A Direita e a greve

Apesar de tudo, percebo que não seja fácil ser de Direita, nos dias de hoje. Antigamente, era tudo muito mais simples: o escravo era educado para ser escravo e via na comida que recebia uma bênção e nunca um direito e, até, poder dormir à noite era resultado da prodigalidade senhorial.

Com o tempo, no entanto, os sacanas dos escarumbas aprenderam a ler e os maltrapilhos dos operários atreveram-se a perceber que eram seres humanos iguais, livres e fraternos. Ser de Direita tornou-se complicado, porque é difícil conviver com esta gentinha que não conhece o seu lugar, que se atreve a morder a mão do dono, mesmo quando o dono chicoteia, como, aliás, é sua prerrogativa.

Sou de uma esquerda muito minha, não sou épico e, portanto, nada apocalíptico, quase nada catastrófico, porque sei que não posso resolver todos os problemas que me angustiam e porque os vou resolvendo a todos, quando digo uma piada ou quando me junto à mesa com amigos.

A história da luta pelos direitos dos trabalhadores, no entanto, é, efectivamente, uma epopeia e não há guerra de Tróia que se lhe compare nem Penélope que tanto tenha esperado.

Diante dos incompetentes que fogem para Paris e deixam dívidas para pagar e na presença dos incompetentes que cobram essas dívidas a quem não as contraiu, a Direita queria, tão engraçada, que os descendentes dos escravos e os netos dos proletários não se revoltassem, que percebessem que a vida é assim, que se conformassem como ensina a Bíblia, que aceitassem que é inevitável. A Direita até já chegou ao ponto de defender, com uma desfaçatez cada vez maior, que se acabe com atrevimentos como o direito à greve, já que os outros direitos desapareceram quase todos.

A Direita que se recusa a ouvir o país, a Direita que pisa os cidadãos e que faz de conta que a História não existiu, nunca há-de perceber que instrumentos como a greve servem, por muitos abusos que haja, para enquadrar a revolta, para que o grito não se transforme em violência.

Comments

  1. J.Pinto says:

    Como será a greve nos países onde a esquerda dita as leis (Coreia do Norte, Cuba, China, etc.)?

    O mais curioso é que ontem, no Jornal da Noite da SIC, quando a jornalista perguntava às pessoas que estavam perto como aconteceram os conflitos entre a polícia e os manifestantes, todos eles disseram que os conflitos começaram pela ação dos manifestantes (começaram a atirar cadeiras e tudo o que tinham por perto). A polícia reagiu.

    Relativamente aos jornalistas, a não ser que haja algo que não é contado, não deveria ter acontecido.

  2. Rinka says:

    Mais uma pessoa que não sabe o que é a Esquerda e a Direita.

  3. Tutankamon says:

    Mais uma pessoa que acha que a esquerda e a direita não querem ambas o mesmo. O poder para mandar nos outros…


  4. A energumenice destes comentários antevê o pior: os capatazes da classe desgovernantes, para além de terem o chicote na língua, agora fazem horas extraordinárias a debitarem parvoíces. E quicá estarão prontos a fazer parte da Gestãotapo que se aprochega ao virar da esquina. Aprendam a fazer alguma coisa de útil com as vossas vaginas fedorentas. Tais como abril-las aos vossos chefinhos, quando eles não puderem fazer com os membros da senzala

  5. joao says:

    “A Direita que se recusa a ouvir o país, a Direita que pisa os cidadãos e que faz de conta que a História não existiu, nunca há-de perceber que instrumentos como a greve servem, por muitos abusos que haja, para enquadrar a revolta, para que o grito não se transforme em violência.”

    Permita-me os seguintes pontos:

    – A direita percebe muito bem que uma greve serve para enquadrar a revolta quando os tempos estão difíceis;

    – a direita nova-rica (que é a que pupula mais por aqui) não vê a greve e/ou outro tipo de protesto social deste modo. Teme estes confrontos e cerca-se de body-guards e manipula a comunicação social com escritos tontos sobre o nº de manifestantes por metro quadrado, com entrevistas e sondagens sobre o transtorno para os cidadãos, sobre a violência psíquica dos piquetes de greve.

    A diferença entre uma direita e a outra direita é abissal.

    No entanto, quando se perspectiva que a situação se pode deteriorar e se pode já não ser assim tão controlada, ambas as direitas parecem saber o seguinte, como a História tem demonstrado:

    – não há nada melhor do que alguma provocaçãozita aqui e ali, umas bastonadas aqui e acolá, enfim, algo que sirva para nos dizer:

    – “Meus senhores e minhas senhoras, já brincaram o suficiente, não já? Agora vão para casa, trabalhem e portem-se bem.”

  6. António Fernando Nabais says:

    #1
    Ó alma desenganada, mas quem é que defendeu Coreia, Cuba ou China? Estava a falar da Direita portuguesa, homem. O texto é sobre o modo como alguma Direita portuguesa anda a afiar os caninos, babando-se por acabar com o direito à greve.
    Quanto ao resto, apure-se o que houver apurar.

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  1. […] greve é, só por si, um abuso, tal como o protesto, no fundo. A democracia e produtos derivados, aliás, devem permanecer num […]


  2. […] O problema é que isso iria dar origem a um partido único na Assembleia, o que seria recuar aos tempos da União Nacional. Aos tempos, já agora, em que as greves eram proibidas. […]

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