Estamos todos um bocadinho cansados

A ministra do Trabalho, na sua qualidade de representante dos exploradores contumazes, declarou que «estamos todos um bocadinho cansados de greves por razões políticas».

A dita criatura faz parte de um grupo alargado de pessoas que usa a expressão somos-a-favor-do-direito-à-greve-mas, porque, na realidade, detestam o direito à greve e nem sequer apreciam verdadeiramente os direitos.

Nesse grupo alargado inclui-se aquele partido que é de esquerda quando não governa, metendo imediatamente a esquerda na gaveta quando chega ao governo. O PS não é, portanto, um partido de centro-esquerda, é, na verdade, um partido de esquerda-direita, de esquerda, em teoria, de direita, na prática, amigos dos trabalhadores, nas conversas com amigos, exploradores da classe operária, nos gabinetes ministeriais. Imagino as dores que isso deve causar nos adutores ditos socialistas.

Montenegro e companhia, na esteira do cavaquismo-passismo-portismo, tem menos problemas musculares, porque faz menos esforço ao percorrer o caminho de regresso ao mundo em que os trabalhadores são apenas proletários.

É tique governativo generalizado esta treta de que “ai, não percebemos porque é que estão a fazer greve, se ainda estão a decorrer as negociações e estamos imensamente dispostos a ouvir”. Ora, já se sabe que não estão nada dispostos a ouvir e sabe-se, ainda, que, com o apoio da IL e do Chega maila a abstenção violenta do PS (ou a possibilidade de votar contra para ficar bem na fotografia que é a oposição), as alterações à legislação laboral acabarão por ir avante, como, aliás, têm ido.

A greve é o grito de quem não tem direito a analgésicos. O primeiro-ministro e os vários satélites propagam, cheganamente, a ideia falsa de que os grevistas são ovelhas pastoreadas pelos sindicatos e por partidos radicais, gente que só se queixa porque recebe ordem para se queixar.

O dito da ministra é treta do princípio ao fim, desde logo, na desvalorização do adjectivo “políticas”, como se pudesse haver alguma greve apolítica (na cabecinha tonta da senhora, a única política que existe é a partidária); além disso, arroga-se o direito de saber o que é que “todos” sentimos.

Ainda assim, inspirando-me na duvidosa musa ministerial, diria que muitos estão muito cansados de ser explorados. O facto de haver exploração, o facto de os mais fracos continuarem a ser atacados por quem tem o dever de os proteger torna dolorosamente actual a necessidade de recorrer a formas de luta – é linguagem antiquada, é certo, mas resulta de um acto igualmente antiquado: a exploração do homem pelo homem.

Comments

  1. Café com Aires está com a Greve Nacional de 11 de Dezembro
    A ministra do Trabalho, na sua qualidade de porta-voz dos exploradores, teve a ousadia de dizer: “Estamos todos um bocadinho cansados de greves por razões políticas.”
    Pois bem, nós dizemos mais: Estamos fartos e cansados dos vossos conselhos, da vossa hipocrisia, das vossas razões políticas e ideológicas que nada têm feito para defender os interesses dos explorados e oprimidos deste país.
    Cansados? Sim. Mas cansados da injustiça, da precariedade, da exploração sem fim. Cansados de ver quem governa a falar em fadiga, quando o povo vive exausto há décadas.
    Por isso, no dia 11 de Dezembro, mesmo cansados, mesmo exaustos, vamos à greve nacional. Porque a fadiga não nos paralisa — transforma-se em força coletiva. Porque a hipocrisia não nos cala — transforma-se em voz de resistência. Porque a exploração não nos resigna — transforma-se em luta.
    O Café com Aires estará lá, de punho erguido, ao lado de quem não aceita baixar os braços.
    11 DEZEMBRO – GREVE NACIONAL Mesmo cansados, não nos calamos. O Café com Aires está com os trabalhadores. Contra a hipocrisia, contra a exploração — na rua, em greve!

  2. Paulo says:

    Eu , por acaso, estou um bocadão cansado da senhora ministra do Trabalho- ou será das corporações…”a greve é inoportuna” . Pois devias antes perguntar á senhora ministra. Pode ser agora ? Que acha ? Será oportuno?

  3. Para os mais lerdos: querer ter um trabalho digno e estável que dê para pagar a comida e a renda é um motivo político para uma greve, evidentemente, e daí? Mas o problema não era ser para um fim de semana alargado?
    Claro que a pateta, tal como os colegas que nunca tiveram um dia de trabalho honesto na vida, querem implicar que é partidário, porque se não conseguem que os trabalhadores saiam ao domingo para pôr uma cruz conseguem facilmente que desistam de um dia de salário só por lhes pedirem. Tá certo.

  4. Isso mesmo: “um partido de esquerda-direita”.

Leave a Reply to PauloCancel reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading