A Batota

Há muitas expressões que podem caracterizar o Povo Português. Umas melhores, outras piores e, ainda, outras “assim-assim”. Mas há uma que particularmente nos assenta que nem uma luva: batoteiros. Somos um povo de batoteiros. Desde a base da pirâmide até à cúpula. Batoteiros.

Não há que enganar. Qualquer jogo de cartas em Portugal obriga-nos a ocupar o cérebro a 100%. Metade a pensar na estratégia e outra metade em alerta para não sermos aldrabados. E se fosse só no simples jogo de cartas. Mas não. Quanto mais subimos na escala, maior é a gravidade da batota. Se no cidadão comum pode ir da usual factura que não é passada para se poupar no IVA (o que até pode ser considerado muito ético dada a enorme batota que os próprios impostos são em si mesmo) às diversas formas de passar à frente na “bicha”, lá em cima a batota assume contornos bem mais pesados.

E o que nos leva à batotice? Além do perverso gosto em conseguir um privilégio que pelas regras não teríamos e que, por qualquer razão, parece dar ao batoteiro uma sensação de distinção e de excepção, normalmente, a batota mais relevante surge por míngua. Míngua de dinheiro, de poder, de engenho ou de razão. E até pode não significar escassez, mas tão só sede de querer mais, muito mais. 

Mas todas as formas de batota têm uma razão e uma consequência comuns: a falta de respeito pelos outros. Um desdém evidente por quem nos rodeia. Havendo uma regra, a batota implica aproveitarmo-nos daqueles que, pelo menos naquele momento, são cumpridores, desoprezando o esforço que é necessário para cumprir. 

Mais, estamos tão habituados e resignados à batota que a nossa tendência quase natural é agradecer quando alguém não “batota”. Ficamos gratos quando o funcionário público nos atende com gentileza e brio ou quando o outro repara que o troco estava errado contra nós. Ou seja agradecemos comportamentos que deviam ser normais porque a batota é a regra. Pior, podemos ficar assustados ou até zangados quando não “batotam”. Imaginem um jornalista a dar uma notícia de forma séria e imparcial. A relatar apenas os factos sem o normal comentário, tom ou registo definidos pela sua própria agenda. Como é que nos vamos saber o que pensar sobre esse assunto se aquele “mau” jornalista não nos indicou o caminho? 

No topo, e passando por cima de sub-espécies de batota, como a corrupção ou a fraude, os comportamentos batoteiros têm dois aspectos relevantes. Por um lado, ajudam a mascarar a falta de talento de quem nos dirige ou a falta de razão do que defendem. Normalmente através da utilização perversa e velhaca da comunicação. Se na política, a comunicação devia ser predominantemente um meio privilegiado de informação verdadeira e transparente para quem tem o poder do escrutínio (no limite, todos nós) poder avaliar quem administra, hoje em dia é exactamente o contrário. A comunicação política e governamental é fonte permanente de batota. Essa comunicação serve fundamentalmente para esconder incompetências, camuflar fracassos ou sustentar perversamente a agenda de quem comunica. Caramba, as agências de comunicação são pagas na razão directa da sua capacidade para iludir. 

A segunda vertente da importância da batota revela-se nas fracas tentativas que se imaginam para a combater. Por diversas razões como a nossa incomparável genialidade para “batotar”, o facto do poder, normalmente, revelar os tiques despóticos da maior parte dos políticos ou a natural tendência de determinadas ideologias para o engordar da presença, da ingerência e da supremacia do Estado, essas tentativas tornam-se quase patéticas. O objectivo passa a ser tentar prever todas, mas mesmo todas as formas de batotice imagináveis para dada situação e daí resulta uma profusão ridícula de regras e diplomas que além de chocarem uns com os outros, transforma a pretensa solução num emaranhado labiríntico que só afasta as pessoas do seu cumprimento. E aí, pimba, surge o lado mais negro da minha profissão: tentar descobrir a “porta dos cavalos” na lei. 

A luta contra a batota está a ser feita, exactamente, ao contrário. Porque somos tão batoteiros, não podemos combater a batota como se fosse uma excepção. Não podemos combatê-la pelo medo do castigo. Há que a combater na origem. Não precisamos de mais toneladas de leis confusas e ininteligíveis. Precisamos de um enorme e nacional “banho de ética”. À séria. Não como o do Rio. Precisamos de tornar a “não batota” como o novo normal. E não, não é uma tarefa impossível. 

Comments

  1. POIS! says:

    Pois muito bem!

    É só mais dois “pais-nossos” e três “avé-marias” e o caso fica arrumado.

    A próxima “posta” pode ser sobre outros temas candentes como a avareza dos “remediados”, a obesidade das “classes baixas” ou o absentismo dos “ausentes”.

  2. abaixoapadralhada says:

    ” E aí, pimba, surge o lado mais negro da minha profissão: tentar descobrir a “porta dos cavalos” na lei. ”

    É para isso que servem os “bata pretas”, batoteiros profissionais.
    Eu disse batas, mas a frase aplica-se também aos das batinas

  3. Paulo says:

    Pouparia tempo escrevendo apenas “só neste país”. Em três palavras diria mais que neste exercício de redacção.

    • anticarneiros says:

      Se calhar não é só neste país

      • doorstep says:

        Bem observado… Aliás, essa conversa do “só neste país” é a mais rematada das batotas, pois o escrevente (sem ofensa) pratica a auto-exclusão implícita!!!

  4. Carlos Almeida says:

    É sempre a mesma conversa dita neoliberal, que na realidade esconde outros desígnios bem menos liberais.

  5. Albino manuel says:

    Fale por si. A ordem profissional a que pertence que tome medidas perante confissão tão exaltada.

  6. Filipe Bastos says:

    “Todas as formas de batota têm uma razão e uma consequência comuns: a falta de respeito pelos outros. Um desdém evidente por quem nos rodeia. Havendo uma regra, a batota implica aproveitarmo-nos daqueles que são cumpridores, desprezando o esforço que é necessário para cumprir.”

    Isto lembra a atitude da direita em relação aos impostos. Quanto maior o capitalista menos impostos paga, mais offshorizada a sua fortuna e os seus lucros.

    Os outros que paguem, os outros que cumpram. Taxation is theft, não é? Então, raciocina o direitalha, não é batota fugir aos impostos: é normal. É até justo!

    Nem todos os batoteiros são trafulhas patológicos como o Vale e Azevedo ou o 44, nem corruptos óbvios como o Vara ou o Isaltino: muito boa gente julga-se honestíssima e cumpre todas as regras… excepto aquelas que não lhe dão jeito.

    Esta honestidade selectiva não afecta só os portugueses. Até os escandinavos, que vemos quase como santos, têm um trafulhazito dentro deles. A diferença para os tugas é um sentido de comunidade e uma ética mais fortes.

    Esta ética é em parte baseada no medo de ficar mal visto perante os outros, o que requer novamente a comunidade: a condenação social do batoteiro, do fura-vidas, do que abusa das regras.

    Ora, falar a um direitalha em comunidade soa logo a conversa comuna – there’s no such thing as society, etc. E condenar socialmente o fura-vidas, o mamão, o corrupto em Portugal?

    Basta ver qualquer conversa de café. Fale-se da classe pulhítica, de chulos, trafulhas, banqueiros, futeboleiros, de quaisquer mamões, há sempre – sempre! – um tuga chico-esperto que diz:
    — Olha, olha! Se fosses tu não querias? Tá bem, tá!

    E todos – quase todos – os outros no café, de sorrisinho alarve, tremoço na unha e mine na mão, fazem que sim com a cabeça.

    • Carlos Almeida says:

      Caro Felipe

      ” Até os escandinavos, que vemos quase como santos, têm um trafulhazito dentro deles. A diferença para os tugas é um sentido de comunidade e uma ética mais fortes.”

      O sentido de comunidade e o civismo educam-se nos países da Escandinávia. Por exemplo na Suécia, nas escolas primarias,para alem da língua materna matemática etc, os miúdos aprendem o código,da estrada na pratica, com carrinhos de pedais com uns a fazerem de condutores e outros de policias e ainda conhecerem os sinais dos semáforos. E os miúdos pequenos rapazes e raparigas aprendem todos a cozer botões, tratar da sua roupa e a fazer comida simples.
      Se esses ensinos forem feitos nessas idades e na pratica, nunca mais se esquecem e o resultado é um povo com um grau de civismo acima da média.

  7. Julio Rolo Santos says:

    Somos todos batoteiros, sim, e com muito orgulho mas,
    há uns, que são mais batoteiros do que outros. E eles andam por aí disfarçados a fazerem de conta que o epíteto não os atinge, passam ao lado.

    • Luís Lavoura says:

      Para o Júlio Rolo Santos está tudo bem em que façamos batota, uma vez que há outros que ainda fazem mais. Está tudo bem em ter-se um comportamento imoral e prejudicial para os outros, desde que se conheça outras pessoas que ainda têm comportamento pior.

  8. Luís Lavoura says:

    Excelente post.

    Gostaria de ilustrar duas formas de batota que são usuais em Portugal.

    1) Um restaurante com “buffet” self-service. A pessoa tem uma mistura à sua frente. Serve-se cuidadosamente retirando para o seu prato todas as gambas e pedaços de carne. Os outros que fiquem com os vegetais e batatas.

    2) Uma banca de fruta da qual as pessoas retiram a que querem levar. As pessoas pegam em cada peça de fruta, miram-na de todos os lados, rejeitam 70% das peças para só levar as “perfeitas” segundo os critérios delas. Deixam a fruta toda apalpada para os outros.

    • Carlos Almeida says:

      “1) Um restaurante com “buffet” self-service. A pessoa tem uma mistura à sua frente. Serve-se cuidadosamente retirando para o seu prato todas as gambas e pedaços de carne. Os outros que fiquem com os vegetais e batatas.

      2) Uma banca de fruta da qual as pessoas retiram a que querem levar. As pessoas pegam em cada peça de fruta, miram-na de todos os lados, rejeitam 70% das peças para só levar as “perfeitas” segundo os critérios delas. Deixam a fruta toda apalpada para os outros.”

      Parabens, Sr lavoura

      Está a confundir o peido com o trovão.

      Mas muito esclarecedor, sem duvida

  9. Julio Rolo Santos says:

    Conheço muita boa gente que, fora de portas, se diz mais séria do que o seu semelhante mas, na sombra ,também faz o que pode, deixando os menos avisados de boca aberta. São estes que se dizem que todos são batoteiros, mas eles, nem pensar e, no entanto, é o que se vê.

  10. Jacquerie says:

    Em Itália a palavra português designa também vigarista. Agora sabendo que a genética não tem a ver com isto, a causa só poderá ser a carência quase perpétua. Um pouco como a baixa estatura.

    • abaixoapadralhada says:

      Nem todos os portugueses são vigaristas e nem todos os italianos são mafiosos

      • Jacquerie says:

        Como é óbvio. Não era preciso explicitar tamanha banalidade. Simplesmente enunciei um facto e lancei uma possível explicação de senso comum: deve ser da extrema carestia que a esmagadora maioria da população sempre sofreu, devido à exploração efectuada pelos privilegiados.

    • POIS! says:

      Pois é mentira!

      Em Itália a palavra português não designa vigarista. Vigarista é quem reproduz afirmações sem fundamento difundidas nas redes sociais por retintos vigaristas e depois assina em Francês porque “é fino”.

      • Jacquerie says:

        Não é preciso ferrar os dentes na canela que não sou da tribo dos Bolsonazis. E os ataques “ad hominem” falam mais de si do que os que supõe atingir. Seja educado.

        É um facto que pude constatar pois já trabalhei na apanha de “zuchinis” no norte de Itália e na apanha de tomates de estufa no sul de Itália. E esta “fama” é inclusivamente anterior ao século XX, obviamente não sei precisar no tempo.

        Entre pessoas honestas contra factos não há argumentos e você com a sua atitude e com o conteúdo do seu dito acabou de provar a veracidade do post de forma cristalina.Seja verdadeiro.

        • POIS! says:

          Pois respondo, e também ao Sr. Carlos Almeida.

          O que se passou é que, numa das embaixadas reais a Roma, penso que a de D. João V, foi decretado que os portugueses pudessem entrar nos espetáculos sem pagar bilhete, como agradecimento e porque não era fácil cambiar dinheiro na altura.

          Dessa decisão ficou a expressão “entrada de português” que os italianos aplicavam aos seus que conseguiam entrar sem pagar, ou seja “entrada á borla”.

          Ou seja, nada tem a ver com nenhuma caraterística específica, ou sequer má imagem, dos portugueses. Por isso a conclusão que tira é uma vigarice. Além do mais não alinho e abomino as tiradas moralistas que dizem que “somos todos assim”. Se V(s). Exa(s). enfiam o barrete é lá convosco. Eu não.

          Por aí também se consdera insulto chamar labrego ou galego uma pessoa. Isso sim, é resultado de preconceitos. Labrego, em Galego e no Português antigo significa camponês. E os galegos eram e são um povo muito trabalhador e solidário que, no princípio do século, aceitavam os piores trabalhos que lhes dava a burguesia lisboeta. Como vê, mesmo uma imagem pode ser totalmente injustificada.

          Já para não falar de chamar “siciliano” a alguém…

          • Jacquerie says:

            “Pois” então você conhecia a expressão e inclusive a sua origem. Nem deste belo nick você gostou. Não demos(já não sei escrever) munição ao fascismo que se adivinha.

      • Carlos Almeida says:

        Lamento informa-lo duma coisa que já deveria ter idade para saber:
        Jacquerie tem razão. No passado os portugueses em Italia tinham essa ma fama.
        Mas olhe que em 1800, no tempo do conde de Liphe, os algarvios não eram aceites no Exercito Português que ele estava a organizar, tal como os ciganos. Eram considerados gente inferior. Felizmente esse tempo e essas posturas passaram.
        São coisas que dizem, como há bem pouco tempo, os alentejanos diziam dos algarvios:
        Algarvios, burros brancos e cães de caça, é tudo a mesma raça.
        Mas ninguém fica ofendido com isso.
        Isso é como os alentejanos dizerem para os filhos, quando se zangam com eles:
        Ah seu filho dum cabrão !

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