houver solidariedade entre as mulheres e os homens de boa vontade.

Finalmente no avião de regresso a Lisboa, onde chegamos ao fim da noite, após fazermos escala em Frankfurt. Depois do jantar a bordo, damo-nos conta de que tudo o que não comemos é deitado fora, mesmo as coisas embaladas. Eu e Gabriela falamos de desperdício alimentar durante a viagem. Quando saímos do aeroporto, somos abordadas por um sem-abrigo que pede 50 cêntimos para poder comprar um queque. Não há dúvida: estamos de novo em Portugal, mas podíamos também estar em Atenas.

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Comments

  1. nightwishpt says:

    Para quem anda atento, e conhece as ligações da Autora Dourada à polícia, não há nada de surpreendente no seu relato…
    Infelizmente, anda tudo a dormir.

  2. José Manuel says:

    também conclui isso apenas pelo belo relato da senhora.


  3. O relato é comovedor e bonito, so peca por não ter dito que tirando a lingua estamos (em tudo) como no Beira,Ribatejo ou Açores.
    Infelizmente tambem não se preocupam com quem paga o que comem, em prender os corruptos, quem passa fome com greves “democraticas” de dias seguidos nos ferries, professores; de que com o tiro ao alvo nos policias estao a ferir um pai ou filho como eles; tudo respeito e democracia à portuguesa= tambem desfilam na av.contra a troika e quando das eleiçoes votam em palhaços que arruinaram antes o país, enfim tirando a lingua estamos com os nossos comovedores irmãos.

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