O inútil

O vizinho que ficou desempregado há dois anos faz umas horitas nas lojas da rua. Meia hora na sapataria, três quartos de hora no parque de estacionamento, duas horinhas na loja ortopédica. O suficiente para que os donos, que já não têm dinheiro para contratar empregados, possam dar um saltinho às finanças, ao banco, a tratar daquele assunto que tem de ser em horário de expediente. Ele faz tudo sem ligar nenhuma a nada. Não está para vender nem para dar explicações. É só mesmo dizer que o patrão vem já, que é melhor passar depois, e garantir que ninguém deita a mão a nada. Aceita cartas e encomendas, atende o telefone para dizer que o patrão vai estar da parte da tarde. Mais do que isso não é com ele.

Assim que fica livre, vai sentar-se na cadeira de rodas que está todo o dia em exposição à porta da loja ortopédica. A cadeira está protegida por um plástico que já começou a rasgar-se, mas o dono da loja sente-se em dívida e não diz nada. Sentado na cadeira, a olhar o mundo a passar, aí é que ele se sente bem. Se pudesse dedicar-se a isso na vida…

Se o deixassem ver o mundo e dizer bom dia às pessoas e pensar sobre as vidas delas, e decifrar, pelo semblante que levam nesse dia, se a vida lhes corre bem, se houve discussão lá em casa. E ajudar algum turista que anda com o mapa só para fazer de conta porque não sabe lê-lo, ou as senhoras que vêm de Miranda do Douro fazer a mamografia no consultório ali ao lado, e andam perdidas como se as tivessem enviado a outro país. Ou meter o carro na garagem ao Dr. Mota, que não atina bem com as distâncias e arranha sempre a pintura metalizada. Ou ir com a viúva do Sr. Meneses à Caixa para levantar a reforma, porque desde aquele dia em que se juntou um grupinho à volta dela e ela teve que gritar “Quem me acode!” que já não se atreve a andar sozinha com dinheiro no bolso. Ou chamar a atenção à D. Rosa, que é mãe solteira e passa o dia fora, que o rapaz anda com umas companhias esquisitas e com umas olheiras que não são bom sinal, e se calhar era hora de ter uma conversa com ele.

O país verá o meu vizinho com desdém e impaciência, um homem ainda jovem, sem ocupação digna desse nome, sem contribuições para a segurança social nem para o fisco, um desocupado que passa o dia na rua, mas suspeito que poucos conhecem o país como ele. Nada sabe de temas fracturantes, de números, de previsões. É um analfabeto económico, um ignorante político, um homem pouco escolarizado. Provavelmente, nenhuma empresa o contratará até ao fim da vida. Mas ele sabe ler a teia fina que se tece entre pessoas, reconhece um problema antes que ele se manifeste, interpreta com precisão sinais de crise ou de retoma pelo movimento nas lojas do bairro, pelas idas ao multibanco.

É pouco refinado, diz palavrões, faltam-lhe as palavras certas quando tenta explicar-se. Mas sabe sempre o que fazer, sabe estar onde é preciso, não lhe faltaram as palavras quando a vizinha se atirou da janela e foi ele a chamar a ambulância, e a esperar com ela, sabendo que ela estava morta, mas que nem por isso ele era menos necessário ao lado dela.

O vizinho conta apenas nas estatísticas dos desempregados. É um inútil, um encargo para o país. Mas se perguntarem no bairro, onde todos sabem quem ele é, não se imagina a vida sem ele.

Imagem: «ARA General Belgrano», Guy Denning

Comments

  1. José almeida says:

    Carla, não tenho “capacidade” para deixar um comentário de acordo com a qualidade da crônica. Sugiro apenas que tente chegar mais perto dos que emigraram nestes últimos 5 anos. Muitos são jovens, com qualificação e conhecimentos acima da média. Existe excelência em Portugal. A forma como retrata o pais nesta crônica é a prova disso. Parabéns.


    • Obrigada, José. Existe excelência, sem dúvida. Mas mesmo entre os mais capazes e qualificados há quem vá ficando à margem e não saiba como poderá sair daí.


  2. Carla.
    Permita que a trate por Carla.
    Portugal, é uma terra madrasta para quem cá nasceu, cresceu, estudou, trabalhou e mais não digo…
    Neste país, só singra na vida quem tem “cunhas” ou vive de expedientes. Raros são os que chegam ao ” cimo da montanha ” com o seu próprio esforço e capacidades.
    Somos capazes de ajudar os tais migrantes(?) (dezenas de instituições prontas a ajudar os estranjas) mas mandamos às malvas os nossos compatriotas.
    Que raio de país é este ?

    Aqui fica o mote.
    A Carla que escreve e bem, agradeço que olhe para o tema supra e o desenvolva como muito bem entender.


    • Sabe que uma coisa curiosa que se descobre quando nos pomos a olhar com um pouco mais de atenção este tema da ajuda às pessoas que vamos receber por cá, fugidas da guerra, é que quem está a ajudar “os nossos” são as mesmas pessoas que vão ajudar os refugiados.
      Outra das coisas curiosas que tenho visto é que alguns dos que agora mais acerrimamente defendem a necessidade de defender “os nossos” são aqueles que até agora mais hostilizaram “os nossos “ que precisam de ajuda. Apontaram o dedo aos endividados, porque tinham vivido acima das suas possibilidades, aos pobres, porque não faziam nada para mudar a sua situação, aos pretos porque eram pretos, aos drogados porque tinham escolhido sê-lo, às mães solteiras porque não deviam ter tido filhos, aos do rendimento mínimo porque nos estavam a roubar a todos. E por aí fora.
      Se calhar, tanto os portugueses como os estrangeiros que estão entre nós precisam exactamente do mesmo, que eu, o Zé e todos façamos um pouco mais por construir um país solidário e justo. Não é um caminho fácil, não há soluções mágicas, não temos de estar todos de acordo quanto à forma de lá chegar, mas acho que é um objectivo que justifica o nosso comum esforço.


      • Até estou de acordo consigo em parte. É que agora aparecem dezenas de Câmaras e Instituições e isso é que me faz confusão…
        Mas deve saber como é o povo português…
        Os Lusíadas terminam com um vocábulo muito elucidativo.

    • José almeida says:

      Caro Zé, parece que foi preciso acolher os refugiados para se lembrarem dos “nossos”. Para além do excelente sinal de solidariedade que o nosso poço está a dar, já valeu a pena a vinda deles.
      Estranho é o silêncio da Junot que tanta sopinha gosta de dar aos “nossos”….
      Se o Portas não estivesse em campanha, mandava construir um muro. Maravilhosa campanha que coincide com a vinda dos refugiados. Pelos vistos parece que só o Zé pensa assim(?).

      • José almeida says:

        poço = povo


      • Parece que fui mal interpretado.
        Não é de hoje nem de ontem que me preocupo com os mais desfavorecidos da sociedade e comigo mesmo.
        Tive de imigrar para poder ganhar uns tostões para poder comprar um tecto para mim e para a família. Por isso já vê bem me saiu do “pelo”.
        E termino, quando estava lá “fora” quem é se preocupou comigo? Quem? Nem a nossa embaixada…e cala-te boca.

        • José almeida says:

          Caro Zé, quando esteve emigrado, terá sido bem recebido pelo país que o acolheu. Estes refugiados também merecem uma oportunidade e quiçá, regressar ao seu país e poder também orgulhosamente comprar uma casa. Estou certo que quando a guerra acabar e o Médio Oriente estabilizar muitos regressarão. De resto, verá que a nossa fisionomia e costumes é mais semelhante à deles, que à dos Alemães ou Finlandeses. Não se assuste e passe a palavra.


          • Olhe que não. Olhe que não!
            O pessoal dos turbantes é mais racista que eu… e mais não digo.

  3. Konigvs says:

    Talvez esse “inútil” seja um vendeiro especialista na arte de viver:
    “É incomparavelmente mais fácil saber muitas coisa, digamos, sobre a história da arte e ter ideais sobre metafísica e sociologia do que conhecer pessoalmente, intuitivamente, os seus semelhantes e ter relações agradáveis com os seus amigos e as suas amantes, a sua mulher e os seus filhos. Viver é muito mais difícil que o sânscrito, que a química ou que a economia política.” (Huxley)

    E de facto este texto faz lembrar como esta canalha que nos governa chegou ao poder. Bastava “cortar nas gorduras”. A culpa era dos que não queriam trabalhar ou que viviam de subsídios do rendimento mínimo, quando o problema é precisamente o oposto: os que vivem do rendimento máximo. Cambada de filhos da puta.
    Mas a culpa é dos filhos da puta que votam nos filhos da puta. E o problema do país é esse, estar cheio de filhos da puta.

  4. Mário J. Gomes says:

    Muito bonito. Conteúdo e forma. Estas crónicas deviam gerar um livro.

    • Fátima Ferreira says:

      Concordo plenamente com a ideia do livro!
      Carla, faz-nos a vontade!

      • José almeida says:

        Sim, pelo menos um livro de crónicas…… para comecar.

  5. drohgado says:

    Nesta sociedade um «inútil» pode ser «analfabeto político» e «ignorante de economia», fica bem e dá umas crónicas giras, mas nunca cometer o pecado de não querer purificar a sociedade desses gândulos das olheiras. Inúteis sim, mas com estética ariana q.b.; que o que realmente preocupa muita gente é o aspecto dos outros, esses das olheiras, que à esquerda e à direita e ao centro, podiam é já desinfectar a atmosfera que só dão mau aspecto. Até os inúteis desocupados sabem disso.

  6. Manuel de Sousa says:

    Mas esse amigo tem agora o problema resolvido. Basta que apareça numa praia qualquer a dizer que é sírio e muçulmano, que lhe dão logo casa, dinheiro e carinhos. Nem tudo é mau.