Era uma vez a Europa


Numa história bem escrita, Paulo Pena relata no PÚBLICO os bastidores de uma certa Europa, trazendo à luz a realidade de poder, e não de economia, que reina no Eurogrupo.

Continua Varoufakis: “Em todas as reuniões do Eurogrupo, logo que se abria o período de intervenções dos ministros, ocorria o mesmo ritual. Primeiro, a claque de apoio do dr. Schäuble, constituída por ministros das Finanças dos países do Leste, competiria entre si para ver que é mais pro-Schäuble que o próprio Schäuble. Depois, os ministros dos países submetidos a resgates como a Irlanda, a Espanha, Portugal e Chipre – os prisioneiros-modelo de Schäuble – acrescentariam a sua bagatela Schäuble-compatível imediatamente antes de, por fim, Wolfgang, o próprio, vir a terreiro para finalizar com alguns retoques a narrativa que controlava desde o início.” [P]

São as palavras de Varoufakis, dirão. Mas publicadas em livro, que todos podem contrariar.

No dia 20 de Fevereiro não aconteceu nada disto. “Libertado do feitiço de Wolfgang pelas instruções directas da chanceler alemã, Jeroem [Dijsselbloem] leu o esboço do comunicado e chamou-me para o defender”, conta Varoufakis. Ninguém se inscreveu para falar. Ao contrário das outras vezes, não houve claque. Apenas um “silêncio constrangedor”. Temendo Schäuble, “ninguém defendeu o comunicado, mas também não se atreveram a criticá-lo”. Para piorar a situação do ministro alemão, Christine Lagarde, do FMI, e Mario Draghi, do BCE, apoiaram a decisão tal como estava proposta.

Schäuble não se calou. Inscreveu-se várias vezes para falar, criticando o comunicado e a decisão do Eurogrupo. Queria que qualquer comunicado reafirmasse o compromisso da Grécia com o memorando existente e com o programa acordado. “Perdi a conta ao número de intervenções dele – mas devem ter sido mais de vinte”, conta Varoufakis.

O ministro alemão não ficou sozinho a criticar o acordo patrocinado pela sua própria chanceler: “Os únicos ministros que o apoiaram foram a portuguesa [Maria Luís Albuquerque] e o meu vizinho do lado, o ministro espanhol Luis de Guindos, que falou mais de dez vezes – seguramente reflectindo o medo do seu Governo por qualquer êxito do Syriza que pudesse suscitar apoio para o Podemos nas eleições que se avizinhavam em Espanha.”  [P]

Poder, sempre o poder, e a necessidade de esmagar toda a alternativa, para se reafirmar “Não Há Alternativa”. Os pequenos, podendo optar por unirem forças, escolheram, pelo contrário, agradar ao dono, em busca da eventual migalha. Atendendo ao relato, Portugal dos PàF incluído.

A Geringonça, com todos os defeitos que se lhe aponte, foi e é, no entanto, uma alternativa, que Schäuble, por diversas vezes, procurou destruir com declarações assassinas. As armas dos números que pareciam inatingíveis foram usadas para atordoar o monstro, que ficou sem discurso, tanto entre nós, como lá fora. Deverá estar, entretanto, a ganhar fôlego.

Não basta chegar ao objectivo. O caminho que se faz é igualmente importante, como poderá confirmar quem corte uma perna para perder peso. E a Geringonça não continuou o cortes nos salários, nas pensões e nas reformas, pelo contrário, para lá chegar. É uma enorme diferença de caminho.

Pegando na alegoria de Paulo Pena, a novela ainda não terminou. Esperemos as cenas dos próximos capítulos, pois quem tem o poder não dorme.

Comments

  1. Ricardo Almeida says:

    Nestas alturas sinto vergonha de dizer que partilho nacionalidade com personagens como a Maria Luiza…
    O caixão político da senhora está mais que selado, muito graças aos pregos da Arrow Global, mas quando se pensava que a artista estava morta para o mundo da política, eis que se sabe que afinal o limite da vergonha PàF afinal fora subestimado… mais uma vez.
    É humilhante para um português ler estas palavras, saber que entre os invertebrados que diariamente beijavam o anel de Schäuble estava a nossa “ministra” das finanças.
    Eu não tenho vergonha de ser português mas fico automaticamente envergonhado se me perguntarem se a Maria é minha compatriota.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Não me esqueço da “literatura” que os media puseram a circular, mostrando um Varoufakis de mota, com ar hippie de cabelo reduzido à mínima expressão, a jantar à luz das velas, numa esplanada sobre o mar, com uns belos copos de vinho à frente e colocando sempre na primeira página a Dª Varoufakis, uma senhora de meia idade com alguns atributos.
    Os media foram inexcedíveis ao fazerem na comunicação o papel sujo de Maria Luís Albuquerque no Parlamento Europeu, sempre no sentido de descredibilizar Varoufakis.
    E a nossa televisão, comandada pelo incansável Rodrigues dos Santos, repetia os folhetins com imagens em movimento.

    Mas na hora de apurarem a sujidade de Maria Luís, não esqueçam o papel desse político nulo de nome Passos Coelho que estava para a Maria Luís como Merkel estava para Schauble.
    E não esqueçam ainda o papel do “padrinho” que do Palácio de Belém mandaria uns recados para bajular e baixar as calças.
    A PàF foi um verdadeiro regime de Vichy para Portugal.
    Pena é que tenha tantos apoiantes, Um, já seria demais.
    NOTA: Sou um democrata, mas repugnam-me lavajões e fascistas.

    • Nascimento says:

      Os ” MéRdia” são Sempre uma maravilha.Sempre o foram .Há um belo quadro de Georg Grosz que os Mostra de penico na cabeça! Uma inspiração Um mimo. Veja-se o senhor Macron! Levado ao colinho pour la Press Libre, há mais de um ano ( desde que saiu do governo de Hollande)! Foi só seguir os passos do Le Monde, Libé, BFMtv, etc.
      Um autêntico César de um país de língua Morta.
      Uma ” esperança” para a Europa! E vai estar aí num Andor ! UI, QUE BOM!!! Dizem as pitonisas!!
      Mas,onde é que já se viu isto há uns anitos ? Ora bem, na Inglaterra de Blair ,quando este foi ao beija a R. Murdoch. Foi um must de “GOVERNAÇÃO” com as “Parcerias” q ue tanto nos inspiraram…. Haja memória, pois então…

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Completamente de acordo.
        Esse Macron é o tal que diz que não é carne, nem é peixe (e eu digo, bem antes pelo contrário).
        Assusta as pessoas acreditarem num político sem ideologia ou então é uma rejeição ao “status” algo que se viu nos EUA e que os fez ir do frigorífico para a sertã…
        Mas eu quero é que eles se danem.
        Aqui também temos um presidente da república que subiu empoleirado nos media… Ou os media nele, ainda não deu para perceber. Mas vamos perceber mais tarde ou mais cedo, porque não há almoços grátis…
        Não peça memória… É que falta a mais de 50% dos votantes, aqui e por essa Europa toda.

        • Paulo Marques says:

          Se não tem ideologia, é porque acredita na TINA e é inimigo da liberdade, igualdade e fraternidade. O resto é o chutar os problemas para a frente, como diz o Varoufakis. Até o dia que o euro caia de podre, sem nenhum “grande líder” como o nosso Costa se ter dado ao trabalho de deixar os seus interesses por dois segundos para pensar nisso.

    • José Peralta says:

      Caro Ernesto Martins Vaz Ribeiro

      Com a devida vénia, e por estar completamente de acordo com o seu comentário, publico-o na íntegra no me FB.

      Os meus cumprimentos.

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Caro José Peralta.
        Não há lugar a vénia alguma, mas sim a um agradecimento da minha parte. Faça o favor de dispor.
        Cumprimentos.

  3. Paulo Marques says:

    “É uma enorme diferença de caminho.”

    Nem por isso, o caminho actual é paliativo, o PS é incapaz de escolher um caminho que resolva os problemas do país e dos portugueses para não pôr em causa os seus interesses. Tudo continua a um espirro de descambar novamente enquanto não se mudar realmente o modelo político-económico ilegítimo vigente.

  4. Rui Naldinho says:

    Depois de lerem este pequeno excerto do livro de Varoufakis, digam lá que os piores algozes não são aqueles que sentem prazer em chicotear!

    • Nascimento says:

      Básico.Já Wilhelm Reich escreveu há muitos anos que o problema nunca está no Comandante mas sim no Sargento ( o cão fiel)…

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