João Marques de Almeida e as greves

João Marques de Almeida, alegado comentador televisivo, declarou que «as greves são um bom pretexto para não se ir trabalhar». Ou seja: há pessoas que decidem fazer greve, acto que implica não ir trabalhar e que, por essa razão, aproveitam para faltar ao trabalho. Não só faltam ao trabalho como, para cúmulo, faltam ao trabalho.

Como muitos outros alegados comentadores, também chama a atenção para o facto de que, mais uma vez, irá haver uma greve encostada a um feriado. Outros comentadores, tantas vezes alegados, também vivem revoltados com as greves às sextas, num prolongamento escandaloso do fim-de-semana.

Os alegados comentadores, no entanto, nunca acrescentam que o dia de greve corresponde a um desconto bastante largo no salário, o que é natural, uma vez que o verdadeiro objectivo não é comentar o cabimento da greve, é defender um mundo em que a greve volte a ser proibida.

Enquanto essa proibição não volta, é importante deixar no ar a ideia de que fazer greve é só uma forma injustificável de ser preguiçoso, aproveitando, ainda, o prolongamento de feriados e de fins-de-semana para usufruir de férias próprias dos privilegiados num país com um salário médio que mal dá para pagar a renda da casa.

João Marques de Almeida ainda alude ao problema de representatividade das centrais sindicais, mas, de quisesse ser sério, esperaria pela dimensão da greve, que, curiosamente, pode ser feita por qualquer trabalhador, sindicalizado ou não.

O mundo do comentário na comunicação social é um lugar muito mal frequentado. Vale pena comentar o comentário.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Não leio o Observador. É apenas e só uma questão de higiene. Nada tenho contra os seus leitores, até porque aquilo é digital. Tal como no passado não lia: O Diabo, o Crime, o Tal e Qual, e outras merdas do género.
    Mas nem sempre consigo escapar-me ao comentário televisivo, mesmo evitando-o, com alguns dos protagonistas com ar de catequistas. É o caso desta ave rara.
    Ouvi essa. E até me ri. O rapaz Almeida, sempre pronto a lamber o escroto do seu patrão, descobriu a pólvora.
    Greves a fim ou início de semana não dão jeito a ninguém, a não ser aos próprios. Já não bastava ter de perder um dia de salário, ou, ainda que assim seja, perder um dia de férias, e, ainda tinha de dar um jeitinho a quem me acha caro.
    Aí, Almeida, a vida Almeida!

  2. Se estivessem preocupados com a economia, estavam a discutir porque vamos atirar ainda mais dinheiro para o buraco negro corrupto do projecto de expansão a leste, e colaboramos com a destruição do fornecimento de energia que não volta não cedo, se voltar, e entregamos o resto a um monopolista insaciável.
    Mas estão preocupados que quem trabalhe ainda tenha alguma coisa que não vá para os donos.

  3. balio says:

    Bom post.
    Quem faz greve são os trabalhadores, não são os sindicatos. Em vez de criticarem os sindicatos por marcarem greve, deveriam criticar os trabalhadores que a ela aderem.

  4. JgMenos says:

    «o dia de greve corresponde a um desconto bastante largo no salário»… haveria de acrescer-se a cada dia de salário x 1,316 por conta de subsídios, férias e feriados pagos.

    • POIS! says:

      Pois claro!

      Deve aplicar-se o célebre “Coeficiente de Menos”, esse fantástico produto da meditação do autor durante as longas horas de sesta que preenchem os seus dias de árduo labor científico.

      Porquê o valor 1,316? Ora porque é o resultado do cruzamento da raiz quadrada do preço da cotação do volfrâmio nos mercados de Canglong Dao com as da cana do açúcar na Bolsa de Pintópolis, a dividir pelo valor do rolo de papel higiénico no Índice de Futuros da Bobadela e a multiplicar pelos Futuros do girino na Lota de Bombaim!

      Não sabiam? Que falta de literacia financeira! O que é que andaram a fazer durante as aulas de Cidadania? A apalpar-se pelos corredores? Francamente!

  5. POIS! says:

    O Marques de Almeida é um verdadeiro ás a aferir representatividades.

    Ainda recentemente descobriu que a Associação dos Criadores do Serra da Estrela tem um Presidente que foi preso por não ter cão e a Confraria do Queijo Amarelo da Beira Baixa representa apenas dois queijos, e o maior não passa dos 800 gramas.

    Uma pergunta: e o Marques de Almeida, representa quem? E quantos?

  6. S. C. Lima says:

    Não foi ele que disse, naquele programa de sexta feira na CNN, que a CGTP e a UGT não representam nada?
    Às vezes o homem parece cego pela raiva que tem aos trabalhadores.

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