O inútil

O vizinho que ficou desempregado há dois anos faz umas horitas nas lojas da rua. Meia hora na sapataria, três quartos de hora no parque de estacionamento, duas horinhas na loja ortopédica. O suficiente para que os donos, que já não têm dinheiro para contratar empregados, possam dar um saltinho às finanças, ao banco, a tratar daquele assunto que tem de ser em horário de expediente. Ele faz tudo sem ligar nenhuma a nada. Não está para vender nem para dar explicações. É só mesmo dizer que o patrão vem já, que é melhor passar depois, e garantir que ninguém deita a mão a nada. Aceita cartas e encomendas, atende o telefone para dizer que o patrão vai estar da parte da tarde. Mais do que isso não é com ele.

Assim que fica livre, vai sentar-se na cadeira de rodas que está todo o dia em exposição à porta da loja ortopédica. A cadeira está protegida por um plástico que já começou a rasgar-se, mas o dono da loja sente-se em dívida e não diz nada. Sentado na cadeira, a olhar o mundo a passar, aí é que ele se sente bem. Se pudesse dedicar-se a isso na vida… [Read more…]